Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 6

Leva a mal o Apóstolo que os Coríntios se demandem uns aos outros perante os juizes gentios. Nem permite que ainda entre si formem processos. Pecados que fecham a porta do Céu. Os nossos corpos são membros de Jesus Cristo, e templos do Espírito Santo. A impudicícia os faz imundos e profanos.

1Atreve-se algum de vós, tendo negócio contra outro, ir a juizo perante os iníquos, e não à presença dos Santos?[1]ir a juizo perante os iníquosATREVE-SE ALGUM DE VÓS — Estranha e repreende o Apóstolo aos Coríntios levarem os seus pleitos aos juizes gentios, e não aos eclesiásticos. O descrédito que a religião cristã padeceria, se aos tribunais gentílicos chegassem as contendas e dissensões dos fiéis uns com os outros, e a utilidade que os mesmos fiéis tiravam, de terem no recurso aos juizes da Igreja quem os exortasse a anteporem a paz e caridade fraternal a todos os interêsses temporais, foram sem dúvida as causas que moveram o Apóstolo a ordenar aos Coríntios, que, deixados os juizes gentios, se comprometessem no arbítrio dos eclesiásticos, de quem muito melhor do que daqueles deviam esperar que lhes fizessem justiça e os compuzessem com tôda a suavidade e caridade.

2Porventura não sabeis que os Santos hão de um dia julgar a êste mundo? E se o mundo há de ser julgado por vós, sois porventura indignos de julgar das coisas mínimas?[2]sois porventura indignos de julgar das coisas mínimasQUE OS SANTOS HÃO DE UM DIA JULGAR A ÊSTE MUNDO — Hão de os Santos julgar o mundo, quando no dia do juizo final hão de os Apóstolos e seus imitadores ser assessores de Jesus Cristo, e hão de todos os escolhidos aprovar a sentença contra os réprobos.

3Não sabeis que havemos de julgar aos Anjos? Pois quanto mais as coisas do século?

4Portanto, se tiverdes diferenças por coisas do século: Estabelecei aos que são de menor estimação na Igreja, para julgá-las.

5Eu vo-lo digo para confusão vossa. E' possível que não haja entre vós um homem sábio, que possa julgar entre seus irmãos?

6Mas o que se vê é que um irmão litiga com outro irmão: E isto diante de infiéis.

7Já o haver entre vós demandas de uns contra os outros: E' sem controvérsia um pecado que cometeis. Por que não sofreis vós antes a injúria? Por que não tolerais antes o dano?

8Mas vós mesmos sois os que fazeis a injúria, e os que causais o dano: E isto a vossos próprios irmãos.

9Acaso não sabeis que os iníquos não hão de possuir o Reino de Deus? Não vos enganeis: Nem os crapulosos, nem os idólatras, nem os adúlteros.

10Nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os que se dão a bebedices, nem os maldizentes, nem os roubadores hão de possuir o reino de Deus.

11E tais haveis sido alguns: Mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, e pelo Espírito do nosso Deus.

12Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém: Tudo me é permitido, mas eu de ninguém me farei escravo.

13Os manjares são para o ventre, e o ventre para os manjares: Mas Deus destruirá tanto aquele como a êstes: E o corpo não é para a devassidão mas para o Senhor: E o Senhor para o corpo.[3]E o corpo não é para a devassidão mas para o SenhorE O CORPO NÃO É PARA A DEVASSIDÃO — Isto se deve entender segundo a analogia de membros e de cabeça, que o Apóstolo no verso 15 considera entre os fiéis e Jesus Cristo. — Êstio.

14E Deus também ressuscitou ao Senhor: E nos ressuscitará a nós pela sua virtude.

15Não sabeis que os vossos corpos são membros de Cristo? Tomarei eu logo os membros de Cristo, e fá-los-ei membros duma prostituta? Deus nos livre de tal.[4]Tomarei eu logo os membros de CristoTOMAREI EU LOGO OS MEMBROS DE CRISTO — O texto latino diz aqui Tollens ergo membra Christi, etc. O que Sacy, Calmet e Messengui verteram assim: "Arrancarei eu a Jesus Cristo os seus membros, etc.". Porém, como o Apóstolo supõe, que os mesmos fiéis impudicos não deixam por isso de ser membros do corpo de Jesus Cristo, que é a Igreja, ainda que membros mortos pelo pecado, e o verbo "arrancar" parece que denota o contrário. Por esta razão, seguindo a exposição de Dionísio Cartusiano, a advertência de Êstio e a versão de Hure, julga melhor exprimir o tollens por tomar, do que por arrancar. E creio que com o mesmo pensamento traduziu Amelote assim êste lugar: "Farei eu dos membros de Jesus Cristo membros de uma prostituta?" — Pereira.

16Não sabeis porventura que o que se ajunta com a prostituta, faz-se um mesmo corpo com ela? Porque serão, disse, dois em uma carne.

17Mas o que está unido ao Senhor, é um mesmo espírito com êle.

18Fugi da fornicação. Todo o outro pecado, qualquer que o homem cometer, é fora do corpo: Mas o que comete fornicação, peca contra o seu próprio corpo.

19Acaso não sabeis que os vossos membros são templo do Espírito Santo, que habita em vós, o qual tendes por vo-lo haver dado Deus, e que não sois mais do que vós mesmos?

20Porque vós fostes comprados por um grande preço: Glorificai pois, e trazei a Deus no vosso corpo.

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Causa determinante desta Epístola.Corinto, a capital de Acaia, era uma cidade declarada colônia romana por Julio César, a primeira da Grécia, pois contava cêrca de seiscentos mil habitantes de todas as nacionalidades, Latinos, Gregos, Judeus, etc. A tão grande e variada população correspondia naturalmente singular opulência, notabilizando-se pela sua vasta atividade e pelo seu luxo. Cícero chamava-lhe Totius Graeciae lumen. A sua posição geográfica, no istmo que une o Peloponeso à Grécia, entre o mar Egeu ao Oriente e o Jônio ao Ocidente, tornava Corinto um importante centro comercial. O comércio imprimia opulência à cidade, e esta aproveitava-se dessa riqueza para se entregar ao luxo e aos prazeres imoderadamente. O espetáculo que a cidade oferecia era de tal ponto dissolvente, que as orgias de agora não são senão pálida sombra de devassidão de então. O culto mais propagado e porventura o único praticado era o de Vênus. Compreende-se portanto bem quanto era árido o terreno sôbre que havia de cair a semente da palavra divina.

Era assim Corinto, a cidade que mais timbrava na corrupção de costumes, que inventava requintes da mais pervertida voluptuosidade no templo de Afrodite, quando S. Paulo, depois dos seus trabalhos Apostólicos na Macedônia, se resolveu ir ali pregar o Evangelho.

Que Corinto, pela sua posição, pela sua importância, pela sua riqueza, lhe oferecia vantagens extraordinárias ao seu Apostolado, fàcilmente se compreende, como se percebe também o desejo do Apóstolo a chegar até ali. Porém como pregar a castidade onde reinava a mais desenfreada crápula? Como pregar penitência e abnegação a quem vivia só da matéria e para a matéria? Por isso às primeiras tentativas seguiu-se o mais desanimador insucesso. E S. Paulo teve de se recolher em casa dum judeu converso, recentemente chegado de Roma, e de procurar pelo trabalho o indispensável para a sua sustentação (At 23, 2). E como se isto não bastasse para atormentar aquêle coração inflamado em zêlo pela salvação de tantas almas imersas no êrro, veio a enfermidade roubar-lhe as fôrças e tolher-lhe o seu apostolado. Todavia não desanimou, e apesar de pobre, fraco e doente, começou a ir ao sábado à sinagoga pregar, mas com uma certa timidez. Continuou o insucesso. Era preciso que a posteridade recolhesse uma lição de constância e de perseverança, era preciso tudo isto para que no decorrer dos séculos os apóstolos, a quem cumpre pregar a Jesus Cristo, aprendessem ali a firmeza no desempenho da sua missão.

Vendo S. Paulo que por êsse lado pouco conseguia, deixou a sinagoga, e abriu em casa de um prosélito uma escola para os pagãos. Foi então que êle mereceu uma visão que lhe encheu a alma de esperança, pois lhe era anunciado que ali estava o germen duma grande cristandade. Redobra o seu zêlo, multiplica a sua atividade, vence a sua própria fraqueza, cogita novas industrias para converter corações endurecidos, inicia rasgadamente a sua pregação, supera tôdas as dificuldades, e dá começo a uma ação apostólica, que se traduzia pelo ensino e pela beneficência, cativando assim todos os corações.

E' um quadro muito amplo êste do Apostolado de S. Paulo em Corinto, e sobretudo duma palpitante oportunidade para aquêles que nestes tempos têm por dever ensinar ao povo a doutrina de Jesus Cristo.

Por êste exemplo de S. Paulo se vê que, quem quiser ser Apóstolo, e conseguintemente benemérito da causa de Deus e da humanidade, não pode circunscrever a sua ação apostólica às quatro paredes do presbitério ou apenas dentro do templo. A sua ação tem de se exercer dum modo muito diverso; tem de aparecer em tôda a parte, destacando-se sempre pelas luzes do seu espírito, que devem iluminar, e pelas virtudes da sua alma que a todos devem edificar. E' preciso ir ao mundo para salvar o mundo.

Os primeiros sucessos da pregação de S. Paulo em Corinto foram entre o povo; as classes elevadas não aceitavam a palavra do grande Apóstolo. Não admira: aferrados aos seus preconceitos, escravos das suas paixões, no trono do seu orgulho, não querendo fitar desgraças nem sabendo enxugar lágrimas, não lhes soava bem uma doutrina que proclamava felizes os que choravam.

Ficassem êsses, revoltando-se no torvelinho dos seus crapulosos desmandos; os humildes, êsses iam formando, em muito pouco tempo, uma considerável cristandade. Quando frutificou a pregação de S. Paulo, inflamou-se a inveja dos judeus de Corinto, que se queixaram ao procônsul Galião, que pouco ou nenhum caso fêz da acusação, continuando S. Paulo em liberdade para pregar o Evangelho, o que fêz até ao ano 54 em que se retirou para a Palestina.

Estabelecida a Igreja entre os Coríntios, a breve trecho o Helenismo começa a causar uma certa perturbação nos espíritos, havendo uma tal ou qual cisão, agravada com a vinda de novos pregadores, que uns queriam escutar e a quem outros não queriam ouvir.

Daqui as controvérsias, as discussões estéreis, e a formação de vários partidos, e como consequência fatal os abusos. S. Paulo teve conhecimento dêste estado de coisas, amargurou-se extremamente e escreveu a sua Epístola.

Tempo e lugar em que foi escrita. — Esta epístola foi escrita na época em que se fazia a grande coleta para as Igrejas da Judéia; além disso havia dois anos que pregava a fé, e quatro ou cinco que tinha fundado a Igreja de Corinto, e ainda viviam muitos dos discípulos de Jesus que tinham presenciado a sua ressurreição, 1 Cor 15, 6. Por tudo isto os Padres assinam a esta epístola o ano 56. Quanto ao lugar não resta a menor dúvida que foi escrita em Éfeso, pois o próprio Apóstolo diz que ficara algum tempo em casa de Áquila e de Priscila, moradores nesta cidade durante a sua passagem por Corinto, 1 Cor 11, 19 cfr. At 13, 19-26.

Autenticidade. — Não se apresenta um fundamento sério para negar a autenticidade desta Epístola. Basta a sua leitura séria e refletida para trazer o convencimento indestrutível da sua autenticidade. A descrição dos trabalhos do autor, as recomendações doutrinais, as minudências a que chegou, os conselhos que dá, tudo o que aí se encontra só pode ser obra de S. Paulo.

Mas tôdas as considerações são supérfluas em face dos testemunhos decisivos dos Padres, da crença unânime dos fiéis. Além de Inácio Ad. Eph. 18, S. Policarpo, Ad Phil., a Epístola a Diognetes, nós temos um documento irrefragável em S. Clemente, papa, que, trinta anos mais tarde, escrevia aos Coríntios relembrando-lhes esta Epístola.

Divisão. — Esta Epístola difere muito da precedente, não só enquanto à matéria como enquanto à forma.

Esta Epístola não tem nada de dissertação nem de tratado dogmático, é uma série de avisos, reflexões, soluções dirigidas pelas circunstâncias e repartidas em sete artigos. Podemos contudo dividi-la da seguinte forma:

PRÓLOGO. — 1, 1-9.
PRIMEIRA SECÇÃO. — 1, 10-6, 20 Reforma dos abusos notados em Corinto.
    a) Abusos introduzidos por certos pregadores, cc. 1-4.
    b) Diversos escândalos dados por particulares, cc. 5 e 6.
SEGUNDA SECÇÃO. — Resposta às duvidas formuladas.
    a) Sôbre o casamento e sôbre o celibato, c. 7.
    b) Sôbre os manjares consagrados aos ídolos, cc. 8, 1-11, 1.
    c) Acêrca da ordem que deve reinar na assembléia religiosa, c. 11, 2-16.
    d) Do uso dos dons sobrenaturais, cc. 12-14.
    e) Sôbre a ressurreição, c. 15.

A leitura desta Epístola faz conhecer bem o espírito do Apóstolo e a primitiva disciplina da Igreja, ao mesmo tempo que revela o discernimento de S. Paulo, pois êle responde à carta que lhe fôra enviada pelas pessoas da casa de Cloé, à narração oral que lhe foi feita do estado da Igreja de Corinto, por Estéfanas e seus coadjutores, e as questões que os fiéis de Corinto propuseram ao seu critério para que êle lhes desse solução.

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