Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 3

Busca Nicodemos de noite a Jesus. Jesus o instrui da regeneração do homem. Declara-lhe a necessidade do batismo. Jesus deve ser exaltado, como o fôra a serpente de Moisés. Disputam os discípulos de João sôbre o batismo. Murmuram de Jesus batizar. João o antepõe a si. Êle é o Espôso. Deus lhe comunica o seu Espírito sem medida.

1E havia um homem de entre os fariseus, por nome Nicodemos, um dos chefes dos judeus.[1]Um dos chefes dos judeusIsto é um dos membros do sanedrim. O Talmude fala dum Nicodemos, filho de Gorion, homem rico e piedoso, que é talvez o mesmo de que fala S. João. Segundo a tradição, Nicodemos fez-se cristão, abandonando o sanedrim e Jerusalém.

2Êste uma noite veio buscar a Jesus, e disse-lhe: Rabi, sabemos que és Mestre, vindo da parte de Deus, porque ninguém pode fazer êstes milagres, que tu fazes, se Deus não estiver com êle.

3Jesus respondeu, e lhe disse: Na verdade, na verdade te digo, que não pode ver o reino de Deus, senão aquele que renascer de novo.

4Disse-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer outra vez?

5Respondeu-lhe Jesus: Em verdade, em verdade te digo, que quem não renascer da água, e do Espírito Santo, não pode entrar no reino de Deus.

6O que é nascido da carne, é carne: E o que é nascido do espírito, é espírito.

7Não te maravilhes de eu te dizer: Importa-vos nascer outra vez.

8O espírito assopra onde quer: E tu ouves a sua voz, mas não sabes donde êle vem, nem para onde vai: Assim é todo aquele que é nascido do espírito.[2]O espírito assopra onde querGrande parte dos antigos Padres entende por êsse espírito o mesmo Espírito Santo, e por esta voz os seus efeitos exteriores, como são as virtudes dos Santos, e os milagres, que por êles se obram. Porém outros, com S. João Crisóstomo e S. Cirilo, o entendem do espírito material que é o vento; de sorte que por comparação ao espírito material, que é o vento, explique Jesus Cristo o oculto modo de obrar nas almas do Espírito Santo. Glaire diz que a palavra empregada no original significa vento e espírito. — La Sainte Bible.

9Respondeu Nicodemos, e disse-lhe: Como se pode fazer isto?

10Respondeu Jesus, e disse-lhe: Tu és mestre em Israel, e ignoras estas coisas?

11Em verdade, em verdade te digo, que nós dizemos o que sabemos, e que damos testemunho do que vimos, e vós contudo isso não recebeis o nosso testemunho.

12Se quando eu vos tenho falado nas coisas terrenas, ainda assim vós me não crêdes: Como me crereis vós, se eu vos falar nas celestiais?

13Também ninguém subiu ao Céu, senão aquele que desceu do Céu, a saber, o Filho do homem, que está no Céu.

14E como Moisés no deserto levantou a serpente, assim importa que seja levantado o Filho do homem:

15Para que todo o que crê nele, não pereça, mas tenha a vida eterna.

16Porque assim amou Deus ao mundo, que lhe deu seu Filho unigênito: Para que todo o que crê nele não pereça, mas tenha a vida eterna.

17Porque Deus não enviou seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por êle.

18Quem nele crê, não é condenado: Mas o que não crê, já está condenado: Porque não crê no nome do Filho unigênito de Deus.

19E a causa desta condenação é: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz: Porque eram más as suas obras.

20Porquanto todo aquele que obra mal, aborrece a luz, e não se chega para a luz, para que não sejam arguidas as suas obras.

21Mas aquele que obra verdade, chega-se para a luz, para que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus.

22Passado isto veio Jesus com seus discípulos para a terra de Judéia: E ali se demorava com êles, e batizava.

23E João batizava também em Enon, junto a Salim: Porque havia ali muitas águas, e eram muitos os que vinham, e eram batizados.[3]Enon, junto a SalimEnon — No dizer de S. Jerônimo, que cita Eusébio, êste lugar ficava a 8 milhas de Citópolis, ao sul, perto de Salim e do Jordão. Etimologicamente significa fonte. Salim — É lugar completamente desconhecido atualmente. Existe um Salim a este de Naplusa — Samaria, onde há abundantes nascentes. Descobriu-se uma outra povoação do mesmo nome perto de Tará.

24Porque ainda João não tinha sido pôsto no cárcere.

25Excitou-se pois uma questão entre os discípulos de João e os judeus, acerca da purificação.[4]Acerca da purificaçãoIsto é, sobre o batismo, preferindo uns o de Cristo, outros o de João. — Pereira.

26E foram ter com João, e lhe disseram: Mestre, o que estava contigo da banda dalém do Jordão, de quem tu deste testemunho, ei-lo aí está batizando, e todos vêm a êle.

27Respondeu João, e disse: O homem não pode receber coisa alguma, se do Céu lhe não for dada.

28Vós outros mesmos me sois testemunhas de que eu disse: Eu não sou o Cristo mas sou enviado adiante dêle.

29O que tem a espôsa, é o espôso: Mas o amigo do espôso, que está com êle, e o ouve, se enche de gôsto com a voz do espôso. Pois já êste meu gôzo é cumprido.

30Convém que êle cresça, e que eu diminua.

31O que vem lá de riba, é sôbre todos. O que é da terra, é da terra, e fala da terra. O que vem do Céu, é sôbre todos.

32E o que viu, e ouviu, isso testifica: E ninguém recebe o seu testemunho.

33O que recebeu o seu testemunho, confirmou que Deus é verdadeiro.

34Porque aquele a quem Deus enviou, êsse fala palavras de Deus: Porque não lhe dá Deus o espírito por medida.

35O Pai ama ao Filho: E tôdas as coisas pôs na sua mão.

36O que crê no Filho, tem a vida eterna: O que porém não crê no Filho, não verá a vida, mas sôbre êle permanece a ira de Deus.

A tradição é unânime em atribuir o quarto Evangelho a S. João. Todos os Padres que falam dêste Evangelho proclamam como seu autor o apóstolo S. João, o discípulo a quem Jesus amava; apenas a seita dos Aloges, que negava a Divindade do Verbo, discordou desta afirmação. S. João, irmão de Tiago, era filho de Zebedeu e de Salomé, e natural de Betsaida. André, confiado na palavra do Mestre, foram com Pedro, Filipe e Natanael procurar Jesus, sendo os primeiros que ao Divino Mestre se juntaram (Jo 1, 35). Um ano mais tarde Jesus escolhe os doze Apóstolos e a lista insere S. João ao lado de Pedro (At 1, 13). S. João está porém bem averiguado que mais tarde partiu para Éfeso, onde continuou os seus trabalhos apostólicos, e onde esteve até ao fim do primeiro século. Êste Evangelho, destinado à Igreja Universal, foi dirigido duma maneira especial às Igrejas da Ásia menor e à sua metrópole, Éfeso, onde S. João tinha trabalhado, e cujas necessidades o determinaram a escrever.
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