Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 10

Novas tábuas da lei. Eleição da tribo de Levi. Circuncisão do coração.

1Naquele tempo me disse o Senhor: Corta duas tábuas de pedra, como eram as primeiras, e sobe a mim ao monte; e farás uma arca de madeira.

2E cu escreverei nas tábuas as palavras que esta vam nas que tu quebraste antes, e pô-las-ás na arca.

3Eu pois fiz uma arca de pau de cetim. E tendo cortado duas tábuas de pedra, como as primeiras, subi ao monte, tendo-as nas mãos.

4E escreveu nestas tábuas, o que antes tinha escri to, as dez palavras, que o Senhor tinha falado no monte no meio do fogo, estando o povo junto: e deu-mas.

5E voltando do monte, desci, e pus as tábuas na arca que tinha feito, as quais até ao dia de hoje estão ali, como o Senhor me ordenou.

6Ora os filhos de Israel descamparam de Berot, que era dos filhos de Jacan, e vieram a Mosera, onde Aarão morreu e foi sepultado, a quem sucedeu no sacer dócio Eleazar seu filho.[1]BEROTE’ a estação chamada Beuejaacau nos Núm 33, 31. Êstes filhos de Jacan, segundo Vigouroux, ob. cit., deviam pertencer a uma tribo nômada da Arábia Pétrea. MOSERA — Aarão morreu sôbre o monte Hor. Mosera era sem dúvida o lugar em que os israelitas armaram as suas bar vacas, ao sopé da montanha.

7Dali vieram a Gadgad: De onde, tendo partido, foram acampar-se em Jetebata, numa terra dáguas e de arroios.

8Por êste tempo separou a tribo de Levi, para le var a Arca do concerto do Senhor, e assistir diante dêle no seu ministério, e bendizer em seu nome até o dia de hoje.

9Por isso Levi não teve parte, nem possessão com seus irmãos: Porque o Senhor mesmo é a sua possessão, como o Senhor teu Deus lhe prometeu.

10Eu porém estive no monte, como antes, qua renta diase quarenta noites: e o Senhor me ouviu tam bém mais esta vez, e não quis destruir-te.

11E me disse: Vai, e marcha adiante do povo, para que entre, e possua a terra, que eu prometi com juramento a seus pais que lhes daria.

12Agora pois, ó Israel, que é o que o Senhor teu Deus pede de ti, senão que temas o Senhor teu Deus, e andes nos seus caminhos, e o ames, e sirvas ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de tòda a tua alm a:

13e que observes os mandamentos do Senhor e as suas cerimónias, que eu te prescrevo hoje. para que sejas feliz ?

14Bem vês que o céu é do Senhor teu Deus e o céu dos céus, a terra e tudo o que nela há:

15e ainda assim o Senhor se uniu estreitamente com teus pais, e os amou, e escolheu a sua linhagem depois dêles, isto é, a vós dentre tôdas as nações, como hoje se prova.

16Circuncidai pois o prepúcio do vosso coração, e não endureçais mais a vossa cerviz:[2]CIRCUNCIDAI, ETC.Isto quer dizer: mortificai os vossos ruins instintos, os afetos desordenados, todos os maus o Ím pios desejos. Frseputiuin hic est qnidquid in cordc ad modum procpntil in carne supcrfult, et cor dchoncstat lioc est noxia onmin et inipin desideria (Tirinus). A esta circuncisão espiritual refere-se S. Paulo, Ep. ad Rom 12, 22-23. Outros entendem por esta palavra a dureza e cegueira do coração, que impede a visão e o conhecimento da verdade. Est duriííes ac ccecitas qua cor et mens impcditnr ne videat, et verltatcm ngnosent.

17porque o Senhor vosso Deus é o Deus dos deu ses, e o Senhor dos senhores, o Deus grande e poderoso, e terrivel que não faz acepção de pessoas, nem se leva de presentes.

18Que faz justiça ao órfão e à viúva, que ama o peregrino e lhe dá o sustento e o vestido.

19E assim vós amai os peregrinos, porque tam bém vós fostes estrangeiros na terra do Egito.[3]PORQUE TAMBÉM VdS FOSTES ESTRANGEIROSHá aqui uma alusão ao cativeiro, fato relativamente recente, e que mostra ser escrita por um autor contemporâneo do Êxodo, o que $ mais uma prova da autenticidade do Pentateuco.

20Temerás ao Senhor teu Deus, e só a Êle ser virás: a Êle te unirás, e pelo seu nome jurarás.

21Êle é a tua glória, e o teu Deus, que fêz em teu favor estas maravilhas tão grandes e tão terríveis, quais os teus olhos viram.

22Teus pais não eram mais que setenta pessoas, quando desceram ao Egito: e vês aí agora te multiplicou o Senhor teu Deus, como as estrelas do céu.

DEUTERONÔMIO Êste é o quinto e último livro do Pentateuco Mosai co. Os Rabinos chamam-lhe Ellé Haddebarim, que sig nifica: “ Estas são as palavras”, porque é por esta frase que êle começa. Os gregos e latinos chamam-lhe Deute- ronômio, que quer dizer Segunda lei, por ser o resumo das leis anteriormente promulgadas. Distingue-se dos outros anteriores, com os quais se liga intimamente, por que não contém narrações, mas discursos pronunciados nas planícies de Moab, em frente de Jericó, no undécimo mês do quadragésimo ano do Êxodo. Êstes discursos são em número de três, precedidos de um título geral, 1, 1-5, e seguidos de uma conclusão histórica, 31-34. PRIM EIRO DISCURSO E ’ uma introdução ao Deuteronômio; compreende os quatro primeiros capítulos, em que Moisés faz uma resenha dos acontecimentos que sucederam desde a pro mulgação da lei no Sinai, e exorta o povo ao cumprimen to rigoroso da lei. (1-4.) SEGUNDO DISCURSO E ’ a parte principal do Deuteronômio; compreende os cc. 5-26, e pode subdividir-se em duas partes: a) Lembra aos hebreus os motivos que lhes impõe o dever de gratidão e obediência a Deus, 6, 4; 11. Só Ihavéh é o verdadeiro Deus, e portanto só a êle é devido o amor, respeito e glória, 6, 4-25. Obri gação de extirpar o culto dos ídolos de Canaã, 7, sendo os fundamentos desta obrigação os benefí cios recebidos de Deus, 8, dons gratuitos da sua liberalidade, 9; 10, 11. Anátema contra os infiéis, 10, 12; 11, 32. b) l.° Direito religioso: unidade do culto, 12; 13; proibição dos usos pagãos; declara-se defeso o uso de carnes impuras; satisfação dos dízimos, 14; o ano sabático, resgate dos primogénitos, 15; as três principais festas do ano, 16, 1-17. — 2.° Di reito público', pessoal; determinações contra a ido latria; poder judiciário dos sacerdotes; da esco lha do rei, Í6, 18; 17; direitos e deveres dos le vitas e dos profetas. 18. Direito real: imunidade das cidades de refúgio: testemunhas, 19. Direi to de guerra: serviço militar; tratamento dos ini migos, 20; expiação dum assassínio, cujo autor é desconhecido; tratamento das mulheres cativas na guerra, 21, 1-14. — 3.° Direito privado: di reito dos progenitores; deveres para com os me nores, 21,15-23; objetos perdidos e achados; ves tuário; ninhos de aves; construção de casas, 22, 1-12; virgens, 22, 13-30; leis diversas, 23; dispo sições acêrca do divórcio, dos pobres e dos es trangeiros, 24; flagelação, o levirato; pesos e me didas, etc., 25; oferta dos primogénitos e dos dí zimos, 26, 1-15. Peroração, exortando ao. fiel cumprimento dêsse ponto, 26, 16-19. TERCEIRO DISCURSO Prescrições tendentes a assegurar a fidelidade no cumprimento da lei, 27-30. O discurso final compreende três. partes: l.° Compromisso que o povo hebreu deve tomar, depois de conquistar a Terra Prometida, sôbre os montes Hebal c Garizim, de ser fiel à lei, 27. — 2.° Bênçãos prometidas aos obedientes, maldições reserva das aos infiéis, 28; exortações para a observância da lei, 29 ;30. CONCLUSÃO HISTÓRICA l.° Moisés indica Josué como seu sucessor; vários avisos e entre êles o da leitura da lei no ano sabático; conservação da arca, 31. — 2.° Cântico de Moisés, 32. — 3.° Bênção das tribos de Israel, 33. — 4.° Morte e luto de Moisés, 34. H á no Deuteronômio alguma coisa que não podia ter sido escrita por Moisés; é a narração da sua morte, escrita por mão diversa, talvez a de Josué, que assim completou a história do grande legislador do povo esco lhido, mas também é óbvio que daí nada se pode inferir contra a autenticidade dêsse livro e muito menos contra a autenticidade do Pentateuco. Quem escreveu o c. 34 sabia muito bem que os leitores não atribuiriam essa adição ao autor do Deuteronômio. Em alguns livros profanos sucede o mesmo, por exemplo no último livro dos Commentarii de statu religionis et reipublicae Caro lo V Caesare, por Sleidan, lê-se no fim: Octobris die ul timo Joannes Sleidamis e vita deccdit atque honorifice sepelitur, “ o qual João Sleidan morreu no último dia de outubro e foi sepultado com todas as honras devidas”, e ninguém por isto contesta a autenticidade da obra. Assim fica encerrada a história desse vulto prestigioso, cujo nome tôda a humanidade celebra, como um obreiro in cansável da moralização do povo escolhido, conseguin do dominar as grosseiras inclinações de tôda aquela gen te, e introduzir no meio daquele povo nômada os pro gressos materiais do Egito, tendo sempre em vista asse gurar o progresso e o estabelecimento definitivo dos he breus numa terra escolhida — a Terra da Promissão. — E para que a sua obra, ou melhor, para que a obra de Deus, de que êle era instrumento, fôsse por diante, sen tindo avizinhar-se. o têrmo de sua vida, escolheu um su cessor e apresentou Josué ao povo; e entrevendo ao longe a terra prometida, onde ia desenrolar-se o futuro de Is rael, expirou.
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