Capítulo 2
1E dali a três dias se celebraram umas bodas em Caná de Galiléia: E achava-se lá a mãe de Jesus.[1]Caná de Galiléia — É célebre não só pelo milagre da transformação da água em vinho, como pelo outro milagre narrado por êste mesmo Evangelista no cap. 4, 46-54. Foi também aqui que nasceu Natanael, Jo 21, 2. Hoje Caná é conhecida pelo nome de Kafr-Kenna, no caminho de Nazaré para Tiberiades. Mostram-se duas ânforas de calcáreo, grosseiramente trabalhadas, onde se fêz a transformação milagrosa. Não têm nenhuma escultura. Uma delas tem 1m,20 por 0m,80, a segunda 0m,90 por 0m,75. Cada uma das ânforas continha, segundo o Evangelista, duas ou três metretas, devendo ser portanto a capacidade delas de 78 a 117 litros, visto que cada metreta correspondia a 39 litros; por esta capacidade regulam também as ânforas existentes, às quais já se refere Antonino Martir.
2E foi também convidado Jesus com seus discípulos para o noivado.
3E faltando o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Êles não têm vinho.[2]E faltando o vinho — Talvez porque os que concorreram, foram mais do que esperavam os pobres noivos, ou porque seriam passados muitos dias de bodas, que entre os judeus costumavam durar sete.
4E Jesus lhe respondeu: Mulher, que importa isso a mim e a vós? ainda não é chegada a minha hora.[3]Mulher — O termo grego gunai empregado no original, que a Vulgata traduziu Mulier, Mulher, tem, na língua originária, uma significação sobremaneira respeitosa. Êsquilo serve-se dele para invocar uma rainha, e os outros poetas trágicos gregos usaram êste têrmo frequentes vezes designando rainhas, princesas, ou mulheres de singular prestígio. O próprio termo latino mulier é igualmente uma fórmula de respeito; assim saúda Augusto a Cleópatra. Dion Cassius, Historia, 51, 52, e não é êste o único exemplo que se poderia alegar. Mas como traduzir o têrmo mulher? A primeira palavra que imediatamente ocorre é mulher, mas êste têrmo, pelo nosso usus loquendi, não se emprega quando se fala duma certa e determinada mulher, à qual costumam os povos latinos chamar Senhora. Isto constituiu uma dificuldade para os tradutores e comentadores bíblicos. É certo que na linguagem polida o vocativo de Mulher é Senhora, mas também é certo que no decorrer dos tempos vários usos diferentes se têm notado, ainda nas relações familiares. Os exegetas modernos, e que com mais autoridade tratam da vida de Jesus, traduzem à letra a palavra mulher por mulher, como Didon, Fossard, Lesetre, Frette, Le Camus, etc., contentando-se alguns com advertir a diferença do grego gunai e o têrmo francês femme, diferença que é comum à nossa palavra Mulher. Outros, como Sepp, Dehaut, etc., renunciam a traduzir a mulher, passando assim por cima da dificuldade. Lasserre acrescenta a interjeição oh! como que para suavizar a aparente aspereza do têrmo, e em nota diz que se subentende oh! mulher amada e venerada; outros ainda traduzem por mãe. Não me parece contudo indispensável recorrer a estas sutilezas, porquanto a palavra mulher, tanto no usus loquendi hebraico como no grego, indica uma forma de tratamento respeitosa e de veneração, que não tem nada de áspero ou de menos amável. Sem excluir a ternura filial, dá-ao mesmo tempo ao Divino Mestre a independência necessária à sua divina Missão. De resto esta expressão repetiu-a Jesus no Calvário, e empregou-a quando se dirigia à Madalena depois da ressurreição. Que importa isso a mim e a vós? — De várias formas se tem traduzido esta passagem. Uns vertem o quid mihi et tibi por esta fórmula: — o que há entre vós e eu. É a versão de Bossuet seguida por Dehaut, Pauvert, Luiz Veuillot, Coleridge, Meschler e dela se aproximam Didon e Pressensé. Esta tradução, pelo que tem de vago, presta-se a interpretações diversas. Outros subentendem na frase latina o verbo refert, e este é o sentido adotado por Dupanloup, Fava, Bougand, Le Camus, Bovier-Lapierre e muitos outros. Esta versão é incontestàvelmente preferível, pois é a que melhor se conforma com o texto grego. Há porém muitos outros lugares onde esta expressão aparece, o que faz supor a não poucos intérpretes que se trata duma locução proverbial, que a Vulgata traduziu à letra. Cfr. Jz 11, 12; 2 Rs 16, 10; 2 Rs 19, 22; 3 Rs 17, 18; 4 Rs 3, 13, etc.
5Disse a mãe de Jesus aos que serviam: Fazei tudo o que êle vos disser.
6Ora, estavam ali postas seis talhas de pedra, para servirem às purificações de que usavam os judeus, que cada uma levava dois ou três almudes.
7Disse-lhes Jesus: Enchei de água essas talhas. E encheram-nas até acima.
8Então lhes disse Jesus: Tirai agora e levai ao Arquitriclino. E êles lha levaram.[4]Arquitriclino — Era êste o que governava o banquete, por nome Rex, ou princeps convivii, o mestre sala.
9E o que governava a mesa, tanto que provou a água, que se fizera vinho, como não sabia donde lhe viera, ainda que o sabiam os serventes, porque eram os que tinham tirado a água: Chamou ao noivo o tal Arquitriclino,
10e disse-lhe: Todo o homem põe primeiro o bom vinho: E quando já os convidados têm bebido bem, então lhe apresenta o inferior: Tu ao contrário tiveste o bom vinho guardado até agora.
11Por êsse milagre deu Jesus princípio aos seus em Caná de Galiléia: E assim fez que se conhecesse a sua glória, e seus discípulos creram nele.
12Depois disto vieram para Cafarnaum, êle e sua mãe, e seus irmãos, e seus discípulos: Mas não se demoraram ali muitos dias.[5]E seus irmãos — Os hebreus chamavam irmãos a todos os parentes. Veja-se Mt 12, 46.
13Porque como estava a chegar a Páscoa dos judeus, foi logo Jesus para Jerusalém.
14E achou no Templo a muitos vendendo bois, e ovelhas, e pombas, e os cambiadores lá sentados.[6]E os cambiadores — Que por dinheiro grosso de ouro e prata davam trocos miúdos, aos que de tôdas as partes os vinham buscar, para com êles fazerem suas ofertas no Templo, ou de devoção, ou de obrigação. Por isso o texto grego no verso 15, onde a Vulgata diz, nummulariorum aes, usa do têrmo kerma, derivado do verbo keireion, cuja significação é cortar em partes miúdas — Calmet.
15E tendo feito de cordas um como azorrague, os lançou fora a todos do Templo, também as ovelhas, e os bois, e arrojou por terra o dinheiro dos cambiadores, e derribou as mesas.
16E para os que vendiam as pombas, disse: Tirai daqui isto, e não façais da casa de meu Pai casa de negociação.
17Então se lembraram seus discípulos, do que está escrito: O zêlo da tua casa me comeu.
18Perguntaram-lhe pois os judeus, e disseram-lhe: Que milagre nos fazes tu, para mostrares que tens autoridade para fazeres estas coisas?
19Respondeu-lhes Jesus, e disse: Desfazei êste Templo, e eu o levantarei em três dias.[7]Desfazei êste Templo — O imperativo solvite, desfazei, destruí, derribai, está pôsto pelo futuro solvetis, destruireis. Os judeus entenderam que falava do Templo material que havia em Jerusalém: porém o Senhor lhes deu a entender, que destruiriam, fazendo-o morrer, o templo místico do seu corpo, e que ressuscitaria ao terceiro dia.
20Replicaram logo os judeus: Em se edificar êste Templo gastaram-se quarenta e seis anos, e tu hás de levantá-lo em três dias?[8]Quarenta e seis anos — O primeiro Templo foi fabricado por Salomão no espaço de sete anos. O segundo, que é do que falam os judeus, foi construído por Zorobabel, em quarenta e seis anos, não contínuos, senão contados desde que se deu princípio à sua fábrica, até que se concluiu. Outros entendem isto da reparação que empreendeu Herodes, e todavia continuava: pois contando desde o ano dezenove do reino de Herodes, até ao décimo quinto do de Tibério, em que Jesus Cristo principiou a pregar, se acham efetivamente quarenta e seis anos, particularidade que confirma o testemunho do Evangelista.
21Mas êle falava do Templo de seu corpo.
22Assim que depois que êle ressurgiu dos mortos, se lembraram seus discípulos do que êle dissera, e creram na Escritura, e nas palavras que Jesus tinha dito:
23E estando em Jerusalém pela festa solene da Páscoa, muitos, vendo os milagres que êle fazia, creram no seu nome.
24Mas o mesmo Jesus não se fiava dêles, porque os conhecia a todos.[9]Porque os conhecia a todos — Não se fiava deles, nem lhes confiava, como a verdadeiros discípulos seus, os segredos e mistérios do seu reino, porque conhecia quão débil era a sua fé, fundada sòmente sôbre o haverem visto os seus milagres, e que para o futuro o abandonariam, levantando-se e voltando-se contra êle.
25E porque não necessitava de que lhe dessem testemunho de homem algum: Pois êle bem sabia por si mesmo o que havia no homem.