Capítulo 3
1E eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, senão como a carnais. Como a pequeninos em Cristo.
2Leite vos dei a beber, não comida: Porque ainda não podíeis: E nem ainda agora podeis: Porque ainda sois carnais.
3Porquanto havendo entre vós zelos e contendas: Não é assim que sois carnais, e andais segundo o homem?
4Porque dizendo um: Eu certamente sou de Paulo. E outro: Eu de Apolo: Não se está vendo nisto que sois homens? Que é logo Apolo? e que é Paulo?[1]Eu de Apolo — APOLO — Cfr. 1 Cor 1, 12.
5São uns Ministros daquele a quem crêstes, e segundo o que o Senhor deu a cada um.
6Eu plantei, Apolo regou: Mas Deus é o que deu crescimento.
7Assim que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega: Mas Deus, que dá o crescimento.[2]Mas Deus, que dá o crescimento — ASSIM QUE NEM O QUE PLANTA — Não é coisa alguma o que planta nem o que rega; porque ainda que de fora ponham a ação de plantar e de regar, não atingem com a sua ação no efeito intrínseco ao da vegetação nas coisas naturais, ou da santificação nas coisas espirituais. Porque a vegetação é obra da natureza, a quem Deus deu essa virtude; a santificação reservou-a Deus inteiramente a si, com exclusão de tôda a coisa criada. — Êstio.
8E uma mesma coisa é o que planta e o que rega. E cada um receberá a sua recompensa particular segundo o seu trabalho.
9Porque nós outros somos uns cooperadores de Deus: Vós sois agricultura de Deus, sois edifício de Deus:[3]somos uns cooperadores de Deus — SOMOS UNS COOPERADORES DE DEUS — A Vulgata Latina diz, coadjutores de Deus. Porém o Grego tem Cooperadores, e assim verteram todos os intérpretes franceses e com êle o italiano Martini, movidos não só da autoridade do Original, mas também da razão, de que a respeito de Deus não é o homem própriamente Coadjutor, mas Cooperador. Por isso também o nosso português João Ferreira d'Almeida verteu, Obreiros com Deus. Glaire também traduziu cooperador.
10Segundo a graça de Deus, que me foi dada, lancei o fundamento como sábio arquiteto; mas outro edifica sôbre êle. Porém veja cada um como edifica sôbre êle.
11Porque ninguém pode pôr outro fundamento senão o que foi pôsto, que é Jesus Cristo.[4]que é Jesus Cristo — PORQUE NINGUÉM PODE PÔR OUTRO — Entende-se: que seja fundamento primário e essencial. Porque falando do fundamento secundário, nenhum inconveniente há, em que também os Apóstolos e os Profetas se digam fundamento da Igreja, como S. Paulo os chama na Epístola aos Efésios, 2, 29.
12Se algum porém levanta sôbre êste fundamento edifício de ouro, de prata, de pedras preciosas, de madeira, de feno, de palha,[5]de madeira, de feno, de palha — EDIFÍCIO DE OURO, DE PRATA, DE PEDRAS PRECIOSAS — Por edifício de ouro, de prata, de pedras preciosas, entende Santo Agostinho as obras inteiramente boas e perfeitas que fazem os Santos de virtude abalizada; por edifício de madeira, de feno, de palha, as imperfeições, que nas obras boas misturam os que são menos santos e geralmente os pecados veniais. Assim Santo Agostinho no Livro da Fé, e das obras, cap. 16; no Manual, cap. 68; no Livro 21 da Cidade de Deus, cap. 26; nas Questões a Dulcídio, e na exposição dos Salmos, 37 e 80. Em todos os quais lugares reconhece o Santo Doutor ser êste discurso do Apóstolo dificultoso e escuro de entender. Com Santo Agostinho sente o mesmo S. Gregório Magno no Livro 4 dos seus diálogos, cap. 39. Os Expositores modernos, tomando por base da sua interpretação o sentimento de Santo Agostinho e de S. Gregório, e refletindo que o discurso do Apóstolo se contrai aos edificadores místicos, que são os doutores e pregadores evangélicos, entendem por edifício de ouro, de prata, de pedras preciosas, uma doutrina pura, sincera, sólida, tôda tendente a mover os fiéis à piedade e à compunção, e por edifício de madeira, de feno, de palha, uma doutrina mais pura e menos sólida, uma doutrina mundana, curiosa, impertinente, que mais nutre o aplauso do que a virtude. Assim Êstio, Amelote, Sacy com Santo Tomás, Dionísio e Caetano.
13manifesta será a obra de cada um: Porque o dia do Senhor a demonstrará, porquanto em fogo será descoberta: E qual seja a obra de cada um, o fogo o provará.[6]Porque o dia do Senhor a demonstrará — PORQUE O DIA DO SENHOR — Isto é, o dia do Juizo Universal, que por antonomásia se chama nas Escrituras o dia do Senhor. A DEMONSTRARÁ — Pelo fogo que os teólogos chamam na conflagração ou abrasamento do Mundo. No qual fogo virá Jesus Cristo julgar todos os homens, como a Igreja reconhece no Ofício dos defuntos: Qui venturus es judicare vivos, et mortuos, et saeculum per ignem. — Pereira.
14Se permanecer a obra do que a sobreedificou, receberá prêmio.
15Se a obra de alguem se queimar, padecerá êle detrimento, mas o tal será salvo: Se bem desta maneira como por intervenção do fogo.
16Não sabeis vós que sois templo de Deus, e que o espírito de Deus mora em vós?
17Se alguém pois violar o Templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o Templo de Deus, que sois vós, santo é.
18Ninguém se engane a si mesmo: Se algum dentre vós se tem por sábio neste mundo, faça-se insensato para ser sábio.
19Porque a sabedoria dêste mundo é uma estultícia diante de Deus. Porquanto está escrito: Eu apanharei os sábios na sua mesma astúcia.
20E outra vez: O Senhor conhece os pensamentos dos sábios que são váos.
21Portanto nenhum se glorie entre os homens.
22Porque tôdas as coisas são vossas, ou seja Paulo, ou seja Apolo, ou seja Cefas, ou seja o mundo, ou seja a vida, ou seja a morte, ou sejam as presentes, ou sejam as futuras, porque tudo é vosso:
23E vós de Cristo: E Cristo de Deus.