Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 1

Dá Paulo graças a Deus pelos dons que repartiu com os Coríntios, mas sente que êles tenham entre si divisões. Cada um se guia por seu cabeça ao que o tinha batizado. Paulo se alegra por isso de ter batizado a mui poucos. A prudência da carne é rejeitada da cruz. Deus confunde os prudentes pelos símplices. Tôda a nossa glória deve ser em Jesus Cristo.

1Paulo, chamado Apóstolo de Jesus Cristo por vontade de Deus, e Sóstenes, nosso irmão.[1]Sóstenes, nosso irmãoE SÓSTENES NOSSO IRMÃO — Dêle faz menção S. Lucas nos Atos dos Apóstolos, 18, 17, como de príncipe da Sinagoga. E o martirológio Romano o celebra por Santo a 28 de novembro.

2À igreja de Deus, que está em Corinto, aos santificados em Jesus Cristo, chamados santos, com todos os que invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, em qualquer lugar que seja, em que nós próprios estejamos.

3Graça vos seja aumentada, e paz da parte de Deus, nosso Pai, e da do nosso Senhor Jesus Cristo.

4Graças dou incessantemente ao meu Deus por vós, por causa da graça de Deus, que vos foi dada em Jesus Cristo:

5Porque em tôdas as coisas sois enriquecidos nêle em tôda a palavra e em toda a ciência:

6Assim como tem sido confirmado em vós o testemunho de Cristo:

7De maneira que nada vos falta em graça alguma, esperando vós a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo.[2]a manifestação de nosso Senhor Jesus CristoDE MANEIRA QUE NADA VOS FALTA — Êstes elogios dirigem-se à coletividade da Igreja de Corinto, e não a indivíduos em particular.

8O qual também vos confirmará até ao fim sem crime, no dia da vinda de nosso Senhor Jesus Cristo.

9Fiel é Deus: Pelo qual fostes chamados à companhia de seu filho Jesus Cristo nosso Senhor.

10Mas, irmãos, rogo-vos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que todos digais uma mesma coisa, e que não haja entre vós cismas: Antes sejais perfeitos em um mesmo sentimento, e em um mesmo parecer.

11Porque de vós, irmãos meus, se me tem significado pelos que são de Cloé, que há contendas entre vós.[3]que há contendas entre vósDE CLOÉ — Parece ser nome de família, ou de mulher, como se dissera: Ouvi-o aos da família de Cloé. — Menóchio.

12E digo isto, porque cada um de vós diz: Eu na verdade sou de Paulo: E eu de Apolo: Pois eu de Cefas: E eu de Cristo.[4]E eu de CristoE EU DE APOLO — É nome próprio de um judeu convertido, originário de Alexandria, homem eloquente e versado nas Escrituras, conforme lemos nos Atos dos Apóstolos, 18, 24. — Pereira. CEFAS — É S. Pedro. Segundo o testemunho de S. Dionísio, bispo de Corinto, no meado do século segundo, esta Igreja considerava S. Pedro como seu fundador, bem como S. Paulo. É provável que o chefe dos Apóstolos passasse por esta cidade, quando se dirigiu para Roma, ou então que aqui se refugiasse como Prisca e Áquila, depois da promulgação do decreto de Cláudio, que obrigou todos os judeus a saírem da capital do Império. Como quer que seja, a censura que S. Paulo faz aqui aos Coríntios não pode apoiar a pretensão injustificada dos fautores do petrinismo e do paulinismo, teoria imaginada por Baur e pela sua escola. Os partidos de que fala S. Paulo são agremiações puramente pessoais e que nada têm com a crença, e que nunca passaram as raias da cidade.

13Está dividido Cristo? Porventura Paulo foi crucificado por vós? Ou haveis sido batizados em nome de Paulo?

14Dou graças a Deus, porque não tenho batizado a nenhum de vós, senão a Crispo, e a Caio.[5]senão a Crispo, e a CaioCRISPO — Era o chefe da sinagoga de Corinto. Cfr. At 18, 8. CAIO — Hospedava S. Paulo em Corinto: Rom 16, 23. Orígenes diz que veio a ser mais tarde bispo da Tessalonica.

15Para que nenhum diga que fostes batizados em meu nome.

16E batizei também a família de Estéfanas: Não sei porém se tenho batizado a algum outro.[6]se tenho batizado a algum outroESTÉFANAS — Torna-se a falar dêste personagem no cap. 16, 16. 17, como um dos primeiros convertidos da Acaia. Estava com S. Paulo em Éfeso, quando o Apóstolo escreveu esta Epístola aos Coríntios. Segundo S. João Crisóstomo, Estéfanas tinha ido a Éfeso consultar S. Paulo sobre questões disciplinares.

17Porque não me enviou Cristo a batizar, mas a pregar o Evangelho: Não em sabedoria de palavras, para que não seja feita vã a cruz de Cristo.[7]vã a cruz de CristoNÃO ME ENVIOU CRISTO — Estas palavras não significam que o batismo não seja a função e objeto importante da missão dos Apóstolos, mas sim que o munus especial de S. Paulo, a sua obra principal era a pregação. PARA QUE NÃO SEJA FEITA VÃ — Para que não se atribuísse a conversão do mundo à força da eloquência, senão à virtude da Cruz de Jesus Cristo — S. Tomás.

18Porque a palavra da cruz é na verdade uma estultícia para os que se perdem: Mas para os que se salvam, que somos nós, é ela a virtude de Deus.

19Porque escrito está: Destruirei a sabedoria dos sabios, e reprovarei a prudência dos prudentes.

20Onde está o sabio? onde o doutor da lei? onde o esquadrinhador dêste século? Porventura não tem Deus convencido de estultícia a sabedoria dêste mundo?

21Porque como na sabedoria de Deus não conheceu o mundo a Deus pela sabedoria: Quis Deus fazer salvos aos que crêssem nêle, pela estultícia da pregação.

22Portanto os judeus pedem milagres, como os gregos buscam sabedoria:[8]como os gregos buscam sabedoriaPEDEM MILAGRES — Êstes judeus não só pediam milagres, como prodígios que viessem imediatamente do Céu.

23Mas nós pregamos a Cristo crucificado: Que é um escândalo de fato para os judeus, e uma estultícia para os gentios.

24Mas para os que têm sido chamados assim judeus, como gregos, pregamos a Cristo, virtude de Deus, e sabedoria de Deus:

25Pois o que parece em Deus uma estultícia, é mais sábio que os homens: E o que parece em Deus uma fraqueza, é mais forte que os homens.

26Vêde pois, irmãos, a vossa vocação, porque chamados não foram muitos sábios segundo a carne, não muitos poderosos, não muitos nobres:

27Mas as coisas que há loucas do mundo escolheu Deus para confundir aos sábios: E as coisas fracas do mundo escolheu Deus para confundir as fortes:[9]para confundir as fortesLOUCAS DO MUNDO — As que parecem ao mundo loucas, mas que são nimiamente prudentes: as que o mundo não sabe compreender nem apreciar.

28E as coisas vis, e desprezíveis do mundo escolheu Deus, e aquelas que não são, para destruir as que são:

29Para que nenhum homem se glorie na presença dêle.

30E do mesmo vem serdes vós o que sois em Jesus Cristo, o qual nos tem sido feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção:

31Para que, como está escrito: O que se gloria, glorie-se no Senhor.

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Causa determinante desta Epístola.Corinto, a capital de Acaia, era uma cidade declarada colônia romana por Julio César, a primeira da Grécia, pois contava cêrca de seiscentos mil habitantes de todas as nacionalidades, Latinos, Gregos, Judeus, etc. A tão grande e variada população correspondia naturalmente singular opulência, notabilizando-se pela sua vasta atividade e pelo seu luxo. Cícero chamava-lhe Totius Graeciae lumen. A sua posição geográfica, no istmo que une o Peloponeso à Grécia, entre o mar Egeu ao Oriente e o Jônio ao Ocidente, tornava Corinto um importante centro comercial. O comércio imprimia opulência à cidade, e esta aproveitava-se dessa riqueza para se entregar ao luxo e aos prazeres imoderadamente. O espetáculo que a cidade oferecia era de tal ponto dissolvente, que as orgias de agora não são senão pálida sombra de devassidão de então. O culto mais propagado e porventura o único praticado era o de Vênus. Compreende-se portanto bem quanto era árido o terreno sôbre que havia de cair a semente da palavra divina.

Era assim Corinto, a cidade que mais timbrava na corrupção de costumes, que inventava requintes da mais pervertida voluptuosidade no templo de Afrodite, quando S. Paulo, depois dos seus trabalhos Apostólicos na Macedônia, se resolveu ir ali pregar o Evangelho.

Que Corinto, pela sua posição, pela sua importância, pela sua riqueza, lhe oferecia vantagens extraordinárias ao seu Apostolado, fàcilmente se compreende, como se percebe também o desejo do Apóstolo a chegar até ali. Porém como pregar a castidade onde reinava a mais desenfreada crápula? Como pregar penitência e abnegação a quem vivia só da matéria e para a matéria? Por isso às primeiras tentativas seguiu-se o mais desanimador insucesso. E S. Paulo teve de se recolher em casa dum judeu converso, recentemente chegado de Roma, e de procurar pelo trabalho o indispensável para a sua sustentação (At 23, 2). E como se isto não bastasse para atormentar aquêle coração inflamado em zêlo pela salvação de tantas almas imersas no êrro, veio a enfermidade roubar-lhe as fôrças e tolher-lhe o seu apostolado. Todavia não desanimou, e apesar de pobre, fraco e doente, começou a ir ao sábado à sinagoga pregar, mas com uma certa timidez. Continuou o insucesso. Era preciso que a posteridade recolhesse uma lição de constância e de perseverança, era preciso tudo isto para que no decorrer dos séculos os apóstolos, a quem cumpre pregar a Jesus Cristo, aprendessem ali a firmeza no desempenho da sua missão.

Vendo S. Paulo que por êsse lado pouco conseguia, deixou a sinagoga, e abriu em casa de um prosélito uma escola para os pagãos. Foi então que êle mereceu uma visão que lhe encheu a alma de esperança, pois lhe era anunciado que ali estava o germen duma grande cristandade. Redobra o seu zêlo, multiplica a sua atividade, vence a sua própria fraqueza, cogita novas industrias para converter corações endurecidos, inicia rasgadamente a sua pregação, supera tôdas as dificuldades, e dá começo a uma ação apostólica, que se traduzia pelo ensino e pela beneficência, cativando assim todos os corações.

E' um quadro muito amplo êste do Apostolado de S. Paulo em Corinto, e sobretudo duma palpitante oportunidade para aquêles que nestes tempos têm por dever ensinar ao povo a doutrina de Jesus Cristo.

Por êste exemplo de S. Paulo se vê que, quem quiser ser Apóstolo, e conseguintemente benemérito da causa de Deus e da humanidade, não pode circunscrever a sua ação apostólica às quatro paredes do presbitério ou apenas dentro do templo. A sua ação tem de se exercer dum modo muito diverso; tem de aparecer em tôda a parte, destacando-se sempre pelas luzes do seu espírito, que devem iluminar, e pelas virtudes da sua alma que a todos devem edificar. E' preciso ir ao mundo para salvar o mundo.

Os primeiros sucessos da pregação de S. Paulo em Corinto foram entre o povo; as classes elevadas não aceitavam a palavra do grande Apóstolo. Não admira: aferrados aos seus preconceitos, escravos das suas paixões, no trono do seu orgulho, não querendo fitar desgraças nem sabendo enxugar lágrimas, não lhes soava bem uma doutrina que proclamava felizes os que choravam.

Ficassem êsses, revoltando-se no torvelinho dos seus crapulosos desmandos; os humildes, êsses iam formando, em muito pouco tempo, uma considerável cristandade. Quando frutificou a pregação de S. Paulo, inflamou-se a inveja dos judeus de Corinto, que se queixaram ao procônsul Galião, que pouco ou nenhum caso fêz da acusação, continuando S. Paulo em liberdade para pregar o Evangelho, o que fêz até ao ano 54 em que se retirou para a Palestina.

Estabelecida a Igreja entre os Coríntios, a breve trecho o Helenismo começa a causar uma certa perturbação nos espíritos, havendo uma tal ou qual cisão, agravada com a vinda de novos pregadores, que uns queriam escutar e a quem outros não queriam ouvir.

Daqui as controvérsias, as discussões estéreis, e a formação de vários partidos, e como consequência fatal os abusos. S. Paulo teve conhecimento dêste estado de coisas, amargurou-se extremamente e escreveu a sua Epístola.

Tempo e lugar em que foi escrita. — Esta epístola foi escrita na época em que se fazia a grande coleta para as Igrejas da Judéia; além disso havia dois anos que pregava a fé, e quatro ou cinco que tinha fundado a Igreja de Corinto, e ainda viviam muitos dos discípulos de Jesus que tinham presenciado a sua ressurreição, 1 Cor 15, 6. Por tudo isto os Padres assinam a esta epístola o ano 56. Quanto ao lugar não resta a menor dúvida que foi escrita em Éfeso, pois o próprio Apóstolo diz que ficara algum tempo em casa de Áquila e de Priscila, moradores nesta cidade durante a sua passagem por Corinto, 1 Cor 11, 19 cfr. At 13, 19-26.

Autenticidade. — Não se apresenta um fundamento sério para negar a autenticidade desta Epístola. Basta a sua leitura séria e refletida para trazer o convencimento indestrutível da sua autenticidade. A descrição dos trabalhos do autor, as recomendações doutrinais, as minudências a que chegou, os conselhos que dá, tudo o que aí se encontra só pode ser obra de S. Paulo.

Mas tôdas as considerações são supérfluas em face dos testemunhos decisivos dos Padres, da crença unânime dos fiéis. Além de Inácio Ad. Eph. 18, S. Policarpo, Ad Phil., a Epístola a Diognetes, nós temos um documento irrefragável em S. Clemente, papa, que, trinta anos mais tarde, escrevia aos Coríntios relembrando-lhes esta Epístola.

Divisão. — Esta Epístola difere muito da precedente, não só enquanto à matéria como enquanto à forma.

Esta Epístola não tem nada de dissertação nem de tratado dogmático, é uma série de avisos, reflexões, soluções dirigidas pelas circunstâncias e repartidas em sete artigos. Podemos contudo dividi-la da seguinte forma:

PRÓLOGO. — 1, 1-9.
PRIMEIRA SECÇÃO. — 1, 10-6, 20 Reforma dos abusos notados em Corinto.
    a) Abusos introduzidos por certos pregadores, cc. 1-4.
    b) Diversos escândalos dados por particulares, cc. 5 e 6.
SEGUNDA SECÇÃO. — Resposta às duvidas formuladas.
    a) Sôbre o casamento e sôbre o celibato, c. 7.
    b) Sôbre os manjares consagrados aos ídolos, cc. 8, 1-11, 1.
    c) Acêrca da ordem que deve reinar na assembléia religiosa, c. 11, 2-16.
    d) Do uso dos dons sobrenaturais, cc. 12-14.
    e) Sôbre a ressurreição, c. 15.

A leitura desta Epístola faz conhecer bem o espírito do Apóstolo e a primitiva disciplina da Igreja, ao mesmo tempo que revela o discernimento de S. Paulo, pois êle responde à carta que lhe fôra enviada pelas pessoas da casa de Cloé, à narração oral que lhe foi feita do estado da Igreja de Corinto, por Estéfanas e seus coadjutores, e as questões que os fiéis de Corinto propuseram ao seu critério para que êle lhes desse solução.

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