Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 21

Aparece Jesus terceira vez aos Apóstolos, e faz-lhes apanhar grande quantidade de peixes. Convida-os a jantar. Pergunta se o ama. Encomenda-lhe as suas ovelhas.

1Depois tornou Jesus a mostrar-se a seus discípulos junto do mar de Tiberíades. E mostrou-se-lhes desta sorte:

2Estavam juntos Simão Pedro e Tomé, chamado Dídimo, e Natanael, que era de Caná de Galiléia, e os filhos de Zebedeu, e outros dois de seus discípulos.

3Disse-lhes Simão Pedro: Eu vou pescar. Responderam-lhe os mais: Também nós outros vamos contigo. Saíram pois, e entraram numa barca: Mas naquela noite nada apanharam.

4Mas chegada a manhã, veio Jesus pôr-se na ribeira: Sem que ainda assim conhecessem os discípulos que era Jesus.

5Disse-lhes pois Jesus: O' moços, tendes alguma coisa de comer? Responderam-lhes êles: Nada.

6Disse-lhes Jesus: Lançai a rede para a parte direita da embarcação, e achareis. Lançaram êles pois a rede: Mas já a não podiam trazer acima que tão grande era a carga dos peixes.

7Então aquêle discípulo, a quem Jesus amava, disse a Pedro: É' o Senhor. Simão Pedro quando ouviu que era o Senhor, cingiu-se com a sua túnica (porque estava nu) e lançou-se ao mar.

8E os outros discípulos vieram na barca: (Porque não estavam distantes de terra, senão só obra de duzentos côvados) trazendo a rede cheia de peixes.

9E tanto que saltaram em terra, viram umas brasas postas, e um peixe em cima delas, e pão.[1]Viram umas brasas postasÊste segundo milagre foi para mostrar-lhes, que não era por necessidade que deles tivesse, o perguntar-lhes se tinham alguma coisa de comer. Que antes êle era o que lhes liberalmente os provia de tôdas as coisas sem dêles receber alguma. E que não só tinha poder para multiplicar o pão, como outras vezes fizera, mas também para o produzir como assim mesmo o fogo e o peixe. — Amelote.

10Disse-lhes Jesus: Dai cá dos peixes, que agora apanhastes.

11Subiu Simão Pedro à barca, e tirou a rede para terra, cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes. E sendo tão grandes, não se rompeu a rede.

12Disse-lhes Jesus: Vinde, jantai. E nenhum dos que estavam à mesa ousava perguntar-lhe: Quem és tu? sabendo que era o Senhor.

13Veio pois Jesus, e tomou o pão, e deu-lho e assim mesmo do peixe.

14Foi esta já a terceira vez que Jesus se manifestou a seus discípulos, depois de ressurgir dos mortos.

15Tendo êles pois jântado, perguntou Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de João, tu amas-me mais do que êstes? Êle respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta os meus cordeiros.[2]Tu amas-me maisJesus Cristo pediu a Pedro três protestações do seu amor, para que reparasse as três negações. Porém, escarmentado com as quedas passadas, quando o Senhor lhe pergunta se o ama mais que os outros, responde moderadamente; e pondo o Senhor por testemunha do seu amor, dá testemunho do seu próprio coração, sem querer entrar a ser juiz dos outros. Entristece-se a terceira vez que o Senhor lhe faz a mesma pergunta, temendo com o que já outra vez lhe havia acontecido, que o Senhor registasse no seu coração um amor muito mais remisso, do que a êle lhe parecia. Jesus Cristo lhe encomenda o cuidado de apascentar o comum dos fieis, sem exceção, figurados pelas ovelhas, e pelos cordeiros. Porque, S. Pedro foi constituído por estas palavras, cabeça universal de tôda a Igreja, e pastor de todo o rebanho. — S. Bernardo. O que todos os Santos Padres e Concílios reconhecem desde alta antiguidade.

16Perguntou-lhe outra vez: Simão, filho de João, tu amas-me? Êle respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta os meus cordeiros.

17Perguntou-lhe terceira vez: Simão, filho de João, tu amas-me? Ficou Pedro triste, porque terceira vez lhe perguntara: Tu amas-me? E respondeu-lhe: Senhor, tu conheces tudo: Tu sabes que eu te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta as minhas ovelhas.[3]Apascenta as minhas ovelhasEstá assentado entre os melhores intérpretes, não haver mistério algum nos nomes de cordeiros e de ovelhas, mas que debaixo de um e outro entendera o Senhor sem diferença alguma todos os fieis. — Calmet.

18Em verdade, em verdade te digo: Quando tu eras mais moço, tu te cingias, e ias por onde te dava na vontade, mas quando já fôres velho, estenderás as tuas mãos e outro será o que te cinja, e que te leve para onde tu não queiras.

19E isto disse Jesus, para significar com que gênero de morte havia Pedro de dar glória a Deus. E depois de assim ter falado, disse-lhe: Segue-me.

20Voltando Pedro, viu que o seguia aquêle discípulo que Jesus amava, que ao tempo da ceia estivera até reclinado sôbre o seu peito, e lhe perguntara: Senhor, quem é o que te há de entregar?

21Assim que como Pedro viu a êste, disse para Jesus: Senhor, é êste que?

22Disse-lhe Jesus: Eu quero que êle fique assim até que eu venha; que tens tu com isso? Segue-me tu.

23Correu logo esta voz entre os irmãos, que aquêle discípulo não morreria. E não lhe disse Jesus: Não morre; senão: Eu quero que êle fique assim, até que eu venha; que tens tu com isso?

24Êste é aquêle discípulo que dá testemunho destas coisas, e que as escreveu: E nós sabemos que é verdadeiro o seu testemunho.

25Muitas outras coisas porém há ainda, que fez Jesus: As quais se se escrevessem uma por uma, creio que nem no mundo todo poderiam caber os livros, que delas se houvessem de escrever.

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A tradição é unânime em atribuir o quarto Evangelho a S. João. Todos os Padres que falam dêste Evangelho proclamam como seu autor o apóstolo S. João, o discípulo a quem Jesus amava; apenas a seita dos Aloges, que negava a Divindade do Verbo, discordou desta afirmação. S. João, irmão de Tiago, era filho de Zebedeu e de Salomé, e natural de Betsaida. André, confiado na palavra do Mestre, foram com Pedro, Filipe e Natanael procurar Jesus, sendo os primeiros que ao Divino Mestre se juntaram (Jo 1, 35). Um ano mais tarde Jesus escolhe os doze Apóstolos e a lista insere S. João ao lado de Pedro (At 1, 13). S. João está porém bem averiguado que mais tarde partiu para Éfeso, onde continuou os seus trabalhos apostólicos, e onde esteve até ao fim do primeiro século. Êste Evangelho, destinado à Igreja Universal, foi dirigido duma maneira especial às Igrejas da Ásia menor e à sua metrópole, Éfeso, onde S. João tinha trabalhado, e cujas necessidades o determinaram a escrever.
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