Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 18

Quinhão dos sacerdotes e dos levitas. Proibição de consultar os adivinhos. Profeta que Deus há de suscitar. Sinal para distinguir o verdadeiro profeta do falso.

1Os sacerdotes e os levitas, e tocíos os da mesma tribo, não terão parte nem herança alguma com o resto de Israel, porque hão de comer dos sacrifícios do Se nhor, e das oblações que lhe forem feitas.

2e não receberão outra alguma coisa do que seus. irmãos possuírem: Porque o mesmo Senhor é a sua he rança, como êle lhes disse.

3Êste será o direito dos sacerdotes a respeito do povo, e dos que oferecem vítimas: Se sacrificarem um boi, ou uma ovelha, darão ao sacerdote a espádua e o peito:[1]A ESPADUA E O PEITONo hebreu está: a espádua, as maxilas e o ventre, o que constitui uma divergência com o textoparalelo do Lev 7, 34. Uns intérpretes consideram esta prescrição do Deuteronômio como uma modificação da do Lev, outros como um complemento. O contexto favorece esta última interpretação, que- é a tradicional constatada por Josefo, Mischna, e outros dos ànti-, gos Judeus. •

4As primícias do pão, do vinho, e do azeite, e uma parte das lãs da tosquia das ovelhas.

5Porque o Senhor teu Deus escolheu o sacerdote

6Se um levita sair de alguma das tuas cidades de to do o Israel onde êle habita, e quiser por devoção ir morar no lugar que o Senhor tiver escolhido,

7exercitará o seu ministério em nome do Senhor seu Deus, assim como todos os levitas seus irmãos, que nesse tempo assistirem diante do Senhor.

8Êle terá a mesma porção de alimentos que os ou tros: Além daquilo que na sua cidade se lhe deve pela su cessão paterna.

9Quando tiveres entrado na terra, que o Senhor teú Deus te há de dar, guarda-te, não queiras imitar as abo minações daquelas gentes:

10Nem se ache entre vós quem pretenda purificar seu filho, ou filha, fazendo-os passar pelo fogo: Nem quem consulte adivinhos, ou observe sonhos e agouros, nem quem seja feiticeiro,

11ou encantador, nem quem consulte Piton ou adi vinhos, nem quem indague dos mortos a verdade.[2]PITONA Vulgata foi buscar êste nome à mitologia v grega, porém, nâo està nem no original hebraico, nem na Tersilo dos Setenta.

12Porque tôdas estas’ coisas abomina o Senhor, e por semelhantes maldad.es exterminará êle êstes povos à tua entrada:

13Tu serás perfeito, e sem mancha com o Senhor teu Deus.

14Estas nações, cujo país tu possuirás, ouvem os agoureiros e os adivinhos: Tu porém fôste instruído dou tra sorte pelo Senhor teu Deus.

15O Senhor teu Deus te suscitará um Profeta, como eu, da tua nação, e dentre teus irmãos: A êste ouvi rás,[3]UM PROFETA COMO EUEstamos em frente duma sés, vê-se no c. 34 do Dt, vv. 9.10, onde se lêem estas palavras: E Josué foi filho dc Nun, foi cheio do.espírito da sabedoria, por que Moisés lhe tinha pôsto as mãos. E não se levantou mais em Israel profeta algum como Moisés. E’ grande a glória de Josué, mas foi êle porventura semelhante a Moisés? Em quê? E qualquer dos outros profetas pode ser pôsto em paralelo com o sábio legislador do povo escolhido? Mas poder-se-á entender esta profecia em sen tido coletivo, e assim interpretar-se que Moisés se tinha referido a todos os profetas que Israel teria? A análise do texto rebate por completo esta opinião. A expresaão nati, profeta, está no singular, como no singular estão tôdas as demais palavras que a êle se refe rem; e pelas três vêzes que o nome aparece, sempre tem a mesma concordância; ora é sabido que nos nomes coletivos o singular al terna semprecom o plural. Além disto nunca, em lugar algum da Escritura, o têrmo nabi, empregado só, exprime na Bíblia a idéia coletiva dos profetas. As outras versões, a Vulgata, a dos Setenta,

16como o pediste ao Senhor teu Deus em Horeb, onde todo o povo estava junto, e disseste: Eu não ouvirei

17E o Senhor me disse: Êles falaram bem em tudo.

18Eu.lhes suscitarei do meio de seus irmãos um profeta semelhante a ti: E porei na sua bôca as minhas palavras, e êle lhes dirá tudo o que eu lhe mandar.[4]E LHES DIRA TODOE’ sabido que Jesus Cristo falou sempre em nome do Pai Celeste que O tinha enviado. E agora note- -8e como, com o decorrer dos tempos, o conceito messiânico, a idéia do Messias, se vai aclarando, como uma imagem oculta ao viandante por um denso nevoeiro, que o sol a pouco é pouco vai desfazendo. Jacó no-lo desenha como aquêle que devia trazer o cetro de Judá: Balaam, como a estréla que esclarecerá o mundo; Moisés, como o profeta, intérprete da vontade de Deus sôbre a terra.

19Mas o que não quiser ouvir as suas palavras, que êle falar em meu nome, eu me vingarei.dêle.

20Se um profeta porém corrompido da sua sober ba empreender falar em meu nome, e disser coisas, que eu lhe não mandei dizer, ou se êle falar em nome dos deu ses estranhos, será morto.[5]SERA MORTOA aplicação mais memorável desta lei t'eve lugar no tempo de Acab, quando foram executados quatrocen tos e cinquenta sacerdotes do culto de Baal, 3 Rs, 18, 19-40.

21E se tu disseres lá no teu coração: Como pode rei eu discernir qual é a palavra, que o Senhor não disse?

22terás êste sinal: Se o que aquêle profeta predisse em nome do Senhor, não sucedeu assim: Isto não o disse o Senhor, mas o profeta por soberba do seu ânimo o fin giu: E por isso não o temerás. '

DEUTERONÔMIO Êste é o quinto e último livro do Pentateuco Mosai co. Os Rabinos chamam-lhe Ellé Haddebarim, que sig nifica: “ Estas são as palavras”, porque é por esta frase que êle começa. Os gregos e latinos chamam-lhe Deute- ronômio, que quer dizer Segunda lei, por ser o resumo das leis anteriormente promulgadas. Distingue-se dos outros anteriores, com os quais se liga intimamente, por que não contém narrações, mas discursos pronunciados nas planícies de Moab, em frente de Jericó, no undécimo mês do quadragésimo ano do Êxodo. Êstes discursos são em número de três, precedidos de um título geral, 1, 1-5, e seguidos de uma conclusão histórica, 31-34. PRIM EIRO DISCURSO E ’ uma introdução ao Deuteronômio; compreende os quatro primeiros capítulos, em que Moisés faz uma resenha dos acontecimentos que sucederam desde a pro mulgação da lei no Sinai, e exorta o povo ao cumprimen to rigoroso da lei. (1-4.) SEGUNDO DISCURSO E ’ a parte principal do Deuteronômio; compreende os cc. 5-26, e pode subdividir-se em duas partes: a) Lembra aos hebreus os motivos que lhes impõe o dever de gratidão e obediência a Deus, 6, 4; 11. Só Ihavéh é o verdadeiro Deus, e portanto só a êle é devido o amor, respeito e glória, 6, 4-25. Obri gação de extirpar o culto dos ídolos de Canaã, 7, sendo os fundamentos desta obrigação os benefí cios recebidos de Deus, 8, dons gratuitos da sua liberalidade, 9; 10, 11. Anátema contra os infiéis, 10, 12; 11, 32. b) l.° Direito religioso: unidade do culto, 12; 13; proibição dos usos pagãos; declara-se defeso o uso de carnes impuras; satisfação dos dízimos, 14; o ano sabático, resgate dos primogénitos, 15; as três principais festas do ano, 16, 1-17. — 2.° Di reito público', pessoal; determinações contra a ido latria; poder judiciário dos sacerdotes; da esco lha do rei, Í6, 18; 17; direitos e deveres dos le vitas e dos profetas. 18. Direito real: imunidade das cidades de refúgio: testemunhas, 19. Direi to de guerra: serviço militar; tratamento dos ini migos, 20; expiação dum assassínio, cujo autor é desconhecido; tratamento das mulheres cativas na guerra, 21, 1-14. — 3.° Direito privado: di reito dos progenitores; deveres para com os me nores, 21,15-23; objetos perdidos e achados; ves tuário; ninhos de aves; construção de casas, 22, 1-12; virgens, 22, 13-30; leis diversas, 23; dispo sições acêrca do divórcio, dos pobres e dos es trangeiros, 24; flagelação, o levirato; pesos e me didas, etc., 25; oferta dos primogénitos e dos dí zimos, 26, 1-15. Peroração, exortando ao. fiel cumprimento dêsse ponto, 26, 16-19. TERCEIRO DISCURSO Prescrições tendentes a assegurar a fidelidade no cumprimento da lei, 27-30. O discurso final compreende três. partes: l.° Compromisso que o povo hebreu deve tomar, depois de conquistar a Terra Prometida, sôbre os montes Hebal c Garizim, de ser fiel à lei, 27. — 2.° Bênçãos prometidas aos obedientes, maldições reserva das aos infiéis, 28; exortações para a observância da lei, 29 ;30. CONCLUSÃO HISTÓRICA l.° Moisés indica Josué como seu sucessor; vários avisos e entre êles o da leitura da lei no ano sabático; conservação da arca, 31. — 2.° Cântico de Moisés, 32. — 3.° Bênção das tribos de Israel, 33. — 4.° Morte e luto de Moisés, 34. H á no Deuteronômio alguma coisa que não podia ter sido escrita por Moisés; é a narração da sua morte, escrita por mão diversa, talvez a de Josué, que assim completou a história do grande legislador do povo esco lhido, mas também é óbvio que daí nada se pode inferir contra a autenticidade dêsse livro e muito menos contra a autenticidade do Pentateuco. Quem escreveu o c. 34 sabia muito bem que os leitores não atribuiriam essa adição ao autor do Deuteronômio. Em alguns livros profanos sucede o mesmo, por exemplo no último livro dos Commentarii de statu religionis et reipublicae Caro lo V Caesare, por Sleidan, lê-se no fim: Octobris die ul timo Joannes Sleidamis e vita deccdit atque honorifice sepelitur, “ o qual João Sleidan morreu no último dia de outubro e foi sepultado com todas as honras devidas”, e ninguém por isto contesta a autenticidade da obra. Assim fica encerrada a história desse vulto prestigioso, cujo nome tôda a humanidade celebra, como um obreiro in cansável da moralização do povo escolhido, conseguin do dominar as grosseiras inclinações de tôda aquela gen te, e introduzir no meio daquele povo nômada os pro gressos materiais do Egito, tendo sempre em vista asse gurar o progresso e o estabelecimento definitivo dos he breus numa terra escolhida — a Terra da Promissão. — E para que a sua obra, ou melhor, para que a obra de Deus, de que êle era instrumento, fôsse por diante, sen tindo avizinhar-se. o têrmo de sua vida, escolheu um su cessor e apresentou Josué ao povo; e entrevendo ao longe a terra prometida, onde ia desenrolar-se o futuro de Is rael, expirou.
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