Capítulo 9
1Não sou eu livre? Não sou Apóstolo? Não vi eu a nosso Senhor Jesus Cristo? Não sois vós obra minha no Senhor?[1]Não sou eu livre? — NÃO SOU EU LIVRE? — Chama-se livre o Apóstolo no sentido que êle declara no verso 4. Como se dissera: Não sou eu livre como êsses vossos doutores, que tanto fazem valer a liberdade, que lhes dá o Evangelho?
2E quando eu não seja Apóstolo a respeito de outros, ao menos sou-o a respeito de vós, porque vós sois o sêlo do meu Apostolado no Senhor.
3Esta é a minha defesa contra aqueles que me perguntam:
4Porventura não temos nós direito de comer e de beber?[2]de comer e de beber — DE COMER E DE BEBER? — Segundo o preceito do Senhor por Lc 10, 7 "Deixai-vos estar na mesma casa comendo e bebendo do que ha nela, porque o trabalhador é digno do seu jornal". — Pereira.
5Acaso não temos nós poder para levar por tôda a parte uma mulher irmã, assim como também os outros Apóstolos e os irmãos do Senhor e Cefas?[3]uma mulher irmã — UMA MULHER IRMÃ — Era êste um costume recebido entre os Judeus, (diz S. Jerônimo) serem as mulheres as que de seus bens assistiam a seus mestres. Assim lemos em Mt 28, 55, e em Lc 8, 3, que foram muitas as que acompanhavam o Senhor, ministrando-lhe o necessário do seu. Destas, que por semelhante modo e pelo mesmo fim acompanhavam os Apóstolos, fala também S. Paulo escrevendo aos Coríntios; se bem que para evitar o escândalo, que êste costume dos judeus podia causar nos gentios, diz o Apóstolo que se abstivera de o praticar. S. Jerônimo no Comentário a S. Mateus, e no livro 1, contra Joviniano, capítulo 14. E OS IRMÃOS DO SENHOR — Irmãos do Senhor aqui, como no Evangelho, são os primos do Senhor, segundo o modo de falar dos judeus. E tais eram, segundo o Evangelho, S. Tiago Menor, S. Simão e S. Tadeu, como já tem sido dito muitas vezes. E CEFAS — Já advertimos noutras partes, que Cefas era S. Pedro. E em nomeá-lo aqui S. Paulo em último lugar, depois de nomear os principais Apóstolos, (quais eram os irmãos, ou primos do Senhor) dá êle a entender, que S. Pedro era o Príncipe e Cabeça visível de todos. Porque é o mesmo que se dissesse o Apóstolo: Porventura não poderemos nós fazer o que fazem os mais Apóstolos e os mesmos que são irmãos do Senhor, e até o mesmo Cefas? No qual modo de falar ninguém deixa de ver que Cefas se supõe maior que todos.
6Ou eu só, e Barnabé, não temos poder de fazer isto?
7Quem jamais vai à guerra à sua custa? Quem planta uma vinha, e não come de seu fruto? Quem apascenta um rebanho, e não come do leite do rebanho?[4]Quem jamais vai à guerra à sua custa — QUEM JAMAIS VAI À GUERRA — Com êstes três exemplos do soldado, do agricultor e do pastor, que todos vivem do seu mesmo exercício, prova o Apóstolo, que também os Ministros do Evangelho devem viver do Evangelho. E o demorar-se o Apóstolo nos seguintes versos em confirmar ainda com outras razões o direito, que os Pastores têm, a que os sustentem os Fiéis, que são como suas ovelhas, mostra de mais a mais, que os Coríntios tinham como mais de ricos que de largos. — Pereira.
8Porventura digo eu isto como homem? Ou não o diz também a lei?
9Porque escrito está na lei de Moisés: Não atarás a bôca ao boi que debulha. Acaso tem Deus cuidado dos bois?[5]Acaso tem Deus cuidado dos bois — ACASO TEM DEUS CUIDADO DOS BOIS? — Tem Deus maior cuidado dos bois, que de nós? Ou, se Deus tem êste cuidado dos bois, acaso não o terá de nós? e não é êste o sentido principal desta lei? — S. João Crisóstomo e S. Tomás.
10Não é antes por nós mesmos que êle diz isto? Por certo que por nós é que estão escritas estas coisas: Porque o que lavra, deve lavrar com esperança: E o que debulha, deve-o fazer com esperança de perceber os frutos.
11Se nós vos semeamos as coisas espirituais, é porventura muito se recolhermos as temporalidades que vos pertencem?
12Se outros participam dêste poder sôbre vós, por que não mais justamente nós? mas não temos feito uso dêste poder: Antes sofremos tudo por não ocasionarmos algum obstáculo ao Evangelho de Cristo.[6]Antes sofremos tudo — ANTES SOFREMOS TUDO — Tudo, isto é, todos os males e incômodos, que nascem do não uso do sobredito poder, como são a fome, a sêde, a desnudez, o frio, as vigílias, o trabalho de mãos e outros, que o mesmo Apóstolo declara na segunda aos Coríntios, cap. 6 e cap. 11.
13Não sabeis que os que trabalham no Santuário, comem do que é do Santuário: E que os que servem ao altar, participam justamente do altar?
14Por êste modo ordenou também o Senhor aos que pregam o Evangelho, que vivessem do Evangelho.[7]que vivessem do Evangelho — POR ÊSTE MODO ORDENOU TAMBÉM O SENHOR — Esta ordenação do Senhor é expressa em Mt 10, 10, e em Lc 10, 7. Por ela têm os ministros da palavra de Deus e dos Sacramentos, direito a que os fiéis os sustentem e provenham do necessário, e os fiéis obrigação de justiça de assim o fazerem, como o Apóstolo também ensinou e provou na Epístola aos Romanos, 15, 27. E o não quererem usar dêste direito S. Paulo e S. Barnabé, como aqui lemos, foi um ato de grande e perfeita caridade, qual é também hoje o daqueles Regulares, que, imitando o exemplo dos dois Santos Apóstolos, exercitam o ministério de pregar, confessar e dar a sagrada Comunhão, sustentando-se ao mesmo tempo do que mendigam como esmola. Mas daqui se infere que a sustentação do clero deve ser feita pelas ofertas dos fiéis, legados, dioceses, etc., nunca por ordenados estipulados, que o equiparariam a funcionalismo civil, algemando-o também àqueles que lhe satisfizessem o salário, ficando sem a independência indispensável ao desempenho do seu cargo.
15Porém eu de nada disto tenho usado. Nem tão pouco tenho escrito isto, para que se faça assim comigo: Porque tenho por melhor morrer antes que algum me faça perder esta glória.
16Porquanto se prego o Evangelho não tenho de que gloriar-me: Pois me é imposta essa obrigação: Porque ai de mim se eu não evangelizar.
17Pelo que se o faço de vontade, terei prêmio: E se for por fôrça, a dispensação me veio só a ser encarregada.
18Qual é portanto a minha recompensa? Que pregando o Evangelho, dispense eu o Evangelho, sem causar gasto, para não abusar do meu poder no Evangelho.[8]do meu poder no Evangelho — DO MEU PODER — E receber daqueles a quem prego, o necessário para me alimentar. — Sacy.
19Porque sendo livre para com todos, me fiz servo de todos, para ganhar muitos mais.[9]me fiz servo de todos — LIVRE PARA COM TODOS — Porque não estando sujeito a nenhuma pessoa particular.
20E me fiz para os judeus como judeu, para ganhar os judeus:
21Para os que estão debaixo da lei, como se eu estivera debaixo da lei, (não me achando eu debaixo da lei) por ganhar aqueles que estavam debaixo da lei: Para os que estavam sem lei, como se eu estivera sem lei, (ainda que não estava sem a lei de Deus: Mas estando na lei de Cristo) por ganhar os que estavam sem lei.
22Fiz-me fraco com os fracos, por ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, por salvar a todos.[10]Fiz-me tudo para todos — FIZ-ME TUDO PARA TODOS — Quer dizer que, quando a lei de Deus o permitia, êle se acomodava aos costumes, gênios, afetos e inclinações de todos, para os ganhar para Cristo, que é o que no glorioso S. Francisco de Sales, bispo de Genebra, louva também a Igreja, que escolheu esta divisa omnia omnibus.
23E tudo faço pelo Evangelho: Para dêle me fazer participante.
24Não sabeis que os que correm no Estádio, correm sim todos, mas um só é que leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis.[11]Correi de tal maneira que o alcanceis — NO ESTÁDIO — Em que na Grécia os atletas se exercitavam correndo; em Corinto havia êstes mesmos jogos.
25E todo aquele que tem de contender, de tudo se abstém, e aqueles certamente por alcançar uma coroa corruptível: Nós porém uma incorruptível.[12]Nós porém uma incorruptível — DE TUDO SE ABSTEM — De tudo o que pode diminuir as fôrças.
26Pois eu assim corro, não como a coisa incerta; assim pelejo, não como quem açoita o ar:
27Mas castigo o meu corpo, e o reduzo à servidão: Para que não suceda que havendo pregado aos outros, venha eu mesmo a ser reprovado.[13]venha eu mesmo a ser reprovado — PARA QUE NÃO SUCEDA QUE — Se Paulo assim temeu, (nota aqui S. João Crisóstomo) tendo ensinado e pregado a tantos, que diremos nós? E Santo Agostinho faz esta outra reflexão: O Apóstolo com o seu temor nos atemoriza. Porque que fará o cordeiro, quando assim treme o Leão?