Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 8

O caso da mulher adúltera. Prediz o Senhor aos judeus a sua impenitência final. Quais são os seus verdadeiros discípulos. Os judeus não são filhos de Deus, nem de Abraão, mas do diabo. Dobram êles as blasfêmias contra Jesus. Abraão desejou vê-lo. Êle era antes de Abraão. Querem-no apedrejar os judeus.

1E Jesus foi para o monte das Oliveiras.

2E ao romper da manhã tornou para o templo, e todo o povo veio ter com êle, e assentado os ensinava.

3Então lhe trouxeram os escribas e os fariseus uma mulher que fôra apanhada em adultério, e a puseram no meio,

4E lhe disseram: Mestre, esta mulher foi agora mesmo apanhada em adultério.

5E Moisés na lei mandou-nos apedrejar a estas tais. Que dizes tu logo?[1]Moisés na lei mandou-nos apedrejarCfr. Lv 20, 10; Dt 22, 22. Os fariseus queriam colher Jesus em contradição: se mandasse soltar a mulher, acusavam-no de desprezar a Lei; se mandasse apedrejá-la, davam-no às autoridades romanas, que tinham tirado aos judeus o direito de vida e morte.

6Diziam pois isto os judeus tentando-o, para o poderem acusar. Porém Jesus abaixando-se, pôs-se a escrever com o dedo na terra.[2]Escrevia com o dedo na terraNão se sabe o que escrevia. Alguns Padres entendem que escrevia os pecados dos acusadores.

7E como êles perseveravam em fazer-lhe perguntas, ergueu-se Jesus e disse-lhes: O que de vós outros está sem pecado, seja o primeiro que a apedreje.

8E tornando a abaixar-se, escrevia na terra.

9Mas êles ouvindo-o, foram saindo um a um, sendo os mais velhos os primeiros: E ficou só Jesus, e a mulher que estava no meio em pé.

10Então ergueu-se Jesus, e disse-lhe: Mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou?

11Respondeu ela: Ninguém, Senhor: Então disse Jesus: Nem eu tão pouco te condenarei: Vai e não peques mais.[3]Nem eu tão pouco te condenareiJesus não veio para julgar mas para salvar; não excusa o pecado, mas perdoa-o com a condição de não pecar mais.

12E outra vez lhes falou Jesus, dizendo: Eu sou a luz do mundo: O que me segue, não anda em trevas, mas terá o lume da vida.[4]Eu sou a luz do mundoJesus é a luz espiritual que ilumina os homens; os que o seguem não caminham nas trevas da ignorância e do pecado.

13E os fariseus lhe disseram: Tu és o que dás testemunho de ti mesmo: Assim o teu testemunho não é verdadeiro.

14Respondeu Jesus, e disse-lhe: Ainda que eu mesmo sou o que dou testemunho de mim, o meu testemunho é verdadeiro: Porque sei donde vim e para onde vou: Mas vós não sabeis donde eu venho, nem para onde vou.

15Vós julgais segundo a carne: Eu a ninguém julgo:

16E se eu julgo a alguém, o meu juízo é verdadeiro, porque eu não sou só: Mas eu e o Pai, que me enviou.

17E na vossa mesma lei está escrito que o testemunho de duas pessoas é verdadeiro.

18Ora, eu sou o que dou testemunho de mim mesmo: E meu Pai, que me enviou, também dá testemunho de mim.

19Perguntaram-lhe êles então: Onde está teu Pai? Respondeu-lhes Jesus: Vós não me conheceis a mim, nem a meu Pai: Se me conhecêsseis a mim, certamente conheceríeis também a meu Pai.[5]Onde está teu PaiOs judeus perguntam ironicamente onde está o Pai de Jesus, uma vez que êle alegava o testemunho do Pai. Jesus responde que não o conhecem, nem a Ele nem ao Pai.

20Estas palavras disse Jesus, ensinando no templo no lugar do gazofilácio: E ninguém o prendeu, porque não era ainda chegada a sua hora.

21E em outra ocasião lhes disse Jesus: Eu retiro-me, e vós me buscareis e morrereis no vosso pecado. Para onde eu vou não podeis vós vir.[6]Morrereis no vosso pecadoO pecado capital dos judeus era a incredulidade, que os impedia de ir a Jesus e de ser salvos por Êle.

22Diziam pois os judeus: Será que êle se mate a si mesmo, pois diz: Para onde eu vou, não podeis vós vir?

23Mas Jesus lhes respondia: Vós sois cá de baixo, e eu sou lá de cima. Vós sois dêste mundo, e eu não sou dêste mundo.

24Por isso eu vos disse, que morrereis nos vossos pecados: Porque se não crerdes em quem eu sou, morrereis no vosso pecado.

25Perguntaram-lhe pois êles: Quem és tu? Respondeu-lhes Jesus: Eu sou o princípio, o mesmo que vos falo.

26Muitas coisas são as que tenho que vos dizer, e de que vos condenar: Mas o que me enviou é verdadeiro: E eu o que digo no mundo é o que dêle aprendi.

27E não conheceram os judeus que êle dizia que Deus era seu Pai.

28Disse-lhes pois Jesus: Quando vós tiverdes levantado o Filho do homem, então conhecereis quem eu sou, e que nada faço de mim mesmo, mas que como o Pai me ensinou, assim falo:

29E o que me enviou, está comigo, e não me deixou só: Porque eu sempre faço o que é do seu agrado.

30Ao tempo que Jesus dizia estas palavras, creram muitos nêle.

31Pelo que dizia Jesus aos judeus que nêle creram: Se vós permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos:

32E conhecereis a verdade, e a verdade vos livrará.

33Responderam-lhe êles: Nós somos descendentes de Abraão, e em nenhum tempo fomos escravos de alguém; como dizes tu: Que viremos a ser livres?

34Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Que todo o que comete pecado, é escravo do pecado:[7]Todo o que comete pecado, é escravo do pecadoA verdadeira escravidão é a do pecado; o pecador, ainda que livre exteriormente, é escravo no interior.

35Ora, o escravo não fica para sempre na casa, mas o Filho fica nela para sempre:

36Assim que se o Filho vos livrar, sereis verdadeiramente livres.

37Eu bem sei que sois filhos de Abraão, mas vós quereis me dar a morte, porque a minha palavra não cabe em vós.

38Eu falo o que vi em meu Pai: E vós fazeis o que vistes em vosso pai.

39Responderam êles, e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão. Disse-lhes Jesus: Se sois filhos de Abraão, fazei obras de Abraão.[8]Fazei obras de AbraãoAbraão creu em Deus e obedeceu-lhe com fé viva; os judeus, em vez de imitar esta fé, procuram matar Jesus, o que é obra do diabo.

40Mas vós atualmente procurais tirar-me a vida, a mim que sou um homem que vos falei a verdade, que ouvi de Deus: Isto é o que Abraão nunca fez.

41Vós fazeis as obras de vosso pai. E êles lhe disseram: Nós não somos nascidos da impureza; um pai temos que é Deus.

42Respondeu-lhes pois Jesus: Se Deus fosse vosso pai, vós certamente me amaríeis: Porque eu saí de Deus, e vim, porque não vim de mim mesmo, mas êle foi quem me enviou.

43Por que não conheceis vós a minha fala? É porque não podeis ouvir a minha palavra.

44Vós sois filhos do diabo, e quereis cumprir os desejos de vosso pai; êle era homicida desde o princípio, e não permaneceu na verdade, porque a verdade não está nêle: Quando êle diz a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira.[9]Pai da mentiraO diabo mentiu desde o princípio, induzindo os primeiros pais ao pecado, e é o pai de tôda a mentira.

45Mas ainda que eu vos digo a verdade, vós não me credes.

46Qual de vós me argüirá de pecado? Se eu vos digo a verdade, por que não me credes?

47O que é de Deus, ouve as palavras de Deus. Por isso vós não as ouvis, porque não sois de Deus.

48Responderam então os judeus, e disseram-lhe: Não dizemos nós bem, que tu és um samaritano, e que tens demônio?

49Respondeu-lhes Jesus: Eu não tenho demônio, mas dou honra a meu Pai, e vós a mim desonrastes-me.

50E eu não busco a minha glória: Outro é o que a buscará, e que fará justiça.

51Em verdade, em verdade vos digo: Que se alguém guardar a minha palavra, não verá a morte eternamente.

52Disseram-lhe pois os judeus: Agora é que conhecemos que estás possesso do demônio. Abraão morreu, e os profetas morreram, e tu dizes: Se alguém guardar a minha palavra, não provará a morte eternamente.

53Acaso és tu maior do que o nosso pai Abraão que morreu? E do que os profetas, que também morreram? Quem te fazes tu ser?

54Respondeu Jesus: Se eu glorifico a mim mesmo, não é nada a minha glória: Meu Pai é que me glorifica, aquele que vós dizeis que é vosso Deus.

55E entretanto vós não o tendes conhecido: Mas eu conheço-o: E se disser que o não conheço, serei como vós mentiroso. Mas eu conheço-o, e guardo a sua palavra.

56Vosso pai Abraão desejou ansiosamente ver o meu dia: Viu-o, e ficou cheio de gôzo.[10]Ficou cheio de gôzoAbraão viu o dia de Cristo pela fé e pela profecia, e alegrou-se; segundo alguns intérpretes, viu-o também nas figuras do sacerdócio de Melquisedec e no sacrifício de Isaac.

57Disseram-lhe por isso os judeus: Tu ainda não tens cinquenta anos, e viste a Abraão?

58Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo, que antes que Abraão fosse feito, sou eu.

59Então pegaram os judeus em pedras para lhe atirarem: Mas Jesus encobriu-se, e saiu do Templo.

A tradição é unânime em atribuir o quarto Evangelho a S. João. Todos os Padres que falam dêste Evangelho proclamam como seu autor o apóstolo S. João, o discípulo a quem Jesus amava; apenas a seita dos Aloges, que negava a Divindade do Verbo, discordou desta afirmação. S. João, irmão de Tiago, era filho de Zebedeu e de Salomé, e natural de Betsaida. André, confiado na palavra do Mestre, foram com Pedro, Filipe e Natanael procurar Jesus, sendo os primeiros que ao Divino Mestre se juntaram (Jo 1, 35). Um ano mais tarde Jesus escolhe os doze Apóstolos e a lista insere S. João ao lado de Pedro (At 1, 13). S. João está porém bem averiguado que mais tarde partiu para Éfeso, onde continuou os seus trabalhos apostólicos, e onde esteve até ao fim do primeiro século. Êste Evangelho, destinado à Igreja Universal, foi dirigido duma maneira especial às Igrejas da Ásia menor e à sua metrópole, Éfeso, onde S. João tinha trabalhado, e cujas necessidades o determinaram a escrever.
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