Capítulo 2
1E eu, quando fui ter convosco, irmãos, fui não com sublimidade de estilo, ou de sabedoria, a anunciar-vos o testemunho de Cristo.
2Porque julguei não saber coisa alguma entre vós, senão a Jesus Cristo, e êste crucificado.[1]senão a Jesus Cristo, e êste crucificado — A JESUS CRISTO — Daqui se infere que a pregação católica deve ter como objeto exclusivo o divino Redentor. Alienar Jesus do púlpito é conspurcar a cadeira da verdade, é trair o ministério sacerdotal. O exemplo de S. Paulo é de tal sorte evidente que todos o podem conhecer e praticar.
3E eu estive entre vós em fraqueza, e temor, e grande tremor:[2]e em grande tremor — EM FRAQUEZA — Em fraqueza, isto é, em humildade de conversação, em temor, e em tremor, isto é, não cometesse eu por palavra, ou por obra, coisa que vos ofendesse, e vos fizesse esfriar na fé, que tinheis abraçado. — Êstio.
4Tanto a minha conversação, como a minha pregação não consistiu em palavras persuasivas de humana sabedoria, mas em demonstração de espírito, e de virtude:
5Para que a vossa fé não se funde em sabedoria de homens, mas na virtude de Deus.
6Isto não obstante, entre os perfeitos falamos da sabedoria: Não porém da sabedoria dêste século, nem da dos príncipes dêste século, que são destruídos:[3]que são destruídos — ENTRE OS PERFEITOS FALAMOS — Por "perfeitos" entende o Apóstolo neste verso, os que no verso 15 ele chama "espirituais". Por "sabedoria" entende, não qualquer sabedoria das coisas sobrenaturais, mas a sabedoria dos mistérios mais altos, como são os que êle na Epístola aos Romanos ensina sôbre a eleição e reprovação dos homens. Na Epístola aos Tessalonicenses, os que ensina sôbre o Anticristo. Na Epístola aos hebreus, os que ensina do Sacerdócio de Jesus Cristo. — Êstio. NÃO PORÉM DA SABEDORIA DÊSTE SÉCULO — Isto é, dos filósofos gentios, autores de diversas escolas. — Êstio. NEM DA DOS PRÍNCIPES DESTE SÉCULO — São os potentados da terra, os filósofos, os sectários do demônio que foram vencidos pelo estabelecimento do Cristianismo. São os tais, cuja geração se tem perpetuado, dos quais disse o doutíssimo Macedo: que são conduzidos a extremos, não só indignos do homem cristão, mas do homem que em tudo se diz, e em tudo quer ser conhecido como Filósofo, que são pertinazmente crédulos nas coisas que são favoráveis ao seu modo de sentir, e pertinazmente incrédulos nas razões contrárias aos seus funestíssimos princípios. Macedo. — Simeão sôbre o Espírito Dominante, 1855.
7Mas falamos da sabedoria de Deus em mistério que está encoberta, da que predestinou antes dos séculos para nossa glória.[4]predestinou antes dos séculos para nossa glória — EM MISTÉRIO — Isto é, no mistério da Encarnação, e no que nele há de mais recôndito. — Sacy e Amelote.
8A qual nenhum dos príncipes dêste século conheceu: Porque se êles a conheceram, nunca crucificariam ao Senhor da Glória.
9Mas assim como está escrito: Que o olho não viu, nem o ouvido ouviu, nem jamais veio ao coração do homem, o que Deus tem preparado para aqueles que o amam:
10Porém Deus no-lo revelou pelo seu espírito: Porque o espírito tudo penetra, ainda o que há de mais oculto na profundidade de Deus.
11Porque qual dos homens conhece as coisas que são do homem, senão o espírito do homem, que nêle mesmo reside? assim também as que são de Deus, ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus.
12Ora nós não recebemos o espírito dêste mundo, mas sim o espírito que vem de Deus, para sabermos as coisas que por Deus nos foram dadas:
13O que também anunciamos não com doutas palavras de humana sabedoria, mas com a doutrina do espírito, acomodando o espiritual ao espiritual.
14Mas o homem animal não percebe aquelas coisas, que são do espírito de Deus: Porque lhe parecem uma estultícia, e não as pode entender: Porquanto elas se ponderam espiritualmente.
15Mas o espiritual julga tôdas as coisas: E êle não é julgado de ninguém.[5]E êle não é julgado de ninguém — MAS O ESPIRITUAL JULGA TÔDAS AS COISAS — Não se pode deduzir daqui, como pèssimamente deduzem os sectários modernos, que cada fiel tem autoridade de julgar das controvérsias de Religião. Primo: porque o Apóstolo quando aprova no homem espiritual o julgar de tôdas as coisas, considera não a profissão, mas a ciência, enquanto supõe que entre os mesmos fiéis há muitos que por serem ainda animais, isto é, rudes do que é mais elevado na religião, não são capazes de julgar das coisas dela. Segundo: porque o Apóstolo não fala do juizo de autoridade, mas do juizo de discreção. E pode por exemplo um Teólogo ter voto nas matérias de religião, para interpor sôbre elas doutamente o seu juizo, e ensiná-lo aos outros, e não ter autoridade pública de julgar da religião, a qual só compete aos pastores, assim como não é o mesmo ser bom jurisconsulto, que ser julgador legítimo.
16Porquanto quem conheceu o conselho do Senhor, para que o possa instruir? Porém nós sabemos a mente de Cristo.[6]Porém nós sabemos a mente de Cristo — QUEM CONHECEU O CONSELHO DO SENHOR? — O homem sensual não pode conhecer os pensamentos, os desígnios, os decretos de Deus. A mente, o sentido, o espírito, a intenção. Tudo isto significa a voz sensus. NÓS SABERÉMOS — Pela revelação. — Pereira.