Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 23

Quais são aquêles que se não devem admitir nas congregações do Senhor. Pureza do campo. Usura. Votos.

1O eunuco a quem foram trilhados os testículos, e cortado o membro viril, não entrará na congregação do Senhor.

20 bastardo, isto é, o que nasceu de mulher pública, não entrará na congregação do Senhor até à décima ge ração.

3O amonita e o moabita não entrarão jamais na congregação do Senhor, ainda depois da d.écinia gera-: çâo:[1]O MOABITAOs moabitas descendiam de Ló por Moab. Formavam uma tribo a este do Canaã, não muito distante do Jordão e do mar Morto. NAO ENTRARÃO JAMAIS — Houve contudo uma exceção a favor de Aquior, chefe amonita, por causa dos serviços que prestou ao Povo Escolhido. Judite, 14, 6.

4Porque não quiseram sair a receber-vos com pão e água no caminho quando saístes do Egito: e porque conduziram contra ti a Balaarn, filho de Beor, da Mesopotâmia da Síria, para que te amaldiçoasse:[2]' DA MESOPOTAMIA DA SÍRIAO texto hebreu dix: "de Pethor na Mesopotftmia." Sucede, porém, que as modernas ins crições cuneiformes revelaram a situação desta cidade; estava de fato na Síria, no confluente do Eufrates e de Sagour.

5Mas o Senhor teu Deus não quis ouvir a Balaarn e trocou a sua maldição em bênção tua, porque te amava.

6Não farás pazes com êles, nem lhes procures bens alguns por todos os dias da tua vida para sempre.

7Não abominarás o idumeu, porque é teu irmão: Nem o egiptano, porquê tu fôste estrangeiro na sua terra.[3]NAO ABOMINARAS O IDUMEUIsto é mais uma prova da autenticidade do Deuteronòmio, pois mais tarde, estas boas dis posições a respeito dos idumeus desapareceram, e os descendentes de Isaac foram tidos como os inimigos mais irreconciliáveis dos filhos de Jacó.

8Os que nascerem deles, entrarão à terceira ge ração na congregação do Senhor.

9Quando saíres a pelejar contra os teus inimigos, terás cuidado de te abster de tôda a ação ruim.

10Se houver de entre vós homem, que de noite te-

11e não voltará, menos que à tarde se não tenha lavado em água: e depois do sol pôsto tornará a ir para o campo.

12Terás fora do arraial um lugar, onde vás satis fazer as necessidades da natureza,

13levando um pauzinho no cinto: e tendo satisfeito à tua necessidade, cavarás ao redor e cobrirás com a terra que tiraste.

14Aquilo de que te aliviaste (porque o Senhor teu Deus anda no meio do campo, para te livrar de todo o perigo, e para te entregar os teus inimigos) e o teu cam po seja santo, e não apareça nêle coisa de fealdade, para qúe te não desampare.

15Não entregarás a seu Senhor o escravo que se tiver acolhido a ti;

16Êle habitará contigo no lugar que lhe agradar, e descansará em uma das tuas cidades: não o molestes.

17Não haverá entre as filhas de Israel meretriz, nem prostituidor nos filhos de Israel.[4]NAO HAVERÁ, ETO.Os Setenta juntam a palavra “ sa grado”. Nenhuma legislação foi mais severa contra a prostituição,

18Não oferecerás na casa do Senhor teu Deus o ganho da prostituta, nem o preço do cão por qualquer voto, que tenhas feito: porque uma e outra coisa é abo minável diante, do Senhor teu Deus.

19Não emprestarás com usura a teu irmão nem dinheiro, nem grão, nem outra qualquer coisa que seja:

20Mas somente ao estrangeiro. A teu irmão po rém emprestarás o que êle houver mister, sem daí tirares

21Quando tiveres feito algum voto ao Senhor teu Deus, não tardarás em o cumprir: porque o Senhor teu Deus, te pedirá conta dele: e se te demorares, ser-te-á imputado o pecado.

22Se não quiseres prometer, não pecarás.

23Mas a palavra que uma vez saiu da tua bòca, tu a observarás, e cumprirás, assim como prometeste ao Senhor teu Deus, pois o 'fizeste de tua própria vontade, e o declaraste pela tua bôca.

24Se entrares na vinha de teu próximo, come quan tas uvas quiseres: mas não as leves contigo para fóra.

25Se entrares na seara de teu amigo, poderás coIhêr das espigas, e machucá-las entre as mãos: mas, não segá-las com foice.

DEUTERONÔMIO Êste é o quinto e último livro do Pentateuco Mosai co. Os Rabinos chamam-lhe Ellé Haddebarim, que sig nifica: “ Estas são as palavras”, porque é por esta frase que êle começa. Os gregos e latinos chamam-lhe Deute- ronômio, que quer dizer Segunda lei, por ser o resumo das leis anteriormente promulgadas. Distingue-se dos outros anteriores, com os quais se liga intimamente, por que não contém narrações, mas discursos pronunciados nas planícies de Moab, em frente de Jericó, no undécimo mês do quadragésimo ano do Êxodo. Êstes discursos são em número de três, precedidos de um título geral, 1, 1-5, e seguidos de uma conclusão histórica, 31-34. PRIM EIRO DISCURSO E ’ uma introdução ao Deuteronômio; compreende os quatro primeiros capítulos, em que Moisés faz uma resenha dos acontecimentos que sucederam desde a pro mulgação da lei no Sinai, e exorta o povo ao cumprimen to rigoroso da lei. (1-4.) SEGUNDO DISCURSO E ’ a parte principal do Deuteronômio; compreende os cc. 5-26, e pode subdividir-se em duas partes: a) Lembra aos hebreus os motivos que lhes impõe o dever de gratidão e obediência a Deus, 6, 4; 11. Só Ihavéh é o verdadeiro Deus, e portanto só a êle é devido o amor, respeito e glória, 6, 4-25. Obri gação de extirpar o culto dos ídolos de Canaã, 7, sendo os fundamentos desta obrigação os benefí cios recebidos de Deus, 8, dons gratuitos da sua liberalidade, 9; 10, 11. Anátema contra os infiéis, 10, 12; 11, 32. b) l.° Direito religioso: unidade do culto, 12; 13; proibição dos usos pagãos; declara-se defeso o uso de carnes impuras; satisfação dos dízimos, 14; o ano sabático, resgate dos primogénitos, 15; as três principais festas do ano, 16, 1-17. — 2.° Di reito público', pessoal; determinações contra a ido latria; poder judiciário dos sacerdotes; da esco lha do rei, Í6, 18; 17; direitos e deveres dos le vitas e dos profetas. 18. Direito real: imunidade das cidades de refúgio: testemunhas, 19. Direi to de guerra: serviço militar; tratamento dos ini migos, 20; expiação dum assassínio, cujo autor é desconhecido; tratamento das mulheres cativas na guerra, 21, 1-14. — 3.° Direito privado: di reito dos progenitores; deveres para com os me nores, 21,15-23; objetos perdidos e achados; ves tuário; ninhos de aves; construção de casas, 22, 1-12; virgens, 22, 13-30; leis diversas, 23; dispo sições acêrca do divórcio, dos pobres e dos es trangeiros, 24; flagelação, o levirato; pesos e me didas, etc., 25; oferta dos primogénitos e dos dí zimos, 26, 1-15. Peroração, exortando ao. fiel cumprimento dêsse ponto, 26, 16-19. TERCEIRO DISCURSO Prescrições tendentes a assegurar a fidelidade no cumprimento da lei, 27-30. O discurso final compreende três. partes: l.° Compromisso que o povo hebreu deve tomar, depois de conquistar a Terra Prometida, sôbre os montes Hebal c Garizim, de ser fiel à lei, 27. — 2.° Bênçãos prometidas aos obedientes, maldições reserva das aos infiéis, 28; exortações para a observância da lei, 29 ;30. CONCLUSÃO HISTÓRICA l.° Moisés indica Josué como seu sucessor; vários avisos e entre êles o da leitura da lei no ano sabático; conservação da arca, 31. — 2.° Cântico de Moisés, 32. — 3.° Bênção das tribos de Israel, 33. — 4.° Morte e luto de Moisés, 34. H á no Deuteronômio alguma coisa que não podia ter sido escrita por Moisés; é a narração da sua morte, escrita por mão diversa, talvez a de Josué, que assim completou a história do grande legislador do povo esco lhido, mas também é óbvio que daí nada se pode inferir contra a autenticidade dêsse livro e muito menos contra a autenticidade do Pentateuco. Quem escreveu o c. 34 sabia muito bem que os leitores não atribuiriam essa adição ao autor do Deuteronômio. Em alguns livros profanos sucede o mesmo, por exemplo no último livro dos Commentarii de statu religionis et reipublicae Caro lo V Caesare, por Sleidan, lê-se no fim: Octobris die ul timo Joannes Sleidamis e vita deccdit atque honorifice sepelitur, “ o qual João Sleidan morreu no último dia de outubro e foi sepultado com todas as honras devidas”, e ninguém por isto contesta a autenticidade da obra. Assim fica encerrada a história desse vulto prestigioso, cujo nome tôda a humanidade celebra, como um obreiro in cansável da moralização do povo escolhido, conseguin do dominar as grosseiras inclinações de tôda aquela gen te, e introduzir no meio daquele povo nômada os pro gressos materiais do Egito, tendo sempre em vista asse gurar o progresso e o estabelecimento definitivo dos he breus numa terra escolhida — a Terra da Promissão. — E para que a sua obra, ou melhor, para que a obra de Deus, de que êle era instrumento, fôsse por diante, sen tindo avizinhar-se. o têrmo de sua vida, escolheu um su cessor e apresentou Josué ao povo; e entrevendo ao longe a terra prometida, onde ia desenrolar-se o futuro de Is rael, expirou.
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