Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 17

Ora Jesus ao Pai por si e pelos seus. Não ora pelo mundo. Êle guardou todos os que o Pai lhe deu. Deseja que os seus sejam santificados na verdade. Que sejam todos uma mesma coisa por amor. Que estejam com êle na sua glória, e que reine nêles o amor com que seu Pai o ama.

1Assim falou Jesus: Levantando os olhos ao Céu, disse: Pai, é chegada a hora, glorifica a teu Filho, para que teu Filho te glorifique a ti.

2Assim como tu lhe deste poder sôbre todos os homens, a fim de que êle dê a vida eterna a todos aqueles que tu lhe deste.

3A vida eterna porém consiste em que êles conheçam por um só verdadeiro Deus a ti, e a Jesus Cristo, que tu enviaste.

4Eu glorifiquei-te sôbre a terra: Eu acabei a obra que tu me encarregaste que fizesse:

5Tu pois agora, Pai, glorifica-me a mim em ti mesmo, com aquela glória que eu tive em ti, antes que houvesse mundo.

6Eu manifestei o teu nome aos homens que tu me deste do mundo: Êles eram teus, e tu mos deste: E êles guardaram a tua palavra.

7Agora conheceram êles que tôdas as coisas que tu me deste, vêm de ti:

8Porque eu lhes dei as palavras que tu me deste: E êles as receberam, e verdadeiramente conheceram que eu saí de ti, e creram que tu me enviaste.

9Por êles é que eu rogo: Eu não rogo pelo mundo, mas por aqueles que tu me deste: Porque são teus:[1]Eu não rogo pelo mundoComo se trata da oração especial, em que Jesus Cristo rogou eficazmente pela salvação dos escolhidos, por isso desta sua oração declara o Senhor excluído o "Mundo", que são os incrédulos, e os que vivem segundo a concupiscência, e os que por isso são réprobos. — Santo Agostinho no Tratado 107 sobre S. João.

10E tôdas as minhas coisas são tuas, e tôdas as tuas coisas são minhas: E nêles sou eu glorificado.

11E eu não estou jamais no mundo, mas êles estão no mundo, e eu vou para ti. Padre Santo, guarda em teu Nome aqueles que me deste: Para que êles sejam um, assim como também nós.[2]Sejam umPara que êles sejam por união e caridade, o que nós somos por natureza.

12Quando eu estava com êles, eu os guardava em teu Nome. Eu conservei os que tu me deste: E nenhum dêles se perdeu, mas sòmente o que era filho de perdição para se cumprir a Escritura.[3]O que era filho da perdiçãoHebraismo que significa o que ama ou acha preciosa a perdição. Para se cumprir a Escritura — Não se perdeu Judas porque assim o predisse a Escritura: mas por isso a Escritura o predisse, porque Judas se havia de perder, pois que o Espírito Santo, que falava por bôca de Davi, Sl 108, 8, via o enorme delito dêste apóstata. — Santo Tomás.

13Mas agora vou eu para ti, e digo estas coisas, estando ainda no mundo, para que êles tenham em si mesmos a plenitude do meu gôzo.

14Eu dei-lhes a tua palavra, e o mundo os aborreceu, porque êles não são do mundo, como também eu não sou do mundo.

15Eu não peço que os tires do mundo, mas sim que os guardes do mal.

16Êles não são do mundo, como eu também não sou do mundo.

17Santifica-os na verdade. A tua palavra é a verdade.

18Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo.

19E eu me santifico a mim mesmo por êles: Para que também êles sejam santificados na verdade.

20E eu não rogo sòmente por êles, mas rogo também por aqueles que hão de crer em mim por meio da sua palavra:[4]Que hão de crer em mimRoga o Senhor em qualidade de Pontífice, por todos os seus, que crêem nele, e haviam de crer na série de todos os séculos, até ao fim do mundo. — Pereira.

21Para que êles sejam todos um, como tu, Pai, o és em mim, e eu em ti, para que também êles sejam um em nós, e creia o mundo que tu me enviaste.

22E eu lhes dei a glória que tu me havias dado: Para que êles sejam um, como também nós somos um.

23Eu estou nêles, e tu estás em mim, para que êles sejam consumados na unidade, e para que o mundo conheça que tu me enviaste e que tu os amaste, como amaste também a mim.

24Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo aqueles que tu me deste, para verem a minha glória, que tu me deste: Porque me amaste antes da criação do mundo.

25Pai justo, o mundo não te conheceu: Mas eu conheci-te, e êstes conheceram que tu me enviaste.

26E eu lhes fiz conhecer o teu nome, e lho farei ainda conhecer: A fim de que o mesmo amor, com que tu me amaste, esteja nêles, e eu nêles.

A tradição é unânime em atribuir o quarto Evangelho a S. João. Todos os Padres que falam dêste Evangelho proclamam como seu autor o apóstolo S. João, o discípulo a quem Jesus amava; apenas a seita dos Aloges, que negava a Divindade do Verbo, discordou desta afirmação. S. João, irmão de Tiago, era filho de Zebedeu e de Salomé, e natural de Betsaida. André, confiado na palavra do Mestre, foram com Pedro, Filipe e Natanael procurar Jesus, sendo os primeiros que ao Divino Mestre se juntaram (Jo 1, 35). Um ano mais tarde Jesus escolhe os doze Apóstolos e a lista insere S. João ao lado de Pedro (At 1, 13). S. João está porém bem averiguado que mais tarde partiu para Éfeso, onde continuou os seus trabalhos apostólicos, e onde esteve até ao fim do primeiro século. Êste Evangelho, destinado à Igreja Universal, foi dirigido duma maneira especial às Igrejas da Ásia menor e à sua metrópole, Éfeso, onde S. João tinha trabalhado, e cujas necessidades o determinaram a escrever.
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