Capítulo 11
1Sêde meus imitadores, bem como eu também o sou de Cristo.
2Eu vos louvo pois, irmãos, porque em tudo vos lembrais de mim: E guardais as minhas instruções, como vo-las ensinei.
3Porém quero que vós outros saibais que Cristo é a cabeça de todo o varão: E o varão a cabeça da mulher: E Deus a cabeça de Cristo.[1]E o varão a cabeça da mulher — E O VARÃO A CABEÇA DA MULHER — Cabeça secundária e subordinada: Porque cabeça primária de um e outro, é Jesus Cristo. E DEUS A CABEÇA DE CRISTO — De Jesus Cristo, enquanto homem: Porque enquanto Deus, é Jesus Cristo o Divino Verbo e o Divino Verbo é igual a Deus Padre, e uma mesma cabeça, ou princípio como êle de tôdas as criaturas. — Êstio.
4Todo o homem que faz oração, ou que profetiza com a cabeça coberta desonra a sua cabeça.
5E tôda a mulher que faz oração, ou que profetiza não tendo coberta a cabeça, desonra a sua cabeça, porque é como se estivesse rapada.
6Portanto, se a mulher se não cobre, tosquie-se também. E se para a mulher é uma desonra tosquiar-se, ou rapar-se, então cubra a sua cabeça.
7O varão, na verdade, não deve cobrir a sua cabeça: Porque é a imagem e glória de Deus, mas a mulher é a glória do varão.
8Porque não foi feito o varão da mulher, mas a mulher do varão.
9E não foi outrossim criado o varão por causa da mulher, mas sim a mulher por causa do varão.
10Por isso deve a mulher trazer o poder sôbre a sua cabeça por causa dos Anjos.[2]por causa dos Anjos — POR CAUSA DOS ANJOS — S. Jerônimo, Santo Agostinho, S. João Crisóstomo, e Teodoreto, o entendem da reverência, que se deve aos Anjos da Guarda, que a tudo o que fazemos se acham presentes. S. Tomás com outros o entende dos bispos e sacerdotes, que também na Escritura se chamam Anjos, enquanto anunciam aos homens a palavra de Deus. A primeira inteligência porém é mais provável que esta segunda. — Pereira.
11Contudo isso nem o varão é sem a mulher: Nem a mulher sem o varão no Senhor.
12Porque como a mulher foi tirada do varão, assim também o varão é concebido pela mulher: Mas tôdas as coisas vêm de Deus.
13Julgai lá vós mesmos: E' decente que uma mulher faça oração a Deus, não tendo véu?
14Nem a mesma natureza vo-lo ensina, já quanto ao varão, se êle deixasse com efeito crescer os cabelos, isto é para êle uma ignomínia?[3]se êle deixasse com efeito crescer os cabelos — NEM A MESMA NATUREZA VO-LO ENSINA — Isto é, que uma mulher faça oração não tendo véu, mas antes o contrário, que é o que a Igreja proíbe que se esteja sem véu na cabeça, com a cabeça coberta de qualquer maneira.
15E pelo contrário é glória para a mulher deixá-los crescer; porque êles lhe foram dados em lugar de véu.
16Se porém algum quiser ser contencioso: Nós não temos tal costume, nem a igreja de Deus.
17Isto pois vos prescrevo: Não vos dando a minha aprovação, por saber que vós não ajuntais para melhor, senão para pior.
18Porque em primeiro lugar ouço que quando vos ajuntais na igreja, há entre vós divisões, e eu em parte o creio.
19Pois é necessário que até haja heresias para também os que são provados, fiquem manifestos entre vós.
20De maneira que quando vos congregais em um corpo, não é já para comer a Ceia do Senhor.[4]não é já para comer a Ceia do Senhor — A CEIA DO SENHOR — Santo Agostinho na célebre carta a Januario, e com êle Pedro Lombardo, Santo Tomás, e o autor da Glosa, entendem esta ceia do Senhor, da ceia Eucarística, isto é, da ceia em que os congregados na Igreja no dia de Quinta-Feira Maior, comungavam o Corpo e Sangue de Cristo Senhor nosso. Porém S. João Crisóstomo, e com êle Teofilato, Primácio, e Caetano, querem que o Apóstolo chama aqui ceia do Senhor, fosse o banquete, que os fiéis, pública e solenemente faziam naquele dia antes de comungarem, e isto em memória da ceia legal, que o Senhor celebrou com todos os seus discípulos, antes de instituir o Santíssimo Sacramento do seu Corpo, e Sangue. E as razões, que aponta Êstio, assim o persuadem, sem que deva causar o mais leve reparo comungarem então os Fiéis o Corpo, e Sangue de Cristo depois de comerem. Por isso mesmo foi o que sucedeu, quando das mãos do mesmo Senhor comungaram os Apóstolos o seu Corpo, e Sangue, tendo antes celebrado com êle a ceia legal, em que se comia o Cordeiro. E por imitação, e memória do que o Senhor fizera naquele dia, durou até o tempo de Santo Agostinho na Igreja da África o costume de comungarem todos em Quinta-Feira Santa, depois de tomarem a refeição ordinária, como se faz evidente dos Escritos do mesmo Santo, e do Cânon 29 do Terceiro Concílio de Cartago. Finalmente também não deve fazer dúvida chamar o Apóstolo Ceia do Senhor a êste banquete, que precedia a Comunhão: Porque se lhe dava êste nome pelo que representava, a ceia legal, o ágape celebrado com os Apóstolos. E porque os Coríntios o faziam de um modo tão desordenado, que nada menos parecia aquele banquete, que ser representação da ceia do Senhor; por isso o Apóstolo os repreende, ensinando-lhes a ordem, a modéstia, e a caridade com que o devem fazer. A Igreja recita esta perícopa no ofício da Eucaristia.
21Porque se antecipa cada um a comer a sua ceia particular, e uns têm na verdade fome: E outros estão mui fartos.
22Porventura não tendes vós as vossas casas, para lá comerdes e beberdes? Ou desprezais a igreja de Deus, e envergonhais aquêles que não têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto não vos louvo.
23Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei a vós, que o Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tomou o pão,
24e dando graças, o partiu, e disse: Recebei, e comei: Êste é o meu corpo, que será entregue por amor de vós: Fazei isto em memória de mim.
25Por semelhante modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: Êste cálice é o novo testamento no meu sangue: Fazei isto em memória de mim, tôdas as vezes que o beberdes.
26Porque tôdas as vezes que comerdes êste pão, e beberdes êste cálice: Anunciareis a morte do Senhor, até que êle venha.
27Portanto, todo aquêle que comer êste pão, ou beber o cálice do Senhor indignamente, será réu do corpo, e do sangue do Senhor.
28Examine-se pois a si mesmo o homem: E assim coma dêste pão, e beba dêste cálice.[5]E assim coma dêste pão, e beba dêste cálice — EXAMINE-SE POIS A SI MESMO O HOMEM — Dêste lugar prova o Concílio de Trento, na sessão 13, cap. 7, ser absolutamente necessário, que antes de comungar examinem todos os fiéis, sem exceção dos sacerdotes, a sua consciência, a fim de que achando-se réus de pecado mortal, se não atrevam a chegar à sagrada mesa, sem preceder a necessária dor, e confissão sacramental do mesmo pecado; o que já por tradição apostólica ensinava no meio do terceiro século S. Cipriano no livro de Lapsis, e ao fim do quarto século Santo Ambrósio no livro 6, sôbre o Evangelho de S. Lucas, daqui se deduz o livro existente na Igreja contra a comunhão sacrílega.
29Porque todo aquêle que o come, e bebe indignamente, come e bebe para si a condenação: Não discernindo o corpo do Senhor.
30Esta é a razão por que entre vós há muitos enfermos e sem fôrças, e muitos que dormem.
31Ora se nos examinássemos a nós mesmos, é certo que não seríamos julgados.
32Mas quando nós somos julgados, somos corrigidos do Senhor, para não sermos condenados com êste mundo.
33Portanto, irmãos meus, quando vos ajuntais a comer, esperai uns pelos outros.
34Se algum tem fome, coma em casa: Para que vós não ajunteis para juízo. No tocante às demais coisas eu as ordenarei quando fôr.