Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 20

Leis sôbre a guerra. Ordenações sôbre os assédios das praças. Tratamento para com os cananeus.

1Se saindo a fazer guerra contra os teus inimigos, e tendo visto a sua cavalaria, e as suas carroças, achares que o exército contrário é mais numeroso do que o teu, não os tem erás: Porque contigo está o Senhor teu Deus, que te tirou da terra do Egito.

2E quando estiver perto de se dar a batalha, o pon tífice se porá na frente do exército, e falará assim ao povo:[1]O PONTÍFICEAdvirta-se que nem sempre foi o Pon tífice designado para fazer a proclamação da guerra, pois vimos nos Núm 31, 6, Finéias, filho do pontífice Eleazar, desempenhar-se 'desta missão.

3Ouve, ó Israel, vós estais hoje para combater contra os vossos inimigos: não se atemorize o vosso co ração, não temais, não recueis, nem lhes tenhais mêdo:

4Porque o Senhor vosso Deus está no meio de vós, e êle pelejará por vós contra os vossos inimigos, para vos livrar do perigo..

5Os oficiais também cada um na frente do seu corpo dirão gritando, ouvindo o exército: H á algum homem que tenha edificado uma casa nova, e a não te nha ainda dedicado? vá-se, e torne para sua casa: não suceda que êle morra no combate, e outro a estréie.[2]E A NÃO TENHA AINDA DEDICADOO padre Pereira traduziu dedicavit por estrear. Alteramos com Glaire, que empregou.éèdiée, seguindo à letra a Vulgata, o que é conforme com os costu mes dos hebreus, que antes da posse duma casa recentemente edifi cada faziam uma espécie de dedicação religiosa. Os pagãos, e dum modo particular os romanos, não construíam edifício algum, sem que precedesse a cejimônia das consagrações, que variaram conforme os tempos e os lugares,

6H á algum homem que tenha plantado uma vi nha, e ainda a não tenha feito comum, para que todos pos sam conier dela? vá-se, e torne para sua casa: não su ceda que êle morra na peleja, e faça outro o que a êle lhe tocava.

7H á. alguém que se tenha desposado com uma mulher e todavia a não tenha ainda em seu poder? vá- -se^ e torne para sua casa, n a o ‘suceda que êle morra na batalha, e algum outro a tome.

8Ditas estas coisas, acrescentarão êles, e dirão ao povo o seguinte: H á algum medroso, e de coração tí mido? vá-se, e volte para sua casa, para não fazer des m aiar o coração de seus irmãos, assim como êle está assustado de mêdo.

9E logo que os oficiais do exército se calarem, e

10Quando te chegares para combater uma cidade, primeiramente lhe oferecerás a paz.

11Se ela a aceitar, e te abrir as portas, todo o povo, que houver nela, será salvo, e te ficará sujeito pagando tributo.

12Mas se não quiser aceitar as condições, e come çar a fazer guerra contra ti, atacá-la-ás.

13E quando o Senhor teu Deus ta houver entre gado às mãos, passarás ao fio da espada todos os va rões que nela haja,

14reservando as mulheres e os meninos, os ani mais e tudo o mais, que se achar na cidade. Distribui rás o esbulho todo pelo exército, e sustentar-te-ás dos despojos de teus inimigos, que o Senhor teu Deus te tiver dado.

15Assim é que hás de fazer a todas as cidades, que estiverem muito longe de ti, e que não são daque las, que hás de receber em possessão.

16Quanto àquelas cidades porém, que te hão de ser dadas, nenhum absolutamente deixarás com vida:

17Mas passá-los-ás todos ao fio da espada; con vém a saber, aos heteus, e aos amorreUs, aos cananeus,' aos fereseus, e aos heveus, e aos jebuseus, assim como o Senhor teu Deus te mandou:[3]AO FIO DA ESPADAEsta determinação é mais uma prova da autenticidade do Pentateuco, pois indica que é anterior à -conquista da Palestina; esta passagem, só por si, refuta Kueneu, que pretendeu fazer remontar o Deuteronômio ao tempo de Josias, aca bando por confessar que realmente êste lugar contradizia a sua opinião.

18Para que não suceda que vos ensinem a come ter todas as abominações, que êles mesmos fizeram a

19Quando te detiveres muito tempo no sítio de uma cidade, e a tiveres cercado com máquinas para a toma res, não cortarás as árvores de cujo fruto se pode comer, nem deves deitar abaixo a golpes de machado òs arvore dos do país circunvizinho: porque isto são paus, e não homens, nem podem aumentar o número dos teus inimigos.

20Mas se houver algumas árvores, que não sejam frutíferas, mas silvestres, e boas para outros usos, corta- -as, e engenha delas máquinas, até que tomes a cidade, que peleja contra ti.

DEUTERONÔMIO Êste é o quinto e último livro do Pentateuco Mosai co. Os Rabinos chamam-lhe Ellé Haddebarim, que sig nifica: “ Estas são as palavras”, porque é por esta frase que êle começa. Os gregos e latinos chamam-lhe Deute- ronômio, que quer dizer Segunda lei, por ser o resumo das leis anteriormente promulgadas. Distingue-se dos outros anteriores, com os quais se liga intimamente, por que não contém narrações, mas discursos pronunciados nas planícies de Moab, em frente de Jericó, no undécimo mês do quadragésimo ano do Êxodo. Êstes discursos são em número de três, precedidos de um título geral, 1, 1-5, e seguidos de uma conclusão histórica, 31-34. PRIM EIRO DISCURSO E ’ uma introdução ao Deuteronômio; compreende os quatro primeiros capítulos, em que Moisés faz uma resenha dos acontecimentos que sucederam desde a pro mulgação da lei no Sinai, e exorta o povo ao cumprimen to rigoroso da lei. (1-4.) SEGUNDO DISCURSO E ’ a parte principal do Deuteronômio; compreende os cc. 5-26, e pode subdividir-se em duas partes: a) Lembra aos hebreus os motivos que lhes impõe o dever de gratidão e obediência a Deus, 6, 4; 11. Só Ihavéh é o verdadeiro Deus, e portanto só a êle é devido o amor, respeito e glória, 6, 4-25. Obri gação de extirpar o culto dos ídolos de Canaã, 7, sendo os fundamentos desta obrigação os benefí cios recebidos de Deus, 8, dons gratuitos da sua liberalidade, 9; 10, 11. Anátema contra os infiéis, 10, 12; 11, 32. b) l.° Direito religioso: unidade do culto, 12; 13; proibição dos usos pagãos; declara-se defeso o uso de carnes impuras; satisfação dos dízimos, 14; o ano sabático, resgate dos primogénitos, 15; as três principais festas do ano, 16, 1-17. — 2.° Di reito público', pessoal; determinações contra a ido latria; poder judiciário dos sacerdotes; da esco lha do rei, Í6, 18; 17; direitos e deveres dos le vitas e dos profetas. 18. Direito real: imunidade das cidades de refúgio: testemunhas, 19. Direi to de guerra: serviço militar; tratamento dos ini migos, 20; expiação dum assassínio, cujo autor é desconhecido; tratamento das mulheres cativas na guerra, 21, 1-14. — 3.° Direito privado: di reito dos progenitores; deveres para com os me nores, 21,15-23; objetos perdidos e achados; ves tuário; ninhos de aves; construção de casas, 22, 1-12; virgens, 22, 13-30; leis diversas, 23; dispo sições acêrca do divórcio, dos pobres e dos es trangeiros, 24; flagelação, o levirato; pesos e me didas, etc., 25; oferta dos primogénitos e dos dí zimos, 26, 1-15. Peroração, exortando ao. fiel cumprimento dêsse ponto, 26, 16-19. TERCEIRO DISCURSO Prescrições tendentes a assegurar a fidelidade no cumprimento da lei, 27-30. O discurso final compreende três. partes: l.° Compromisso que o povo hebreu deve tomar, depois de conquistar a Terra Prometida, sôbre os montes Hebal c Garizim, de ser fiel à lei, 27. — 2.° Bênçãos prometidas aos obedientes, maldições reserva das aos infiéis, 28; exortações para a observância da lei, 29 ;30. CONCLUSÃO HISTÓRICA l.° Moisés indica Josué como seu sucessor; vários avisos e entre êles o da leitura da lei no ano sabático; conservação da arca, 31. — 2.° Cântico de Moisés, 32. — 3.° Bênção das tribos de Israel, 33. — 4.° Morte e luto de Moisés, 34. H á no Deuteronômio alguma coisa que não podia ter sido escrita por Moisés; é a narração da sua morte, escrita por mão diversa, talvez a de Josué, que assim completou a história do grande legislador do povo esco lhido, mas também é óbvio que daí nada se pode inferir contra a autenticidade dêsse livro e muito menos contra a autenticidade do Pentateuco. Quem escreveu o c. 34 sabia muito bem que os leitores não atribuiriam essa adição ao autor do Deuteronômio. Em alguns livros profanos sucede o mesmo, por exemplo no último livro dos Commentarii de statu religionis et reipublicae Caro lo V Caesare, por Sleidan, lê-se no fim: Octobris die ul timo Joannes Sleidamis e vita deccdit atque honorifice sepelitur, “ o qual João Sleidan morreu no último dia de outubro e foi sepultado com todas as honras devidas”, e ninguém por isto contesta a autenticidade da obra. Assim fica encerrada a história desse vulto prestigioso, cujo nome tôda a humanidade celebra, como um obreiro in cansável da moralização do povo escolhido, conseguin do dominar as grosseiras inclinações de tôda aquela gen te, e introduzir no meio daquele povo nômada os pro gressos materiais do Egito, tendo sempre em vista asse gurar o progresso e o estabelecimento definitivo dos he breus numa terra escolhida — a Terra da Promissão. — E para que a sua obra, ou melhor, para que a obra de Deus, de que êle era instrumento, fôsse por diante, sen tindo avizinhar-se. o têrmo de sua vida, escolheu um su cessor e apresentou Josué ao povo; e entrevendo ao longe a terra prometida, onde ia desenrolar-se o futuro de Is rael, expirou.
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