Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 14

O dom da profecia prefere ao das línguas, e o dom das línguas não serve de nada sem o da interpretação. Regras sôbre o uso dêstes dons na Igreja. As mulheres devem nela guardar silêncio.

1Segui a caridade, anelai aos dons espirituais, e sôbre todos ao de profecia.[1]e sôbre todos ao de profeciaE SÔBRE TODOS AO DE PROFECIA — O dôm de profecia, de que aqui e noutros lugares fala o Apóstolo, (segundo se colige do contexto, e combinação duns com outros) não consistia sòmente em predizer os sucessos futuros, que é o que pròpriamente se chama profetizar, mas também em conhecer e descobrir, por inspiração Divina, os segrêdos do coração humano, ou o sentido dos lugares difíceis e escuros das Sagradas Letras. — Éstio.

2Porque o que fala uma língua desconhecida, não fala a homens, senão a Deus: Porque nenhum o ouve, e em Espírito fala mistérios.

3Mas o que profetiza, fala aos homens para sua edificação, e exortação, e consolação.

4O que fala uma língua desconhecida, se edifica a si mesmo, porém o que profetiza, edifica a Igreja de Deus.

5Quero pois que todos vós tenhais o dom de línguas: Porém muito mais que profetizeis. Porque maior é o que profetiza que o que fala diversas línguas, a não ser que também êle interprete, de maneira que a Igreja receba edificação.

6Agora pois, irmãos, se eu fôr ter convosco falando em diversas línguas, de que vos aproveitarei eu, se vos não falar ou por revelação, ou por ciência, ou por profecia, ou por doutrina?

7Certamente as coisas inanimadas, que fazem consonância, como a flauta, ou a cítara: Se não fizerem diferença de sons, como se distinguirá o que se canta à flauta, ou o que se toca na cítara?

8Porque se a trombeta der um som confuso, quem se preparará para a batalha?

9Assim também vós, se pela língua não derdes palavras inteligíveis: Como se entenderá o que se diz? Porque sereis como quem fala ao vento.

10Há, como acontece, tantos gêneros de línguas neste mundo, e nada há sem voz.

11Se eu pois não entender o que significam as palavras, serei um bárbaro para aquêle a quem falo: E o que fala, sê-lo-á para mim do mesmo modo.[2]Se eu pois não entender o que significam as palavrasSE EU POIS NÃO ENTENDER O QUE SIGNIFICAM AS PALAVRAS — Daqui se confirma, que pode um homem ter o dom de línguas, e não ter o dom de as interpretar, porque não entende o mesmo que fala. E que assim houve muitos fiéis na primitiva igreja, que sendo movidos e inspirados por Deus para falarem em diversas línguas as maravilhas do Senhor, careciam do dom de as entender, consta de todo êste capítulo de S. Paulo. O que todavia se restringe a certos fiéis, com quem Deus não era tão liberal na repartição dos seus dons. Porque falando dos Apóstolos, e ainda doutros particulares de inferior jerarquia na Igreja, é indubitável que êles foram dotados não sòmente do dom de línguas, mas também dos dons de inteligência, de interpretação, de profecia. Éstio com Santo Tomás, e com Caetano.

12Assim também vós, porquanto sois desejosos de dons espirituais, procurai abundar neles, para edificação da Igreja.

13E por isso o que fala uma língua desconhecida: Peça o dom de a interpretar.

14Porque se eu orar numa língua estrangeira, verdade é que o meu espírito ora, mas o meu entendimento fica sem fruto.[3]Porque se eu orar numa língua estrangeiraVERDADE É QUE O MEU ESPÍRITO ORA — Ora pelo afeto de devoção, e de elevação da alma a Deus, que é o principal em tôda a oração, como neste lugar ensina Santo Tomás. O que deve servir de grande consolação àqueles, e àquelas que, não entendendo a língua latina, rezam o Ofício Divino com recolhimento, e atenção de seus espíritos, ao que nele se diz de Deus, ou a Deus.

15Que farei eu logo? Orarei com o espírito, orarei também com a mente: Cantarei com o espírito, cantarei também com a mente.

16Mas se louvares com o espírito: O que ocupa o lugar de simples povo como dirá Amem sôbre a tua bênção? visto não entender êle o que tu dizes.

17Verdade é que tu dás bem as graças: Mas o outro não é edificado.

18Graças dou ao meu Deus, que falo tôdas as línguas que vós falais.

19Mas eu antes quero falar na Igreja cinco palavras da minha inteligência, para instruir também aos outros: Do que dez mil palavras em língua estranha.

20Irmãos, não sejais meninos no sentido, mas sêde pequeninos na malícia: E sêde perfeitos no sentido.[4]sêde perfeitos no sentidoE SEDE PERFEITOS — Irmãos meus, não prefirais por uma pueril vaidade os dons de maior esplendor, como é o das línguas, aos mais sólidos e necessários, como são os de profecia, o de interpretar as línguas, e outros. Haveis de imitar aos meninos em ignorar tudo aquilo que toca em malícia; mas deveis ser homens perfeitos para entender e julgar de tôdas as coisas, e para saber discernir o bom do mau. — Santo Agostinho.

21Na Lei está escrito: Em outras línguas, e noutros lábios falarei pois a êste povo: E nem ainda assim me ouvirão, diz o Senhor.

22E assim as línguas são para sinal, não aos fiéis, mas aos infiéis: Porém as profecias, não aos infiéis, mas aos fiéis.

23Se pois tôda a Igreja se congregar em um corpo, e todos falarem línguas diversas, e entrarem então idiotas, ou infiéis: Não dirão porventura que estais loucos?

24Porém se profetizarem todos, e entrarem ali um infiel, ou um idiota, de todos é convencido, de todos é julgado:

25As causas ocultas do seu coração se fazem manifestas: E assim prostrado com a face em terra adorará a Deus, declarando que Deus verdadeiramente está entre vós.

26Pois que haveis de fazer, irmãos? Quando vos congregais, se cada um de vós tem o dom de compor salmos, tem o de doutrina, tem o de revelação, tem o de línguas, tem o de as interpretar: Faça-se tudo isto para edificação.

27Ou se alguns têm o dom de línguas, não falem senão dois, ou quando muito três, e um depois do outro, e haja algum que interprete o que êles disserem.

28E se não houver intérprete, estejam calados na igreja, e não falem senão consigo, e com Deus.

29Pelo que toca porém aos profetas, falem também só dois, ou três, e os mais julguem o que ouvirem.

30E se neste tempo fôr feita qualquer revelação a algum outro dos que se acham assentados, cale-se o que falava primeiro.

31Porque vós podeis profetizar todos, um depois do outro: Para assim aprenderem todos, e serem todos exortados ao bem:

32Porque os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas.

33Porquanto Deus não é Deus de dissenção, senão de paz: Como eu também o ensino em tôdas as igrejas dos santos.

34As mulheres estejam caladas nas igrejas porque lhes não é permitido falar, mas devem estar sujeitas, como também o ordena a lei.

35E se querem aprender alguma coisa, perguntem-na em casa a seus maridos. Porque é coisa indecente para uma mulher o falar na igreja.

36Porventura é dentre vós que saiu a palavra de Deus? Ou não veio ela senão para vós?

37Se algum crê ser profeta, ou espiritual, reconheça que as coisas, que vos escrevo, são mandamentos do Senhor.

38Se algum porém o quer ignorar, será ignorado.

39Assim que, irmãos, tende emulação ao dom de profetizar: E não proibais o uso do dom de línguas.

40Mas faça-se tudo com decência, e com ordem.

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Causa determinante desta Epístola.Corinto, a capital de Acaia, era uma cidade declarada colônia romana por Julio César, a primeira da Grécia, pois contava cêrca de seiscentos mil habitantes de todas as nacionalidades, Latinos, Gregos, Judeus, etc. A tão grande e variada população correspondia naturalmente singular opulência, notabilizando-se pela sua vasta atividade e pelo seu luxo. Cícero chamava-lhe Totius Graeciae lumen. A sua posição geográfica, no istmo que une o Peloponeso à Grécia, entre o mar Egeu ao Oriente e o Jônio ao Ocidente, tornava Corinto um importante centro comercial. O comércio imprimia opulência à cidade, e esta aproveitava-se dessa riqueza para se entregar ao luxo e aos prazeres imoderadamente. O espetáculo que a cidade oferecia era de tal ponto dissolvente, que as orgias de agora não são senão pálida sombra de devassidão de então. O culto mais propagado e porventura o único praticado era o de Vênus. Compreende-se portanto bem quanto era árido o terreno sôbre que havia de cair a semente da palavra divina.

Era assim Corinto, a cidade que mais timbrava na corrupção de costumes, que inventava requintes da mais pervertida voluptuosidade no templo de Afrodite, quando S. Paulo, depois dos seus trabalhos Apostólicos na Macedônia, se resolveu ir ali pregar o Evangelho.

Que Corinto, pela sua posição, pela sua importância, pela sua riqueza, lhe oferecia vantagens extraordinárias ao seu Apostolado, fàcilmente se compreende, como se percebe também o desejo do Apóstolo a chegar até ali. Porém como pregar a castidade onde reinava a mais desenfreada crápula? Como pregar penitência e abnegação a quem vivia só da matéria e para a matéria? Por isso às primeiras tentativas seguiu-se o mais desanimador insucesso. E S. Paulo teve de se recolher em casa dum judeu converso, recentemente chegado de Roma, e de procurar pelo trabalho o indispensável para a sua sustentação (At 23, 2). E como se isto não bastasse para atormentar aquêle coração inflamado em zêlo pela salvação de tantas almas imersas no êrro, veio a enfermidade roubar-lhe as fôrças e tolher-lhe o seu apostolado. Todavia não desanimou, e apesar de pobre, fraco e doente, começou a ir ao sábado à sinagoga pregar, mas com uma certa timidez. Continuou o insucesso. Era preciso que a posteridade recolhesse uma lição de constância e de perseverança, era preciso tudo isto para que no decorrer dos séculos os apóstolos, a quem cumpre pregar a Jesus Cristo, aprendessem ali a firmeza no desempenho da sua missão.

Vendo S. Paulo que por êsse lado pouco conseguia, deixou a sinagoga, e abriu em casa de um prosélito uma escola para os pagãos. Foi então que êle mereceu uma visão que lhe encheu a alma de esperança, pois lhe era anunciado que ali estava o germen duma grande cristandade. Redobra o seu zêlo, multiplica a sua atividade, vence a sua própria fraqueza, cogita novas industrias para converter corações endurecidos, inicia rasgadamente a sua pregação, supera tôdas as dificuldades, e dá começo a uma ação apostólica, que se traduzia pelo ensino e pela beneficência, cativando assim todos os corações.

E' um quadro muito amplo êste do Apostolado de S. Paulo em Corinto, e sobretudo duma palpitante oportunidade para aquêles que nestes tempos têm por dever ensinar ao povo a doutrina de Jesus Cristo.

Por êste exemplo de S. Paulo se vê que, quem quiser ser Apóstolo, e conseguintemente benemérito da causa de Deus e da humanidade, não pode circunscrever a sua ação apostólica às quatro paredes do presbitério ou apenas dentro do templo. A sua ação tem de se exercer dum modo muito diverso; tem de aparecer em tôda a parte, destacando-se sempre pelas luzes do seu espírito, que devem iluminar, e pelas virtudes da sua alma que a todos devem edificar. E' preciso ir ao mundo para salvar o mundo.

Os primeiros sucessos da pregação de S. Paulo em Corinto foram entre o povo; as classes elevadas não aceitavam a palavra do grande Apóstolo. Não admira: aferrados aos seus preconceitos, escravos das suas paixões, no trono do seu orgulho, não querendo fitar desgraças nem sabendo enxugar lágrimas, não lhes soava bem uma doutrina que proclamava felizes os que choravam.

Ficassem êsses, revoltando-se no torvelinho dos seus crapulosos desmandos; os humildes, êsses iam formando, em muito pouco tempo, uma considerável cristandade. Quando frutificou a pregação de S. Paulo, inflamou-se a inveja dos judeus de Corinto, que se queixaram ao procônsul Galião, que pouco ou nenhum caso fêz da acusação, continuando S. Paulo em liberdade para pregar o Evangelho, o que fêz até ao ano 54 em que se retirou para a Palestina.

Estabelecida a Igreja entre os Coríntios, a breve trecho o Helenismo começa a causar uma certa perturbação nos espíritos, havendo uma tal ou qual cisão, agravada com a vinda de novos pregadores, que uns queriam escutar e a quem outros não queriam ouvir.

Daqui as controvérsias, as discussões estéreis, e a formação de vários partidos, e como consequência fatal os abusos. S. Paulo teve conhecimento dêste estado de coisas, amargurou-se extremamente e escreveu a sua Epístola.

Tempo e lugar em que foi escrita. — Esta epístola foi escrita na época em que se fazia a grande coleta para as Igrejas da Judéia; além disso havia dois anos que pregava a fé, e quatro ou cinco que tinha fundado a Igreja de Corinto, e ainda viviam muitos dos discípulos de Jesus que tinham presenciado a sua ressurreição, 1 Cor 15, 6. Por tudo isto os Padres assinam a esta epístola o ano 56. Quanto ao lugar não resta a menor dúvida que foi escrita em Éfeso, pois o próprio Apóstolo diz que ficara algum tempo em casa de Áquila e de Priscila, moradores nesta cidade durante a sua passagem por Corinto, 1 Cor 11, 19 cfr. At 13, 19-26.

Autenticidade. — Não se apresenta um fundamento sério para negar a autenticidade desta Epístola. Basta a sua leitura séria e refletida para trazer o convencimento indestrutível da sua autenticidade. A descrição dos trabalhos do autor, as recomendações doutrinais, as minudências a que chegou, os conselhos que dá, tudo o que aí se encontra só pode ser obra de S. Paulo.

Mas tôdas as considerações são supérfluas em face dos testemunhos decisivos dos Padres, da crença unânime dos fiéis. Além de Inácio Ad. Eph. 18, S. Policarpo, Ad Phil., a Epístola a Diognetes, nós temos um documento irrefragável em S. Clemente, papa, que, trinta anos mais tarde, escrevia aos Coríntios relembrando-lhes esta Epístola.

Divisão. — Esta Epístola difere muito da precedente, não só enquanto à matéria como enquanto à forma.

Esta Epístola não tem nada de dissertação nem de tratado dogmático, é uma série de avisos, reflexões, soluções dirigidas pelas circunstâncias e repartidas em sete artigos. Podemos contudo dividi-la da seguinte forma:

PRÓLOGO. — 1, 1-9.
PRIMEIRA SECÇÃO. — 1, 10-6, 20 Reforma dos abusos notados em Corinto.
    a) Abusos introduzidos por certos pregadores, cc. 1-4.
    b) Diversos escândalos dados por particulares, cc. 5 e 6.
SEGUNDA SECÇÃO. — Resposta às duvidas formuladas.
    a) Sôbre o casamento e sôbre o celibato, c. 7.
    b) Sôbre os manjares consagrados aos ídolos, cc. 8, 1-11, 1.
    c) Acêrca da ordem que deve reinar na assembléia religiosa, c. 11, 2-16.
    d) Do uso dos dons sobrenaturais, cc. 12-14.
    e) Sôbre a ressurreição, c. 15.

A leitura desta Epístola faz conhecer bem o espírito do Apóstolo e a primitiva disciplina da Igreja, ao mesmo tempo que revela o discernimento de S. Paulo, pois êle responde à carta que lhe fôra enviada pelas pessoas da casa de Cloé, à narração oral que lhe foi feita do estado da Igreja de Corinto, por Estéfanas e seus coadjutores, e as questões que os fiéis de Corinto propuseram ao seu critério para que êle lhes desse solução.

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