Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 16

As três solenidades do ano: Páscoa, Pentecostes e Tabernáculos. Estabelecimento de juízes.

1Observa o mês dos frutos novos, que é o princí pio da primavera, para celebrares nêle a Páscoa em hon ra do Senhor teu Deus: porque neste mês é que o Se nhor teu Deus te tirou do Egito de noite.

2E imolarás na Páscoa ao Senhor teu Deus ovelhas e bois, no lugar que o Senhor teu Deus escolher para aí habitar ó seu nome.

3Não comerás durante esta festa pão fermentado: mas por sete dias comerás pão sem fermento, pão de[1]PAO FERMENTADOPara recordar a partida precipita da dos israelitas, que não tiveram tempo de levedar o pão.

4Por sete dias não aparecerá em todos os teus li mites pão de fermento, e das carnes do que foi imolado pela tarde não ficará nada até o outro dia pela manhã.

5Não poderás imolar a Páscoa indiferentemente em qualquer das tuas cidades, que o Senhor teu Deus.tem para te dar:

6Mas somente no lugar, que o Senhor teu Deus tiver escolhido, para aí habitar o seu nome: e imolarás a Páscoa de tarde ao pôr do sol, tempo em que saíste do Egito.

7E a cozerás, e comerás no lugar, que o Senhor teu Deus tiver escolhido, e levantando-te pela manhã voltarás para as tuas tendas.

8Seis d,ias comerás pães asmos: e no dia sétimo, porque é a coleta do Senhor teu Deus, não farás obra alguma.

9Contarás sete semanas desde o dia em que me teres a foice na seara:[2]DESDE O DIA EM QUE METERES A FOICE NA SEARAIsto é, desde a festa da Páscoa, que inaugurava a ceifa, que o Pentecostes encerrava.

10e celebrarás a festa das semanas em honra do Senhor teu Deus, apresentando-lhe a oblação voluntá ria da tua mão, a qual oferecerás segundo a bênção do Senhor teu Deus:

11e te banquetearás diante do Senhor teu Deus, tu, teu filho, e tua filha, o teu servo, e a tua escrava, o levita que mora das tuas portas.para dentro, o estran geiro e o órfão e a viúva, que vivem contigo: no lugar

12e recordar-te-ás que fôste escravo do Egito: e guardarás e cumprirás as coisas que te foram mandadas.

13Celebrarás também por sete dias a solenidade dos tabernáculos, quando tiveres recolhido da eira e do lagar os teus frutos:

14e te banquetearás nesta festa, tu, teu filho, e filha, o teu servo e a escrava e também o levita e o es trangeiro, o órfão e a viúva que estão das tuas portas para dentro.

15Por sete dias celebrarás esta festa em honra do Senhor teu Deus no lugar, que o Senhor eleger: e o Senhor teu.Deus te abençoará em todos os teus frutos, e em todo o trabalho das tuas mãos, e tu viverás alegre.

16Todos os teus varões aparecerão três vezes no ano diante do Senhor teu Deus no lugar que êle escolher: na solenidade dos pães asmos, na solenidade das sema nas, e na solenidade dos tabernáculos. Êles não aparece rão diante do Senhor com as mãos vazias:

17Mas cada um oferecerá à proporção do que ti ver, segundo a bênção que o Senhor teu Deus lhe tiver dado.

18Estabelecerás juízes e magistrados em tôdas as tuas portas, que o Senhor teu Deus te houver dado ém cada uma das tuas tribos: para que julguem o povo com retidão de justiça,

19sem se inclinarem para parte alguma. Não farás aceitação de pessoa, nem receberás dádivas: porque as dádivas cegam os olhos dos sábios, transtornam as pa lavras dos justos.

20Administrarás a justiça com retidão: para que vivas e possuas a terra, que o Senhor teu Deus te houver dado.

21Não plantarás bosque, nem árvore alguma ao pé do altar do Senhor teu Deus.

22Não farás para ti, nem levantarás estátua: que são coisas que o Senhor teu Deus aborrece:

DEUTERONÔMIO Êste é o quinto e último livro do Pentateuco Mosai co. Os Rabinos chamam-lhe Ellé Haddebarim, que sig nifica: “ Estas são as palavras”, porque é por esta frase que êle começa. Os gregos e latinos chamam-lhe Deute- ronômio, que quer dizer Segunda lei, por ser o resumo das leis anteriormente promulgadas. Distingue-se dos outros anteriores, com os quais se liga intimamente, por que não contém narrações, mas discursos pronunciados nas planícies de Moab, em frente de Jericó, no undécimo mês do quadragésimo ano do Êxodo. Êstes discursos são em número de três, precedidos de um título geral, 1, 1-5, e seguidos de uma conclusão histórica, 31-34. PRIM EIRO DISCURSO E ’ uma introdução ao Deuteronômio; compreende os quatro primeiros capítulos, em que Moisés faz uma resenha dos acontecimentos que sucederam desde a pro mulgação da lei no Sinai, e exorta o povo ao cumprimen to rigoroso da lei. (1-4.) SEGUNDO DISCURSO E ’ a parte principal do Deuteronômio; compreende os cc. 5-26, e pode subdividir-se em duas partes: a) Lembra aos hebreus os motivos que lhes impõe o dever de gratidão e obediência a Deus, 6, 4; 11. Só Ihavéh é o verdadeiro Deus, e portanto só a êle é devido o amor, respeito e glória, 6, 4-25. Obri gação de extirpar o culto dos ídolos de Canaã, 7, sendo os fundamentos desta obrigação os benefí cios recebidos de Deus, 8, dons gratuitos da sua liberalidade, 9; 10, 11. Anátema contra os infiéis, 10, 12; 11, 32. b) l.° Direito religioso: unidade do culto, 12; 13; proibição dos usos pagãos; declara-se defeso o uso de carnes impuras; satisfação dos dízimos, 14; o ano sabático, resgate dos primogénitos, 15; as três principais festas do ano, 16, 1-17. — 2.° Di reito público', pessoal; determinações contra a ido latria; poder judiciário dos sacerdotes; da esco lha do rei, Í6, 18; 17; direitos e deveres dos le vitas e dos profetas. 18. Direito real: imunidade das cidades de refúgio: testemunhas, 19. Direi to de guerra: serviço militar; tratamento dos ini migos, 20; expiação dum assassínio, cujo autor é desconhecido; tratamento das mulheres cativas na guerra, 21, 1-14. — 3.° Direito privado: di reito dos progenitores; deveres para com os me nores, 21,15-23; objetos perdidos e achados; ves tuário; ninhos de aves; construção de casas, 22, 1-12; virgens, 22, 13-30; leis diversas, 23; dispo sições acêrca do divórcio, dos pobres e dos es trangeiros, 24; flagelação, o levirato; pesos e me didas, etc., 25; oferta dos primogénitos e dos dí zimos, 26, 1-15. Peroração, exortando ao. fiel cumprimento dêsse ponto, 26, 16-19. TERCEIRO DISCURSO Prescrições tendentes a assegurar a fidelidade no cumprimento da lei, 27-30. O discurso final compreende três. partes: l.° Compromisso que o povo hebreu deve tomar, depois de conquistar a Terra Prometida, sôbre os montes Hebal c Garizim, de ser fiel à lei, 27. — 2.° Bênçãos prometidas aos obedientes, maldições reserva das aos infiéis, 28; exortações para a observância da lei, 29 ;30. CONCLUSÃO HISTÓRICA l.° Moisés indica Josué como seu sucessor; vários avisos e entre êles o da leitura da lei no ano sabático; conservação da arca, 31. — 2.° Cântico de Moisés, 32. — 3.° Bênção das tribos de Israel, 33. — 4.° Morte e luto de Moisés, 34. H á no Deuteronômio alguma coisa que não podia ter sido escrita por Moisés; é a narração da sua morte, escrita por mão diversa, talvez a de Josué, que assim completou a história do grande legislador do povo esco lhido, mas também é óbvio que daí nada se pode inferir contra a autenticidade dêsse livro e muito menos contra a autenticidade do Pentateuco. Quem escreveu o c. 34 sabia muito bem que os leitores não atribuiriam essa adição ao autor do Deuteronômio. Em alguns livros profanos sucede o mesmo, por exemplo no último livro dos Commentarii de statu religionis et reipublicae Caro lo V Caesare, por Sleidan, lê-se no fim: Octobris die ul timo Joannes Sleidamis e vita deccdit atque honorifice sepelitur, “ o qual João Sleidan morreu no último dia de outubro e foi sepultado com todas as honras devidas”, e ninguém por isto contesta a autenticidade da obra. Assim fica encerrada a história desse vulto prestigioso, cujo nome tôda a humanidade celebra, como um obreiro in cansável da moralização do povo escolhido, conseguin do dominar as grosseiras inclinações de tôda aquela gen te, e introduzir no meio daquele povo nômada os pro gressos materiais do Egito, tendo sempre em vista asse gurar o progresso e o estabelecimento definitivo dos he breus numa terra escolhida — a Terra da Promissão. — E para que a sua obra, ou melhor, para que a obra de Deus, de que êle era instrumento, fôsse por diante, sen tindo avizinhar-se. o têrmo de sua vida, escolheu um su cessor e apresentou Josué ao povo; e entrevendo ao longe a terra prometida, onde ia desenrolar-se o futuro de Is rael, expirou.
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