Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 1

O Verbo gerado antes de todo o tempo. Êle é Deus e está com Deus. É o Autor de tudo o que foi criado. É a vida, é a luz dos homens todos. Êle se fêz homem. João Batista dá testemunho dêle. E o declara Cordeiro de Deus. André, com outro mais segue a Jesus, e lhe leva seu irmão. Jesus olhando para êste, muda-lhe o nome de Simão no de Pedro. Chama a Filipe, e Filipe lhe leva Natanael.

1No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.[1]No princípioLá em tôda a eternidade; nesse princípio sem princípio. — Pereira. O Verbo — Em grego logos. A escolha desta palavra não foi certamente arbitrária. Parece que lhe foi revelada, embora se não possa determinar com segurança o instante em que foi feita essa revelação. Não se confunde o Verbo de S. João com o logos de Platão, que emprega êste têrmo numa acepção totalmente diversa daquela em que é tomado pelo Evangelista. Para o filósofo grego o logos não é uma pessoa, mas uma abstração, a razão de Deus receptáculo de todas as suas obras. Muito mais diverso ainda é o de Fílon, que tanto quanto é possível perceber êste filósofo através das nuvens das suas alegorias, nada tem que ver com o verdadeiro Deus, e por consequência impossível de se identificar com o Messias. Não foi à filosofia pagã que S. João foi buscar êste pensamento tão superiormente expandido neste capítulo. Com Deus — Não como uma palavra (isso quer dizer verbo) exterior, ou adventícia; mas como uma palavra consubstancial daquele com quem estava; pois com Deus não pode estar coisa, que não seja da sua mesma substância. Sendo que o padre Amelote verte en Dieu, o que a Vulgata diz, apud Deum: eu preferi as versões de Mons, de Sacy, de Huré, e de Mesengui, que todas trazem, avec Dieu, pelas gravíssimas razões de autoridade, que se podem ver na "Defense de la Traduction du Nouveau Testament imprimée a Mons." Parte 3, pág. 1 e seguintes. Era Deus — E como êste Verbo, que era Deus, estava com Deus, segue-se que o Verbo era na pessoa distinto daquele com quem estava. E como ambos eram Deus, segue-se que sendo ambos um só na substância, ou natureza, eram distintos nas pessoas. De sorte que êste Evangelho igualmente arruína a heresia dos arianos e a dos sabelianos. E para mostrar a divindade do Verbo encarnado, é que principalmente pegou na pena S. João, como advertem Santo Irineu e S. Jerônimo.

2Êle estava no princípio com Deus.

3Tôdas as coisas foram feitas por êle: E nada do que foi feito, foi feito sem êle.[2]Foi feito sem êleSe nada do que foi feito foi feito sem o Verbo, logo o Verbo não foi feito, logo não é criatura. Santo Agostinho. Em alguns Códices se lia dêste modo: Et sine ipso factum est nihil: quod factum est in ipso, vita erat.

4Nêle estava a vida, e a vida era a luz dos homens:

5E a luz resplandece nas trevas, mas as trevas não a compreenderam.

6Houve um homem enviado por Deus que se chamava João.

7Êste veio por testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dêle:

8Êle não era a luz, mas para que desse testemunho da luz.

9Era a luz verdadeira, que alumia a todo o homem, que vem a êste mundo:

10Estava no mundo, e o mundo foi feito por êle e o mundo não o conheceu.

11Veio para o que era seu, e os seus não o receberam:

12Mas a todos os que o receberam, deu êle poder de se fazerem filhos de Deus aos que crêem no seu nome:[3]Mas a todosAos que o reconheceram por seu redentor e Salvador: deu-lhes a prerrogativa e direito de serem filhos de Deus, como irmãos de Jesus Cristo, e por conseguinte herdeiros da eterna felicidade; e isto não por uma geração, ou parentesco carnal, senão por um nascimento todo espiritual, que vem do Espírito de Deus, pelo qual se corrigem as más inclinações, se dissipam as trevas da alma, o coração se purifica, e se incende em vivas chamas de amor Divino: não pela circuncisão, nem pelo sacrifício do cordeiro pascal, senão por virtude do batismo do verdadeiro cordeiro sacrificado na Cruz.

13Que não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de Deus.

14E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós: E nós vimos a sua glória, a sua glória como de Filho unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.[4]E o Verbo se fez carneFez-se homem, "não por conversão da Divindade em Homem, mas por assunção da humanidade em Deus" como diz o símbolo atribuído a Santo Atanásio. Cheio de graça e de verdade — Estas palavras se devem referir às precedentes: "E habitou entre nós cheio de graça", para nos curar dos nossos pecados, e encher-nos dos seus dons. "Cheio de verdade": para dissipar as nossas trevas, instruindo-nos na sua Santa Lei, e inspirando-nos as regras puras do seu Evangelho.

15João dá testemunho dêle, e clama, dizendo: Êste era o de quem eu disse: O que há de vir depois de mim, foi preferido a mim: Porque era antes de mim.[5]Foi preferidoFoi gerado ab aeterno por Deus seu Pai. Ainda que eu tenho sido o primeiro que vos tenho pregado, não creiais que sou maior, antes infinitamente inferior ao que vos virá a pregar depois. Porque êste é de tôda a eternidade antes que eu. — S. João Crisóstomo.

16E todos nós participamos da sua plenitude; e graça por graça:[6]E graça por graçaA graça da lei nova pela graça da lei velha, segundo parece do verso 17. Ou a graça da glória pela graça da justificação, como entende Santo Agostinho.

17Porque a lei foi dada por Moisés, a graça, e a verdade foi trazida por Jesus Cristo.[7]A graça e a verdadeMoisés, ministro do Antigo Testamento, promulgou solenemente uma Lei, na qual tôdas as cerimônias não eram mais que sombras e figuras, que descobriram ao homem as obrigações que tinha, porém sem lhe dar socorros para as cumprir. Mas Jesus Cristo, mediador do Novo Testamento substituindo a verdade às figuras, nos tem dado um espírito de graça que nos faz amar e cumprir a lei. — Santo Agostinho.

18Ninguém jamais viu a Deus: O Filho unigênito, que está no seio do Pai, êsse é quem o deu a conhecer.[8]Que está no seio do PaiQue é da mesma natureza e substância. — S. João Crisóstomo, S. Cirilo, e Santo Agostinho.

19E êste é o testemunho que deu João, quando os judeus lhe enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas a perguntar-lhe: Quem és tu?

20Porque êle confessou, e não negou: E confessou: Eu não sou o Cristo.

21E perguntaram-lhe: Pois quem és logo? És tu Elias? E êle respondeu: Não o sou. És tu profeta? E respondeu: Não.

22Disseram então êles: Quem és tu logo, para que possamos dar resposta aos que nos enviaram? Que dizes de ti mesmo?

23Disse-lhes êle: Eu sou a voz do que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor, como o disse o profeta Isaías.

24Ora, os que haviam sido enviados, eram de entre os fariseus.

25E êles lhe fizeram esta pergunta, e lhe disseram: Por que batizas logo, se tu não és o Cristo, nem Elias, nem profeta?

26João respondeu, dizendo-lhes: Eu batizo em água, mas no meio de vós esteve quem vós não conheceis.

27Êsse é o que há de vir depois de mim, que foi preferido a mim, de quem eu não sou digno de desatar a correia dos sapatos.

28Estas coisas passaram em Betânia da banda dalém do Jordão, onde João estava batizando:

29No dia seguinte viu João a Jesus, que vinha para êle, e disse: Eis aqui o Cordeiro de Deus, eis aqui o que tira o pecado do mundo.[9]O que tira o pecado do mundoNestas palavras fêz alusão ao cordeiro pascal, que devia ser sacrificado segundo a lei de Moisés, e também ao que havia dito o profeta Isaías, 53. Que seria levado à morte como uma ovelha, e que estaria em silêncio e mudo como um cordeiro diante daquele que o está tosquiando. S. João Crisóstomo.

30Êste é o mesmo de quem eu disse: Depois de mim vem um homem, que me foi preferido, porque era antes de mim:

31E eu não o conhecia, mas por isso eu vim batizar em água, para êle ser conhecido em Israel.

32E João deu testemunho, dizendo: Vi o Espírito que descia do Céu em forma de pomba, e repousou sôbre êle.

33E eu não o conhecia: Mas o que me mandou batizar em água, me disse: Aquêle, sôbre que tu vires descer o Espírito, e repousar sôbre êle, êsse é o que batiza no Espírito Santo.

34E eu o vi: E dei testemunho de que êle é o Filho de Deus.

35Ao outro dia ainda João lá estava, e dois de seus discípulos.

36E vendo a Jesus, que ia passando, disse: Eis ali o Cordeiro de Deus.

37Então os dois discípulos, quando isto lhe ouviram dizer, foram logo seguindo a Jesus.

38E Jesus olhando para trás, e vendo que iam após êle, disse-lhes: Que buscais vós? Disseram-lhe êles: Rabi, (que quer dizer mestre) onde assistes tu?

39Respondeu-lhes Jesus: Vinde, e vêde. Foram êles, e viram onde assistia, e ficaram lá aquêle dia: Era então quase a hora décima.

40E André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido o que João dissera, e que tinham seguido a Jesus.

41Êste encontrou primeiro a seu irmão Simão, e lhe disse: Temos achado ao Messias (que quer dizer o Cristo).

42E levou-o a Jesus. E Jesus depois de olhar para êle, disse: Tu és Simão, filho de Jona: Tu serás chamado Cefas, que quer dizer Pedro.

43No dia seguinte quis Jesus ir a Galiléia e achou lá a Filipe. Disse-lhe então: Segue-me.

44E era Filipe natural da cidade de Betsaida, donde também o eram André e Pedro.

45Encontrou Filipe a Natanael e disse-lhe: Saberás que achamos aquêle de quem falou Moisés na Lei; e de quem escreveram os profetas, a saber, Jesus de Nazaré, filho de José.

46E Natanael lhe disse: De Nazaré pode sair coisa que boa seja? Disse-lhe Filipe: Vem, e vê.[10]De Nazaré pode sair coisa que boa sejaIsto lhe dizia, conforme a idéia geral que se tinha desta cidade, que estava em grande descrédito entre os judeus, e também porque tinha conhecimento da profecia, que falava do Messias, sabia que o que havia de mandar em Israel, havia de sair de Belém; Miq 5, 2.

47Viu Jesus a Natanael, que vinha buscá-lo e disse dêle: Eis aqui um verdadeiro israelita, em quem não há dolo.

48Perguntou-lhe Natanael: Donde me conheces tu? Respondeu Jesus, e disse-lhe: Primeiro que Filipe te chamasse, te vi eu, quando estavas debaixo da figueira.

49Natanael lhe respondeu, e disse: Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o rei de Israel.

50Jesus respondeu, e disse-lhe: Porque eu te disse: Que te vi debaixo da figueira, crês: Maiores coisas que estas verás.

51Também lhe disse: Na verdade, na verdade vos digo, que vereis o Céu aberto, e os anjos de Deus subindo e descendo sôbre o Filho do homem.

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A tradição é unânime em atribuir o quarto Evangelho a S. João. Todos os Padres que falam dêste Evangelho proclamam como seu autor o apóstolo S. João, o discípulo a quem Jesus amava; apenas a seita dos Aloges, que negava a Divindade do Verbo, discordou desta afirmação. S. João, irmão de Tiago, era filho de Zebedeu e de Salomé, e natural de Betsaida. André, confiado na palavra do Mestre, foram com Pedro, Filipe e Natanael procurar Jesus, sendo os primeiros que ao Divino Mestre se juntaram (Jo 1, 35). Um ano mais tarde Jesus escolhe os doze Apóstolos e a lista insere S. João ao lado de Pedro (At 1, 13). S. João está porém bem averiguado que mais tarde partiu para Éfeso, onde continuou os seus trabalhos apostólicos, e onde esteve até ao fim do primeiro século. Êste Evangelho, destinado à Igreja Universal, foi dirigido duma maneira especial às Igrejas da Ásia menor e à sua metrópole, Éfeso, onde S. João tinha trabalhado, e cujas necessidades o determinaram a escrever.
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