Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 9

Dá Jesus vista a um cego de nascença. Condenam os fariseus êste milagre. Excomungam o cego. Jesus o instrui, e êle crê em Jesus.

1E passando Jesus, viu a um homem que era cego de nascença:

2E seus discípulos lhe perguntaram: Mestre, que pecado fez êste, ou fizeram seus pais, para nascer cego?

3Respondeu Jesus: Nem foi por pecado que êle fizesse, nem seus pais: Mas foi para se manifestarem nêle as obras de Deus.[1]Para se manifestarem nêle as obras de DeusJesus não nega que o pecado seja causa das doenças em geral, mas diz que neste caso particular a cegueira não foi causada pelo pecado dêle ou de seus pais, mas para dar ocasião de manifestar a glória de Deus.

4Importa que eu faça as obras daquele que me enviou, enquanto é dia: A noite vem, quando ninguém pode obrar.

5Eu entretanto que estou no mundo, sou a luz do mundo.

6Dito isto, cuspiu no chão, e fez lôdo do cuspo, e untou com o lôdo os olhos do cego,[2]Fez lôdo do cuspoJesus curou o cego pelo seu poder divino, usando êstes meios externos como instrumento para despertar a fé.

7e disse-lhe: Vai, lava-te na piscina de Siloé (que quer dizer o Enviado). Foi êle pois e lavou-se, e veio com vista.[3]Piscina de SiloéSiloé significa enviado. Esta piscina ficava a sul de Jerusalém, fora das muralhas, e recebia as suas águas do manancial de Gihon por meio de um canal subterrâneo.

8Então os seus vizinhos, e os que o tinham visto antes pedindo esmola diziam: Não é êste aquele que estava assentado e pedia esmola?

9Outros, pelo contrário: Não é, mas é outro que se parece com êle. Porém êle dizia: Eu é que sou.

10Perguntaram-lhe pois: Como te foram abertos os olhos?

11Respondeu êle: Aquêle homem que se chama Jesus fez lôdo: E untou-me os olhos, e disse-me: Vai ao tanque de Siloé, e lava-te. E fui, lavei-me, e acho-me com vista.

12E perguntaram-lhe: Onde está êle? Respondeu: Não sei.

13Então levaram o que fôra cego aos fariseus.

14E era dia de sábado, quando Jesus fez o lôdo, e lhe abriu os olhos.[4]Era dia de sábadoOs fariseus aproveitaram o facto de a cura ter sido feita em sábado para acusar Jesus de violar a lei do descanso sabático.

15Perguntaram-lhe pois de novo os fariseus, de que modo vira. E êle lhes disse: Pôs-me lôdo sôbre os olhos, e lavei-me, e estou vendo.

16Pelo que diziam alguns dos fariseus: Êsse homem, que não guarda o sábado, não é de Deus. Porém outros diziam: Como pode um homem pecador fazer êstes prodígios? E havia dissensão entre êles.[5]Como pode um homem pecadorA divisão entre os fariseus mostra que alguns tinham a consciência de que a cura era um milagre; mas a maioria preferiu condenar Jesus por causa do sábado.

17Perguntaram pois ainda ao cego: Tu que dizes daquele que te abriu os olhos? E respondeu êle: Que é um profeta.

18Mas os judeus não creram que êle fosse cego, e visse, enquanto não chamaram os pais do que vira:

19E lhes fizeram esta pergunta, dizendo: É êsse o vosso filho, que vós dizeis que nasceu cego? Pois como vê agora?

20Seus pais lhes responderam, e disseram: O que nós sabemos é que êste é nosso filho, e que êle nasceu cego:

21Mas não sabemos como êle agora vê: Ou quem foi o que lhe abriu os olhos, nós o não sabemos também: Perguntai-lho a êle mesmo: Êle idade tem, que fale êle mesmo de si.

22Isto disseram seus pais, por mêdo que tinham dos judeus: Porque já os judeus tinham conspirado em ser expulsado fora da Sinagoga todo o que confessasse que Jesus era o Cristo.

23Por isso é que seus pais responderam: Êle idade tem, perguntai-lho.

24Tornaram pois a chamar ao homem que fôra cego, e disseram-lhe: Dá glória a Deus: Nós sabemos que êsse homem é um pecador.

25Então lhes respondeu êle: Se êle é pecador, não sei: O que só sei, é que sendo eu antes cego, vejo agora.

26Perguntaram-lhe pois: Quê é o que te fez êle? Como te abriu êle os olhos?

27Respondeu-lhes: Eu já vo-lo disse, e vós já o ouvistes: Por que o quereis vós tornar a ouvir? Quereis vós porventura fazer-vos também seus discípulos?

28Sôbre isto o carregaram êles de injúrias, e lhe disseram: Discípulo dêle sejas tu: Que nós outros somos discípulos de Moisés.

29Nós sabemos que Deus falou a Moisés: Mas a êste não sabemos donde é.

30Respondeu aquele homem, e disse-lhes: Por certo que é coisa admirável, que vós não saibais donde êle é, e que êle me abrisse os olhos:

31E nós sabemos que Deus não ouve a pecadores: Mas se alguém lhe dá culto, e faz a sua vontade, a êste escuta Deus.

32Desde que há mundo, nunca se ouviu que alguém abrisse os olhos a um cego de nascença.

33Se êste não fosse de Deus, não podia êle obrar coisa alguma.

34Responderam êles, e disseram-lhe: Tu desde o ventre de tua mãe todo és pecado, e tu és o que nos queres ensinar? E lançaram-no fora.

35Ouviu Jesus dizer que o tinham lançado fora: E havendo-o encontrado disse-lhe: Tu crês no Filho de Deus?[6]Tu crês no Filho de DeusJesus procura o cego que tinha sido expulso da sinagoga, para o instruir na fé e receber a sua adoração. Êste é o coroamento espiritual da cura física.

36Respondeu êle, e disse: Quem é êle, Senhor, para eu crer nêle?

37Disse-lhe pois Jesus: Até já tu o viste, e é aquêle mesmo que fala contigo.

38Então respondeu êle: Eu creio, Senhor. E prostrando-se, o adorou.

39E Jesus lhe disse: Eu vim a êste mundo a exercitar um juízo: A fim de que os que não vêem, vejam, e os que vêem, se façam cegos.

40E ouviram alguns dos fariseus, que estavam com êle, e disseram-lhe: Logo também nós somos cegos?

41Respondeu-lhes Jesus: Se vós fôsseis cegos não teríeis culpa: Mas como vós agora mesmo dizeis: Nós vemos, fica subsistindo o vosso pecado.

A tradição é unânime em atribuir o quarto Evangelho a S. João. Todos os Padres que falam dêste Evangelho proclamam como seu autor o apóstolo S. João, o discípulo a quem Jesus amava; apenas a seita dos Aloges, que negava a Divindade do Verbo, discordou desta afirmação. S. João, irmão de Tiago, era filho de Zebedeu e de Salomé, e natural de Betsaida. André, confiado na palavra do Mestre, foram com Pedro, Filipe e Natanael procurar Jesus, sendo os primeiros que ao Divino Mestre se juntaram (Jo 1, 35). Um ano mais tarde Jesus escolhe os doze Apóstolos e a lista insere S. João ao lado de Pedro (At 1, 13). S. João está porém bem averiguado que mais tarde partiu para Éfeso, onde continuou os seus trabalhos apostólicos, e onde esteve até ao fim do primeiro século. Êste Evangelho, destinado à Igreja Universal, foi dirigido duma maneira especial às Igrejas da Ásia menor e à sua metrópole, Éfeso, onde S. João tinha trabalhado, e cujas necessidades o determinaram a escrever.
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