Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 26

Cerimónias que se devem observar quando se oferecem as primícias dos frutos.

1Depois que tu tiveres entrado na terra, de que o Senhor teu Deus está para te meter de posse, e fores Senhor dela, e estiveres nela estabelecido: •

2Tomarás as primícias de tçdos os teus frutos, e as porás num cesto, e irás ao lugar, que o Senhor teu Deus tiver escolhido, para aí ser invocado o seu Nome:[1]OÊSTOÁ palavra correspondente que está no origi nal hebraico é tene, que é a egípcia, tena, e que tom a mesma sig nificação; como dissemos no c. 2 do Êx v. 5, encontram-se várias vôzes no Pentateuco tôrmos egípcios quo denotam o conhecimento que Moisés tinha da língua, usos e costumes daquele país.

3e chegarás ao sacerdote, que nesse tempo fôr, e lhe dirás: Confesso hoje diante do Senhor teu Deus, que eu entrei na terra, que êle tinha prometido com jura mento a nossos pais que no-la daria.

4E o sacerdote, tomando da tua mão o cesto, o porá diante do altar do Senhor teu Deus:

5e dirás ria presença do Senhor teu Deus: O sírio perseguia a meu pai, o qual desceu ao Egito, e lá assistiu como estrangeiro, tendo mui poucas pessoas.consigo: e se multiplicou até formar um povo grande e poderoso, e de uma infinita multidão.[2]O SfRIONo original hebraico está meu pai era um arameu nôraada, alusão a Labão perseguindo Jacó.

6E os egípcios nos afligiram e nos perseguiram impondo-nos cargas pesadíssimas,

7e clamamos ao Senhor Deus de nossos pais: o qual nos ouviu, e olhou para a nossa aflição e trabalho, e angústia:

8e nos tirou do Egito com a sua mão forte, e bra ço estendido, com grande espanto, com sinais e por tentos:

9e nos introduziu neste lugar, e nos deu esta terra que mana leite e mel.

10E por isso ofereço eu agora as primícias dos frutos da terra, que o Senhor me deu. E deixá-las-ás1

11E te banquetearás com todos os bens, que o Se nhor teu Deus te tiver dado a ti, e à tua casa, tu e o levita, e o estrangeiro que mora contigo.

12Quando tiveres acabado de dar o dízimo de to dos os teus frutos, darás no terceiro ano os dízimos ao levita, e ao estrangeiro, e ao órfão, e à viúva, para que comam dentro das tuas portas, e se fartem:

13E dirás diante dó Senhor teu Deus: Eu tirei de minha casa o que te é consagrado, e o dei ao levita e ao estrangeiro, e ao órfão e à viúva, como tu me ordenaste: Não preteri as tuas ordenações, nem me esqueci do teu preceito.

14Não comi dessas coisas no meu luto, nem as separei para me servir delas em algum uso impuro, nem empreguei coisa alguma delas em funerais. Obedeci à voz do Senhor meu Deus. e fiz tudo assim como me or denaste.[3]NEM EMPREGUEI COISA ALGUMA DELAS EM FUNE RAISE’ sabido que entre os egípcios eram frequentes as ofertas aos mortos, como entre os outros povos da antiguidade. Enterra vam os objetos necessários para a existência: vestuário, armas, ador nos; entornavam vinho para minorar a sêde aos mortos, e alimen tos para o seu sustento. Euripedes, Ifig. em Taur. 168. Virgílio, Eneida, V. 76, 80. VI, 225. Os museus estão cheios de lápides, baixps-relevos e monumentos, que atestam êstes costumes. No Egito o culto dos mortos era extremamente supersticioso, e como os hebreup. tivessem presenciado essas práticas, que iam de encontro à sua re ligião, Moisés proibe-as expressamente, para que êles não caíssem na idolatria.

15Olha d,esde o teu santuário, e desde. a excelsa morada dos Céus, e abençoa o teu povo de Israel, e a terra, que mana leite e mel.

16O Senhor teu Deus te mandou hoje que obser

17Tu escolheste hoje o Senhor, para ser o teu Deus, e para andares pelos seus caminhos, e guardares as suas cerimónias, e ordenações e leis, e para obedece res aos seus mandamentos.

18E o Senhor te escolheu hoje para que sejas o seu povo especial, conforme êle te declarou, e guardes todos os seus preceitos:

19E para te fazer o povo mais ilustre de tôdas as nações que êle criou, para seu louvor, e honra, e glória: E para que sejas o povo santo do Senhor teu Deus, como êle disse.

DEUTERONÔMIO Êste é o quinto e último livro do Pentateuco Mosai co. Os Rabinos chamam-lhe Ellé Haddebarim, que sig nifica: “ Estas são as palavras”, porque é por esta frase que êle começa. Os gregos e latinos chamam-lhe Deute- ronômio, que quer dizer Segunda lei, por ser o resumo das leis anteriormente promulgadas. Distingue-se dos outros anteriores, com os quais se liga intimamente, por que não contém narrações, mas discursos pronunciados nas planícies de Moab, em frente de Jericó, no undécimo mês do quadragésimo ano do Êxodo. Êstes discursos são em número de três, precedidos de um título geral, 1, 1-5, e seguidos de uma conclusão histórica, 31-34. PRIM EIRO DISCURSO E ’ uma introdução ao Deuteronômio; compreende os quatro primeiros capítulos, em que Moisés faz uma resenha dos acontecimentos que sucederam desde a pro mulgação da lei no Sinai, e exorta o povo ao cumprimen to rigoroso da lei. (1-4.) SEGUNDO DISCURSO E ’ a parte principal do Deuteronômio; compreende os cc. 5-26, e pode subdividir-se em duas partes: a) Lembra aos hebreus os motivos que lhes impõe o dever de gratidão e obediência a Deus, 6, 4; 11. Só Ihavéh é o verdadeiro Deus, e portanto só a êle é devido o amor, respeito e glória, 6, 4-25. Obri gação de extirpar o culto dos ídolos de Canaã, 7, sendo os fundamentos desta obrigação os benefí cios recebidos de Deus, 8, dons gratuitos da sua liberalidade, 9; 10, 11. Anátema contra os infiéis, 10, 12; 11, 32. b) l.° Direito religioso: unidade do culto, 12; 13; proibição dos usos pagãos; declara-se defeso o uso de carnes impuras; satisfação dos dízimos, 14; o ano sabático, resgate dos primogénitos, 15; as três principais festas do ano, 16, 1-17. — 2.° Di reito público', pessoal; determinações contra a ido latria; poder judiciário dos sacerdotes; da esco lha do rei, Í6, 18; 17; direitos e deveres dos le vitas e dos profetas. 18. Direito real: imunidade das cidades de refúgio: testemunhas, 19. Direi to de guerra: serviço militar; tratamento dos ini migos, 20; expiação dum assassínio, cujo autor é desconhecido; tratamento das mulheres cativas na guerra, 21, 1-14. — 3.° Direito privado: di reito dos progenitores; deveres para com os me nores, 21,15-23; objetos perdidos e achados; ves tuário; ninhos de aves; construção de casas, 22, 1-12; virgens, 22, 13-30; leis diversas, 23; dispo sições acêrca do divórcio, dos pobres e dos es trangeiros, 24; flagelação, o levirato; pesos e me didas, etc., 25; oferta dos primogénitos e dos dí zimos, 26, 1-15. Peroração, exortando ao. fiel cumprimento dêsse ponto, 26, 16-19. TERCEIRO DISCURSO Prescrições tendentes a assegurar a fidelidade no cumprimento da lei, 27-30. O discurso final compreende três. partes: l.° Compromisso que o povo hebreu deve tomar, depois de conquistar a Terra Prometida, sôbre os montes Hebal c Garizim, de ser fiel à lei, 27. — 2.° Bênçãos prometidas aos obedientes, maldições reserva das aos infiéis, 28; exortações para a observância da lei, 29 ;30. CONCLUSÃO HISTÓRICA l.° Moisés indica Josué como seu sucessor; vários avisos e entre êles o da leitura da lei no ano sabático; conservação da arca, 31. — 2.° Cântico de Moisés, 32. — 3.° Bênção das tribos de Israel, 33. — 4.° Morte e luto de Moisés, 34. H á no Deuteronômio alguma coisa que não podia ter sido escrita por Moisés; é a narração da sua morte, escrita por mão diversa, talvez a de Josué, que assim completou a história do grande legislador do povo esco lhido, mas também é óbvio que daí nada se pode inferir contra a autenticidade dêsse livro e muito menos contra a autenticidade do Pentateuco. Quem escreveu o c. 34 sabia muito bem que os leitores não atribuiriam essa adição ao autor do Deuteronômio. Em alguns livros profanos sucede o mesmo, por exemplo no último livro dos Commentarii de statu religionis et reipublicae Caro lo V Caesare, por Sleidan, lê-se no fim: Octobris die ul timo Joannes Sleidamis e vita deccdit atque honorifice sepelitur, “ o qual João Sleidan morreu no último dia de outubro e foi sepultado com todas as honras devidas”, e ninguém por isto contesta a autenticidade da obra. Assim fica encerrada a história desse vulto prestigioso, cujo nome tôda a humanidade celebra, como um obreiro in cansável da moralização do povo escolhido, conseguin do dominar as grosseiras inclinações de tôda aquela gen te, e introduzir no meio daquele povo nômada os pro gressos materiais do Egito, tendo sempre em vista asse gurar o progresso e o estabelecimento definitivo dos he breus numa terra escolhida — a Terra da Promissão. — E para que a sua obra, ou melhor, para que a obra de Deus, de que êle era instrumento, fôsse por diante, sen tindo avizinhar-se. o têrmo de sua vida, escolheu um su cessor e apresentou Josué ao povo; e entrevendo ao longe a terra prometida, onde ia desenrolar-se o futuro de Is rael, expirou.
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