Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 15

Provas da ressurreição de Jesus Cristo. Dela se conclui a de nós todos. Com que ordem hão de ressurgir os homens. Com que qualidades. Com que diversidade de glória. Então a morte será inteiramente vencida.

1Ponho-vos pois presente, irmãos, o Evangelho que vos preguei, o qual também vós recebestes, e nele ainda perseverais.[1]Ponho-vos pois presente, irmãosIRMÃOS — Havia entre os Coríntios alguns que, ou negavam a ressurreição dos mortos, ou a explicavam em um sentido alegórico. Contra êstes escreve o Santo Apóstolo o presente capítulo, confirmando nele a fé da ressurreição da carne. Quero que tenhais presente, lhes diz, a doutrina que vos preguei, tocante à ressurreição dos mortos, desde o mesmo ponto que fundei a vossa Igreja, e que é o que deveis crer, sem vos deixar persuadir dos que temerariamente pretendem ensinar o contrário. — Teodoreto.

2Pelo qual é certo que sois salvos: Se todavia o conservais, como eu vo-lo preguei, salvo se em vão o crestes.

3Porque desde o princípio eu vos ensinei o mesmo que havia aprendido: Que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras.

4E que foi sepultado, e que ressurgiu ao terceiro dia segundo as mesmas Escrituras:

5E que foi visto por Cefas, e depois disto pelos onze.[2]E que foi visto por CefasE QUE FOI VISTO POR CEFAS — Por S. Pedro.

6Depois foi visto por mais de quinhentos irmãos estando juntos: Dos quais ainda hoje em dia vivem muitos, e alguns são já mortos:[3]estando juntosESTANDO JUNTOS — Esta aparição foi na Galiléia.

7Depois foi visto de Tiago, logo de todos os Apóstolos:

8E ultimamente, depois de todos os mais, foi também visto de mim, como dum abôrto.[4]como dum abôrtoCOMO DUM ABORTO — Assim se nomeia e denomina por humildade o Santo Apóstolo, como se dissera: "eu não sou verdadeiro apóstolo, mas sim um como abortivo, e o último de todos os Apóstolos, como fora da ordem".

9Porque eu sou o mínimo dos Apóstolos, que não sou digno de ser chamado Apóstolo, porque persegui a igreja de Deus.

10Mas pela graça de Deus, sou o que sou, e a sua graça não tem sido vã em mim; antes tenho trabalhado mais copiosamente que todos êles: Não eu contudo, mas a graça de Deus comigo.[5]antes tenho trabalhado mais copiosamente que todos êlesANTES TENHO TRABALHADO — Entende-se no sentido distributivo, enquanto trabalhou mais do que cada um deles. Porque nenhum em particular correu tantas terras nem tantos mares; nenhum padeceu tantas perseguições nem tantos trabalhos como S. Paulo. NÃO EU — Depois do Apóstolo se ter gloriado de haver trabalhado mais do que todos os seus colegas, logo, como emendando o que tinha dito, se reporta dizendo: "Não eu contudo, mas a graça de Deus comigo". E isto para nos ensinar que a graça é a causa principal de todo o bem que fazemos, e tão principal, que na frase das Escrituras e dos santos Padres a ela se atribui tudo o que com o seu auxílio obramos. S. Cipriano, no livro 3 dos testemunhos, cap. 4. In nullo gloriandum, quando nostrum nihil sit. Santo Agostinho no livro 4 contra as duas epístolas dos pelagianos, cap. 9, depois de referir contra êstes hereges a autoridade de S. Cipriano, prossegue assim: Nunquid iste sanctus, tam memorabilis Ecclesiarum in studio veritatis instructor, liberum arbitrium negat esse in hominibus, quia Deo totum tribuit, quod recte vivimus? E no livro dos Atos de Pelágio, capítulo 144, refletindo no presente lugar da epístola aos Coríntios, exclama assim, falando de S. Paulo: "O grande doutor, pregador e confessor da graça". Que quer dizer: Eu trabalhei mais, não Eu? E tanto que a vontade se elevou um pouco, logo a piedade despertou, e a humildade tremeu, e a fraqueza se conheceu a si.

11Porque seja eu, ou sejam êles: Assim vo-lo pregamos, e assim crestes.

12E se se prega que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como dizem alguns entre vós outros que não há ressurreição de mortos?[6]não há ressurreição de mortosNÃO HÁ RESSURREIÇÃO DE MORTOS? — O grande argumento apresentado por S. Paulo, como se deduz do contexto, é a ressurreição recente e incontestável de Jesus Cristo. Christus resurrexit primitiae dormientium. Êste fato decisivo, singular e prodigioso, causou tão profunda impressão no ânimo de S. Paulo, que o Apóstolo, primitivo perseguidor dos discípulos do Divino ressuscitado, pode ser antonomàsticamente chamado o Apóstolo da ressurreição. Comprova-a citando as profecias que a êle se referiam, depois pelas aparições multiplicadas e irrecusáveis a S. Pedro, aos Apóstolos, a mais de quinhentos discípulos, enfim, a êle mesmo; e então argumenta com êle para provar a ressurreição final. O tom polêmico e apologético em que S. Paulo fala, faz supor que tinha diante de si acérrimos contraditores; já assim o entendeu Tertuliano Notat negatores et dubitatores.

13Pois se não há ressurreição de mortos: Nem Cristo ressuscitou.

14E se Cristo não ressuscitou, é logo vã a nossa pregação, é também vã a vossa fé:

15E somos assim mesmo convencidos por falsas testemunhas de Deus: Porque demos testemunho contra Deus, dizendo que ressuscitou a Cristo, ao qual não ressuscitou, se os mortos não ressuscitam.

16Porque se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou.

17E se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, porque ainda permaneceis nos vossos pecados.

18Também por conseguinte os que dormiram em Cristo, pereceram.

19Se nesta vida tão sòmente esperamos em Cristo, somos nós os mais infelizes de todos os homens.

20Mas agora ressuscitou Cristo dentre os mortos, sendo êle as primícias dos que dormem.

21Porque como a morte veio na verdade por um homem, também por um homem deve vir a ressurreição dos mortos.

22E assim como em Adão morrem todos, assim também todos serão vivificados em Cristo,

23mas cada um em sua ordem: as primícias foi Cristo: Depois os que são de Cristo, que creram na sua vinda.

24Depois será o fim: Quando tiver entregado o Reino a Deus e ao Padre, quando houver destruído todo o principado, e poder, e virtude.

25Porque é necessário que êle reine até que ponha todos os seus inimigos debaixo dos seus pés.

26Ora, o último inimigo destruído será a morte: Porque tôdas as coisas sujeitou debaixo dos pés dêle. E quando diz:

27Tudo está sujeito a êle, excetua-se sem dúvida aquêle que lhe sujeitou a êle tôdas as coisas.

28E quando tudo lhe estiver sujeito: Então ainda o mesmo Filho estará sujeito àquele que sujeitou a êle tôdas as coisas, para que Deus seja tudo em todos.

29De outra sorte, que farão os que se batizam pelos mortos, se absolutamente os mortos não ressuscitam? Pois por que até se batizam por êles?[7]os que se batizam pelos mortosOS QUE SE BATIZAM PELOS MORTOS — Não há em tôda a Escritura texto que mais dividisse entre si aos Expositores, do que o presente. O doutíssimo Calmet, que depois de Schmid, e Harduin trabalhou sôbre êle uma Dissertação particular, refere algumas vinte inteligências diversas. E depois de as refutar uma por uma, conclui que a mais provável é a dos que, seguindo a Tertuliano e a Hilário Diácono, vem falar o Apóstolo dos que se batizavam em nome dos que morriam sem batismo na sua seita. Dos marcionistas afirmam o mesmo Tertuliano no Livro 5, contra Marcião, cap. 10, e S. João Crisóstomo na Homilia 40, sôbre a primeira Epístola aos Coríntios. E falando dos Católicos, é claro pelos Cânones de Cartago, que ainda no quarto século havia alguns em África, que praticavam o mesmo abuso. Ou o Apóstolo pois fale de hereges, ou fale de Católicos, êste é o sentido mais natural das suas palavras, não como quem aprova aquele mau costume, mas como quem dele argumenta ad hominem, contra os que negavam a ressurreição. Paulo alude a um costume praticado pelos fiéis pouco instruídos.

30Por que nos expomos também nós a perigos a tôda a hora?

31Cada dia, irmãos, morro pela vossa glória, a qual tenho em Jesus Cristo Senhor nosso.

32Se (como homem) eu batalhei com as feras em Éfeso, que me aproveita isso, se não ressuscitam os mortos? comamos, e bebamos, porque amanhã morreremos.[8]eu batalhei com as feras em ÉfesoEU BATALHEI — Êste combate com as bestas feras interpretam alguns, com Barônio, Éstio, e Natal Alexandre, de um combate metafórico, em que as feras sejam os maus homens, que cruelmente perseguiram e molestaram o Apóstolo em Éfeso. Porém a antiguidade está pelo sentido próprio e literal, como os curiosos podem ver em Tillemont na nota 40, sôbre a vida de S. Paulo, Tom. 1 pág. 589, e em Calmet na Dissertação particular, que sôbre êste Texto publicou.

33Não vos deixeis enganar: As ruins conversações corrompem os bons costumes.

34Vigiai, justos, e não pequeis: Porque alguns não têm o conhecimento de Deus, para vergonha vossa o digo.

35Mas dirá algum: Como ressuscitarão os mortos? ou em que qualidade de corpo virão?

36Como és insipiente! O que tu semeias, não se vivifica, se primeiro não morre.

37E quando tu semeias, não semeias o corpo da planta que há de nascer, senão o mero grão, como, por exemplo, de trigo, ou de algum dos outros.

38Porém Deus lhe dá o corpo como lhe apraz: E a cada uma das sementes o seu próprio corpo.

39Nem tôda a carne é uma mesma carne, mas uma certamente é a dos homens, e outra a dos animais, uma a das aves e outra a dos peixes.

40E corpos há celestiais, e corpos terrestres: Mas uma é por certo a glória dos celestiais, e outra a dos terrestres:

41Uma é a claridade do sol, outra a claridade da lua, e outra a claridade das estrêlas. E ainda há diferença de estrêla a estrêla na claridade:

42Assim também a ressurreição dos mortos. Semeia-se o corpo em corrupção, ressuscitará em incorrupção.

43Semeia-se em vileza, ressuscitará em glória: Semeia-se em fraqueza, ressuscitará em vigor:

44É semeado o corpo animal, ressuscitará o corpo espiritual. Se há corpo animal, também o há espiritual, assim como está escrito:

45Foi feito o primeiro homem Adão em alma vivente, o último Adão em espírito vivificante.

46Mas não primeiro o que é espiritual, senão o que é animal; depois o que é espiritual.

47O primeiro homem formado da terra, é terreno: O segundo homem, do Céu, celestial.

48Qual foi o terreno, tais são também os terrenos: e qual é o celestial, tais são também os celestiais.

49Pelo que, assim como trouxemos a imagem do terreno, tragamos também a imagem do celestial.

50Mas digo isto, irmãos, que a carne e o sangue não podem possuir o reino de Deus: Nem a corrupção possuirá a incorruptibilidade.

51Eis-aqui vos digo um mistério: Todos certamente ressuscitaremos, mas nem todos seremos mudados.

52Num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta. Porque uma trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis: E nós outros seremos mudados.

53Porque importa que êste corpo corruptível se revista da incorruptibilidade: E que êste corpo mortal se revista da imortalidade.

54E quando êste corpo mortal se revestir da imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte na vitória.

55Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?

56Ora, o aguilhão da morte é o pecado: E a fôrça do pecado é a lei.

57Porém graças a Deus, que nos deu a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo.

58Portanto, meus amados irmãos, estai firmes, e constantes: Crescendo sempre na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor.

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Causa determinante desta Epístola.Corinto, a capital de Acaia, era uma cidade declarada colônia romana por Julio César, a primeira da Grécia, pois contava cêrca de seiscentos mil habitantes de todas as nacionalidades, Latinos, Gregos, Judeus, etc. A tão grande e variada população correspondia naturalmente singular opulência, notabilizando-se pela sua vasta atividade e pelo seu luxo. Cícero chamava-lhe Totius Graeciae lumen. A sua posição geográfica, no istmo que une o Peloponeso à Grécia, entre o mar Egeu ao Oriente e o Jônio ao Ocidente, tornava Corinto um importante centro comercial. O comércio imprimia opulência à cidade, e esta aproveitava-se dessa riqueza para se entregar ao luxo e aos prazeres imoderadamente. O espetáculo que a cidade oferecia era de tal ponto dissolvente, que as orgias de agora não são senão pálida sombra de devassidão de então. O culto mais propagado e porventura o único praticado era o de Vênus. Compreende-se portanto bem quanto era árido o terreno sôbre que havia de cair a semente da palavra divina.

Era assim Corinto, a cidade que mais timbrava na corrupção de costumes, que inventava requintes da mais pervertida voluptuosidade no templo de Afrodite, quando S. Paulo, depois dos seus trabalhos Apostólicos na Macedônia, se resolveu ir ali pregar o Evangelho.

Que Corinto, pela sua posição, pela sua importância, pela sua riqueza, lhe oferecia vantagens extraordinárias ao seu Apostolado, fàcilmente se compreende, como se percebe também o desejo do Apóstolo a chegar até ali. Porém como pregar a castidade onde reinava a mais desenfreada crápula? Como pregar penitência e abnegação a quem vivia só da matéria e para a matéria? Por isso às primeiras tentativas seguiu-se o mais desanimador insucesso. E S. Paulo teve de se recolher em casa dum judeu converso, recentemente chegado de Roma, e de procurar pelo trabalho o indispensável para a sua sustentação (At 23, 2). E como se isto não bastasse para atormentar aquêle coração inflamado em zêlo pela salvação de tantas almas imersas no êrro, veio a enfermidade roubar-lhe as fôrças e tolher-lhe o seu apostolado. Todavia não desanimou, e apesar de pobre, fraco e doente, começou a ir ao sábado à sinagoga pregar, mas com uma certa timidez. Continuou o insucesso. Era preciso que a posteridade recolhesse uma lição de constância e de perseverança, era preciso tudo isto para que no decorrer dos séculos os apóstolos, a quem cumpre pregar a Jesus Cristo, aprendessem ali a firmeza no desempenho da sua missão.

Vendo S. Paulo que por êsse lado pouco conseguia, deixou a sinagoga, e abriu em casa de um prosélito uma escola para os pagãos. Foi então que êle mereceu uma visão que lhe encheu a alma de esperança, pois lhe era anunciado que ali estava o germen duma grande cristandade. Redobra o seu zêlo, multiplica a sua atividade, vence a sua própria fraqueza, cogita novas industrias para converter corações endurecidos, inicia rasgadamente a sua pregação, supera tôdas as dificuldades, e dá começo a uma ação apostólica, que se traduzia pelo ensino e pela beneficência, cativando assim todos os corações.

E' um quadro muito amplo êste do Apostolado de S. Paulo em Corinto, e sobretudo duma palpitante oportunidade para aquêles que nestes tempos têm por dever ensinar ao povo a doutrina de Jesus Cristo.

Por êste exemplo de S. Paulo se vê que, quem quiser ser Apóstolo, e conseguintemente benemérito da causa de Deus e da humanidade, não pode circunscrever a sua ação apostólica às quatro paredes do presbitério ou apenas dentro do templo. A sua ação tem de se exercer dum modo muito diverso; tem de aparecer em tôda a parte, destacando-se sempre pelas luzes do seu espírito, que devem iluminar, e pelas virtudes da sua alma que a todos devem edificar. E' preciso ir ao mundo para salvar o mundo.

Os primeiros sucessos da pregação de S. Paulo em Corinto foram entre o povo; as classes elevadas não aceitavam a palavra do grande Apóstolo. Não admira: aferrados aos seus preconceitos, escravos das suas paixões, no trono do seu orgulho, não querendo fitar desgraças nem sabendo enxugar lágrimas, não lhes soava bem uma doutrina que proclamava felizes os que choravam.

Ficassem êsses, revoltando-se no torvelinho dos seus crapulosos desmandos; os humildes, êsses iam formando, em muito pouco tempo, uma considerável cristandade. Quando frutificou a pregação de S. Paulo, inflamou-se a inveja dos judeus de Corinto, que se queixaram ao procônsul Galião, que pouco ou nenhum caso fêz da acusação, continuando S. Paulo em liberdade para pregar o Evangelho, o que fêz até ao ano 54 em que se retirou para a Palestina.

Estabelecida a Igreja entre os Coríntios, a breve trecho o Helenismo começa a causar uma certa perturbação nos espíritos, havendo uma tal ou qual cisão, agravada com a vinda de novos pregadores, que uns queriam escutar e a quem outros não queriam ouvir.

Daqui as controvérsias, as discussões estéreis, e a formação de vários partidos, e como consequência fatal os abusos. S. Paulo teve conhecimento dêste estado de coisas, amargurou-se extremamente e escreveu a sua Epístola.

Tempo e lugar em que foi escrita. — Esta epístola foi escrita na época em que se fazia a grande coleta para as Igrejas da Judéia; além disso havia dois anos que pregava a fé, e quatro ou cinco que tinha fundado a Igreja de Corinto, e ainda viviam muitos dos discípulos de Jesus que tinham presenciado a sua ressurreição, 1 Cor 15, 6. Por tudo isto os Padres assinam a esta epístola o ano 56. Quanto ao lugar não resta a menor dúvida que foi escrita em Éfeso, pois o próprio Apóstolo diz que ficara algum tempo em casa de Áquila e de Priscila, moradores nesta cidade durante a sua passagem por Corinto, 1 Cor 11, 19 cfr. At 13, 19-26.

Autenticidade. — Não se apresenta um fundamento sério para negar a autenticidade desta Epístola. Basta a sua leitura séria e refletida para trazer o convencimento indestrutível da sua autenticidade. A descrição dos trabalhos do autor, as recomendações doutrinais, as minudências a que chegou, os conselhos que dá, tudo o que aí se encontra só pode ser obra de S. Paulo.

Mas tôdas as considerações são supérfluas em face dos testemunhos decisivos dos Padres, da crença unânime dos fiéis. Além de Inácio Ad. Eph. 18, S. Policarpo, Ad Phil., a Epístola a Diognetes, nós temos um documento irrefragável em S. Clemente, papa, que, trinta anos mais tarde, escrevia aos Coríntios relembrando-lhes esta Epístola.

Divisão. — Esta Epístola difere muito da precedente, não só enquanto à matéria como enquanto à forma.

Esta Epístola não tem nada de dissertação nem de tratado dogmático, é uma série de avisos, reflexões, soluções dirigidas pelas circunstâncias e repartidas em sete artigos. Podemos contudo dividi-la da seguinte forma:

PRÓLOGO. — 1, 1-9.
PRIMEIRA SECÇÃO. — 1, 10-6, 20 Reforma dos abusos notados em Corinto.
    a) Abusos introduzidos por certos pregadores, cc. 1-4.
    b) Diversos escândalos dados por particulares, cc. 5 e 6.
SEGUNDA SECÇÃO. — Resposta às duvidas formuladas.
    a) Sôbre o casamento e sôbre o celibato, c. 7.
    b) Sôbre os manjares consagrados aos ídolos, cc. 8, 1-11, 1.
    c) Acêrca da ordem que deve reinar na assembléia religiosa, c. 11, 2-16.
    d) Do uso dos dons sobrenaturais, cc. 12-14.
    e) Sôbre a ressurreição, c. 15.

A leitura desta Epístola faz conhecer bem o espírito do Apóstolo e a primitiva disciplina da Igreja, ao mesmo tempo que revela o discernimento de S. Paulo, pois êle responde à carta que lhe fôra enviada pelas pessoas da casa de Cloé, à narração oral que lhe foi feita do estado da Igreja de Corinto, por Estéfanas e seus coadjutores, e as questões que os fiéis de Corinto propuseram ao seu critério para que êle lhes desse solução.

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