Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 9

Ainda que o Apóstolo tinha direito de pedir aos Coríntios que o provessem do necessário: diz êle que o não fizera, por não lhes ser pesado. Tudo sofre Paulo por adiantar a fé. Nós todos corremos no curro. Paulo nos anima com o seu exemplo ao que devemos fazer.

1Não sou eu livre? Não sou Apóstolo? Não vi eu a nosso Senhor Jesus Cristo? Não sois vós obra minha no Senhor?[1]Não sou eu livre?NÃO SOU EU LIVRE? — Chama-se livre o Apóstolo no sentido que êle declara no verso 4. Como se dissera: Não sou eu livre como êsses vossos doutores, que tanto fazem valer a liberdade, que lhes dá o Evangelho?

2E quando eu não seja Apóstolo a respeito de outros, ao menos sou-o a respeito de vós, porque vós sois o sêlo do meu Apostolado no Senhor.

3Esta é a minha defesa contra aqueles que me perguntam:

4Porventura não temos nós direito de comer e de beber?[2]de comer e de beberDE COMER E DE BEBER? — Segundo o preceito do Senhor por Lc 10, 7 "Deixai-vos estar na mesma casa comendo e bebendo do que ha nela, porque o trabalhador é digno do seu jornal". — Pereira.

5Acaso não temos nós poder para levar por tôda a parte uma mulher irmã, assim como também os outros Apóstolos e os irmãos do Senhor e Cefas?[3]uma mulher irmãUMA MULHER IRMÃ — Era êste um costume recebido entre os Judeus, (diz S. Jerônimo) serem as mulheres as que de seus bens assistiam a seus mestres. Assim lemos em Mt 28, 55, e em Lc 8, 3, que foram muitas as que acompanhavam o Senhor, ministrando-lhe o necessário do seu. Destas, que por semelhante modo e pelo mesmo fim acompanhavam os Apóstolos, fala também S. Paulo escrevendo aos Coríntios; se bem que para evitar o escândalo, que êste costume dos judeus podia causar nos gentios, diz o Apóstolo que se abstivera de o praticar. S. Jerônimo no Comentário a S. Mateus, e no livro 1, contra Joviniano, capítulo 14. E OS IRMÃOS DO SENHOR — Irmãos do Senhor aqui, como no Evangelho, são os primos do Senhor, segundo o modo de falar dos judeus. E tais eram, segundo o Evangelho, S. Tiago Menor, S. Simão e S. Tadeu, como já tem sido dito muitas vezes. E CEFAS — Já advertimos noutras partes, que Cefas era S. Pedro. E em nomeá-lo aqui S. Paulo em último lugar, depois de nomear os principais Apóstolos, (quais eram os irmãos, ou primos do Senhor) dá êle a entender, que S. Pedro era o Príncipe e Cabeça visível de todos. Porque é o mesmo que se dissesse o Apóstolo: Porventura não poderemos nós fazer o que fazem os mais Apóstolos e os mesmos que são irmãos do Senhor, e até o mesmo Cefas? No qual modo de falar ninguém deixa de ver que Cefas se supõe maior que todos.

6Ou eu só, e Barnabé, não temos poder de fazer isto?

7Quem jamais vai à guerra à sua custa? Quem planta uma vinha, e não come de seu fruto? Quem apascenta um rebanho, e não come do leite do rebanho?[4]Quem jamais vai à guerra à sua custaQUEM JAMAIS VAI À GUERRA — Com êstes três exemplos do soldado, do agricultor e do pastor, que todos vivem do seu mesmo exercício, prova o Apóstolo, que também os Ministros do Evangelho devem viver do Evangelho. E o demorar-se o Apóstolo nos seguintes versos em confirmar ainda com outras razões o direito, que os Pastores têm, a que os sustentem os Fiéis, que são como suas ovelhas, mostra de mais a mais, que os Coríntios tinham como mais de ricos que de largos. — Pereira.

8Porventura digo eu isto como homem? Ou não o diz também a lei?

9Porque escrito está na lei de Moisés: Não atarás a bôca ao boi que debulha. Acaso tem Deus cuidado dos bois?[5]Acaso tem Deus cuidado dos boisACASO TEM DEUS CUIDADO DOS BOIS? — Tem Deus maior cuidado dos bois, que de nós? Ou, se Deus tem êste cuidado dos bois, acaso não o terá de nós? e não é êste o sentido principal desta lei? — S. João Crisóstomo e S. Tomás.

10Não é antes por nós mesmos que êle diz isto? Por certo que por nós é que estão escritas estas coisas: Porque o que lavra, deve lavrar com esperança: E o que debulha, deve-o fazer com esperança de perceber os frutos.

11Se nós vos semeamos as coisas espirituais, é porventura muito se recolhermos as temporalidades que vos pertencem?

12Se outros participam dêste poder sôbre vós, por que não mais justamente nós? mas não temos feito uso dêste poder: Antes sofremos tudo por não ocasionarmos algum obstáculo ao Evangelho de Cristo.[6]Antes sofremos tudoANTES SOFREMOS TUDO — Tudo, isto é, todos os males e incômodos, que nascem do não uso do sobredito poder, como são a fome, a sêde, a desnudez, o frio, as vigílias, o trabalho de mãos e outros, que o mesmo Apóstolo declara na segunda aos Coríntios, cap. 6 e cap. 11.

13Não sabeis que os que trabalham no Santuário, comem do que é do Santuário: E que os que servem ao altar, participam justamente do altar?

14Por êste modo ordenou também o Senhor aos que pregam o Evangelho, que vivessem do Evangelho.[7]que vivessem do EvangelhoPOR ÊSTE MODO ORDENOU TAMBÉM O SENHOR — Esta ordenação do Senhor é expressa em Mt 10, 10, e em Lc 10, 7. Por ela têm os ministros da palavra de Deus e dos Sacramentos, direito a que os fiéis os sustentem e provenham do necessário, e os fiéis obrigação de justiça de assim o fazerem, como o Apóstolo também ensinou e provou na Epístola aos Romanos, 15, 27. E o não quererem usar dêste direito S. Paulo e S. Barnabé, como aqui lemos, foi um ato de grande e perfeita caridade, qual é também hoje o daqueles Regulares, que, imitando o exemplo dos dois Santos Apóstolos, exercitam o ministério de pregar, confessar e dar a sagrada Comunhão, sustentando-se ao mesmo tempo do que mendigam como esmola. Mas daqui se infere que a sustentação do clero deve ser feita pelas ofertas dos fiéis, legados, dioceses, etc., nunca por ordenados estipulados, que o equiparariam a funcionalismo civil, algemando-o também àqueles que lhe satisfizessem o salário, ficando sem a independência indispensável ao desempenho do seu cargo.

15Porém eu de nada disto tenho usado. Nem tão pouco tenho escrito isto, para que se faça assim comigo: Porque tenho por melhor morrer antes que algum me faça perder esta glória.

16Porquanto se prego o Evangelho não tenho de que gloriar-me: Pois me é imposta essa obrigação: Porque ai de mim se eu não evangelizar.

17Pelo que se o faço de vontade, terei prêmio: E se for por fôrça, a dispensação me veio só a ser encarregada.

18Qual é portanto a minha recompensa? Que pregando o Evangelho, dispense eu o Evangelho, sem causar gasto, para não abusar do meu poder no Evangelho.[8]do meu poder no EvangelhoDO MEU PODER — E receber daqueles a quem prego, o necessário para me alimentar. — Sacy.

19Porque sendo livre para com todos, me fiz servo de todos, para ganhar muitos mais.[9]me fiz servo de todosLIVRE PARA COM TODOS — Porque não estando sujeito a nenhuma pessoa particular.

20E me fiz para os judeus como judeu, para ganhar os judeus:

21Para os que estão debaixo da lei, como se eu estivera debaixo da lei, (não me achando eu debaixo da lei) por ganhar aqueles que estavam debaixo da lei: Para os que estavam sem lei, como se eu estivera sem lei, (ainda que não estava sem a lei de Deus: Mas estando na lei de Cristo) por ganhar os que estavam sem lei.

22Fiz-me fraco com os fracos, por ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, por salvar a todos.[10]Fiz-me tudo para todosFIZ-ME TUDO PARA TODOS — Quer dizer que, quando a lei de Deus o permitia, êle se acomodava aos costumes, gênios, afetos e inclinações de todos, para os ganhar para Cristo, que é o que no glorioso S. Francisco de Sales, bispo de Genebra, louva também a Igreja, que escolheu esta divisa omnia omnibus.

23E tudo faço pelo Evangelho: Para dêle me fazer participante.

24Não sabeis que os que correm no Estádio, correm sim todos, mas um só é que leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis.[11]Correi de tal maneira que o alcanceisNO ESTÁDIO — Em que na Grécia os atletas se exercitavam correndo; em Corinto havia êstes mesmos jogos.

25E todo aquele que tem de contender, de tudo se abstém, e aqueles certamente por alcançar uma coroa corruptível: Nós porém uma incorruptível.[12]Nós porém uma incorruptívelDE TUDO SE ABSTEM — De tudo o que pode diminuir as fôrças.

26Pois eu assim corro, não como a coisa incerta; assim pelejo, não como quem açoita o ar:

27Mas castigo o meu corpo, e o reduzo à servidão: Para que não suceda que havendo pregado aos outros, venha eu mesmo a ser reprovado.[13]venha eu mesmo a ser reprovadoPARA QUE NÃO SUCEDA QUE — Se Paulo assim temeu, (nota aqui S. João Crisóstomo) tendo ensinado e pregado a tantos, que diremos nós? E Santo Agostinho faz esta outra reflexão: O Apóstolo com o seu temor nos atemoriza. Porque que fará o cordeiro, quando assim treme o Leão?

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Causa determinante desta Epístola.Corinto, a capital de Acaia, era uma cidade declarada colônia romana por Julio César, a primeira da Grécia, pois contava cêrca de seiscentos mil habitantes de todas as nacionalidades, Latinos, Gregos, Judeus, etc. A tão grande e variada população correspondia naturalmente singular opulência, notabilizando-se pela sua vasta atividade e pelo seu luxo. Cícero chamava-lhe Totius Graeciae lumen. A sua posição geográfica, no istmo que une o Peloponeso à Grécia, entre o mar Egeu ao Oriente e o Jônio ao Ocidente, tornava Corinto um importante centro comercial. O comércio imprimia opulência à cidade, e esta aproveitava-se dessa riqueza para se entregar ao luxo e aos prazeres imoderadamente. O espetáculo que a cidade oferecia era de tal ponto dissolvente, que as orgias de agora não são senão pálida sombra de devassidão de então. O culto mais propagado e porventura o único praticado era o de Vênus. Compreende-se portanto bem quanto era árido o terreno sôbre que havia de cair a semente da palavra divina.

Era assim Corinto, a cidade que mais timbrava na corrupção de costumes, que inventava requintes da mais pervertida voluptuosidade no templo de Afrodite, quando S. Paulo, depois dos seus trabalhos Apostólicos na Macedônia, se resolveu ir ali pregar o Evangelho.

Que Corinto, pela sua posição, pela sua importância, pela sua riqueza, lhe oferecia vantagens extraordinárias ao seu Apostolado, fàcilmente se compreende, como se percebe também o desejo do Apóstolo a chegar até ali. Porém como pregar a castidade onde reinava a mais desenfreada crápula? Como pregar penitência e abnegação a quem vivia só da matéria e para a matéria? Por isso às primeiras tentativas seguiu-se o mais desanimador insucesso. E S. Paulo teve de se recolher em casa dum judeu converso, recentemente chegado de Roma, e de procurar pelo trabalho o indispensável para a sua sustentação (At 23, 2). E como se isto não bastasse para atormentar aquêle coração inflamado em zêlo pela salvação de tantas almas imersas no êrro, veio a enfermidade roubar-lhe as fôrças e tolher-lhe o seu apostolado. Todavia não desanimou, e apesar de pobre, fraco e doente, começou a ir ao sábado à sinagoga pregar, mas com uma certa timidez. Continuou o insucesso. Era preciso que a posteridade recolhesse uma lição de constância e de perseverança, era preciso tudo isto para que no decorrer dos séculos os apóstolos, a quem cumpre pregar a Jesus Cristo, aprendessem ali a firmeza no desempenho da sua missão.

Vendo S. Paulo que por êsse lado pouco conseguia, deixou a sinagoga, e abriu em casa de um prosélito uma escola para os pagãos. Foi então que êle mereceu uma visão que lhe encheu a alma de esperança, pois lhe era anunciado que ali estava o germen duma grande cristandade. Redobra o seu zêlo, multiplica a sua atividade, vence a sua própria fraqueza, cogita novas industrias para converter corações endurecidos, inicia rasgadamente a sua pregação, supera tôdas as dificuldades, e dá começo a uma ação apostólica, que se traduzia pelo ensino e pela beneficência, cativando assim todos os corações.

E' um quadro muito amplo êste do Apostolado de S. Paulo em Corinto, e sobretudo duma palpitante oportunidade para aquêles que nestes tempos têm por dever ensinar ao povo a doutrina de Jesus Cristo.

Por êste exemplo de S. Paulo se vê que, quem quiser ser Apóstolo, e conseguintemente benemérito da causa de Deus e da humanidade, não pode circunscrever a sua ação apostólica às quatro paredes do presbitério ou apenas dentro do templo. A sua ação tem de se exercer dum modo muito diverso; tem de aparecer em tôda a parte, destacando-se sempre pelas luzes do seu espírito, que devem iluminar, e pelas virtudes da sua alma que a todos devem edificar. E' preciso ir ao mundo para salvar o mundo.

Os primeiros sucessos da pregação de S. Paulo em Corinto foram entre o povo; as classes elevadas não aceitavam a palavra do grande Apóstolo. Não admira: aferrados aos seus preconceitos, escravos das suas paixões, no trono do seu orgulho, não querendo fitar desgraças nem sabendo enxugar lágrimas, não lhes soava bem uma doutrina que proclamava felizes os que choravam.

Ficassem êsses, revoltando-se no torvelinho dos seus crapulosos desmandos; os humildes, êsses iam formando, em muito pouco tempo, uma considerável cristandade. Quando frutificou a pregação de S. Paulo, inflamou-se a inveja dos judeus de Corinto, que se queixaram ao procônsul Galião, que pouco ou nenhum caso fêz da acusação, continuando S. Paulo em liberdade para pregar o Evangelho, o que fêz até ao ano 54 em que se retirou para a Palestina.

Estabelecida a Igreja entre os Coríntios, a breve trecho o Helenismo começa a causar uma certa perturbação nos espíritos, havendo uma tal ou qual cisão, agravada com a vinda de novos pregadores, que uns queriam escutar e a quem outros não queriam ouvir.

Daqui as controvérsias, as discussões estéreis, e a formação de vários partidos, e como consequência fatal os abusos. S. Paulo teve conhecimento dêste estado de coisas, amargurou-se extremamente e escreveu a sua Epístola.

Tempo e lugar em que foi escrita. — Esta epístola foi escrita na época em que se fazia a grande coleta para as Igrejas da Judéia; além disso havia dois anos que pregava a fé, e quatro ou cinco que tinha fundado a Igreja de Corinto, e ainda viviam muitos dos discípulos de Jesus que tinham presenciado a sua ressurreição, 1 Cor 15, 6. Por tudo isto os Padres assinam a esta epístola o ano 56. Quanto ao lugar não resta a menor dúvida que foi escrita em Éfeso, pois o próprio Apóstolo diz que ficara algum tempo em casa de Áquila e de Priscila, moradores nesta cidade durante a sua passagem por Corinto, 1 Cor 11, 19 cfr. At 13, 19-26.

Autenticidade. — Não se apresenta um fundamento sério para negar a autenticidade desta Epístola. Basta a sua leitura séria e refletida para trazer o convencimento indestrutível da sua autenticidade. A descrição dos trabalhos do autor, as recomendações doutrinais, as minudências a que chegou, os conselhos que dá, tudo o que aí se encontra só pode ser obra de S. Paulo.

Mas tôdas as considerações são supérfluas em face dos testemunhos decisivos dos Padres, da crença unânime dos fiéis. Além de Inácio Ad. Eph. 18, S. Policarpo, Ad Phil., a Epístola a Diognetes, nós temos um documento irrefragável em S. Clemente, papa, que, trinta anos mais tarde, escrevia aos Coríntios relembrando-lhes esta Epístola.

Divisão. — Esta Epístola difere muito da precedente, não só enquanto à matéria como enquanto à forma.

Esta Epístola não tem nada de dissertação nem de tratado dogmático, é uma série de avisos, reflexões, soluções dirigidas pelas circunstâncias e repartidas em sete artigos. Podemos contudo dividi-la da seguinte forma:

PRÓLOGO. — 1, 1-9.
PRIMEIRA SECÇÃO. — 1, 10-6, 20 Reforma dos abusos notados em Corinto.
    a) Abusos introduzidos por certos pregadores, cc. 1-4.
    b) Diversos escândalos dados por particulares, cc. 5 e 6.
SEGUNDA SECÇÃO. — Resposta às duvidas formuladas.
    a) Sôbre o casamento e sôbre o celibato, c. 7.
    b) Sôbre os manjares consagrados aos ídolos, cc. 8, 1-11, 1.
    c) Acêrca da ordem que deve reinar na assembléia religiosa, c. 11, 2-16.
    d) Do uso dos dons sobrenaturais, cc. 12-14.
    e) Sôbre a ressurreição, c. 15.

A leitura desta Epístola faz conhecer bem o espírito do Apóstolo e a primitiva disciplina da Igreja, ao mesmo tempo que revela o discernimento de S. Paulo, pois êle responde à carta que lhe fôra enviada pelas pessoas da casa de Cloé, à narração oral que lhe foi feita do estado da Igreja de Corinto, por Estéfanas e seus coadjutores, e as questões que os fiéis de Corinto propuseram ao seu critério para que êle lhes desse solução.

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