Capítulo 10
1Porque não quero, irmãos, que vós ignoreis que nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, e que todos passaram o mar.
2E todos foram batizados debaixo da conduta de Moisés, na nuvem e no mar.[1]na nuvem e no mar — NA NUVEM E NO MAR — Quer dizer que a nuvem e o mar foram figuras do Batismo, que Jesus Cristo havia de instituir. Para o que é muito crível, dizem Êstio e Amelote, que os israelitas fossem alguns borrifados algumas gotas dágua que caíssem da nuvem e dalgumas do Mar Vermelho, quando divididas as suas águas, passaram por entre elas a pé enxuto.
3E todos comeram dum mesmo manjar espiritual.[2]dum mesmo manjar espiritual — DUM MESMO MANJAR ESPIRITUAL — Chama o Apóstolo espiritual o manjar e espiritual a bebida dos israelitas no deserto, sendo que tanto o maná, como a água, eram umas criaturas materiais e corporais, porque as considera não em si, mas no que significavam; que era o Corpo e Sangue de Cristo sacramentado; os quais ainda que também em si são criaturas materiais e corporeas, estão contudo no Sacramento por um modo espiritual.
4E todos beberam duma mesma bebida espiritual, (porque todos bebiam da pedra misteriosa, que os seguia: E esta pedra era Cristo).[3]E esta pedra era Cristo — PORQUE TODOS BEBIAM DA PEDRA MISTERIOSA QUE OS SEGUIA — Bebiam da pedra, como nós dizemos, beber da fonte, ou beber do poço. E a pedra os seguia, enquanto os seguia a água, que arrebentara da pedra. E ESTA PEDRA ERA CRISTO — Isto é, e o que esta pedra significava era Jesus Cristo. O qual como pedra firmíssima sustenta a sua Igreja, e como o sangue que de si verteu, inundou o mundo de enchentes de graças.
5Mas de muitos dêles Deus se não agradou, pelo que foram prostrados no deserto.
6Mas estas coisas foram feitas em figura de nós outros, por que não sejamos cobiçosos de coisas más, como também êles as cobiçaram.
7Nem vos façais idólatras, como alguns dêles; conforme está escrito: O povo se assentou a comer e a beber, e se levantaram a jogar.
8Nem sejamos impuros, como alguns dêles foram e morreram em um dia vinte e três mil.
9Nem tentemos a Cristo: Como alguns dêles o tentaram e pereceram pelas mordeduras das serpentes.
10Nem murmureis, como murmuraram alguns dêles, e foram mortos pelo exterminador.
11Tôdas estas coisas porém lhes aconteciam a êles em figura, mas foram escritas para escarmento de nós outros, a quem os fins dos séculos têm chegado.
12Aquêle pois que crê estar em pé, veja não caia.
13Vós ainda não experimentastes, senão tentações humanas, mas Deus é fiel, o qual não permitirá que vós sejais tentados mais do que podem as vossas fôrças; antes fará que tireis ainda vantagem da mesma tentação, para o poderdes suportar.
14Pelo que, meus caríssimos, fugi da idolatria.
15Eu falo como a prudentes; julgai vós mesmos o que eu vos digo.
16Porventura o cálice da bênção, que nós benzemos, não é a comunhão do sangue de Cristo? e o pão, que partimos, não é a participação do corpo do Senhor?
17Porque nós todos somos um pão e um corpo, nós todos, que participamos dum mesmo pão.
18Considerai a Israel segundo a carne: Os que comem as vítimas, porventura não têm parte com o altar?
19Mas que? digo que o que foi sacrificado aos ídolos, é alguma coisa? ou que o ídolo é alguma coisa?
20Antes digo que as coisas que sacrificam os gentios, as sacrificam aos demônios, e não a Deus. E eu não quero que vós tenhais sociedade com os demônios: Não podeis beber o cálice do Senhor, e o cálice dos demônios.
21Não podeis ser participantes da mesa do Senhor, e da mesa dos demônios.
22Queremos porventura irritar com zelos ao Senhor? Acaso somos nós mais fortes do que êle? Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém.[4]Queremos porventura irritar com zelos ao Senhor — QUEREMOS PORVENTURA IRRITAR COM ZELOS — Como o demônio e o inimigo é o rival de Deus, quer dizer o Apóstolo, que os que dentre os Coríntios se assentavam com os gentios a comer dos manjares oferecidos aos ídolos, depois de terem noutra mesa participado do corpo de Jesus Cristo, provocavam com aquela ação a ira e ciume de Deus.
23Tudo me é permitido, mas nem tudo edifica.
24Ninguém busque o que é seu, senão o que é do outro.
25De tudo o que se vende na praça, comei, sem perguntar nada por causa da consciência.
26Porque do Senhor é a terra, e tudo quanto há nela.
27Se algum dos infiéis vos convida e quereis ir: Comei de tudo o que se vos põe diante, não perguntando nada por causa da consciência.
28E se algum disser: Isto foi sacrificado aos ídolos: Não no comais em atenção daquele que o advertiu, e por causa da consciência:
29E digo a consciência, não a tua, mas a do outro. Porque, a que fim a minha liberdade é julgada pela consciência alheia?
30Ainda que eu com graça participo, a que fim darei ocasião a ser blasfemado por uma coisa por que dou graças?
31Logo, ou vós comais, ou bebais, ou façais qualquer outra coisa: Fazei tudo para glória de Deus.[5]Fazei tudo para glória de Deus — FAZEI TUDO PARA GLÓRIA DE DEUS — De preceito estamos obrigados a referir para glória de Deus tudo o que fazemos. Mas não se obra contra êste, o que não refere com um ato expresso para glória de Deus a ação que faz. Porque basta que a refira para Deus, habitual ou virtualmente. S. Tomás na primeira da segunda, questão 88, art. 1, e na segunda da segunda, questão 69, art. 4.
32Portai-vos sem dar escândalo, nem aos judeus, nem aos gentios, nem à igreja de Deus.
33Como também eu em tudo procuro agradar a todos, não buscando o que me é de proveito, senão o de muitos: Para que sejam salvos.