Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 6

Sustenta Jesus cinco mil homens com cinco pães. Foge de que o façam rei. Caminha sôbre o mar em ocasião de tormenta. Conferência que teve com os judeus sôbre a comida da sua carne. Êle é o verdadeiro pão do Céu. É necessário comer dêste pão para ter a vida eterna. A sua carne é comida, e o seu sangue é bebida. Seus discípulos o largam. Declara-os Jesus fiéis, exceto Judas.

1Depois disto passou Jesus à outra banda do mar de Galiléia, que é o de Tiberíades:[1]Mar de GaliléiaTambém chamado lago de Genesaré ou mar de Tiberíades, pelo nome da cidade de Tiberíades que ficava nas suas margens.

2E seguia-o uma grande multidão de gente, porque viam os milagres que fazia sôbre os que se achavam enfermos.

3Subiu, pois, Jesus a um monte, e ali se assentou com os seus discípulos.

4E estava perto a Páscoa, dia da festa dos judeus.

5Pelo que tendo Jesus levantado os olhos, e visto que veio ter com êle uma grandíssima multidão de povo, disse para Filipe: Com que compraremos nós o pão, de que êstes necessitam para comer?[2]disse para FilipeFilipe era natural de Betsaida, cidade vizinha do lugar onde se deu o milagre, e por isso Jesus lhe dirigiu a pergunta.

6Mas Jesus falava assim para experimentar: Porque êle bem sabia o que havia de fazer.

7Respondeu-lhe Filipe: Duzentos dinheiros de pão não lhe bastam, para que cada um receba à sua parte um pequeno bocado.[3]Duzentos dinheirosO dinheiro (denário) valia cêrca de 85 centavos: duzentos dinheiros representavam uma soma considerável, equivalente ao salário de duzentos dias de trabalho.

8Um de seus discípulos, chamado André, irmão de Simão Pedro, lhe disse:

9Aqui está um moço, que tem cinco pães de cevada e dois peixes; mas isto que é para se repartir entre tanta gente?

10Então disse Jesus: Fazei assentar essa gente. Havia muita erva naquele lugar. E se assentaram a comer, em número de cinco mil pessoas.

11Tomou, pois, Jesus os pães: E tendo dado graças, distribuiu-os aos que estavam assentados: E assim mesmo dos peixes, quanto êles queriam.

12E como estiveram fartos, disse a seus discípulos: Recolhei os pedaços, que sobejaram, para que se não percam.

13Êles pois os recolheram, e encheram doze cestos de pedaços dos cinco pães de cevada, que tinham sobejado aos que haviam comido.

14Vendo então aquêles homens o milagre que Jesus obrara, diziam: Êste é verdadeiramente o Profeta que devia vir ao mundo.[4]o Profeta que devia vir ao mundoO povo reconheceu em Jesus o profeta prometido por Moisés, Dt 18, 15.

15E entendendo Jesus que o viriam arrebatar para o fazerem rei, tornou-se a retirar para o monte, êle só.

16E quando veio a tarde, desceram seus discípulos ao mar.

17E metendo-se numa barca, atravessaram à banda dalém a Cafarnaum; e era já escuro: E ainda Jesus não tinha vindo a êles.

18Entretanto o mar começava a empolar-se, por causa do vento rijo que assoprava.

19E tendo navegado quase o espaço de vinte e cinco, ou trinta estádios, viram a Jesus, que vinha andando sôbre o mar, e vinha chegando à barca, do que êles ficaram atemorizados.

20Mas êle lhes disse: Sou eu, não temais.

21Quiseram êles, pois, recebê-lo na barca: E logo a barca chegou à terra, a que êles queriam abordar.

22No dia seguinte o povo que estava da outra banda do mar, advertiu que não tinha ali estado outra barca, senão só aquela, e que Jesus não tinha entrado na barca com seus discípulos, mas que os seus mesmos discípulos tinham ido sós.

23Mas depois arribaram de Tiberíades outras barcas, perto do lugar onde tinham comido o pão, depois do Senhor ter dado graças.

24Quando enfim viu a gente que nem Jesus lá estava, nem seus discípulos, entraram naquelas barcas, e vieram até Cafarnaum em busca de Jesus.

25E depois que o acharam da banda dalém do mar, disseram-lhe: Mestre, quando chegaste tu aqui?

26Respondeu-lhe Jesus, e disse: Em verdade, em verdade vos digo: Que vós me buscais, não porque vistes os milagres, mas porque comestes dos pães, e ficastes fartos.

27Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que dura até à vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará. Porque êle é o em que Deus Padre imprimiu o seu sêlo.

28Disseram-lhe pois êles: Que faremos nós para obrarmos as obras de Deus?

29Respondeu Jesus, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que êle enviou.

30Disseram-lhe então êles: Pois que milagre fazes tu, para que o vejamos, e creiamos em ti? Que é o que obras?

31Nossos pais comeram o maná no deserto, segundo o que está escrito: Êle lhes deu a comer o pão do Céu.

32E Jesus lhes respondeu: Em verdade, em verdade vos digo: Que Moisés não vos deu o pão do Céu, mas meu Pai é o que vos dá o verdadeiro pão do Céu.

33Porque o pão de Deus é o que desceu do Céu, e que dá vida ao mundo.

34Êles pois disseram-lhe: Senhor, dá-nos sempre dêste pão.

35E Jesus lhes respondeu: Eu sou o pão da vida: O que vem a mim, não terá jamais fome, e o que crê em mim, não terá jamais sêde.

36Porém eu já vos disse, que vós me vistes, e que me não credes.

37Todo o que meu Pai me dá, virá a mim: E o que vem a mim, eu não o lançarei fora.

38Porque eu desci do Céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou.

39E essa é a vontade daquele Pai que me enviou: Que nenhum perca de todos aqueles que êle me deu, mas que o ressuscite no último dia.

40E a vontade de meu Pai que me enviou, é esta: Que todo o que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia.

41Murmuravam pois dêle os judeus, porque dissera: Eu sou o pão vivo, que desci do Céu.

42E diziam: Porventura não é êste Jesus o filho de José, cujo pai e mãe nós conhecemos? Como logo diz êle: Desci do Céu?

43Respondeu pois Jesus, e disse-lhes: Não murmueis entre vós outros.

44Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, o não trouxer: E eu o ressuscitarei no último dia.

45Escrito está nos profetas: E serão todos ensinados de Deus. Assim que todo aquele que do Pai ouviu, e aprendeu, vem a mim.

46Não que alguém tenha visto ao Pai, senão só aquele que é de Deus, êsse é o que tem visto ao Pai.

47Em verdade, em verdade vos digo: O que crê em mim, tem a vida eterna.[5]O que crê em mimA fé é o princípio da vida eterna; mas uma fé viva, que se manifesta pelas obras.

48Eu sou o pão da vida.

49Vossos pais comeram o maná no deserto, e morreram.

50Aqui está o pão que desceu do Céu: Para que todo o que dele comer, não morra.

51Eu sou o pão vivo, que desci do Céu.

52Se qualquer comer dêste pão, viverá eternamente: E o pão, que eu darei, é a minha carne, para ser a vida do mundo.

53Disputavam pois entre si os judeus, dizendo: Como pode êste dar-nos a comer a sua carne?

54E Jesus lhes disse: Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do homem, e beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós.[6]Se não comerdes a carne do Filho do homemJesus Cristo estabelece aqui a necessidade da Comunhão eucarística para a vida da alma.

55O que come a minha carne, e bebe o meu sangue, tem a vida eterna: E eu o ressuscitarei no último dia.[7]O que come a minha carnePromessa formal da Sagrada Eucaristia, em que Jesus Cristo nos dá a comer a sua carne e a beber o seu sangue sob as espécies do pão e do vinho.

56Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida.[8]Verdadeiramente é comidaA carne de Jesus Cristo é verdadeira comida, e o seu sangue é verdadeira bebida; não em sentido figurado, mas em sentido próprio e real.

57O que come a minha carne, e bebe o meu sangue, fica em mim, e eu nêle.

58Assim como o Pai, que é vivo, me enviou, e eu vivo pelo Pai: Assim o que se alimenta com a minha carne, êsse mesmo também viverá por mim.[9]Eu vivo pelo PaiAssim como Jesus Cristo vive pelo Pai, isto é, recebe do Pai a mesma vida divina; assim o que come a carne de Cristo receberá dêle a vida.

59Aqui está o pão que desceu do Céu. Não como vossos pais, que comeram o maná, e morreram. O que come dêste pão, viverá eternamente.

60Estas coisas disse Jesus quando em Cafarnaum ensinava na Sinagoga.

61Muitos pois dos seus discípulos, ouvindo isto, disseram: Duro é êste discurso, e quem o pode ouvir?[10]Duro é êste discursoOs discípulos entenderam bem que Jesus falava em sentido próprio, e por isso se escandalizaram. Se fôra metáfora, não haveria razão para escândalo.

62Porém Jesus conhecendo em si mesmo que seus discípulos murmuravam por isso, disse-lhes: Isto escandaliza-vos?

63Pois que será, se vós virdes subir o Filho do homem, onde êle primeiro estava?

64O espírito é o que vivifica: A carne para nada aproveita. As palavras que eu vos disse, são espírito e vida.[11]O espírito é o que vivificaA carne de Jesus Cristo, animada pelo seu espírito divino, é que dá a vida. Não se deve entender estas palavras no sentido carnal e grosseiro.

65Mas há alguns de vós outros que não crêem. Porque bem sabia Jesus desde o princípio quem eram os que não criam, e quem o havia de entregar.

66E dizia: Por isso eu vos tenho dito, que ninguém pode vir a mim, se por meu Pai lhe não fôr isso concedido.

67Desde então se tornaram atrás muitos de seus discípulos, e já não andavam com êle.

68Por isso disse Jesus aos doze: Quereis vós outros também retirar-vos?

69E respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, para quem havemos nós de ir? Tu tens palavras da vida eterna.

70E nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo Filho de Deus.

71Disse-lhes Jesus: Não é assim que eu vos escolhi em número de doze, e contudo um de vós é o diabo?

72O que êle dizia por Judas Iscariotes, filho de Simão, porque êle era o que o havia de entregar, sendo que era um dos doze.

A tradição é unânime em atribuir o quarto Evangelho a S. João. Todos os Padres que falam dêste Evangelho proclamam como seu autor o apóstolo S. João, o discípulo a quem Jesus amava; apenas a seita dos Aloges, que negava a Divindade do Verbo, discordou desta afirmação. S. João, irmão de Tiago, era filho de Zebedeu e de Salomé, e natural de Betsaida. André, confiado na palavra do Mestre, foram com Pedro, Filipe e Natanael procurar Jesus, sendo os primeiros que ao Divino Mestre se juntaram (Jo 1, 35). Um ano mais tarde Jesus escolhe os doze Apóstolos e a lista insere S. João ao lado de Pedro (At 1, 13). S. João está porém bem averiguado que mais tarde partiu para Éfeso, onde continuou os seus trabalhos apostólicos, e onde esteve até ao fim do primeiro século. Êste Evangelho, destinado à Igreja Universal, foi dirigido duma maneira especial às Igrejas da Ásia menor e à sua metrópole, Éfeso, onde S. João tinha trabalhado, e cujas necessidades o determinaram a escrever.
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