Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 3

Sendo os Coríntios ainda carnais, não podiam receber as instruções espirituais. Contestações que entre êles havia. Jesus Cristo é só o fundamento. O edifício que se firmar sôbre êle, será provado pelo fogo. Não devemos violar o templo de Deus, que somos nós. A sabedoria do mundo será destruída. Ninguém se deve gloriar nos homens.

1E eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, senão como a carnais. Como a pequeninos em Cristo.

2Leite vos dei a beber, não comida: Porque ainda não podíeis: E nem ainda agora podeis: Porque ainda sois carnais.

3Porquanto havendo entre vós zelos e contendas: Não é assim que sois carnais, e andais segundo o homem?

4Porque dizendo um: Eu certamente sou de Paulo. E outro: Eu de Apolo: Não se está vendo nisto que sois homens? Que é logo Apolo? e que é Paulo?[1]Eu de ApoloAPOLO — Cfr. 1 Cor 1, 12.

5São uns Ministros daquele a quem crêstes, e segundo o que o Senhor deu a cada um.

6Eu plantei, Apolo regou: Mas Deus é o que deu crescimento.

7Assim que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega: Mas Deus, que dá o crescimento.[2]Mas Deus, que dá o crescimentoASSIM QUE NEM O QUE PLANTA — Não é coisa alguma o que planta nem o que rega; porque ainda que de fora ponham a ação de plantar e de regar, não atingem com a sua ação no efeito intrínseco ao da vegetação nas coisas naturais, ou da santificação nas coisas espirituais. Porque a vegetação é obra da natureza, a quem Deus deu essa virtude; a santificação reservou-a Deus inteiramente a si, com exclusão de tôda a coisa criada. — Êstio.

8E uma mesma coisa é o que planta e o que rega. E cada um receberá a sua recompensa particular segundo o seu trabalho.

9Porque nós outros somos uns cooperadores de Deus: Vós sois agricultura de Deus, sois edifício de Deus:[3]somos uns cooperadores de DeusSOMOS UNS COOPERADORES DE DEUS — A Vulgata Latina diz, coadjutores de Deus. Porém o Grego tem Cooperadores, e assim verteram todos os intérpretes franceses e com êle o italiano Martini, movidos não só da autoridade do Original, mas também da razão, de que a respeito de Deus não é o homem própriamente Coadjutor, mas Cooperador. Por isso também o nosso português João Ferreira d'Almeida verteu, Obreiros com Deus. Glaire também traduziu cooperador.

10Segundo a graça de Deus, que me foi dada, lancei o fundamento como sábio arquiteto; mas outro edifica sôbre êle. Porém veja cada um como edifica sôbre êle.

11Porque ninguém pode pôr outro fundamento senão o que foi pôsto, que é Jesus Cristo.[4]que é Jesus CristoPORQUE NINGUÉM PODE PÔR OUTRO — Entende-se: que seja fundamento primário e essencial. Porque falando do fundamento secundário, nenhum inconveniente há, em que também os Apóstolos e os Profetas se digam fundamento da Igreja, como S. Paulo os chama na Epístola aos Efésios, 2, 29.

12Se algum porém levanta sôbre êste fundamento edifício de ouro, de prata, de pedras preciosas, de madeira, de feno, de palha,[5]de madeira, de feno, de palhaEDIFÍCIO DE OURO, DE PRATA, DE PEDRAS PRECIOSAS — Por edifício de ouro, de prata, de pedras preciosas, entende Santo Agostinho as obras inteiramente boas e perfeitas que fazem os Santos de virtude abalizada; por edifício de madeira, de feno, de palha, as imperfeições, que nas obras boas misturam os que são menos santos e geralmente os pecados veniais. Assim Santo Agostinho no Livro da Fé, e das obras, cap. 16; no Manual, cap. 68; no Livro 21 da Cidade de Deus, cap. 26; nas Questões a Dulcídio, e na exposição dos Salmos, 37 e 80. Em todos os quais lugares reconhece o Santo Doutor ser êste discurso do Apóstolo dificultoso e escuro de entender. Com Santo Agostinho sente o mesmo S. Gregório Magno no Livro 4 dos seus diálogos, cap. 39. Os Expositores modernos, tomando por base da sua interpretação o sentimento de Santo Agostinho e de S. Gregório, e refletindo que o discurso do Apóstolo se contrai aos edificadores místicos, que são os doutores e pregadores evangélicos, entendem por edifício de ouro, de prata, de pedras preciosas, uma doutrina pura, sincera, sólida, tôda tendente a mover os fiéis à piedade e à compunção, e por edifício de madeira, de feno, de palha, uma doutrina mais pura e menos sólida, uma doutrina mundana, curiosa, impertinente, que mais nutre o aplauso do que a virtude. Assim Êstio, Amelote, Sacy com Santo Tomás, Dionísio e Caetano.

13manifesta será a obra de cada um: Porque o dia do Senhor a demonstrará, porquanto em fogo será descoberta: E qual seja a obra de cada um, o fogo o provará.[6]Porque o dia do Senhor a demonstraráPORQUE O DIA DO SENHOR — Isto é, o dia do Juizo Universal, que por antonomásia se chama nas Escrituras o dia do Senhor. A DEMONSTRARÁ — Pelo fogo que os teólogos chamam na conflagração ou abrasamento do Mundo. No qual fogo virá Jesus Cristo julgar todos os homens, como a Igreja reconhece no Ofício dos defuntos: Qui venturus es judicare vivos, et mortuos, et saeculum per ignem. — Pereira.

14Se permanecer a obra do que a sobreedificou, receberá prêmio.

15Se a obra de alguem se queimar, padecerá êle detrimento, mas o tal será salvo: Se bem desta maneira como por intervenção do fogo.

16Não sabeis vós que sois templo de Deus, e que o espírito de Deus mora em vós?

17Se alguém pois violar o Templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o Templo de Deus, que sois vós, santo é.

18Ninguém se engane a si mesmo: Se algum dentre vós se tem por sábio neste mundo, faça-se insensato para ser sábio.

19Porque a sabedoria dêste mundo é uma estultícia diante de Deus. Porquanto está escrito: Eu apanharei os sábios na sua mesma astúcia.

20E outra vez: O Senhor conhece os pensamentos dos sábios que são váos.

21Portanto nenhum se glorie entre os homens.

22Porque tôdas as coisas são vossas, ou seja Paulo, ou seja Apolo, ou seja Cefas, ou seja o mundo, ou seja a vida, ou seja a morte, ou sejam as presentes, ou sejam as futuras, porque tudo é vosso:

23E vós de Cristo: E Cristo de Deus.

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Causa determinante desta Epístola.Corinto, a capital de Acaia, era uma cidade declarada colônia romana por Julio César, a primeira da Grécia, pois contava cêrca de seiscentos mil habitantes de todas as nacionalidades, Latinos, Gregos, Judeus, etc. A tão grande e variada população correspondia naturalmente singular opulência, notabilizando-se pela sua vasta atividade e pelo seu luxo. Cícero chamava-lhe Totius Graeciae lumen. A sua posição geográfica, no istmo que une o Peloponeso à Grécia, entre o mar Egeu ao Oriente e o Jônio ao Ocidente, tornava Corinto um importante centro comercial. O comércio imprimia opulência à cidade, e esta aproveitava-se dessa riqueza para se entregar ao luxo e aos prazeres imoderadamente. O espetáculo que a cidade oferecia era de tal ponto dissolvente, que as orgias de agora não são senão pálida sombra de devassidão de então. O culto mais propagado e porventura o único praticado era o de Vênus. Compreende-se portanto bem quanto era árido o terreno sôbre que havia de cair a semente da palavra divina.

Era assim Corinto, a cidade que mais timbrava na corrupção de costumes, que inventava requintes da mais pervertida voluptuosidade no templo de Afrodite, quando S. Paulo, depois dos seus trabalhos Apostólicos na Macedônia, se resolveu ir ali pregar o Evangelho.

Que Corinto, pela sua posição, pela sua importância, pela sua riqueza, lhe oferecia vantagens extraordinárias ao seu Apostolado, fàcilmente se compreende, como se percebe também o desejo do Apóstolo a chegar até ali. Porém como pregar a castidade onde reinava a mais desenfreada crápula? Como pregar penitência e abnegação a quem vivia só da matéria e para a matéria? Por isso às primeiras tentativas seguiu-se o mais desanimador insucesso. E S. Paulo teve de se recolher em casa dum judeu converso, recentemente chegado de Roma, e de procurar pelo trabalho o indispensável para a sua sustentação (At 23, 2). E como se isto não bastasse para atormentar aquêle coração inflamado em zêlo pela salvação de tantas almas imersas no êrro, veio a enfermidade roubar-lhe as fôrças e tolher-lhe o seu apostolado. Todavia não desanimou, e apesar de pobre, fraco e doente, começou a ir ao sábado à sinagoga pregar, mas com uma certa timidez. Continuou o insucesso. Era preciso que a posteridade recolhesse uma lição de constância e de perseverança, era preciso tudo isto para que no decorrer dos séculos os apóstolos, a quem cumpre pregar a Jesus Cristo, aprendessem ali a firmeza no desempenho da sua missão.

Vendo S. Paulo que por êsse lado pouco conseguia, deixou a sinagoga, e abriu em casa de um prosélito uma escola para os pagãos. Foi então que êle mereceu uma visão que lhe encheu a alma de esperança, pois lhe era anunciado que ali estava o germen duma grande cristandade. Redobra o seu zêlo, multiplica a sua atividade, vence a sua própria fraqueza, cogita novas industrias para converter corações endurecidos, inicia rasgadamente a sua pregação, supera tôdas as dificuldades, e dá começo a uma ação apostólica, que se traduzia pelo ensino e pela beneficência, cativando assim todos os corações.

E' um quadro muito amplo êste do Apostolado de S. Paulo em Corinto, e sobretudo duma palpitante oportunidade para aquêles que nestes tempos têm por dever ensinar ao povo a doutrina de Jesus Cristo.

Por êste exemplo de S. Paulo se vê que, quem quiser ser Apóstolo, e conseguintemente benemérito da causa de Deus e da humanidade, não pode circunscrever a sua ação apostólica às quatro paredes do presbitério ou apenas dentro do templo. A sua ação tem de se exercer dum modo muito diverso; tem de aparecer em tôda a parte, destacando-se sempre pelas luzes do seu espírito, que devem iluminar, e pelas virtudes da sua alma que a todos devem edificar. E' preciso ir ao mundo para salvar o mundo.

Os primeiros sucessos da pregação de S. Paulo em Corinto foram entre o povo; as classes elevadas não aceitavam a palavra do grande Apóstolo. Não admira: aferrados aos seus preconceitos, escravos das suas paixões, no trono do seu orgulho, não querendo fitar desgraças nem sabendo enxugar lágrimas, não lhes soava bem uma doutrina que proclamava felizes os que choravam.

Ficassem êsses, revoltando-se no torvelinho dos seus crapulosos desmandos; os humildes, êsses iam formando, em muito pouco tempo, uma considerável cristandade. Quando frutificou a pregação de S. Paulo, inflamou-se a inveja dos judeus de Corinto, que se queixaram ao procônsul Galião, que pouco ou nenhum caso fêz da acusação, continuando S. Paulo em liberdade para pregar o Evangelho, o que fêz até ao ano 54 em que se retirou para a Palestina.

Estabelecida a Igreja entre os Coríntios, a breve trecho o Helenismo começa a causar uma certa perturbação nos espíritos, havendo uma tal ou qual cisão, agravada com a vinda de novos pregadores, que uns queriam escutar e a quem outros não queriam ouvir.

Daqui as controvérsias, as discussões estéreis, e a formação de vários partidos, e como consequência fatal os abusos. S. Paulo teve conhecimento dêste estado de coisas, amargurou-se extremamente e escreveu a sua Epístola.

Tempo e lugar em que foi escrita. — Esta epístola foi escrita na época em que se fazia a grande coleta para as Igrejas da Judéia; além disso havia dois anos que pregava a fé, e quatro ou cinco que tinha fundado a Igreja de Corinto, e ainda viviam muitos dos discípulos de Jesus que tinham presenciado a sua ressurreição, 1 Cor 15, 6. Por tudo isto os Padres assinam a esta epístola o ano 56. Quanto ao lugar não resta a menor dúvida que foi escrita em Éfeso, pois o próprio Apóstolo diz que ficara algum tempo em casa de Áquila e de Priscila, moradores nesta cidade durante a sua passagem por Corinto, 1 Cor 11, 19 cfr. At 13, 19-26.

Autenticidade. — Não se apresenta um fundamento sério para negar a autenticidade desta Epístola. Basta a sua leitura séria e refletida para trazer o convencimento indestrutível da sua autenticidade. A descrição dos trabalhos do autor, as recomendações doutrinais, as minudências a que chegou, os conselhos que dá, tudo o que aí se encontra só pode ser obra de S. Paulo.

Mas tôdas as considerações são supérfluas em face dos testemunhos decisivos dos Padres, da crença unânime dos fiéis. Além de Inácio Ad. Eph. 18, S. Policarpo, Ad Phil., a Epístola a Diognetes, nós temos um documento irrefragável em S. Clemente, papa, que, trinta anos mais tarde, escrevia aos Coríntios relembrando-lhes esta Epístola.

Divisão. — Esta Epístola difere muito da precedente, não só enquanto à matéria como enquanto à forma.

Esta Epístola não tem nada de dissertação nem de tratado dogmático, é uma série de avisos, reflexões, soluções dirigidas pelas circunstâncias e repartidas em sete artigos. Podemos contudo dividi-la da seguinte forma:

PRÓLOGO. — 1, 1-9.
PRIMEIRA SECÇÃO. — 1, 10-6, 20 Reforma dos abusos notados em Corinto.
    a) Abusos introduzidos por certos pregadores, cc. 1-4.
    b) Diversos escândalos dados por particulares, cc. 5 e 6.
SEGUNDA SECÇÃO. — Resposta às duvidas formuladas.
    a) Sôbre o casamento e sôbre o celibato, c. 7.
    b) Sôbre os manjares consagrados aos ídolos, cc. 8, 1-11, 1.
    c) Acêrca da ordem que deve reinar na assembléia religiosa, c. 11, 2-16.
    d) Do uso dos dons sobrenaturais, cc. 12-14.
    e) Sôbre a ressurreição, c. 15.

A leitura desta Epístola faz conhecer bem o espírito do Apóstolo e a primitiva disciplina da Igreja, ao mesmo tempo que revela o discernimento de S. Paulo, pois êle responde à carta que lhe fôra enviada pelas pessoas da casa de Cloé, à narração oral que lhe foi feita do estado da Igreja de Corinto, por Estéfanas e seus coadjutores, e as questões que os fiéis de Corinto propuseram ao seu critério para que êle lhes desse solução.

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