Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 12

São diversos os dons do Espírito Santo: e êle os reparte diversamente aos fiéis. Bem como os membros do corpo humano, cada um segundo as suas diversas funções, concorrem para o bem e conservação do todo, assim também cada um dos fiéis, como membros do corpo místico, devem trabalhar em utilidade comum.

1E sôbre os dons espirituais, não quero, irmãos, que vivais em ignorância.

2Sabeis que quando éreis gentios, concorríeis aos simulacros, mudos conforme éreis levados.

3Portanto vos faço saber que ninguém, que fala pelo espírito de Deus, diz anátema a Jesus. E ninguém pode dizer Senhor Jesus senão pelo Espírito Santo.[1]diz anátema a JesusDIZ ANÁTEMA A JESUS — Dizer anátema a alguém, nas frases das Escrituras, é amaldiçoá-lo, ou rogar-lhe pragas. SENÃO PELO ESPÍRITO SANTO — Isto é, por graça, ou dom do Espírito Santo. Porque o Apóstolo fala do ato, com que um confessa a Jesus por Senhor, com pio afeto do coração de sorte que concorde o ânimo com a palavra, isto é, que S. Paulo aqui ensina que nenhum pode fazer, sem o interior movimento do Espírito Santo. Porque doutra sorte o mesmo Jesus Cristo nos desengana no Evangelho, que nem todos os que dizem Senhor, Senhor, hão de entrar no reino dos Céus; mas só os que fizeram a vontade de seu eterno Pai. Donde se segue, que nem toda a confissão da fé procede do Espírito Santo, nem tôda é meritória diante de Deus, como dêste mesmo lugar do Apóstolo deduzem S. Jerônimo e Santo Agostinho.

4Há pois repartição de graças, mas um mesmo é o espírito:

5E os ministérios são diversos, mas um mesmo é o Senhor:

6Também as operações são diversas, mas um mesmo Deus é o que obra tudo em todos.

7E a cada um é dada a manifestação do espírito para proveito.

8Porque a um pelo espírito é dada a palavra de sabedoria: A outro porém a palavra de ciência, segundo o mesmo espírito:

9A outro a fé pelo mesmo espírito: A outro graça de curar as doenças em um mesmo espírito:

10A outro a operação dos milagres, a outro a profecia, a outro o discernimento dos espíritos, a outro a variedade de línguas, a outro a interpretação das palavras.

11Mas tôdas estas coisas obra só um e o mesmo espírito repartindo a cada um como quer.

12Porque assim como o corpo é um, e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, ainda que sejam muitos, são contudo um só corpo: Assim também Cristo.

13Porque num mesmo espírito fomos batizados todos nós, para sermos um mesmo corpo, ou sejamos judeus, ou gentios, ou servos, ou livres: E todos temos bebido em um mesmo espírito.

14Porque também o corpo não é um só membro, mas muitos.

15Se disser o pé: Porque não sou mão, não sou do corpo: Acaso deixa êle por isso de ser do corpo?

16E se a orelha disser: Uma vez que eu não sou ôlho, não sou do corpo: Porventura deixa ela por isso de ser do corpo?

17Se o corpo todo fôsse ôlho: Onde estaria o ouvido? Se fôsse todo ouvido: Onde estaria o olfato?

18Agora porém Deus pôs os membros no corpo, cada um dêles assim como quis.

19Se todos os membros porém fôssem um só membro, onde estaria o corpo?

20Mas a verdade é que são muitos os membros, e um só corpo.

21Ora, o ôlho não pode dizer à mão: Eu não necessito do teu préstimo: Nem também a cabeça pode dizer aos pés: Vós não me sois necessários.

22Antes pelo contrário, os membros do corpo, que parecem mais fracos, são os mais necessários:

23E os que temos por mais vis membros do corpo, a êsses cobrimos com mais decôro: E os que em nós são menos honestos, os recatamos com maior decência.

24Porque os que em nós são mais honestos, não têm necessidade de nada: Mas Deus atemperou o corpo, dando honra mais avultada àquêle membro que a não tinha em si,

25para que não haja cisma no corpo, mas antes conspirem mutuamente todos os membros a se ajudarem uns aos outros.

26De maneira que se algum mal padece um membro, todos os membros padecem com êle: Ou se um membro recebe glória, todos os membros se regozijam com êle.

27Vós outros pois sois corpo de Cristo, e membros uns dos outros.

28E assim a vários pôs Deus na Igreja, primeiramente os Apóstolos, secundàriamente os profetas, em terceiro lugar os doutores, depois os que têm a virtude de obrar milagres, depois os que têm a graça de curar doenças, os que têm o dom de assistir a seus irmãos, os que têm o dom de governar, os que têm o dom de falar diversas línguas, os que têm o dom de as interpretar.

29São porventura todos Apóstolos? São todos profetas? São todos doutores?

30Fazem todos porventura milagres? Têm todos a graça de curar doenças? Falam todos muitas línguas? Têm todos o dom de as interpretar?

31Entre êstes dons aspirai pois aos que são melhores. Mas eu ainda vou a mostrar-vos outro caminho mais excelente.

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Causa determinante desta Epístola.Corinto, a capital de Acaia, era uma cidade declarada colônia romana por Julio César, a primeira da Grécia, pois contava cêrca de seiscentos mil habitantes de todas as nacionalidades, Latinos, Gregos, Judeus, etc. A tão grande e variada população correspondia naturalmente singular opulência, notabilizando-se pela sua vasta atividade e pelo seu luxo. Cícero chamava-lhe Totius Graeciae lumen. A sua posição geográfica, no istmo que une o Peloponeso à Grécia, entre o mar Egeu ao Oriente e o Jônio ao Ocidente, tornava Corinto um importante centro comercial. O comércio imprimia opulência à cidade, e esta aproveitava-se dessa riqueza para se entregar ao luxo e aos prazeres imoderadamente. O espetáculo que a cidade oferecia era de tal ponto dissolvente, que as orgias de agora não são senão pálida sombra de devassidão de então. O culto mais propagado e porventura o único praticado era o de Vênus. Compreende-se portanto bem quanto era árido o terreno sôbre que havia de cair a semente da palavra divina.

Era assim Corinto, a cidade que mais timbrava na corrupção de costumes, que inventava requintes da mais pervertida voluptuosidade no templo de Afrodite, quando S. Paulo, depois dos seus trabalhos Apostólicos na Macedônia, se resolveu ir ali pregar o Evangelho.

Que Corinto, pela sua posição, pela sua importância, pela sua riqueza, lhe oferecia vantagens extraordinárias ao seu Apostolado, fàcilmente se compreende, como se percebe também o desejo do Apóstolo a chegar até ali. Porém como pregar a castidade onde reinava a mais desenfreada crápula? Como pregar penitência e abnegação a quem vivia só da matéria e para a matéria? Por isso às primeiras tentativas seguiu-se o mais desanimador insucesso. E S. Paulo teve de se recolher em casa dum judeu converso, recentemente chegado de Roma, e de procurar pelo trabalho o indispensável para a sua sustentação (At 23, 2). E como se isto não bastasse para atormentar aquêle coração inflamado em zêlo pela salvação de tantas almas imersas no êrro, veio a enfermidade roubar-lhe as fôrças e tolher-lhe o seu apostolado. Todavia não desanimou, e apesar de pobre, fraco e doente, começou a ir ao sábado à sinagoga pregar, mas com uma certa timidez. Continuou o insucesso. Era preciso que a posteridade recolhesse uma lição de constância e de perseverança, era preciso tudo isto para que no decorrer dos séculos os apóstolos, a quem cumpre pregar a Jesus Cristo, aprendessem ali a firmeza no desempenho da sua missão.

Vendo S. Paulo que por êsse lado pouco conseguia, deixou a sinagoga, e abriu em casa de um prosélito uma escola para os pagãos. Foi então que êle mereceu uma visão que lhe encheu a alma de esperança, pois lhe era anunciado que ali estava o germen duma grande cristandade. Redobra o seu zêlo, multiplica a sua atividade, vence a sua própria fraqueza, cogita novas industrias para converter corações endurecidos, inicia rasgadamente a sua pregação, supera tôdas as dificuldades, e dá começo a uma ação apostólica, que se traduzia pelo ensino e pela beneficência, cativando assim todos os corações.

E' um quadro muito amplo êste do Apostolado de S. Paulo em Corinto, e sobretudo duma palpitante oportunidade para aquêles que nestes tempos têm por dever ensinar ao povo a doutrina de Jesus Cristo.

Por êste exemplo de S. Paulo se vê que, quem quiser ser Apóstolo, e conseguintemente benemérito da causa de Deus e da humanidade, não pode circunscrever a sua ação apostólica às quatro paredes do presbitério ou apenas dentro do templo. A sua ação tem de se exercer dum modo muito diverso; tem de aparecer em tôda a parte, destacando-se sempre pelas luzes do seu espírito, que devem iluminar, e pelas virtudes da sua alma que a todos devem edificar. E' preciso ir ao mundo para salvar o mundo.

Os primeiros sucessos da pregação de S. Paulo em Corinto foram entre o povo; as classes elevadas não aceitavam a palavra do grande Apóstolo. Não admira: aferrados aos seus preconceitos, escravos das suas paixões, no trono do seu orgulho, não querendo fitar desgraças nem sabendo enxugar lágrimas, não lhes soava bem uma doutrina que proclamava felizes os que choravam.

Ficassem êsses, revoltando-se no torvelinho dos seus crapulosos desmandos; os humildes, êsses iam formando, em muito pouco tempo, uma considerável cristandade. Quando frutificou a pregação de S. Paulo, inflamou-se a inveja dos judeus de Corinto, que se queixaram ao procônsul Galião, que pouco ou nenhum caso fêz da acusação, continuando S. Paulo em liberdade para pregar o Evangelho, o que fêz até ao ano 54 em que se retirou para a Palestina.

Estabelecida a Igreja entre os Coríntios, a breve trecho o Helenismo começa a causar uma certa perturbação nos espíritos, havendo uma tal ou qual cisão, agravada com a vinda de novos pregadores, que uns queriam escutar e a quem outros não queriam ouvir.

Daqui as controvérsias, as discussões estéreis, e a formação de vários partidos, e como consequência fatal os abusos. S. Paulo teve conhecimento dêste estado de coisas, amargurou-se extremamente e escreveu a sua Epístola.

Tempo e lugar em que foi escrita. — Esta epístola foi escrita na época em que se fazia a grande coleta para as Igrejas da Judéia; além disso havia dois anos que pregava a fé, e quatro ou cinco que tinha fundado a Igreja de Corinto, e ainda viviam muitos dos discípulos de Jesus que tinham presenciado a sua ressurreição, 1 Cor 15, 6. Por tudo isto os Padres assinam a esta epístola o ano 56. Quanto ao lugar não resta a menor dúvida que foi escrita em Éfeso, pois o próprio Apóstolo diz que ficara algum tempo em casa de Áquila e de Priscila, moradores nesta cidade durante a sua passagem por Corinto, 1 Cor 11, 19 cfr. At 13, 19-26.

Autenticidade. — Não se apresenta um fundamento sério para negar a autenticidade desta Epístola. Basta a sua leitura séria e refletida para trazer o convencimento indestrutível da sua autenticidade. A descrição dos trabalhos do autor, as recomendações doutrinais, as minudências a que chegou, os conselhos que dá, tudo o que aí se encontra só pode ser obra de S. Paulo.

Mas tôdas as considerações são supérfluas em face dos testemunhos decisivos dos Padres, da crença unânime dos fiéis. Além de Inácio Ad. Eph. 18, S. Policarpo, Ad Phil., a Epístola a Diognetes, nós temos um documento irrefragável em S. Clemente, papa, que, trinta anos mais tarde, escrevia aos Coríntios relembrando-lhes esta Epístola.

Divisão. — Esta Epístola difere muito da precedente, não só enquanto à matéria como enquanto à forma.

Esta Epístola não tem nada de dissertação nem de tratado dogmático, é uma série de avisos, reflexões, soluções dirigidas pelas circunstâncias e repartidas em sete artigos. Podemos contudo dividi-la da seguinte forma:

PRÓLOGO. — 1, 1-9.
PRIMEIRA SECÇÃO. — 1, 10-6, 20 Reforma dos abusos notados em Corinto.
    a) Abusos introduzidos por certos pregadores, cc. 1-4.
    b) Diversos escândalos dados por particulares, cc. 5 e 6.
SEGUNDA SECÇÃO. — Resposta às duvidas formuladas.
    a) Sôbre o casamento e sôbre o celibato, c. 7.
    b) Sôbre os manjares consagrados aos ídolos, cc. 8, 1-11, 1.
    c) Acêrca da ordem que deve reinar na assembléia religiosa, c. 11, 2-16.
    d) Do uso dos dons sobrenaturais, cc. 12-14.
    e) Sôbre a ressurreição, c. 15.

A leitura desta Epístola faz conhecer bem o espírito do Apóstolo e a primitiva disciplina da Igreja, ao mesmo tempo que revela o discernimento de S. Paulo, pois êle responde à carta que lhe fôra enviada pelas pessoas da casa de Cloé, à narração oral que lhe foi feita do estado da Igreja de Corinto, por Estéfanas e seus coadjutores, e as questões que os fiéis de Corinto propuseram ao seu critério para que êle lhes desse solução.

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