Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 11

O homem deve quando ora estar com a cabeça descoberta, a mulher com o véu pôsto. Repreende o Apóstolo a desordem, com que os Coríntios celebravam a Ceia do Senhor. Refere a instituição do Santíssimo Sacramento pela revelação que dela tivera. Crime e castigo dos que o recebem indignamente.

1Sêde meus imitadores, bem como eu também o sou de Cristo.

2Eu vos louvo pois, irmãos, porque em tudo vos lembrais de mim: E guardais as minhas instruções, como vo-las ensinei.

3Porém quero que vós outros saibais que Cristo é a cabeça de todo o varão: E o varão a cabeça da mulher: E Deus a cabeça de Cristo.[1]E o varão a cabeça da mulherE O VARÃO A CABEÇA DA MULHER — Cabeça secundária e subordinada: Porque cabeça primária de um e outro, é Jesus Cristo. E DEUS A CABEÇA DE CRISTO — De Jesus Cristo, enquanto homem: Porque enquanto Deus, é Jesus Cristo o Divino Verbo e o Divino Verbo é igual a Deus Padre, e uma mesma cabeça, ou princípio como êle de tôdas as criaturas. — Êstio.

4Todo o homem que faz oração, ou que profetiza com a cabeça coberta desonra a sua cabeça.

5E tôda a mulher que faz oração, ou que profetiza não tendo coberta a cabeça, desonra a sua cabeça, porque é como se estivesse rapada.

6Portanto, se a mulher se não cobre, tosquie-se também. E se para a mulher é uma desonra tosquiar-se, ou rapar-se, então cubra a sua cabeça.

7O varão, na verdade, não deve cobrir a sua cabeça: Porque é a imagem e glória de Deus, mas a mulher é a glória do varão.

8Porque não foi feito o varão da mulher, mas a mulher do varão.

9E não foi outrossim criado o varão por causa da mulher, mas sim a mulher por causa do varão.

10Por isso deve a mulher trazer o poder sôbre a sua cabeça por causa dos Anjos.[2]por causa dos AnjosPOR CAUSA DOS ANJOS — S. Jerônimo, Santo Agostinho, S. João Crisóstomo, e Teodoreto, o entendem da reverência, que se deve aos Anjos da Guarda, que a tudo o que fazemos se acham presentes. S. Tomás com outros o entende dos bispos e sacerdotes, que também na Escritura se chamam Anjos, enquanto anunciam aos homens a palavra de Deus. A primeira inteligência porém é mais provável que esta segunda. — Pereira.

11Contudo isso nem o varão é sem a mulher: Nem a mulher sem o varão no Senhor.

12Porque como a mulher foi tirada do varão, assim também o varão é concebido pela mulher: Mas tôdas as coisas vêm de Deus.

13Julgai lá vós mesmos: E' decente que uma mulher faça oração a Deus, não tendo véu?

14Nem a mesma natureza vo-lo ensina, já quanto ao varão, se êle deixasse com efeito crescer os cabelos, isto é para êle uma ignomínia?[3]se êle deixasse com efeito crescer os cabelosNEM A MESMA NATUREZA VO-LO ENSINA — Isto é, que uma mulher faça oração não tendo véu, mas antes o contrário, que é o que a Igreja proíbe que se esteja sem véu na cabeça, com a cabeça coberta de qualquer maneira.

15E pelo contrário é glória para a mulher deixá-los crescer; porque êles lhe foram dados em lugar de véu.

16Se porém algum quiser ser contencioso: Nós não temos tal costume, nem a igreja de Deus.

17Isto pois vos prescrevo: Não vos dando a minha aprovação, por saber que vós não ajuntais para melhor, senão para pior.

18Porque em primeiro lugar ouço que quando vos ajuntais na igreja, há entre vós divisões, e eu em parte o creio.

19Pois é necessário que até haja heresias para também os que são provados, fiquem manifestos entre vós.

20De maneira que quando vos congregais em um corpo, não é já para comer a Ceia do Senhor.[4]não é já para comer a Ceia do SenhorA CEIA DO SENHOR — Santo Agostinho na célebre carta a Januario, e com êle Pedro Lombardo, Santo Tomás, e o autor da Glosa, entendem esta ceia do Senhor, da ceia Eucarística, isto é, da ceia em que os congregados na Igreja no dia de Quinta-Feira Maior, comungavam o Corpo e Sangue de Cristo Senhor nosso. Porém S. João Crisóstomo, e com êle Teofilato, Primácio, e Caetano, querem que o Apóstolo chama aqui ceia do Senhor, fosse o banquete, que os fiéis, pública e solenemente faziam naquele dia antes de comungarem, e isto em memória da ceia legal, que o Senhor celebrou com todos os seus discípulos, antes de instituir o Santíssimo Sacramento do seu Corpo, e Sangue. E as razões, que aponta Êstio, assim o persuadem, sem que deva causar o mais leve reparo comungarem então os Fiéis o Corpo, e Sangue de Cristo depois de comerem. Por isso mesmo foi o que sucedeu, quando das mãos do mesmo Senhor comungaram os Apóstolos o seu Corpo, e Sangue, tendo antes celebrado com êle a ceia legal, em que se comia o Cordeiro. E por imitação, e memória do que o Senhor fizera naquele dia, durou até o tempo de Santo Agostinho na Igreja da África o costume de comungarem todos em Quinta-Feira Santa, depois de tomarem a refeição ordinária, como se faz evidente dos Escritos do mesmo Santo, e do Cânon 29 do Terceiro Concílio de Cartago. Finalmente também não deve fazer dúvida chamar o Apóstolo Ceia do Senhor a êste banquete, que precedia a Comunhão: Porque se lhe dava êste nome pelo que representava, a ceia legal, o ágape celebrado com os Apóstolos. E porque os Coríntios o faziam de um modo tão desordenado, que nada menos parecia aquele banquete, que ser representação da ceia do Senhor; por isso o Apóstolo os repreende, ensinando-lhes a ordem, a modéstia, e a caridade com que o devem fazer. A Igreja recita esta perícopa no ofício da Eucaristia.

21Porque se antecipa cada um a comer a sua ceia particular, e uns têm na verdade fome: E outros estão mui fartos.

22Porventura não tendes vós as vossas casas, para lá comerdes e beberdes? Ou desprezais a igreja de Deus, e envergonhais aquêles que não têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto não vos louvo.

23Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei a vós, que o Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tomou o pão,

24e dando graças, o partiu, e disse: Recebei, e comei: Êste é o meu corpo, que será entregue por amor de vós: Fazei isto em memória de mim.

25Por semelhante modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: Êste cálice é o novo testamento no meu sangue: Fazei isto em memória de mim, tôdas as vezes que o beberdes.

26Porque tôdas as vezes que comerdes êste pão, e beberdes êste cálice: Anunciareis a morte do Senhor, até que êle venha.

27Portanto, todo aquêle que comer êste pão, ou beber o cálice do Senhor indignamente, será réu do corpo, e do sangue do Senhor.

28Examine-se pois a si mesmo o homem: E assim coma dêste pão, e beba dêste cálice.[5]E assim coma dêste pão, e beba dêste cáliceEXAMINE-SE POIS A SI MESMO O HOMEM — Dêste lugar prova o Concílio de Trento, na sessão 13, cap. 7, ser absolutamente necessário, que antes de comungar examinem todos os fiéis, sem exceção dos sacerdotes, a sua consciência, a fim de que achando-se réus de pecado mortal, se não atrevam a chegar à sagrada mesa, sem preceder a necessária dor, e confissão sacramental do mesmo pecado; o que já por tradição apostólica ensinava no meio do terceiro século S. Cipriano no livro de Lapsis, e ao fim do quarto século Santo Ambrósio no livro 6, sôbre o Evangelho de S. Lucas, daqui se deduz o livro existente na Igreja contra a comunhão sacrílega.

29Porque todo aquêle que o come, e bebe indignamente, come e bebe para si a condenação: Não discernindo o corpo do Senhor.

30Esta é a razão por que entre vós há muitos enfermos e sem fôrças, e muitos que dormem.

31Ora se nos examinássemos a nós mesmos, é certo que não seríamos julgados.

32Mas quando nós somos julgados, somos corrigidos do Senhor, para não sermos condenados com êste mundo.

33Portanto, irmãos meus, quando vos ajuntais a comer, esperai uns pelos outros.

34Se algum tem fome, coma em casa: Para que vós não ajunteis para juízo. No tocante às demais coisas eu as ordenarei quando fôr.

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Causa determinante desta Epístola.Corinto, a capital de Acaia, era uma cidade declarada colônia romana por Julio César, a primeira da Grécia, pois contava cêrca de seiscentos mil habitantes de todas as nacionalidades, Latinos, Gregos, Judeus, etc. A tão grande e variada população correspondia naturalmente singular opulência, notabilizando-se pela sua vasta atividade e pelo seu luxo. Cícero chamava-lhe Totius Graeciae lumen. A sua posição geográfica, no istmo que une o Peloponeso à Grécia, entre o mar Egeu ao Oriente e o Jônio ao Ocidente, tornava Corinto um importante centro comercial. O comércio imprimia opulência à cidade, e esta aproveitava-se dessa riqueza para se entregar ao luxo e aos prazeres imoderadamente. O espetáculo que a cidade oferecia era de tal ponto dissolvente, que as orgias de agora não são senão pálida sombra de devassidão de então. O culto mais propagado e porventura o único praticado era o de Vênus. Compreende-se portanto bem quanto era árido o terreno sôbre que havia de cair a semente da palavra divina.

Era assim Corinto, a cidade que mais timbrava na corrupção de costumes, que inventava requintes da mais pervertida voluptuosidade no templo de Afrodite, quando S. Paulo, depois dos seus trabalhos Apostólicos na Macedônia, se resolveu ir ali pregar o Evangelho.

Que Corinto, pela sua posição, pela sua importância, pela sua riqueza, lhe oferecia vantagens extraordinárias ao seu Apostolado, fàcilmente se compreende, como se percebe também o desejo do Apóstolo a chegar até ali. Porém como pregar a castidade onde reinava a mais desenfreada crápula? Como pregar penitência e abnegação a quem vivia só da matéria e para a matéria? Por isso às primeiras tentativas seguiu-se o mais desanimador insucesso. E S. Paulo teve de se recolher em casa dum judeu converso, recentemente chegado de Roma, e de procurar pelo trabalho o indispensável para a sua sustentação (At 23, 2). E como se isto não bastasse para atormentar aquêle coração inflamado em zêlo pela salvação de tantas almas imersas no êrro, veio a enfermidade roubar-lhe as fôrças e tolher-lhe o seu apostolado. Todavia não desanimou, e apesar de pobre, fraco e doente, começou a ir ao sábado à sinagoga pregar, mas com uma certa timidez. Continuou o insucesso. Era preciso que a posteridade recolhesse uma lição de constância e de perseverança, era preciso tudo isto para que no decorrer dos séculos os apóstolos, a quem cumpre pregar a Jesus Cristo, aprendessem ali a firmeza no desempenho da sua missão.

Vendo S. Paulo que por êsse lado pouco conseguia, deixou a sinagoga, e abriu em casa de um prosélito uma escola para os pagãos. Foi então que êle mereceu uma visão que lhe encheu a alma de esperança, pois lhe era anunciado que ali estava o germen duma grande cristandade. Redobra o seu zêlo, multiplica a sua atividade, vence a sua própria fraqueza, cogita novas industrias para converter corações endurecidos, inicia rasgadamente a sua pregação, supera tôdas as dificuldades, e dá começo a uma ação apostólica, que se traduzia pelo ensino e pela beneficência, cativando assim todos os corações.

E' um quadro muito amplo êste do Apostolado de S. Paulo em Corinto, e sobretudo duma palpitante oportunidade para aquêles que nestes tempos têm por dever ensinar ao povo a doutrina de Jesus Cristo.

Por êste exemplo de S. Paulo se vê que, quem quiser ser Apóstolo, e conseguintemente benemérito da causa de Deus e da humanidade, não pode circunscrever a sua ação apostólica às quatro paredes do presbitério ou apenas dentro do templo. A sua ação tem de se exercer dum modo muito diverso; tem de aparecer em tôda a parte, destacando-se sempre pelas luzes do seu espírito, que devem iluminar, e pelas virtudes da sua alma que a todos devem edificar. E' preciso ir ao mundo para salvar o mundo.

Os primeiros sucessos da pregação de S. Paulo em Corinto foram entre o povo; as classes elevadas não aceitavam a palavra do grande Apóstolo. Não admira: aferrados aos seus preconceitos, escravos das suas paixões, no trono do seu orgulho, não querendo fitar desgraças nem sabendo enxugar lágrimas, não lhes soava bem uma doutrina que proclamava felizes os que choravam.

Ficassem êsses, revoltando-se no torvelinho dos seus crapulosos desmandos; os humildes, êsses iam formando, em muito pouco tempo, uma considerável cristandade. Quando frutificou a pregação de S. Paulo, inflamou-se a inveja dos judeus de Corinto, que se queixaram ao procônsul Galião, que pouco ou nenhum caso fêz da acusação, continuando S. Paulo em liberdade para pregar o Evangelho, o que fêz até ao ano 54 em que se retirou para a Palestina.

Estabelecida a Igreja entre os Coríntios, a breve trecho o Helenismo começa a causar uma certa perturbação nos espíritos, havendo uma tal ou qual cisão, agravada com a vinda de novos pregadores, que uns queriam escutar e a quem outros não queriam ouvir.

Daqui as controvérsias, as discussões estéreis, e a formação de vários partidos, e como consequência fatal os abusos. S. Paulo teve conhecimento dêste estado de coisas, amargurou-se extremamente e escreveu a sua Epístola.

Tempo e lugar em que foi escrita. — Esta epístola foi escrita na época em que se fazia a grande coleta para as Igrejas da Judéia; além disso havia dois anos que pregava a fé, e quatro ou cinco que tinha fundado a Igreja de Corinto, e ainda viviam muitos dos discípulos de Jesus que tinham presenciado a sua ressurreição, 1 Cor 15, 6. Por tudo isto os Padres assinam a esta epístola o ano 56. Quanto ao lugar não resta a menor dúvida que foi escrita em Éfeso, pois o próprio Apóstolo diz que ficara algum tempo em casa de Áquila e de Priscila, moradores nesta cidade durante a sua passagem por Corinto, 1 Cor 11, 19 cfr. At 13, 19-26.

Autenticidade. — Não se apresenta um fundamento sério para negar a autenticidade desta Epístola. Basta a sua leitura séria e refletida para trazer o convencimento indestrutível da sua autenticidade. A descrição dos trabalhos do autor, as recomendações doutrinais, as minudências a que chegou, os conselhos que dá, tudo o que aí se encontra só pode ser obra de S. Paulo.

Mas tôdas as considerações são supérfluas em face dos testemunhos decisivos dos Padres, da crença unânime dos fiéis. Além de Inácio Ad. Eph. 18, S. Policarpo, Ad Phil., a Epístola a Diognetes, nós temos um documento irrefragável em S. Clemente, papa, que, trinta anos mais tarde, escrevia aos Coríntios relembrando-lhes esta Epístola.

Divisão. — Esta Epístola difere muito da precedente, não só enquanto à matéria como enquanto à forma.

Esta Epístola não tem nada de dissertação nem de tratado dogmático, é uma série de avisos, reflexões, soluções dirigidas pelas circunstâncias e repartidas em sete artigos. Podemos contudo dividi-la da seguinte forma:

PRÓLOGO. — 1, 1-9.
PRIMEIRA SECÇÃO. — 1, 10-6, 20 Reforma dos abusos notados em Corinto.
    a) Abusos introduzidos por certos pregadores, cc. 1-4.
    b) Diversos escândalos dados por particulares, cc. 5 e 6.
SEGUNDA SECÇÃO. — Resposta às duvidas formuladas.
    a) Sôbre o casamento e sôbre o celibato, c. 7.
    b) Sôbre os manjares consagrados aos ídolos, cc. 8, 1-11, 1.
    c) Acêrca da ordem que deve reinar na assembléia religiosa, c. 11, 2-16.
    d) Do uso dos dons sobrenaturais, cc. 12-14.
    e) Sôbre a ressurreição, c. 15.

A leitura desta Epístola faz conhecer bem o espírito do Apóstolo e a primitiva disciplina da Igreja, ao mesmo tempo que revela o discernimento de S. Paulo, pois êle responde à carta que lhe fôra enviada pelas pessoas da casa de Cloé, à narração oral que lhe foi feita do estado da Igreja de Corinto, por Estéfanas e seus coadjutores, e as questões que os fiéis de Corinto propuseram ao seu critério para que êle lhes desse solução.

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