Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 6

Exorta Moisés os israelitas a amar o Senhor, e a não se esquecerem jamais dos seus preceitos e benefícios.

1Êstes são os preceitos, e as cerimónias, e as orde nações, que o Senhor vosso Deus me mandou que vos ensinasse, para que as observeis na terra que ides a possuir:

2Para que temas o Senhor teu Deus, e guardes to dos os seus mandamentos e preceitos, que eu te intimo a ti, e a teus filhos, e netos, por todos os dias da tua vida, para que se prolonguem os teus dias.

3Ouve, ó Israel, e tem cuidado de fazer o que o Se nhor te mandou, para sêres ditoso, e te multiplicares mais, assim como o Senhor Deus de teus pais te prometeu a ter ra que mana leite e mel.[1]OUVE ISRAELAqui começa a primeira parte do se gundo discurso mosaico, em que Moisés relembra aos hebreus os motivos que lhes impõem o dever de absoluta fidelidade ao verdadeiro Deus.

4Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor.

5Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu co ração, e de tôda a tua alma, e de tôdas as tuas forças.

6E estas palavras, que eu hoje te intimo, estarão gravadas no teu coração:

7E tu as referirás a teus filhos, e as meditarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, ao dei tar-te para dormir e ao levantar-te.

8E as atarás como um sinal na tua mão: e elas estarão e se moverão diante dos teus olhos,

9e as escreverás no limiar e lias portas da tua casa.[2]22 AS ESCREVERAS6ste costume era análogo a um egípcio, que os hebreus tinham conhecido. Alguma coisa disso pas sou para o catolicismo; eram frequentes nas antigas casas dísticos com palavras santas, extraídas da Escritura Sagrada, orações e ima gens, pregadas nas portas de entrada.

10E quando o Senhor teu Deus te tiver introdu zido na terra, que êle prometeu com juramento a teus pais Abraão, Isaac, e Jacó: e te tiver dado grandes e excelen tes cidades, que tu não edificaste,

11casas cheias de tôda sorte de bens, que não fabri caste, cisternas, que não abriste, vinhas e olivais, que não plantaste,

12e comeres, e te fartares:

13Olha bem, não te esqueças do Senhor, que te ti rou da terra do Egito, da morada da servidão. Temerás ao Senhor teu Deus, e só a êle servirás, e não jurarás senão' pelo seu nome.[3]TEMERÁS AO SENHOR TEU I)El*SJJevemos notar que as respostas que Nosso Senhor Jesus Cristo deu no deserto às três tentações do demónio foram extraídas destas passagens.

14Não seguireis os deuses estrangeiros de alguma das nações, que estão à roda de vós:

15Porque o Senhor teu Deus, que está no meio de ti, é um Deus de zelos: Não suceda que o furor do Se nhor teu Deus se acenda contra ti, c tc extermine da su perfície da terra.

16Não tentarás ao Senhor teu Deus, como o ten taste no lugar da tentação;

17Guarda os preceitos do Senhor teu Deus, e as ordenações e as cerimónias, que te prescreveu:

18E faze o que é agradável e bom aos olhos do Senhor, para sêrcs ditoso: e para que entrando possuas

19que exterminaria diante de ti a todos os teus inimigos, como havia dito.

20E quando teu filho pelo tempo adiante te per guntar, dizendo: Que querem dizer êstes testemunhos, e cerimónias, e juízos, que o Senhor nosso Deus nos or denou ?

21tu lhe responderás: Nós estávamos escravos de Faraó no Egito, e o Senhor nos tirou do Egito com uma mão poderosa:

22e à nossa vista íêz no Egito espantosos milagres e terríveis prodígios contra Faraó, e contra tôda a sua casa,

23e nos tirou de lá, para que introduzidos nela nos. desse a terra, que tinha prometido a nossos pais.

24E o Senhor nos mandou que observássemos to das estas leis, e que temêssemos ao Senhor nosso Deus,, para sermos bem sucedidos todos os dias da nossa vida,, como nós o somos hoje.

25E êle terá misericórdia de nós, se guardarmos e observarmos todos os seus preceitos na presença do Se nhor nosso Deus, como êle no-lo mandou.

DEUTERONÔMIO Êste é o quinto e último livro do Pentateuco Mosai co. Os Rabinos chamam-lhe Ellé Haddebarim, que sig nifica: “ Estas são as palavras”, porque é por esta frase que êle começa. Os gregos e latinos chamam-lhe Deute- ronômio, que quer dizer Segunda lei, por ser o resumo das leis anteriormente promulgadas. Distingue-se dos outros anteriores, com os quais se liga intimamente, por que não contém narrações, mas discursos pronunciados nas planícies de Moab, em frente de Jericó, no undécimo mês do quadragésimo ano do Êxodo. Êstes discursos são em número de três, precedidos de um título geral, 1, 1-5, e seguidos de uma conclusão histórica, 31-34. PRIM EIRO DISCURSO E ’ uma introdução ao Deuteronômio; compreende os quatro primeiros capítulos, em que Moisés faz uma resenha dos acontecimentos que sucederam desde a pro mulgação da lei no Sinai, e exorta o povo ao cumprimen to rigoroso da lei. (1-4.) SEGUNDO DISCURSO E ’ a parte principal do Deuteronômio; compreende os cc. 5-26, e pode subdividir-se em duas partes: a) Lembra aos hebreus os motivos que lhes impõe o dever de gratidão e obediência a Deus, 6, 4; 11. Só Ihavéh é o verdadeiro Deus, e portanto só a êle é devido o amor, respeito e glória, 6, 4-25. Obri gação de extirpar o culto dos ídolos de Canaã, 7, sendo os fundamentos desta obrigação os benefí cios recebidos de Deus, 8, dons gratuitos da sua liberalidade, 9; 10, 11. Anátema contra os infiéis, 10, 12; 11, 32. b) l.° Direito religioso: unidade do culto, 12; 13; proibição dos usos pagãos; declara-se defeso o uso de carnes impuras; satisfação dos dízimos, 14; o ano sabático, resgate dos primogénitos, 15; as três principais festas do ano, 16, 1-17. — 2.° Di reito público', pessoal; determinações contra a ido latria; poder judiciário dos sacerdotes; da esco lha do rei, Í6, 18; 17; direitos e deveres dos le vitas e dos profetas. 18. Direito real: imunidade das cidades de refúgio: testemunhas, 19. Direi to de guerra: serviço militar; tratamento dos ini migos, 20; expiação dum assassínio, cujo autor é desconhecido; tratamento das mulheres cativas na guerra, 21, 1-14. — 3.° Direito privado: di reito dos progenitores; deveres para com os me nores, 21,15-23; objetos perdidos e achados; ves tuário; ninhos de aves; construção de casas, 22, 1-12; virgens, 22, 13-30; leis diversas, 23; dispo sições acêrca do divórcio, dos pobres e dos es trangeiros, 24; flagelação, o levirato; pesos e me didas, etc., 25; oferta dos primogénitos e dos dí zimos, 26, 1-15. Peroração, exortando ao. fiel cumprimento dêsse ponto, 26, 16-19. TERCEIRO DISCURSO Prescrições tendentes a assegurar a fidelidade no cumprimento da lei, 27-30. O discurso final compreende três. partes: l.° Compromisso que o povo hebreu deve tomar, depois de conquistar a Terra Prometida, sôbre os montes Hebal c Garizim, de ser fiel à lei, 27. — 2.° Bênçãos prometidas aos obedientes, maldições reserva das aos infiéis, 28; exortações para a observância da lei, 29 ;30. CONCLUSÃO HISTÓRICA l.° Moisés indica Josué como seu sucessor; vários avisos e entre êles o da leitura da lei no ano sabático; conservação da arca, 31. — 2.° Cântico de Moisés, 32. — 3.° Bênção das tribos de Israel, 33. — 4.° Morte e luto de Moisés, 34. H á no Deuteronômio alguma coisa que não podia ter sido escrita por Moisés; é a narração da sua morte, escrita por mão diversa, talvez a de Josué, que assim completou a história do grande legislador do povo esco lhido, mas também é óbvio que daí nada se pode inferir contra a autenticidade dêsse livro e muito menos contra a autenticidade do Pentateuco. Quem escreveu o c. 34 sabia muito bem que os leitores não atribuiriam essa adição ao autor do Deuteronômio. Em alguns livros profanos sucede o mesmo, por exemplo no último livro dos Commentarii de statu religionis et reipublicae Caro lo V Caesare, por Sleidan, lê-se no fim: Octobris die ul timo Joannes Sleidamis e vita deccdit atque honorifice sepelitur, “ o qual João Sleidan morreu no último dia de outubro e foi sepultado com todas as honras devidas”, e ninguém por isto contesta a autenticidade da obra. Assim fica encerrada a história desse vulto prestigioso, cujo nome tôda a humanidade celebra, como um obreiro in cansável da moralização do povo escolhido, conseguin do dominar as grosseiras inclinações de tôda aquela gen te, e introduzir no meio daquele povo nômada os pro gressos materiais do Egito, tendo sempre em vista asse gurar o progresso e o estabelecimento definitivo dos he breus numa terra escolhida — a Terra da Promissão. — E para que a sua obra, ou melhor, para que a obra de Deus, de que êle era instrumento, fôsse por diante, sen tindo avizinhar-se. o têrmo de sua vida, escolheu um su cessor e apresentou Josué ao povo; e entrevendo ao longe a terra prometida, onde ia desenrolar-se o futuro de Is rael, expirou.
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