Capítulo 10
1Em verdade, em verdade vos digo: Que o que não entra pela porta no aprisco das ovelhas, mas sobe por outra parte: Êsse é ladrão e roubador.[1]Êsse é ladrão e roubador — Fur é o que furta às escondidas, latro o que faz descobertamente, sem rebuço, e com violência. Ez 34, 23 chama ao Messias único e verdadeiro pastor, com que demonstrando o Senhor, que êle é aquêle pastor, demonstra ao mesmo tempo que êle é o Messias. — Pereira.
2O que porém entra pela porta, êsse é pastor das ovelhas.
3A êste abre o porteiro, e as ovelhas ouvem a sua voz, e às ovelhas próprias chama pelo seu nome, e as tira para fora.
4E depois que tirou para fora as próprias ovelhas, vai adiante delas: E as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz.
5E não seguem o estranho, antes fogem dêle: Porque não conhecem a voz dos estranhos.
6E Jesus lhes disse esta parábola. Mas êles não entenderam que era o que lhes dizia.[2]Não entenderam que era o que lhes dizia — A parábola do pastor e das ovelhas não foi compreendida pelos fariseus, que não se reconheceram como ladrões e mercenários.
7Tornou pois Jesus a dizer-lhes: Em verdade, em verdade vos digo, que eu sou a porta das ovelhas.
8Todos quantos têm vindo são ladrões e roubadores, e as ovelhas não lhes deram ouvidos.[3]Todos quantos têm vindo — Na qualidade de pastores que têm vindo de si mesmo, sem estar por Jesus Cristo, sem missão legítima. — Amelote.
9Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo: E êle entrará, e sairá, e achará pastagens.
10O ladrão não vem senão a furtar, e a matar, e a perder. Mas eu vim para elas terem vida, e para a terem em maior abundância.
11Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a própria vida pelas suas ovelhas.
12Mas o mercenário, e o que não é pastor, de quem não são próprias as ovelhas, vê vir o lôbo, e abandona as ovelhas e foge: E o lôbo as arrebata, e dispersa o rebanho:
13E o mercenário foge, porque é mercenário, e não tem cuidado das ovelhas.
14Eu sou o bom pastor: E conheço as minhas ovelhas, e as minhas ovelhas me conhecem a mim.
15Assim como o Pai me conhece, e eu conheço ao Pai: E dou a minha vida pelas ovelhas.
16Tenho ainda outras ovelhas que não são dêste aprisco: Importa-me trazer também essas, e ouvirão a minha voz, e haverá um só rebanho, e um só pastor.[4]Outras ovelhas que não são dêste aprisco — As outras ovelhas são os gentios, que seriam chamados à fé e se uniriam ao povo de Israel para formar a Igreja universal.
17Por isso meu Pai me ama, porque eu ponho a minha vida, para a retomar depois.
18Ninguém a tira de mim, mas eu próprio a ponho: Tenho poder para a pôr, e tenho poder para a retomar: Este mandado recebi de meu Pai.
19Tornou a haver dissensão entre os judeus por causa destas palavras.
20E muitos dêles diziam: Êle tem demônio, e está fora de si: Que o ouvis?
21Diziam outros: Estas palavras não são de quem está possesso do demônio; acaso pode o demônio abrir os olhos aos cegos?
22Ora, em Jerusalém celebrava-se a festa da Dedicação: E era inverno.[5]E era inverno — O que parece notou o Evangelista para mostrar antecipadamente a causa por que o Senhor passeava no alpendre de Salomão e não no átrio descoberto. — Calmet. A festa da dedicação remontava ao ano 164, em que Judas Macabeu, tendo libertado Jerusalém, destruíra a estátua de Júpiter, colocada no santuário, e purificou o templo das profanações anteriormente cometidas. Durou oito dias esta solenidade, e celebrava-se no inverno, como S. João notou para os que não conheciam a vida dos judeus.
23E Jesus andava passeando no Templo, no alpendre de Salomão.
24Rodearam-no pois os judeus, e disseram-lhe: Até quando nos terás tu perplexos? se tu és o Cristo, dize-no-lo claramente.
25Respondeu-lhes Jesus: Eu digo-vo-lo, e vós não me credes: As obras, que eu faço em nome de Meu Pai, elas dão testemunho de mim.
26Porém vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas.[6]Porque não sois das minhas ovelhas — Daqui se segue, diz Santo Agostinho sôbre este lugar, que os judeus eram réprobos, e que só os escolhidos são ovelhas de Cristo.
27As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem.
28E eu lhes dou a vida eterna, e elas nunca jamais hão de perecer, e ninguém as há de arrebatar da minha mão.[7]E elas nunca jamais hão de perecer — Porque suposto o decreto da sua predestinação para a vida eterna, é impossível que se perca alguma destas ovelhas. Santo Agostinho no livro da Correção e da Graça, cap 9, e S. Fulgêncio no livro da Fé a Pedro, cap. 75.
29O que meu Pai me deu, é maior do que tôdas as coisas, e ninguém as pode arrebatar da mão de meu Pai.
30Eu e o Pai somos uma mesma coisa.[8]Somos uma mesma coisa — Na essência ou na natureza o texto capital contra os arianos, donde principalmente tiraram os Santos Padres do primeiro Concílio de Nicéia o adjetivo Ο ou ousios, que quer dizer: consubstancial, ou da mesma substância.
31Então pegaram os judeus em pedras para lhe atirarem.
32Disse-lhes Jesus: Eu tenho-vos mostrado muitas obras boas, que fiz em virtude de meu Pai: Por qual destas obras me quereis vós apedrejar?
33Responderam-lhe os judeus: Não é por causa de alguma boa obra, que nós te apedrejamos, mas sim porque dizes blasfêmias, e porque sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo.
34Replicou-lhes Jesus: Não é assim que está escrito na vossa Lei: Eu disse, vós sois deuses?[9]Não é assim que está escrito — Sl 81, 6. Por Lei entendiam frequentemente não só o Pentateuco, senão tudo o que compreendia o Antigo Testamento, que o olhavam como regra das suas ações. Nestas palavras falava Deus com os que havia estabelecido por juízes do seu povo, exortando-os a desempenhar o seu ministério, sem perder de vista a justiça, e sem acepção de pessoa. Chamava-lhes deuses e filhos do Altíssimo, pela sua elevada dignidade, que os fazia semelhantes àquele que, sendo Deus soberano, lhes comunicava uma parte do seu poder.
35Se ela chama deuses àqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida, e a Escritura não pode falhar,[10]Se ela chama deuses — Santo Agostinho Si ergo vos deos facit sermo Dei, quomodo non erit Deus Verbum Dei? Logo, se a palavra de Deus vos faz deuses, como não será Deus o Verbo de Deus? — Duhamel.
36a mim, a quem o Pai santificou, e enviou ao mundo, porque dizeis vós: Tu blasfemas, por eu ter dito que sou Filho de Deus?[11]Tu blasfemas — Se aqueles juízes, que só receberam de Deus uma pequena posição do seu poder, são chamados deuses, como dizeis que blasfemo quando me chamo filho de Deus, eu, a quem meu Pai comunicou a sua santidade essencial, e a quem gerou de toda a eternidade como a seu filho? — Santo Agostinho.
37Se eu não faço as obras de meu Pai, não me creiais.
38Porém se eu as faço: E quando não queirais crer em mim, crede as minhas obras, para que conheçais, e creiais que o Pai está em mim, e eu no Pai.[12]Crede as minhas obras — E já que não me credes a mim sôbre a minha palavra, crede as minhas obras, pois estas vos dirão que são obras de meu Pai, descobrindo-se nelas os efeitos da sua bondade e poder divino; elas vos convencerão de que o Pai está em mim, e eu no Pai, e que meu Pai e eu somos uma mesma coisa, como já vo-lo tenho declarado. — S. Tomás.
39Então procuravam os judeus prendê-lo: Mas êle se escapou das suas mãos.
40E retirou-se outra vez para a banda dalém do Jordão, para o lugar em que João batizava no princípio: E deixou-se lá ficar:
41E vieram a êle muitos, e diziam: Por certo que João não fez milagre algum.
42E tôdas as coisas, que João disse dêste, eram verdadeiras. E muitos creram nêle.