Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 20

Vai a Madalena de manhã ao sepulcro. Avisa a Pedro e a João, de que não está no sepulcro o corpo de Jesus. Vão lá os dois. A Madalena tornando ao sepulcro, acha nêle sentados dois anjos. Aparece-lhes Jesus. Ela o anuncia aos Apóstolos. Jesus aparece a êstes no mesmo dia. Êle os envia pelo mundo, como seu Pai o enviou. Dá-lhes o Espírito Santo, e com êle o poder de perdoar pecados. Repreende a incredulidade de Tomé.

1No primeiro dia porém da semana veio Maria Madalena ao sepulcro de manhã, fazendo ainda escuro: E viu que a campa estava tirada do sepulcro.

2Correu pois, e foi ter com Simão Pedro, e com o outro discípulo, a quem Jesus amava, e disse-lhes: Levaram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o puseram.

3Saíu então Pedro, e aquêle outro discípulo, e foram ao sepulcro.

4Ora êles corriam ambos juntos, mas aquêle outro discípulo correu mais do que Pedro, e levando-lhe a dianteira chegou primeiro ao sepulcro.

5E tendo-se abaixado, viu os lençóis postos no chão mas todavia não entrou.[1]No chãoA Vulgata diz simplesmente, linteamina posita, os lençóis postos. O texto grego é que acrescenta posita in terra, postos no chão, como advertiu Sacy, e traduziram os de Mons. — Pereira.

6Chegou pois Simão Pedro, que o seguia, e entrou no sepulcro, e viu postos no chão os lençóis,[2]Os lençóisFoi êste um sinal evidente da Ressurreição, porque se o corpo houvera sido furtado, não o desatariam para deixarem os lençóis, nem deixariam o lenço dobrado em outra parte, o que tudo pedia muito tempo e muito descanso. — Amelote.

7e o lenço, que estivera sôbre a cabeça de Jesus, o qual não estava com os lençóis, mas estava dobrado num lugar à parte.

8Então pois entrou também aquêle discípulo, que havia chegado primeiro ao sepulcro: E viu, e creu.[3]E viu, e creuFicaram persuadidos de que era certo o que a Madalena lhe havia dito, isto é, que haviam levado o corpo do Senhor. E assim, ainda que Jesus Cristo lhes tinha declarado diversas vezes, que ressuscitaria ao terceiro dia depois da sua morte, não o entenderam, estando costumados a ouvir-lhe dizer um grande número de parábolas imaginando que o que dizia da sua Ressurreição, podia também significar figuradamente outra coisa. — Santo Agostinho.

9Porque ainda não entendiam a Escritura, que importava que êle ressuscitasse dentre os mortos.

10E voltaram os discípulos outra vez para sua casa.

11Porém Maria conservava-se em pé da parte de fora, chorando junto do sepulcro. E a tempo que ela chorava, abaixou-se, e olhou para ver o sepulcro.

12E viu dois anjos vestidos de branco, assentados no lugar onde fôra pôsto o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés.

13Os quais lhe disseram: Mulher, por que choras? Respondeu-lhes ela: Porque levaram o meu Senhor: E não sei onde o puseram.

14Ditas estas palavras olhou para trás, e viu a Jesus em pé: Sem saber contudo que era Jesus.[4]Olhou para trásPor que olhou para trás? Porque chegando o Senhor, os anjos, que estavam defronte da Madalena, se levantaram logo, em sinal de respeito: e isto é que a fez olhar para trás a ver o que era. — Amelote, citando a Santo Atanásio e a S. João Crisóstomo.

15Disse-lhe Jesus: Mulher, por que choras? Ela, julgando que era o hortelão, disse-lhe: Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste: E eu o levarei.

16Disse-lhe Jesus: Maria. Ela voltando-se, lhe disse: Raboni, (que quer dizer Mestre).

17Disse-lhe Jesus: Não me toques, porque ainda não subi a meu Pai: Mas vai a meus irmãos, e dize-lhes que vou para meu Pai, e vosso Pai, para meu Deus, e vosso Deus.[5]Não me toquesA razão desta proibição, no sentido de S. Jerônimo e de S. Leão Magno, foi para que a Madalena conhecesse, que depois de Jesus Cristo se achar no estado glorioso e imortal, deviam ser outros os obséquios que ela devia tributar, isto é, obséquios de espírito, e não dos sentidos. — Amelote. A MEUS IRMÃOS — Assim lhes chama, por causa da sua Santa humanidade, declarando que seu Pai era também pai deles, e o seu Deus o Deus deles, pela união e enlace que o mérito da sua morte, e do seu precioso sangue, havia feito entre a cabeça, que era o mesmo Senhor, e os membros do seu corpo místico, que eram os seus discípulos, e são todos os fiéis. — Pereira.

18Veio Maria Madalena dar aos discípulos a nova de que ela tinha visto o Senhor, e de que êle lhe havia dito estas coisas.

19Chegada porém que foi a tarde daquele mesmo dia, que era o primeiro da semana, e estando fechadas as portas da casa, onde os discípulos se achavam juntos, por mêdo que tinham dos judeus: Veio Jesus, e pôs-se em pé no meio dêles, e disse-lhes: Paz seja convosco.[6]Estando fechadasO mesmo poder, nota Vigouroux, que fazia passar o corpo de Jesus Cristo através das portas fechadas, torna o mesmo corpo realmente presente no Santíssimo Sacramento da Eucaristia, ainda que ambas as coisas transcendam a nossa acanhada inteligência. — La Sainte Bible — 1902.

20E dito isto, mostrou-lhes as mãos, e o lado. Alegraram-se pois os discípulos de terem visto o Senhor.

21E êle lhes disse segunda vez: Paz seja convosco. Assim como o Pai me enviou a mim, também eu vos envio a vós.

22Tendo dito estas palavras, assoprou sôbre êles: E disse-lhes: Recebei o Espírito Santo:[7]AssoprouPara baixo dêste sinal visível lhes comunicar a graça invisível dos dons do Espírito Santo, e para lhes fazer conhecer que o Espírito Santo procede dele, como um assopro. — Amelote.

23Aos que vós perdoardes os pecados, ser-lhes-ão êles perdoados: E aos que vós os retiverdes, ser-lhes-ão êles retidos.[8]Aos que vós perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoadosPor estas palavras tão concludentes conferiu Jesus Cristo aos seus Apóstolos o grande poder de perdoar pecados; já antes lhes havia dito: todo o que vós ligardes na terra, será ligado no Céu, e o que desligardes na terra, será desligado no Céu. Está pois claramente expresso o poder de remitir ou não remitir os pecados, de dar ou negar a absolvição deles. Como porém se há de regular o exercício dêste poder? Como se há de remitir e reter sem saber o que? E' preciso que se diga, e que se patenteie o que se passa na alma para se lograr sujeitar ao poder das chaves as culpas que precisam de obter êsse perdão. De sorte que o dilema deve ser pôsto desta forma; ou truncar com impiedade inqualificável o Santo Evangelho, ou aceitar a confissão Sacramental como um preceito divino. A confissão das próprias culpas como meio de obter o perdão delas, esta confissão tão conforme com a natureza de Deus e do homem, tem em seu abono a história de todos os povos desde a mais remota antiguidade. Logo nos primeiros dias do mundo Adão e Eva confessaram o seu pecado; Caim confessa o primeiro fratricídio. Nos Provérbios fala-se em têrmos expressos de perdão, que Deus concede ao pecador que confesse as suas culpas. — Qui abscondit scelera sua, non dirigetur: qui autem confessus fuerit et reliquerit ea, misericordiam consequetur. — 28, 13. O Eclesiástico diz: Não te envergonhes de confessar os teus pecados. Non confundaris confiteri peccata tua. Eclo 4, 31. Davi confessa as suas culpas, confessou-as ao profeta Natan. E entre os judeus existia já a prática da confissão de pecados próprios, o que fez dizer ao protestante Grócio — julgo muito provável a opinião dos que sustentam que entre os judeus se fizera já ao sacerdote a confissão dos próprios pecados. O Talmude Babilônico insiste na necessidade da confissão, principalmente depois que o templo foi destruído e acabou a possibilidade de expiar os pecados por meio de sacrifícios, pg. 87. O Mischna apresenta testemunhos terminantes a êste respeito, dizendo: aquele que se confessa terá uma parte no século futuro. — Calmet, no seu Dicionário da Bíblia, atesta que os judeus praticavam a confissão. Não foi só entre o povo judaico que se achava estabelecida a confissão, esta prática encontra-se em muitos outros povos. Na Ásia como na América, na África como na Europa encontra-se o uso da confissão, como atestam os que têm examinado as histórias dêsses povos. De forma que pode com razão dizer-se uma prática universalmente estabelecida. Na Índia havia uma lei que preceituava a confissão, como se vê nas leis de Manu, filho de Brama. Além disto os índios celebram em cada ano uma festa, em que são obrigados a confessar-se para lhes serem remitidas as culpas, Choix de Lettres édifiantes — 1, 8, Pernet. A propósito dos Tibetanos, diz o autor da obra intitulada Recherches sur la confession auriculaire, que os Lhamas, religiosos do Tibé, se reunem quatro vezes por mês, e que o grande Lhama, antes de aparecer na assembléia, confessa-se e recomenda aos outros que façam o mesmo. Pernet. ob. cit. No Zend Avesta encontram-se orações dirigidas a Ormuzd pelas pessoas no dia em que confessam as suas culpas. Voltaire diz-nos que na Grécia os indivíduos na celebração dos mistérios de Orfeu, de Iris e do Céu, confessavam as suas más obras. Oeuvres completes, 49. Socrates diz... Acuse-se a si mesmo, descubra o seu crime, e ponha-o à luz para ser punido e curado. De Maistre, no seu clássico livro Du Pape, apresenta muitos outros testemunhos que confirmam a universalidade da prática da confissão. Esta universalidade deriva dos frutos copiosos e salutares que produz tão salutar prática, quer no indivíduo, quer na família, quer na sociedade. Ouçam-se de preferência os próprios adversários, cujos testemunhos, por isso mesmo, são mais valiosos. O calvinista Brestschneider exprime-se desta sorte: A confissão privada proporciona ao padre a mais favorável ocasião para as instruções individuais e as advertências acêrca das relações domésticas, e de tudo quanto é concernente ao aperfeiçoamento moral do indivíduo. Esta prática estabelece entre o pastor e o rebanho uma intimidade que é tão útil ao ministério dum como às necessidades morais do outro. Gerbert, Dogme catholique de la Penitence. Espíritos irrefletidos têm pretendido sustentar que a confissão foi inventada pelos papas, bispos ou sacerdotes. A primeira coisa a perguntar aos adversários é qual o ano em que na Igreja se introduziu tal prática; porque um acontecimento desta ordem, que tão grande revolução veio fazer na Igreja cristã, devia ficar profundamente assinalado na história, sabendo-se dia, ano e inventor, que passaria à posteridade cercado de louros por uns e coberto de opróbrios e maldições por outros. A segunda pergunta é, se os papas, bispos e padres inventaram a confissão como é que se sujeitam a ela? Por que não crêem eles, e não creram nunca que as seitas orientais, desde o século V, conservam a mesma doutrina e a mesma prática sôbre êste ponto? Quando pois, ou porque incalculável submissão dos povos, é que pode semelhante instituição ganhar tanto terreno no mundo e fazer-se adotar por divina e indispensável à salvação? Os Santos Padres dos primeiros tempos do Cristianismo praticavam a confissão, inculcaram-na, defenderam-na e assim cai pela base o asserto dos que pretendem que a confissão data dos séculos V e de João I. Impossível extratar nesta nota tôda a enorme série de Padres apostólicos, discípulos dos primeiros pregadores do Evangelho, como S. Inácio, Clemente, S. Ireneu, e Barnabé, cujos testemunhos, datando do século I, mostraram claramente que a Igreja desde os seus primórdios professava a mesma crença que hoje professa a respeito da confissão Sacramental.

24Porém Tomé, um dos doze, que se chama Dídimo, não estava com êles quando veio Jesus.

25Disseram-lhe pois os outros discípulos: Nós vimos o Senhor. Mas êle lhes disse: Eu se não vir nas suas mãos a abertura dos cravos, e se não meter o meu dedo no lugar dos cravos, e se não meter a minha mão no seu lado, não hei de crer.

26E oito dias depois, estavam os seus discípulos outra vez dentro, e Tomé com êles. Veio Jesus às portas fechadas, e pôs-se em pé no meio, e disse: Paz seja convosco.

27Logo disse a Tomé: Mete aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos, chega também a tua mão, e mete-a no meu lado: E não sejas incrédulo, mas fiel.

28Respondeu Tomé, e disse-lhe: Senhor meu, e Deus meu.

29Disse-lhe Jesus: Tu crêste, Tomé, porque me viste: Bem-aventurados os que não viram e creram.

30Outros muitos prodígios ainda fez também Jesus em presença de seus discípulos, que não foram escritos neste livro.

31Mas foram escritos êstes, a fim de que vós creiais que Jesus é o Cristo, filho de Deus: E de que crendo-o assim, tenhais a vida em seu nome.

A tradição é unânime em atribuir o quarto Evangelho a S. João. Todos os Padres que falam dêste Evangelho proclamam como seu autor o apóstolo S. João, o discípulo a quem Jesus amava; apenas a seita dos Aloges, que negava a Divindade do Verbo, discordou desta afirmação. S. João, irmão de Tiago, era filho de Zebedeu e de Salomé, e natural de Betsaida. André, confiado na palavra do Mestre, foram com Pedro, Filipe e Natanael procurar Jesus, sendo os primeiros que ao Divino Mestre se juntaram (Jo 1, 35). Um ano mais tarde Jesus escolhe os doze Apóstolos e a lista insere S. João ao lado de Pedro (At 1, 13). S. João está porém bem averiguado que mais tarde partiu para Éfeso, onde continuou os seus trabalhos apostólicos, e onde esteve até ao fim do primeiro século. Êste Evangelho, destinado à Igreja Universal, foi dirigido duma maneira especial às Igrejas da Ásia menor e à sua metrópole, Éfeso, onde S. João tinha trabalhado, e cujas necessidades o determinaram a escrever.
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