Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 4

Conceito que se deve fazer dos pregadores. Não os devemos julgar antes de tempo. Repreende o Apóstolo aos que se gloriavam dos dons que tinham recebido. Condição dos Apóstolos laboriosa, e desprezível aos olhos do mundo. Promete Paulo ir cedo ver os Coríntios.

1Os homens devem-nos considerar como uns ministros de Cristo: E como uns dispenseiros dos mistérios de Deus.

2Ora o que se deseja nos dispenseiros, é que êles se achem fiéis.

3A mim pois bem pouco se me dá de ser julgado de vós ou de qualquer outro homem: Pois nem ainda eu me julgo a mim mesmo.[1]ou de qualquer outro homemOU DE QUALQUER OUTRO HOMEM — Assim interpreta S. João Crisóstomo e com êle a torrente dos expositores, o que tanto no Grego como no Latim se diz, aut ab humano die, que tomado à letra quer dizer, ou pelo dia humano. Porque na frase dos hebreus se chama dia humano o juizo humano ou o juizo dos homens, como adverte S. Jerônimo na Carta a Algásia. E com efeito o nosso Almeida verteu aqui, ou de juizo de homem. — Pereira.

4Porque de nada me argúi a consciência: Mas nem por isso me dou por justificado: Pois o Senhor é quem me julga.

5Pelo que não julgueis antes de tempo, até que venha o Senhor: O qual não só porá às claras o que se acha escondido nas mais profundas trevas, mas descobrirá ainda o que há de mais secreto nos corações: E então cada um receberá de Deus o louvor.

6Mas eu, irmão, tenho representado estas coisas na minha pessoa e na de Apolo, por amor de vós: Para que em nós outros aprendais, que um por causa de outro não se ensoberbeça contra outro fora do que está escrito.

7Porque quem é o que te diferença? E que tens tu que não recebesses? Se porém o recebeste, por que te glorias, como se o não tiveras recebido?

8Vós já estais fartos, já estais ricos: Vós reinais sem nós: E praza a Deus que reineis, para também nós reinarmos convosco.

9Porque entendo que Deus nos tem pôsto pelos últimos dos Apóstolos, como sentenciados à morte: Porque somos feitos espetáculo ao mundo, e aos Anjos, e aos homens.

10Nós néscios por Cristo, e vós sábios em Cristo: Nós fracos, e vós fortes: Vós nobres, e nós desprezíveis.

11Até esta hora padecemos até fome, e sêde, e desnudez, e somos esbofeteados, e não temos morada segura.

12E trabalhamos obrando por nossas próprias mãos: Amaldiçoam-nos, e bendizemos: Perseguem-nos, e sofremos.

13Somos blasfemados, e rogamos: Temos chegado a ser como a imundícia deste mundo, como a escória de todos até agora.[2]como a escória de todos até agoraCOMO A ESCÓRIA DE TODOS — Os gentios em tempo de peste, ou de outro mal público, costumavam sacrificar a Netuno algum homem, que precipitavam no mar, desde o alto de um rochedo, dizendo-lhe ao mesmo tempo: Sis pro nobis peripsema, sê tu a vítima que nos salve a nós e à nossa cidade. Veja-se Suides. E assim o sentido dêste lugar parece ser êste: Somos tão detestáveis para com o vulgo dos gentios; como o eram aqueles que, carregados de maldições, despenhavam ou precipitavam no mar, pelo bem público.

14Eu não vos escrevo isto, para vos envergonhar, mas admoesto-vos como a filhos meus, que muito amo.

15Porque ainda que tenhais dez mil Aios em Cristo, não teríeis todavia muitos pais. Pois eu sou o que vos gerei em Jesus Cristo pelo Evangelho.

16Rogo-vos pois que sejais meus imitadores, como também eu o sou de Cristo.

17Por isso é que vos enviei Timóteo, que é meu filho muito amado, e fiel no Senhor: Que vos fará saber os meus caminhos, que são em Jesus Cristo, como eu ensino por tôdas as partes em cada Igreja.

18Alguns andam inchados, como se eu não houvesse de ir ter convosco.

19Mas brevemente irei ter convosco, se o Senhor quiser: E examinarei, não as palavras dos que assim andam inchados, mas a virtude.

20Porque o reino de Deus não consiste nas palavras, mas na virtude.

21Que quereis? irei a vós outros com vara, ou com caridade, e espírito de mansidão?

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Causa determinante desta Epístola.Corinto, a capital de Acaia, era uma cidade declarada colônia romana por Julio César, a primeira da Grécia, pois contava cêrca de seiscentos mil habitantes de todas as nacionalidades, Latinos, Gregos, Judeus, etc. A tão grande e variada população correspondia naturalmente singular opulência, notabilizando-se pela sua vasta atividade e pelo seu luxo. Cícero chamava-lhe Totius Graeciae lumen. A sua posição geográfica, no istmo que une o Peloponeso à Grécia, entre o mar Egeu ao Oriente e o Jônio ao Ocidente, tornava Corinto um importante centro comercial. O comércio imprimia opulência à cidade, e esta aproveitava-se dessa riqueza para se entregar ao luxo e aos prazeres imoderadamente. O espetáculo que a cidade oferecia era de tal ponto dissolvente, que as orgias de agora não são senão pálida sombra de devassidão de então. O culto mais propagado e porventura o único praticado era o de Vênus. Compreende-se portanto bem quanto era árido o terreno sôbre que havia de cair a semente da palavra divina.

Era assim Corinto, a cidade que mais timbrava na corrupção de costumes, que inventava requintes da mais pervertida voluptuosidade no templo de Afrodite, quando S. Paulo, depois dos seus trabalhos Apostólicos na Macedônia, se resolveu ir ali pregar o Evangelho.

Que Corinto, pela sua posição, pela sua importância, pela sua riqueza, lhe oferecia vantagens extraordinárias ao seu Apostolado, fàcilmente se compreende, como se percebe também o desejo do Apóstolo a chegar até ali. Porém como pregar a castidade onde reinava a mais desenfreada crápula? Como pregar penitência e abnegação a quem vivia só da matéria e para a matéria? Por isso às primeiras tentativas seguiu-se o mais desanimador insucesso. E S. Paulo teve de se recolher em casa dum judeu converso, recentemente chegado de Roma, e de procurar pelo trabalho o indispensável para a sua sustentação (At 23, 2). E como se isto não bastasse para atormentar aquêle coração inflamado em zêlo pela salvação de tantas almas imersas no êrro, veio a enfermidade roubar-lhe as fôrças e tolher-lhe o seu apostolado. Todavia não desanimou, e apesar de pobre, fraco e doente, começou a ir ao sábado à sinagoga pregar, mas com uma certa timidez. Continuou o insucesso. Era preciso que a posteridade recolhesse uma lição de constância e de perseverança, era preciso tudo isto para que no decorrer dos séculos os apóstolos, a quem cumpre pregar a Jesus Cristo, aprendessem ali a firmeza no desempenho da sua missão.

Vendo S. Paulo que por êsse lado pouco conseguia, deixou a sinagoga, e abriu em casa de um prosélito uma escola para os pagãos. Foi então que êle mereceu uma visão que lhe encheu a alma de esperança, pois lhe era anunciado que ali estava o germen duma grande cristandade. Redobra o seu zêlo, multiplica a sua atividade, vence a sua própria fraqueza, cogita novas industrias para converter corações endurecidos, inicia rasgadamente a sua pregação, supera tôdas as dificuldades, e dá começo a uma ação apostólica, que se traduzia pelo ensino e pela beneficência, cativando assim todos os corações.

E' um quadro muito amplo êste do Apostolado de S. Paulo em Corinto, e sobretudo duma palpitante oportunidade para aquêles que nestes tempos têm por dever ensinar ao povo a doutrina de Jesus Cristo.

Por êste exemplo de S. Paulo se vê que, quem quiser ser Apóstolo, e conseguintemente benemérito da causa de Deus e da humanidade, não pode circunscrever a sua ação apostólica às quatro paredes do presbitério ou apenas dentro do templo. A sua ação tem de se exercer dum modo muito diverso; tem de aparecer em tôda a parte, destacando-se sempre pelas luzes do seu espírito, que devem iluminar, e pelas virtudes da sua alma que a todos devem edificar. E' preciso ir ao mundo para salvar o mundo.

Os primeiros sucessos da pregação de S. Paulo em Corinto foram entre o povo; as classes elevadas não aceitavam a palavra do grande Apóstolo. Não admira: aferrados aos seus preconceitos, escravos das suas paixões, no trono do seu orgulho, não querendo fitar desgraças nem sabendo enxugar lágrimas, não lhes soava bem uma doutrina que proclamava felizes os que choravam.

Ficassem êsses, revoltando-se no torvelinho dos seus crapulosos desmandos; os humildes, êsses iam formando, em muito pouco tempo, uma considerável cristandade. Quando frutificou a pregação de S. Paulo, inflamou-se a inveja dos judeus de Corinto, que se queixaram ao procônsul Galião, que pouco ou nenhum caso fêz da acusação, continuando S. Paulo em liberdade para pregar o Evangelho, o que fêz até ao ano 54 em que se retirou para a Palestina.

Estabelecida a Igreja entre os Coríntios, a breve trecho o Helenismo começa a causar uma certa perturbação nos espíritos, havendo uma tal ou qual cisão, agravada com a vinda de novos pregadores, que uns queriam escutar e a quem outros não queriam ouvir.

Daqui as controvérsias, as discussões estéreis, e a formação de vários partidos, e como consequência fatal os abusos. S. Paulo teve conhecimento dêste estado de coisas, amargurou-se extremamente e escreveu a sua Epístola.

Tempo e lugar em que foi escrita. — Esta epístola foi escrita na época em que se fazia a grande coleta para as Igrejas da Judéia; além disso havia dois anos que pregava a fé, e quatro ou cinco que tinha fundado a Igreja de Corinto, e ainda viviam muitos dos discípulos de Jesus que tinham presenciado a sua ressurreição, 1 Cor 15, 6. Por tudo isto os Padres assinam a esta epístola o ano 56. Quanto ao lugar não resta a menor dúvida que foi escrita em Éfeso, pois o próprio Apóstolo diz que ficara algum tempo em casa de Áquila e de Priscila, moradores nesta cidade durante a sua passagem por Corinto, 1 Cor 11, 19 cfr. At 13, 19-26.

Autenticidade. — Não se apresenta um fundamento sério para negar a autenticidade desta Epístola. Basta a sua leitura séria e refletida para trazer o convencimento indestrutível da sua autenticidade. A descrição dos trabalhos do autor, as recomendações doutrinais, as minudências a que chegou, os conselhos que dá, tudo o que aí se encontra só pode ser obra de S. Paulo.

Mas tôdas as considerações são supérfluas em face dos testemunhos decisivos dos Padres, da crença unânime dos fiéis. Além de Inácio Ad. Eph. 18, S. Policarpo, Ad Phil., a Epístola a Diognetes, nós temos um documento irrefragável em S. Clemente, papa, que, trinta anos mais tarde, escrevia aos Coríntios relembrando-lhes esta Epístola.

Divisão. — Esta Epístola difere muito da precedente, não só enquanto à matéria como enquanto à forma.

Esta Epístola não tem nada de dissertação nem de tratado dogmático, é uma série de avisos, reflexões, soluções dirigidas pelas circunstâncias e repartidas em sete artigos. Podemos contudo dividi-la da seguinte forma:

PRÓLOGO. — 1, 1-9.
PRIMEIRA SECÇÃO. — 1, 10-6, 20 Reforma dos abusos notados em Corinto.
    a) Abusos introduzidos por certos pregadores, cc. 1-4.
    b) Diversos escândalos dados por particulares, cc. 5 e 6.
SEGUNDA SECÇÃO. — Resposta às duvidas formuladas.
    a) Sôbre o casamento e sôbre o celibato, c. 7.
    b) Sôbre os manjares consagrados aos ídolos, cc. 8, 1-11, 1.
    c) Acêrca da ordem que deve reinar na assembléia religiosa, c. 11, 2-16.
    d) Do uso dos dons sobrenaturais, cc. 12-14.
    e) Sôbre a ressurreição, c. 15.

A leitura desta Epístola faz conhecer bem o espírito do Apóstolo e a primitiva disciplina da Igreja, ao mesmo tempo que revela o discernimento de S. Paulo, pois êle responde à carta que lhe fôra enviada pelas pessoas da casa de Cloé, à narração oral que lhe foi feita do estado da Igreja de Corinto, por Estéfanas e seus coadjutores, e as questões que os fiéis de Corinto propuseram ao seu critério para que êle lhes desse solução.

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