Capítulo 7
1Pelo que pertence porém às coisas, sôbre que me escrevestes: Digo que bom seria a um homem não tocar mulher alguma:[1]bom seria a um homem não tocar mulher alguma — DIGO QUE BOM SERIA A UM HOMEM NÃO TOMAR MULHER ALGUMA — Não se opõe esta doutrina do Apóstolo ao que Deus disse no princípio do mundo (Gên 2, 18): "Não é bom que o homem esteja só". Porque no caso em que Deus falava, entendia-se o bem da espécie; no caso em que fala S. Paulo, entende-se o bem do indivíduo. — Êstio.
2Mas por evitar a luxúria cada um tenha sua mulher, e cada uma tenha seu marido.
3O marido pague a sua mulher o que lhe deve, e da mesma maneira também a mulher ao marido.[2]O marido pague a sua mulher o que lhe deve — PAGUE A SUA MULHER — Refere-se o Apóstolo ao débito conjugal.
4A mulher não tem poder no seu corpo, mas tem-no o marido. E também da mesma sorte o marido não tem poder no seu corpo, mas tem-no a mulher.
5Não vos defraudeis um ao outro, senão talvez de comum acôrdo por algum tempo, para vos aplicardes à oração: E de novo tornai a coabitar, porque não vos tente satanaz, por vossa incontinência.[3]para vos aplicardes à oração — PARA VOS APLICARDES À ORAÇÃO — S. João Crisóstomo o entende da oração mais fervorosa e de retiro. Outro, com Êstio, o entendem da oração pública e da assistência ao sacrifício, porque falando da oração ordinária, esta tanto se não pode dizer incompatível com o matrimônio, que antes Cristo e o mesmo Apóstolo mandam que ela em todos seja contínua. — Pereira. PORQUE NÃO VOS TENTE SATANAZ — Isto é, para que não tente a mulher a que peque com outra mulher, e tente a mulher a que peque com outro homem.
6Porém eu digo-vos isto como uma coisa que se vos perdoa, não por mandamento.
7Porque quero que todos vós sejais tais como eu mesmo, porém cada um tem de Deus seu próprio dom: Uns na verdade duma sorte, e outros de outra.
8Digo também aos solteiros, e às viúvas: Que lhes é bom se permanecerem assim, como também eu.
9Mas se não têm dom de continência casem-se. Porque melhor é casar-se do que abrasar-se.[4]Porque melhor é casar-se do que abrasar-se — PORQUE MELHOR É CASAR-SE DO QUE ABRASAR-SE — Abrasar-se, aqui, não é ser tentado da concupiscência da carne, mas é arder já nos maus desejos. Uri est occulta flamma concupiscentiae vastari, diz Santo Agostinho no Livro da Santa Virgindade, cap. 34. E o ser melhor casar-se é porque é pior abrasar-se. Ideo melius est nubere, quia peius est uri, diz S. Jerônimo na Apologia a Pamáquio. Advirta-se que S. Paulo fala aqui das pessoas livres, e não das que estão prêsas por voto; para estas só na oração e penitência podem encontrar remédio para as suas paixões.
10Mas àqueles que estão unidos em matrimônio, mando, não eu, senão o Senhor, que a mulher se não separe do marido:
11E se ela se separar, que fique sem casar, ou que faça paz com seu marido. E o marido tão pouco deixe a sua mulher.
12Pelo que toca porém aos mais, eu é que lho digo, não o Senhor. Que se algum irmão tem mulher infiel, e esta consente em coabitar com êle, não a largue.
13E que se uma mulher fiel tem marido, que é infiel, e êste consente em coabitar com ela, não largue a tal a seu marido.
14Porque o marido infiel é santificado pela mulher fiel, e a mulher infiel é santificada pelo marido fiel: Doutra sorte os vossos filhos não seriam limpos, mas agora são santos.[5]Porque o marido infiel é santificado pela mulher fiel — PORQUE O MARIDO INFIEL — Têm dado os críticos duas interpretações a êste texto. 1.ª O marido é atraído à fé e à virtude pela santidade da espôsa. Já é um bom indício e uma boa disposição tomar para companheira uma mulher virtuosa; daqui se pode esperar que pelos bons conselhos e bons exemplos desta espôsa fiel êle passe a viver honestamente no seu estado e a professar a mesma fé. 2.ª Um tal consórcio nada tem de desregrado ou de impuro; não importa para a espôsa nenhuma mancha diante de Deus; entra na ordem estabelecida pela Providência e é de natureza a realizar o seu fim, a saber: a procriação e a educação cristã da prole, batizada, instruída e formada na prática do bem. Erradamente aquele que intentasse dissolver êste matrimônio.
15Porém se o infiel se retira, que se retire: Porque neste caso já o nosso irmão, ou a nossa irmã não estão mais sujeitos à escravidão: Mas Deus nos chamou em paz.
16Porque donde sabes tu, ó mulher, se salvarás a teu marido? Ou donde sabes tu, ó marido, se salvarás a tua mulher?
17Porém todavia cada um conforme o Senhor lhe haja repartido, cada um conforme Deus o haja chamado, assim ande: E isto é como eu o ordeno em tôdas as igrejas.[6]assim ande — ASSIM ANDE — Quer dizer, assim viva, assim se conduza. O Apóstolo expõe aqui a teoria da vocação. S. Paulo faz estas recomendações pelas razões seguintes: 1.º Para prevenir a objeção levantada contra o cristianismo, de que este perturbava a ordem estabelecida nas famílias e no Estado. Ne nomen Dei et doctrina blasphemetur. 2.º Para reprimir o zêlo indiscreto dos exagerados, que muitas vezes transtornam as melhores e mais santas disposições. 3.º Para ensinar aos fiéis a prática da paciência conformando o seu gosto com a sua posição.
18E' chamado algum sendo circuncidado? Não se dê por incircunciso. E' chamado algum incircunciso? Não se circuncide.
19A circuncisão nada vale, e a incircuncisão nada vale: Senão a guarda dos mandamentos de Deus.
20Cada um na vocação em que foi chamado nela permaneça.
21Foste chamado sendo servo? Não te dê cuidado: E se ainda podes ser livre aproveita-te melhor.[7]E se ainda podes ser livre aproveita-te melhor — APROVEITA-TE MELHOR — Mas se podes lograr liberdade por meios legítimos, não percas a ocasião, aproveita-te dela, porque Deus ta dá, para servires com mais liberdade a Cristo. É o sentido mais corrente, que traduz o desejo de libertação do escravo.
22Porque o servo que foi chamado no Senhor, liberto é do Senhor: Assim mesmo o que foi chamado sendo livre, servo é de Cristo.
23Por preço fostes comprados, não vos façais servos de homens.
24Cada um pois, irmãos, permaneça diante de Deus no estado em que foi chamado.
25Quanto porém às virgens, não tenho mandamento do Senhor: Mas dou conselho, como quem do Senhor tem alcançado misericórdia, para ser fiel:
26Entendo pois que isto é bom, por causa da instante necessidade, porque é bom para o homem o estar assim.[8]por causa da instante necessidade — POR CAUSA DA INSTANTE NECESSIDADE — Por necessidade instante, (que são os têrmos precisos da Vulgata) entendem comumente os expositores as misérias a que na vida presente estão sujeitos os casados, as quais misérias o Apóstolo, no verso 28, chama tribulações da carne. Não que a excelência, que no estado do celibato considera o Apóstolo, consista precisamente em êle nos livrar de certos cuidados e inquietações, como interpretava Joviniano, mas sim porque no estado do celibato estamos mais livres e desembaraçados para a oração e mais exercícios de piedade, como o Apóstolo pondera nos versos 33 e 34, e como contra Joviniano mostra Santo Agostinho no livro Da Santa Virgindade, cap. 13. Onde também pelo que a Vulgata diz: propter instantem necessitatem, alega o Santo, como lição dos códices do seu tempo, propter praesentem necessitatem, como com efeito verteu Erasmo do grego, e como do latim verteram Veron Godeau, Amelote, Sacy, os de Mons, e outros. PORQUE É BOM PARA O HOMEM O ESTAR ASSIM. — Bom em todos os três gêneros de bondade, porque o celibato é um bem honesto, por causa da pureza; um bem deleitável, por causa da liberdade; um bem útil, por causa da paga, que lhe é devida a cento por um. — S. Tomás.
27Estás ligado à mulher? Não busques soltura. Estás livre de mulher? Não busques mulher.
28Mas se tomares mulher, não pecaste. E se a virgem se casar, não pecou: Todavia os tais padecerão tribulação da carne. E eu quisera poupar-vos a ela.[9]Todavia os tais padecerão tribulação da carne — PADECERÃO TRIBULAÇÃO DE CARNE — Isto é, em si mesmos, tomada a carne por todo o homem, segundo o estilo das Escrituras. — Sacy.
29Isto finalmente vos digo, irmãos: O tempo é breve: O que resta é que não só os que têm mulheres sejam como se as não tivessem.
30Mas também os que choram, como se não chorassem, e os que folgam, como se não folgassem: E os que compram, como se não possuíssem:
31E os que usam dêste mundo, como se dêle não usassem: Porque a figura dêste mundo passa.
32Quero pois que vós vivais sem inquietação. O que está sem mulher, está cuidadoso das coisas que são do Senhor, de como há de agradar a Deus.
33Mas o que está com mulher, está cuidadoso das coisas que são do mundo, de como há de dar gôsto a sua mulher, e anda dividido.
34E a mulher solteira, e a virgem, cuida nas coisas que são do Senhor, para ser santa no corpo, e no espírito. Mas a que é casada, cuida nas coisas que são do mundo, de como agradará ao marido.
35Na verdade digo-vos isto para proveito vosso: Não para vos ilaquear, mas sòmente para o que é honesto, e que vos facilite a orar ao Senhor sem embaraço.
36Mas se algum julga o que parece ser desonra própria, quanto a sua filha donzela, o ir-lhe passando a idade de casar, e que assim convém fazer-se-lhe o casamento: Faça o que quiser: Não peca, se casar.
37Porque o que formou em seu peito uma firme resolução, não no obrigando a necessidade, mas antes tendo poder na sua própria vontade, e com isto determinou no seu coração conservar a sua filha virgem, bem faz:
38Assim que o que casa a sua filha donzela, faz bem: E o que a não casa, faz melhor.
39A mulher está ligada à lei por todo o tempo que seu marido vive: Mas se morrer o seu marido, fica ela livre: Case com quem quiser: Contanto que seja no Senhor.
40Porém será mais bem-aventurada, se permanecer assim, conforme o meu conselho: E julgo que também eu tenho o Espírito de Deus.