Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 2

O assunto da pregação de Paulo aos Coríntios foi Jesus Cristo crucificado. As suas palavras sempre chãs. Aos perfeitos contudo pregava êle uma sabedoria desconhecida dos mundanos, a qual sabedoria só o Espírito de Deus a faz conhecer: e dela é incapaz o homem carnal.

1E eu, quando fui ter convosco, irmãos, fui não com sublimidade de estilo, ou de sabedoria, a anunciar-vos o testemunho de Cristo.

2Porque julguei não saber coisa alguma entre vós, senão a Jesus Cristo, e êste crucificado.[1]senão a Jesus Cristo, e êste crucificadoA JESUS CRISTO — Daqui se infere que a pregação católica deve ter como objeto exclusivo o divino Redentor. Alienar Jesus do púlpito é conspurcar a cadeira da verdade, é trair o ministério sacerdotal. O exemplo de S. Paulo é de tal sorte evidente que todos o podem conhecer e praticar.

3E eu estive entre vós em fraqueza, e temor, e grande tremor:[2]e em grande tremorEM FRAQUEZA — Em fraqueza, isto é, em humildade de conversação, em temor, e em tremor, isto é, não cometesse eu por palavra, ou por obra, coisa que vos ofendesse, e vos fizesse esfriar na fé, que tinheis abraçado. — Êstio.

4Tanto a minha conversação, como a minha pregação não consistiu em palavras persuasivas de humana sabedoria, mas em demonstração de espírito, e de virtude:

5Para que a vossa fé não se funde em sabedoria de homens, mas na virtude de Deus.

6Isto não obstante, entre os perfeitos falamos da sabedoria: Não porém da sabedoria dêste século, nem da dos príncipes dêste século, que são destruídos:[3]que são destruídosENTRE OS PERFEITOS FALAMOS — Por "perfeitos" entende o Apóstolo neste verso, os que no verso 15 ele chama "espirituais". Por "sabedoria" entende, não qualquer sabedoria das coisas sobrenaturais, mas a sabedoria dos mistérios mais altos, como são os que êle na Epístola aos Romanos ensina sôbre a eleição e reprovação dos homens. Na Epístola aos Tessalonicenses, os que ensina sôbre o Anticristo. Na Epístola aos hebreus, os que ensina do Sacerdócio de Jesus Cristo. — Êstio. NÃO PORÉM DA SABEDORIA DÊSTE SÉCULO — Isto é, dos filósofos gentios, autores de diversas escolas. — Êstio. NEM DA DOS PRÍNCIPES DESTE SÉCULO — São os potentados da terra, os filósofos, os sectários do demônio que foram vencidos pelo estabelecimento do Cristianismo. São os tais, cuja geração se tem perpetuado, dos quais disse o doutíssimo Macedo: que são conduzidos a extremos, não só indignos do homem cristão, mas do homem que em tudo se diz, e em tudo quer ser conhecido como Filósofo, que são pertinazmente crédulos nas coisas que são favoráveis ao seu modo de sentir, e pertinazmente incrédulos nas razões contrárias aos seus funestíssimos princípios. Macedo. — Simeão sôbre o Espírito Dominante, 1855.

7Mas falamos da sabedoria de Deus em mistério que está encoberta, da que predestinou antes dos séculos para nossa glória.[4]predestinou antes dos séculos para nossa glóriaEM MISTÉRIO — Isto é, no mistério da Encarnação, e no que nele há de mais recôndito. — Sacy e Amelote.

8A qual nenhum dos príncipes dêste século conheceu: Porque se êles a conheceram, nunca crucificariam ao Senhor da Glória.

9Mas assim como está escrito: Que o olho não viu, nem o ouvido ouviu, nem jamais veio ao coração do homem, o que Deus tem preparado para aqueles que o amam:

10Porém Deus no-lo revelou pelo seu espírito: Porque o espírito tudo penetra, ainda o que há de mais oculto na profundidade de Deus.

11Porque qual dos homens conhece as coisas que são do homem, senão o espírito do homem, que nêle mesmo reside? assim também as que são de Deus, ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus.

12Ora nós não recebemos o espírito dêste mundo, mas sim o espírito que vem de Deus, para sabermos as coisas que por Deus nos foram dadas:

13O que também anunciamos não com doutas palavras de humana sabedoria, mas com a doutrina do espírito, acomodando o espiritual ao espiritual.

14Mas o homem animal não percebe aquelas coisas, que são do espírito de Deus: Porque lhe parecem uma estultícia, e não as pode entender: Porquanto elas se ponderam espiritualmente.

15Mas o espiritual julga tôdas as coisas: E êle não é julgado de ninguém.[5]E êle não é julgado de ninguémMAS O ESPIRITUAL JULGA TÔDAS AS COISAS — Não se pode deduzir daqui, como pèssimamente deduzem os sectários modernos, que cada fiel tem autoridade de julgar das controvérsias de Religião. Primo: porque o Apóstolo quando aprova no homem espiritual o julgar de tôdas as coisas, considera não a profissão, mas a ciência, enquanto supõe que entre os mesmos fiéis há muitos que por serem ainda animais, isto é, rudes do que é mais elevado na religião, não são capazes de julgar das coisas dela. Segundo: porque o Apóstolo não fala do juizo de autoridade, mas do juizo de discreção. E pode por exemplo um Teólogo ter voto nas matérias de religião, para interpor sôbre elas doutamente o seu juizo, e ensiná-lo aos outros, e não ter autoridade pública de julgar da religião, a qual só compete aos pastores, assim como não é o mesmo ser bom jurisconsulto, que ser julgador legítimo.

16Porquanto quem conheceu o conselho do Senhor, para que o possa instruir? Porém nós sabemos a mente de Cristo.[6]Porém nós sabemos a mente de CristoQUEM CONHECEU O CONSELHO DO SENHOR? — O homem sensual não pode conhecer os pensamentos, os desígnios, os decretos de Deus. A mente, o sentido, o espírito, a intenção. Tudo isto significa a voz sensus. NÓS SABERÉMOS — Pela revelação. — Pereira.

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Causa determinante desta Epístola.Corinto, a capital de Acaia, era uma cidade declarada colônia romana por Julio César, a primeira da Grécia, pois contava cêrca de seiscentos mil habitantes de todas as nacionalidades, Latinos, Gregos, Judeus, etc. A tão grande e variada população correspondia naturalmente singular opulência, notabilizando-se pela sua vasta atividade e pelo seu luxo. Cícero chamava-lhe Totius Graeciae lumen. A sua posição geográfica, no istmo que une o Peloponeso à Grécia, entre o mar Egeu ao Oriente e o Jônio ao Ocidente, tornava Corinto um importante centro comercial. O comércio imprimia opulência à cidade, e esta aproveitava-se dessa riqueza para se entregar ao luxo e aos prazeres imoderadamente. O espetáculo que a cidade oferecia era de tal ponto dissolvente, que as orgias de agora não são senão pálida sombra de devassidão de então. O culto mais propagado e porventura o único praticado era o de Vênus. Compreende-se portanto bem quanto era árido o terreno sôbre que havia de cair a semente da palavra divina.

Era assim Corinto, a cidade que mais timbrava na corrupção de costumes, que inventava requintes da mais pervertida voluptuosidade no templo de Afrodite, quando S. Paulo, depois dos seus trabalhos Apostólicos na Macedônia, se resolveu ir ali pregar o Evangelho.

Que Corinto, pela sua posição, pela sua importância, pela sua riqueza, lhe oferecia vantagens extraordinárias ao seu Apostolado, fàcilmente se compreende, como se percebe também o desejo do Apóstolo a chegar até ali. Porém como pregar a castidade onde reinava a mais desenfreada crápula? Como pregar penitência e abnegação a quem vivia só da matéria e para a matéria? Por isso às primeiras tentativas seguiu-se o mais desanimador insucesso. E S. Paulo teve de se recolher em casa dum judeu converso, recentemente chegado de Roma, e de procurar pelo trabalho o indispensável para a sua sustentação (At 23, 2). E como se isto não bastasse para atormentar aquêle coração inflamado em zêlo pela salvação de tantas almas imersas no êrro, veio a enfermidade roubar-lhe as fôrças e tolher-lhe o seu apostolado. Todavia não desanimou, e apesar de pobre, fraco e doente, começou a ir ao sábado à sinagoga pregar, mas com uma certa timidez. Continuou o insucesso. Era preciso que a posteridade recolhesse uma lição de constância e de perseverança, era preciso tudo isto para que no decorrer dos séculos os apóstolos, a quem cumpre pregar a Jesus Cristo, aprendessem ali a firmeza no desempenho da sua missão.

Vendo S. Paulo que por êsse lado pouco conseguia, deixou a sinagoga, e abriu em casa de um prosélito uma escola para os pagãos. Foi então que êle mereceu uma visão que lhe encheu a alma de esperança, pois lhe era anunciado que ali estava o germen duma grande cristandade. Redobra o seu zêlo, multiplica a sua atividade, vence a sua própria fraqueza, cogita novas industrias para converter corações endurecidos, inicia rasgadamente a sua pregação, supera tôdas as dificuldades, e dá começo a uma ação apostólica, que se traduzia pelo ensino e pela beneficência, cativando assim todos os corações.

E' um quadro muito amplo êste do Apostolado de S. Paulo em Corinto, e sobretudo duma palpitante oportunidade para aquêles que nestes tempos têm por dever ensinar ao povo a doutrina de Jesus Cristo.

Por êste exemplo de S. Paulo se vê que, quem quiser ser Apóstolo, e conseguintemente benemérito da causa de Deus e da humanidade, não pode circunscrever a sua ação apostólica às quatro paredes do presbitério ou apenas dentro do templo. A sua ação tem de se exercer dum modo muito diverso; tem de aparecer em tôda a parte, destacando-se sempre pelas luzes do seu espírito, que devem iluminar, e pelas virtudes da sua alma que a todos devem edificar. E' preciso ir ao mundo para salvar o mundo.

Os primeiros sucessos da pregação de S. Paulo em Corinto foram entre o povo; as classes elevadas não aceitavam a palavra do grande Apóstolo. Não admira: aferrados aos seus preconceitos, escravos das suas paixões, no trono do seu orgulho, não querendo fitar desgraças nem sabendo enxugar lágrimas, não lhes soava bem uma doutrina que proclamava felizes os que choravam.

Ficassem êsses, revoltando-se no torvelinho dos seus crapulosos desmandos; os humildes, êsses iam formando, em muito pouco tempo, uma considerável cristandade. Quando frutificou a pregação de S. Paulo, inflamou-se a inveja dos judeus de Corinto, que se queixaram ao procônsul Galião, que pouco ou nenhum caso fêz da acusação, continuando S. Paulo em liberdade para pregar o Evangelho, o que fêz até ao ano 54 em que se retirou para a Palestina.

Estabelecida a Igreja entre os Coríntios, a breve trecho o Helenismo começa a causar uma certa perturbação nos espíritos, havendo uma tal ou qual cisão, agravada com a vinda de novos pregadores, que uns queriam escutar e a quem outros não queriam ouvir.

Daqui as controvérsias, as discussões estéreis, e a formação de vários partidos, e como consequência fatal os abusos. S. Paulo teve conhecimento dêste estado de coisas, amargurou-se extremamente e escreveu a sua Epístola.

Tempo e lugar em que foi escrita. — Esta epístola foi escrita na época em que se fazia a grande coleta para as Igrejas da Judéia; além disso havia dois anos que pregava a fé, e quatro ou cinco que tinha fundado a Igreja de Corinto, e ainda viviam muitos dos discípulos de Jesus que tinham presenciado a sua ressurreição, 1 Cor 15, 6. Por tudo isto os Padres assinam a esta epístola o ano 56. Quanto ao lugar não resta a menor dúvida que foi escrita em Éfeso, pois o próprio Apóstolo diz que ficara algum tempo em casa de Áquila e de Priscila, moradores nesta cidade durante a sua passagem por Corinto, 1 Cor 11, 19 cfr. At 13, 19-26.

Autenticidade. — Não se apresenta um fundamento sério para negar a autenticidade desta Epístola. Basta a sua leitura séria e refletida para trazer o convencimento indestrutível da sua autenticidade. A descrição dos trabalhos do autor, as recomendações doutrinais, as minudências a que chegou, os conselhos que dá, tudo o que aí se encontra só pode ser obra de S. Paulo.

Mas tôdas as considerações são supérfluas em face dos testemunhos decisivos dos Padres, da crença unânime dos fiéis. Além de Inácio Ad. Eph. 18, S. Policarpo, Ad Phil., a Epístola a Diognetes, nós temos um documento irrefragável em S. Clemente, papa, que, trinta anos mais tarde, escrevia aos Coríntios relembrando-lhes esta Epístola.

Divisão. — Esta Epístola difere muito da precedente, não só enquanto à matéria como enquanto à forma.

Esta Epístola não tem nada de dissertação nem de tratado dogmático, é uma série de avisos, reflexões, soluções dirigidas pelas circunstâncias e repartidas em sete artigos. Podemos contudo dividi-la da seguinte forma:

PRÓLOGO. — 1, 1-9.
PRIMEIRA SECÇÃO. — 1, 10-6, 20 Reforma dos abusos notados em Corinto.
    a) Abusos introduzidos por certos pregadores, cc. 1-4.
    b) Diversos escândalos dados por particulares, cc. 5 e 6.
SEGUNDA SECÇÃO. — Resposta às duvidas formuladas.
    a) Sôbre o casamento e sôbre o celibato, c. 7.
    b) Sôbre os manjares consagrados aos ídolos, cc. 8, 1-11, 1.
    c) Acêrca da ordem que deve reinar na assembléia religiosa, c. 11, 2-16.
    d) Do uso dos dons sobrenaturais, cc. 12-14.
    e) Sôbre a ressurreição, c. 15.

A leitura desta Epístola faz conhecer bem o espírito do Apóstolo e a primitiva disciplina da Igreja, ao mesmo tempo que revela o discernimento de S. Paulo, pois êle responde à carta que lhe fôra enviada pelas pessoas da casa de Cloé, à narração oral que lhe foi feita do estado da Igreja de Corinto, por Estéfanas e seus coadjutores, e as questões que os fiéis de Corinto propuseram ao seu critério para que êle lhes desse solução.

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