Capítulo 9
1E passando Jesus, viu a um homem que era cego de nascença:
2E seus discípulos lhe perguntaram: Mestre, que pecado fez êste, ou fizeram seus pais, para nascer cego?
3Respondeu Jesus: Nem foi por pecado que êle fizesse, nem seus pais: Mas foi para se manifestarem nêle as obras de Deus.[1]Para se manifestarem nêle as obras de Deus — Jesus não nega que o pecado seja causa das doenças em geral, mas diz que neste caso particular a cegueira não foi causada pelo pecado dêle ou de seus pais, mas para dar ocasião de manifestar a glória de Deus.
4Importa que eu faça as obras daquele que me enviou, enquanto é dia: A noite vem, quando ninguém pode obrar.
5Eu entretanto que estou no mundo, sou a luz do mundo.
6Dito isto, cuspiu no chão, e fez lôdo do cuspo, e untou com o lôdo os olhos do cego,[2]Fez lôdo do cuspo — Jesus curou o cego pelo seu poder divino, usando êstes meios externos como instrumento para despertar a fé.
7e disse-lhe: Vai, lava-te na piscina de Siloé (que quer dizer o Enviado). Foi êle pois e lavou-se, e veio com vista.[3]Piscina de Siloé — Siloé significa enviado. Esta piscina ficava a sul de Jerusalém, fora das muralhas, e recebia as suas águas do manancial de Gihon por meio de um canal subterrâneo.
8Então os seus vizinhos, e os que o tinham visto antes pedindo esmola diziam: Não é êste aquele que estava assentado e pedia esmola?
9Outros, pelo contrário: Não é, mas é outro que se parece com êle. Porém êle dizia: Eu é que sou.
10Perguntaram-lhe pois: Como te foram abertos os olhos?
11Respondeu êle: Aquêle homem que se chama Jesus fez lôdo: E untou-me os olhos, e disse-me: Vai ao tanque de Siloé, e lava-te. E fui, lavei-me, e acho-me com vista.
12E perguntaram-lhe: Onde está êle? Respondeu: Não sei.
13Então levaram o que fôra cego aos fariseus.
14E era dia de sábado, quando Jesus fez o lôdo, e lhe abriu os olhos.[4]Era dia de sábado — Os fariseus aproveitaram o facto de a cura ter sido feita em sábado para acusar Jesus de violar a lei do descanso sabático.
15Perguntaram-lhe pois de novo os fariseus, de que modo vira. E êle lhes disse: Pôs-me lôdo sôbre os olhos, e lavei-me, e estou vendo.
16Pelo que diziam alguns dos fariseus: Êsse homem, que não guarda o sábado, não é de Deus. Porém outros diziam: Como pode um homem pecador fazer êstes prodígios? E havia dissensão entre êles.[5]Como pode um homem pecador — A divisão entre os fariseus mostra que alguns tinham a consciência de que a cura era um milagre; mas a maioria preferiu condenar Jesus por causa do sábado.
17Perguntaram pois ainda ao cego: Tu que dizes daquele que te abriu os olhos? E respondeu êle: Que é um profeta.
18Mas os judeus não creram que êle fosse cego, e visse, enquanto não chamaram os pais do que vira:
19E lhes fizeram esta pergunta, dizendo: É êsse o vosso filho, que vós dizeis que nasceu cego? Pois como vê agora?
20Seus pais lhes responderam, e disseram: O que nós sabemos é que êste é nosso filho, e que êle nasceu cego:
21Mas não sabemos como êle agora vê: Ou quem foi o que lhe abriu os olhos, nós o não sabemos também: Perguntai-lho a êle mesmo: Êle idade tem, que fale êle mesmo de si.
22Isto disseram seus pais, por mêdo que tinham dos judeus: Porque já os judeus tinham conspirado em ser expulsado fora da Sinagoga todo o que confessasse que Jesus era o Cristo.
23Por isso é que seus pais responderam: Êle idade tem, perguntai-lho.
24Tornaram pois a chamar ao homem que fôra cego, e disseram-lhe: Dá glória a Deus: Nós sabemos que êsse homem é um pecador.
25Então lhes respondeu êle: Se êle é pecador, não sei: O que só sei, é que sendo eu antes cego, vejo agora.
26Perguntaram-lhe pois: Quê é o que te fez êle? Como te abriu êle os olhos?
27Respondeu-lhes: Eu já vo-lo disse, e vós já o ouvistes: Por que o quereis vós tornar a ouvir? Quereis vós porventura fazer-vos também seus discípulos?
28Sôbre isto o carregaram êles de injúrias, e lhe disseram: Discípulo dêle sejas tu: Que nós outros somos discípulos de Moisés.
29Nós sabemos que Deus falou a Moisés: Mas a êste não sabemos donde é.
30Respondeu aquele homem, e disse-lhes: Por certo que é coisa admirável, que vós não saibais donde êle é, e que êle me abrisse os olhos:
31E nós sabemos que Deus não ouve a pecadores: Mas se alguém lhe dá culto, e faz a sua vontade, a êste escuta Deus.
32Desde que há mundo, nunca se ouviu que alguém abrisse os olhos a um cego de nascença.
33Se êste não fosse de Deus, não podia êle obrar coisa alguma.
34Responderam êles, e disseram-lhe: Tu desde o ventre de tua mãe todo és pecado, e tu és o que nos queres ensinar? E lançaram-no fora.
35Ouviu Jesus dizer que o tinham lançado fora: E havendo-o encontrado disse-lhe: Tu crês no Filho de Deus?[6]Tu crês no Filho de Deus — Jesus procura o cego que tinha sido expulso da sinagoga, para o instruir na fé e receber a sua adoração. Êste é o coroamento espiritual da cura física.
36Respondeu êle, e disse: Quem é êle, Senhor, para eu crer nêle?
37Disse-lhe pois Jesus: Até já tu o viste, e é aquêle mesmo que fala contigo.
38Então respondeu êle: Eu creio, Senhor. E prostrando-se, o adorou.
39E Jesus lhe disse: Eu vim a êste mundo a exercitar um juízo: A fim de que os que não vêem, vejam, e os que vêem, se façam cegos.
40E ouviram alguns dos fariseus, que estavam com êle, e disseram-lhe: Logo também nós somos cegos?
41Respondeu-lhes Jesus: Se vós fôsseis cegos não teríeis culpa: Mas como vós agora mesmo dizeis: Nós vemos, fica subsistindo o vosso pecado.