Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 34

Morte de Moisés. Josué lhe sucede.

1Subiu pois Moisés da campina de Moab ao monte Nebo, ao alto de Fasga, defronte de Jericó: E o Senhor lhe mostrou todo o país de Galaad até Dan,[1]SABIA MOISÉSOs intérpretes concordam em que

2e todo o Neftali, e tôda a terra de Efraini e de Manasses, e todo o país de Judá até o mar último,[2]MAR ÚLTIMOE’ o Mediterrâneo.

3e a parte meridional, e o espaçoso campo de Jericó cidade das Palmeiras até Segor.[3]CIDADE DAS PALMEIRASUns querem que seja

4E o Senhor lhe disse: Eis-aí a terra, pela qual jurei a Abraão, Isaac e Jacó dizendo-lhe: Eu a darei à tua posteridade. Tu a viste com os teus olhos, e não pas sarás a ela.

5E morreu ali Moisés, servo do Senhor, na terra de Moab, por mandado do Senhor;[4]E MORREU ALI MOISÉSAqui está a notícia lacó o'homem de Deus, querido do Senhor e dos homens, fiel servo do Iahvéh, legislador, poeta, historiador, notável pelas suas virtudes, grande pela sua fé, superior pela sua coragem, irrivalizável pela sua piedade e obediência, zélo pela glória de Deus e amor pelo seu povo. E não se levantou mais em Israel profeta algum como Moi sés; nestas palavras do v. 10 está traçado, por inspiração divina, todo o elogio do libertador de Israel. Razão pois tem Bossuet quan do escreveu: “Moisés não só foi admirado pelo seu povo, como por todos os povos do mundo; legislador algum goza tão grande renome entre os homens. Da mesma maneira que Roma reveren ciava as leis de Rômulo, de Numa e das Doze tábuas; Atenas as de Sólon; Lacedemônia as de Llcurgo, o povo hebreu citava a cada passo, e com o máximo acatamento, as de Moisés. De resto, êste sábio legislador tinha regulado tôdas as coisas com tão elevado critério, que nunca houve necessidade de alterar disposição alguma. E’ porque o corpo de direito judaico não é a compilação de dife-

6e o sepultou no vale da terra de Moãb, defronte de Fogor: e nenhum homem tem sabido até hoje o lugar da sua sepultura.

7Tinha Moisés cento e vinte anos, quando morreu: nunca a vista se lhe diminuiu, nem os dentes se lhe aba laram.

8E os filhos de Israel o. choraram na planície de Moab por trinta dias: e se completaram os dias do pran to dos que choravam a Moisés.

9E Josué pois, filho de Nun, foi cheio do espírito de sabedoria, porque Moisés lhe tinha imposto as suas mãos. E os filhos de Israel lhe obedeceram, e fizeram como o Senhor tinha mandado a Moisés.

10E não se levantou mais em Israel profeta al gum como Moisés, com quem o Senhor tratasse cara a cara:

11Nem semelhante em sinais e portentos, como os que em virtude da sua missão fêz na terra do Egito a Faraó, e a todos os seus servos, e a todo o seu reino,

12nem semelhante em tôdas as coisas fortes, e ma ravilhas grandes, quais as que obrou Moisés à vista de todo o Israel.

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DEUTERONÔMIO Êste é o quinto e último livro do Pentateuco Mosai co. Os Rabinos chamam-lhe Ellé Haddebarim, que sig nifica: “ Estas são as palavras”, porque é por esta frase que êle começa. Os gregos e latinos chamam-lhe Deute- ronômio, que quer dizer Segunda lei, por ser o resumo das leis anteriormente promulgadas. Distingue-se dos outros anteriores, com os quais se liga intimamente, por que não contém narrações, mas discursos pronunciados nas planícies de Moab, em frente de Jericó, no undécimo mês do quadragésimo ano do Êxodo. Êstes discursos são em número de três, precedidos de um título geral, 1, 1-5, e seguidos de uma conclusão histórica, 31-34. PRIM EIRO DISCURSO E ’ uma introdução ao Deuteronômio; compreende os quatro primeiros capítulos, em que Moisés faz uma resenha dos acontecimentos que sucederam desde a pro mulgação da lei no Sinai, e exorta o povo ao cumprimen to rigoroso da lei. (1-4.) SEGUNDO DISCURSO E ’ a parte principal do Deuteronômio; compreende os cc. 5-26, e pode subdividir-se em duas partes: a) Lembra aos hebreus os motivos que lhes impõe o dever de gratidão e obediência a Deus, 6, 4; 11. Só Ihavéh é o verdadeiro Deus, e portanto só a êle é devido o amor, respeito e glória, 6, 4-25. Obri gação de extirpar o culto dos ídolos de Canaã, 7, sendo os fundamentos desta obrigação os benefí cios recebidos de Deus, 8, dons gratuitos da sua liberalidade, 9; 10, 11. Anátema contra os infiéis, 10, 12; 11, 32. b) l.° Direito religioso: unidade do culto, 12; 13; proibição dos usos pagãos; declara-se defeso o uso de carnes impuras; satisfação dos dízimos, 14; o ano sabático, resgate dos primogénitos, 15; as três principais festas do ano, 16, 1-17. — 2.° Di reito público', pessoal; determinações contra a ido latria; poder judiciário dos sacerdotes; da esco lha do rei, Í6, 18; 17; direitos e deveres dos le vitas e dos profetas. 18. Direito real: imunidade das cidades de refúgio: testemunhas, 19. Direi to de guerra: serviço militar; tratamento dos ini migos, 20; expiação dum assassínio, cujo autor é desconhecido; tratamento das mulheres cativas na guerra, 21, 1-14. — 3.° Direito privado: di reito dos progenitores; deveres para com os me nores, 21,15-23; objetos perdidos e achados; ves tuário; ninhos de aves; construção de casas, 22, 1-12; virgens, 22, 13-30; leis diversas, 23; dispo sições acêrca do divórcio, dos pobres e dos es trangeiros, 24; flagelação, o levirato; pesos e me didas, etc., 25; oferta dos primogénitos e dos dí zimos, 26, 1-15. Peroração, exortando ao. fiel cumprimento dêsse ponto, 26, 16-19. TERCEIRO DISCURSO Prescrições tendentes a assegurar a fidelidade no cumprimento da lei, 27-30. O discurso final compreende três. partes: l.° Compromisso que o povo hebreu deve tomar, depois de conquistar a Terra Prometida, sôbre os montes Hebal c Garizim, de ser fiel à lei, 27. — 2.° Bênçãos prometidas aos obedientes, maldições reserva das aos infiéis, 28; exortações para a observância da lei, 29 ;30. CONCLUSÃO HISTÓRICA l.° Moisés indica Josué como seu sucessor; vários avisos e entre êles o da leitura da lei no ano sabático; conservação da arca, 31. — 2.° Cântico de Moisés, 32. — 3.° Bênção das tribos de Israel, 33. — 4.° Morte e luto de Moisés, 34. H á no Deuteronômio alguma coisa que não podia ter sido escrita por Moisés; é a narração da sua morte, escrita por mão diversa, talvez a de Josué, que assim completou a história do grande legislador do povo esco lhido, mas também é óbvio que daí nada se pode inferir contra a autenticidade dêsse livro e muito menos contra a autenticidade do Pentateuco. Quem escreveu o c. 34 sabia muito bem que os leitores não atribuiriam essa adição ao autor do Deuteronômio. Em alguns livros profanos sucede o mesmo, por exemplo no último livro dos Commentarii de statu religionis et reipublicae Caro lo V Caesare, por Sleidan, lê-se no fim: Octobris die ul timo Joannes Sleidamis e vita deccdit atque honorifice sepelitur, “ o qual João Sleidan morreu no último dia de outubro e foi sepultado com todas as honras devidas”, e ninguém por isto contesta a autenticidade da obra. Assim fica encerrada a história desse vulto prestigioso, cujo nome tôda a humanidade celebra, como um obreiro in cansável da moralização do povo escolhido, conseguin do dominar as grosseiras inclinações de tôda aquela gen te, e introduzir no meio daquele povo nômada os pro gressos materiais do Egito, tendo sempre em vista asse gurar o progresso e o estabelecimento definitivo dos he breus numa terra escolhida — a Terra da Promissão. — E para que a sua obra, ou melhor, para que a obra de Deus, de que êle era instrumento, fôsse por diante, sen tindo avizinhar-se. o têrmo de sua vida, escolheu um su cessor e apresentou Josué ao povo; e entrevendo ao longe a terra prometida, onde ia desenrolar-se o futuro de Is rael, expirou.
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