Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 10

Os judeus ingratos e murmuradores, castigados por Deus no deserto. Tudo o que a êles sucedia, era uma figura do que sucede a bons e maus. Deus nos ajuda nas nossas tentações. Deve-se fugir à idolatria. O que participa dos sacrifícios feitos a Deus deve-se desviar dos que se fazem aos demônios. Não basta a boa consciência, é de mais a mais necessário evitar o escândalo dos fracos.

1Porque não quero, irmãos, que vós ignoreis que nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, e que todos passaram o mar.

2E todos foram batizados debaixo da conduta de Moisés, na nuvem e no mar.[1]na nuvem e no marNA NUVEM E NO MAR — Quer dizer que a nuvem e o mar foram figuras do Batismo, que Jesus Cristo havia de instituir. Para o que é muito crível, dizem Êstio e Amelote, que os israelitas fossem alguns borrifados algumas gotas dágua que caíssem da nuvem e dalgumas do Mar Vermelho, quando divididas as suas águas, passaram por entre elas a pé enxuto.

3E todos comeram dum mesmo manjar espiritual.[2]dum mesmo manjar espiritualDUM MESMO MANJAR ESPIRITUAL — Chama o Apóstolo espiritual o manjar e espiritual a bebida dos israelitas no deserto, sendo que tanto o maná, como a água, eram umas criaturas materiais e corporais, porque as considera não em si, mas no que significavam; que era o Corpo e Sangue de Cristo sacramentado; os quais ainda que também em si são criaturas materiais e corporeas, estão contudo no Sacramento por um modo espiritual.

4E todos beberam duma mesma bebida espiritual, (porque todos bebiam da pedra misteriosa, que os seguia: E esta pedra era Cristo).[3]E esta pedra era CristoPORQUE TODOS BEBIAM DA PEDRA MISTERIOSA QUE OS SEGUIA — Bebiam da pedra, como nós dizemos, beber da fonte, ou beber do poço. E a pedra os seguia, enquanto os seguia a água, que arrebentara da pedra. E ESTA PEDRA ERA CRISTO — Isto é, e o que esta pedra significava era Jesus Cristo. O qual como pedra firmíssima sustenta a sua Igreja, e como o sangue que de si verteu, inundou o mundo de enchentes de graças.

5Mas de muitos dêles Deus se não agradou, pelo que foram prostrados no deserto.

6Mas estas coisas foram feitas em figura de nós outros, por que não sejamos cobiçosos de coisas más, como também êles as cobiçaram.

7Nem vos façais idólatras, como alguns dêles; conforme está escrito: O povo se assentou a comer e a beber, e se levantaram a jogar.

8Nem sejamos impuros, como alguns dêles foram e morreram em um dia vinte e três mil.

9Nem tentemos a Cristo: Como alguns dêles o tentaram e pereceram pelas mordeduras das serpentes.

10Nem murmureis, como murmuraram alguns dêles, e foram mortos pelo exterminador.

11Tôdas estas coisas porém lhes aconteciam a êles em figura, mas foram escritas para escarmento de nós outros, a quem os fins dos séculos têm chegado.

12Aquêle pois que crê estar em pé, veja não caia.

13Vós ainda não experimentastes, senão tentações humanas, mas Deus é fiel, o qual não permitirá que vós sejais tentados mais do que podem as vossas fôrças; antes fará que tireis ainda vantagem da mesma tentação, para o poderdes suportar.

14Pelo que, meus caríssimos, fugi da idolatria.

15Eu falo como a prudentes; julgai vós mesmos o que eu vos digo.

16Porventura o cálice da bênção, que nós benzemos, não é a comunhão do sangue de Cristo? e o pão, que partimos, não é a participação do corpo do Senhor?

17Porque nós todos somos um pão e um corpo, nós todos, que participamos dum mesmo pão.

18Considerai a Israel segundo a carne: Os que comem as vítimas, porventura não têm parte com o altar?

19Mas que? digo que o que foi sacrificado aos ídolos, é alguma coisa? ou que o ídolo é alguma coisa?

20Antes digo que as coisas que sacrificam os gentios, as sacrificam aos demônios, e não a Deus. E eu não quero que vós tenhais sociedade com os demônios: Não podeis beber o cálice do Senhor, e o cálice dos demônios.

21Não podeis ser participantes da mesa do Senhor, e da mesa dos demônios.

22Queremos porventura irritar com zelos ao Senhor? Acaso somos nós mais fortes do que êle? Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém.[4]Queremos porventura irritar com zelos ao SenhorQUEREMOS PORVENTURA IRRITAR COM ZELOS — Como o demônio e o inimigo é o rival de Deus, quer dizer o Apóstolo, que os que dentre os Coríntios se assentavam com os gentios a comer dos manjares oferecidos aos ídolos, depois de terem noutra mesa participado do corpo de Jesus Cristo, provocavam com aquela ação a ira e ciume de Deus.

23Tudo me é permitido, mas nem tudo edifica.

24Ninguém busque o que é seu, senão o que é do outro.

25De tudo o que se vende na praça, comei, sem perguntar nada por causa da consciência.

26Porque do Senhor é a terra, e tudo quanto há nela.

27Se algum dos infiéis vos convida e quereis ir: Comei de tudo o que se vos põe diante, não perguntando nada por causa da consciência.

28E se algum disser: Isto foi sacrificado aos ídolos: Não no comais em atenção daquele que o advertiu, e por causa da consciência:

29E digo a consciência, não a tua, mas a do outro. Porque, a que fim a minha liberdade é julgada pela consciência alheia?

30Ainda que eu com graça participo, a que fim darei ocasião a ser blasfemado por uma coisa por que dou graças?

31Logo, ou vós comais, ou bebais, ou façais qualquer outra coisa: Fazei tudo para glória de Deus.[5]Fazei tudo para glória de DeusFAZEI TUDO PARA GLÓRIA DE DEUS — De preceito estamos obrigados a referir para glória de Deus tudo o que fazemos. Mas não se obra contra êste, o que não refere com um ato expresso para glória de Deus a ação que faz. Porque basta que a refira para Deus, habitual ou virtualmente. S. Tomás na primeira da segunda, questão 88, art. 1, e na segunda da segunda, questão 69, art. 4.

32Portai-vos sem dar escândalo, nem aos judeus, nem aos gentios, nem à igreja de Deus.

33Como também eu em tudo procuro agradar a todos, não buscando o que me é de proveito, senão o de muitos: Para que sejam salvos.

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Causa determinante desta Epístola.Corinto, a capital de Acaia, era uma cidade declarada colônia romana por Julio César, a primeira da Grécia, pois contava cêrca de seiscentos mil habitantes de todas as nacionalidades, Latinos, Gregos, Judeus, etc. A tão grande e variada população correspondia naturalmente singular opulência, notabilizando-se pela sua vasta atividade e pelo seu luxo. Cícero chamava-lhe Totius Graeciae lumen. A sua posição geográfica, no istmo que une o Peloponeso à Grécia, entre o mar Egeu ao Oriente e o Jônio ao Ocidente, tornava Corinto um importante centro comercial. O comércio imprimia opulência à cidade, e esta aproveitava-se dessa riqueza para se entregar ao luxo e aos prazeres imoderadamente. O espetáculo que a cidade oferecia era de tal ponto dissolvente, que as orgias de agora não são senão pálida sombra de devassidão de então. O culto mais propagado e porventura o único praticado era o de Vênus. Compreende-se portanto bem quanto era árido o terreno sôbre que havia de cair a semente da palavra divina.

Era assim Corinto, a cidade que mais timbrava na corrupção de costumes, que inventava requintes da mais pervertida voluptuosidade no templo de Afrodite, quando S. Paulo, depois dos seus trabalhos Apostólicos na Macedônia, se resolveu ir ali pregar o Evangelho.

Que Corinto, pela sua posição, pela sua importância, pela sua riqueza, lhe oferecia vantagens extraordinárias ao seu Apostolado, fàcilmente se compreende, como se percebe também o desejo do Apóstolo a chegar até ali. Porém como pregar a castidade onde reinava a mais desenfreada crápula? Como pregar penitência e abnegação a quem vivia só da matéria e para a matéria? Por isso às primeiras tentativas seguiu-se o mais desanimador insucesso. E S. Paulo teve de se recolher em casa dum judeu converso, recentemente chegado de Roma, e de procurar pelo trabalho o indispensável para a sua sustentação (At 23, 2). E como se isto não bastasse para atormentar aquêle coração inflamado em zêlo pela salvação de tantas almas imersas no êrro, veio a enfermidade roubar-lhe as fôrças e tolher-lhe o seu apostolado. Todavia não desanimou, e apesar de pobre, fraco e doente, começou a ir ao sábado à sinagoga pregar, mas com uma certa timidez. Continuou o insucesso. Era preciso que a posteridade recolhesse uma lição de constância e de perseverança, era preciso tudo isto para que no decorrer dos séculos os apóstolos, a quem cumpre pregar a Jesus Cristo, aprendessem ali a firmeza no desempenho da sua missão.

Vendo S. Paulo que por êsse lado pouco conseguia, deixou a sinagoga, e abriu em casa de um prosélito uma escola para os pagãos. Foi então que êle mereceu uma visão que lhe encheu a alma de esperança, pois lhe era anunciado que ali estava o germen duma grande cristandade. Redobra o seu zêlo, multiplica a sua atividade, vence a sua própria fraqueza, cogita novas industrias para converter corações endurecidos, inicia rasgadamente a sua pregação, supera tôdas as dificuldades, e dá começo a uma ação apostólica, que se traduzia pelo ensino e pela beneficência, cativando assim todos os corações.

E' um quadro muito amplo êste do Apostolado de S. Paulo em Corinto, e sobretudo duma palpitante oportunidade para aquêles que nestes tempos têm por dever ensinar ao povo a doutrina de Jesus Cristo.

Por êste exemplo de S. Paulo se vê que, quem quiser ser Apóstolo, e conseguintemente benemérito da causa de Deus e da humanidade, não pode circunscrever a sua ação apostólica às quatro paredes do presbitério ou apenas dentro do templo. A sua ação tem de se exercer dum modo muito diverso; tem de aparecer em tôda a parte, destacando-se sempre pelas luzes do seu espírito, que devem iluminar, e pelas virtudes da sua alma que a todos devem edificar. E' preciso ir ao mundo para salvar o mundo.

Os primeiros sucessos da pregação de S. Paulo em Corinto foram entre o povo; as classes elevadas não aceitavam a palavra do grande Apóstolo. Não admira: aferrados aos seus preconceitos, escravos das suas paixões, no trono do seu orgulho, não querendo fitar desgraças nem sabendo enxugar lágrimas, não lhes soava bem uma doutrina que proclamava felizes os que choravam.

Ficassem êsses, revoltando-se no torvelinho dos seus crapulosos desmandos; os humildes, êsses iam formando, em muito pouco tempo, uma considerável cristandade. Quando frutificou a pregação de S. Paulo, inflamou-se a inveja dos judeus de Corinto, que se queixaram ao procônsul Galião, que pouco ou nenhum caso fêz da acusação, continuando S. Paulo em liberdade para pregar o Evangelho, o que fêz até ao ano 54 em que se retirou para a Palestina.

Estabelecida a Igreja entre os Coríntios, a breve trecho o Helenismo começa a causar uma certa perturbação nos espíritos, havendo uma tal ou qual cisão, agravada com a vinda de novos pregadores, que uns queriam escutar e a quem outros não queriam ouvir.

Daqui as controvérsias, as discussões estéreis, e a formação de vários partidos, e como consequência fatal os abusos. S. Paulo teve conhecimento dêste estado de coisas, amargurou-se extremamente e escreveu a sua Epístola.

Tempo e lugar em que foi escrita. — Esta epístola foi escrita na época em que se fazia a grande coleta para as Igrejas da Judéia; além disso havia dois anos que pregava a fé, e quatro ou cinco que tinha fundado a Igreja de Corinto, e ainda viviam muitos dos discípulos de Jesus que tinham presenciado a sua ressurreição, 1 Cor 15, 6. Por tudo isto os Padres assinam a esta epístola o ano 56. Quanto ao lugar não resta a menor dúvida que foi escrita em Éfeso, pois o próprio Apóstolo diz que ficara algum tempo em casa de Áquila e de Priscila, moradores nesta cidade durante a sua passagem por Corinto, 1 Cor 11, 19 cfr. At 13, 19-26.

Autenticidade. — Não se apresenta um fundamento sério para negar a autenticidade desta Epístola. Basta a sua leitura séria e refletida para trazer o convencimento indestrutível da sua autenticidade. A descrição dos trabalhos do autor, as recomendações doutrinais, as minudências a que chegou, os conselhos que dá, tudo o que aí se encontra só pode ser obra de S. Paulo.

Mas tôdas as considerações são supérfluas em face dos testemunhos decisivos dos Padres, da crença unânime dos fiéis. Além de Inácio Ad. Eph. 18, S. Policarpo, Ad Phil., a Epístola a Diognetes, nós temos um documento irrefragável em S. Clemente, papa, que, trinta anos mais tarde, escrevia aos Coríntios relembrando-lhes esta Epístola.

Divisão. — Esta Epístola difere muito da precedente, não só enquanto à matéria como enquanto à forma.

Esta Epístola não tem nada de dissertação nem de tratado dogmático, é uma série de avisos, reflexões, soluções dirigidas pelas circunstâncias e repartidas em sete artigos. Podemos contudo dividi-la da seguinte forma:

PRÓLOGO. — 1, 1-9.
PRIMEIRA SECÇÃO. — 1, 10-6, 20 Reforma dos abusos notados em Corinto.
    a) Abusos introduzidos por certos pregadores, cc. 1-4.
    b) Diversos escândalos dados por particulares, cc. 5 e 6.
SEGUNDA SECÇÃO. — Resposta às duvidas formuladas.
    a) Sôbre o casamento e sôbre o celibato, c. 7.
    b) Sôbre os manjares consagrados aos ídolos, cc. 8, 1-11, 1.
    c) Acêrca da ordem que deve reinar na assembléia religiosa, c. 11, 2-16.
    d) Do uso dos dons sobrenaturais, cc. 12-14.
    e) Sôbre a ressurreição, c. 15.

A leitura desta Epístola faz conhecer bem o espírito do Apóstolo e a primitiva disciplina da Igreja, ao mesmo tempo que revela o discernimento de S. Paulo, pois êle responde à carta que lhe fôra enviada pelas pessoas da casa de Cloé, à narração oral que lhe foi feita do estado da Igreja de Corinto, por Estéfanas e seus coadjutores, e as questões que os fiéis de Corinto propuseram ao seu critério para que êle lhes desse solução.

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