Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 7

Vai Jesus secretamente assistir à festa dos Tabernáculos. Admiram os judeus a sua sabedoria. Justifica êle a cura que havia feito em dia de sábado. Disputa dos judeus sôbre se Jesus era o Messias. Êle promete o Espírito Santo aos que creem nêle. Defende-o Nicodemos.

1E depois disto andava Jesus por Galiléia, porque não queria andar por Judéia: Visto que os judeus o queriam matar.

2Estava porém a chegar a festa dos judeus, chamada dos Tabernáculos.

3Disseram-lhe pois seus irmãos: Sai daqui, e vai para a Judéia, para que também teus discípulos vejam as obras que fazes.[1]Seus irmãosSeus parentes. Cfr. Mt 12, 46.

4Porque ninguém, que deseja ser conhecido em público, obra coisa alguma em secreto: Já que fazes estas coisas, descobre-te ao mundo.

5Porque nem ainda seus irmãos criam nêle.

6Disse-lhe pois Jesus: Ainda não é chegado o meu tempo; mas o vosso tempo sempre está pronto.

7O mundo não vos pode aborrecer: Mas êle me aborrece a mim: Porque eu dou testemunho dêle, que são más as suas obras.

8Vós outros subi a esta festa, que eu todavia não subo a esta festa, porque não é ainda cumprido o meu tempo.[2]Não subo a esta festaNão subo agora, publicamente e com solenidade, como vós quereis: irá depois em secreto.

9Tendo dito isto, deixou-se ficar êle mesmo em Galiléia.

10Mas quando seus irmãos já tinham subido, então subiu êle também à festa, não descobertamente, mas como em segredo.

11Buscavam-no pois os judeus no dia da festa, e diziam: Onde está êle?

12E era grande a murmuração que dêle havia no povo. Porque uns diziam: Êle é bom. Outros porém diziam: Não é, antes engana o povo.

13Ninguém contudo ousava falar dêle em público, por mêdo dos judeus.

14Ora, estando já os dias da festa no meio, entrou Jesus no Templo, e pôs-se a ensinar.

15E admiravam-se os judeus, dizendo: Como sabe êste letras, não as tendo estudado?

16Respondeu-lhes Jesus, e disse: A minha doutrina não é minha, mas é daquele que me enviou.

17Se alguém quiser fazer a vontade de Deus: Reconhecerá se esta doutrina é de Deus, ou se eu falo de mim mesmo.[3]Se alguém quiser fazer a vontade de DeusO que pratica a virtude e tem o coração bem disposto reconhecerá que a doutrina de Jesus vem de Deus.

18O que fala de si mesmo, busca a própria glória: Mas o que busca a glória daquele que o enviou, êsse é verdadeiro, e não há nêle injustiça.

19Não é assim que Moisés vos deu a Lei, e contudo nenhum de vós cumpre com a Lei?

20Por que me procurais vós matar? Respondeu o povo, e disse: Tu estás possesso do demônio; quem é que procura matar-te?

21Respondeu Jesus, e disse-lhes: Eu fiz uma só obra, e todos vós estais por isso maravilhados:

22Vós contudo, porque Moisés vos ordenou a circuncisão (Se bem que ela não vem de Moisés, mas dos patriarcas) no sábado mesmo circuncidais um homem.

23Se por não se violar a Lei de Moisés se circuncida o homem em dia de sábado; indignai-vos vós contra mim, de que eu em dia de sábado curasse a todo um homem?[4]Curasse a todo um homemCurei um homem todo inteiro, no corpo e na alma; e vós indignai-vos, quando circuncidais em sábado, cortando apenas uma parte do corpo.

24Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça.

25Então alguns de Jerusalém diziam: Não é êste o tal a quem procuram matar?

26E contudo ei-lo aí está falando em público, e não lhe dizem coisa alguma. Será que tenham verdadeiramente reconhecido os senadores que êste é o Cristo?

27Mas nós sabemos donde êste é: E do Cristo, quando vier, ninguém saberá donde êle seja.

28E Jesus levantava a voz no Templo ensinando, e dizendo: Vós outros não só me conheceis, mas sabeis donde eu sou: E eu não vim de mim mesmo, mas é verdadeiro o que me enviou, a quem vós não conheceis:[5]Vós outros não só me conheceisJesus fala com ironia: Vós dizeis que me conheceis, que sabeis donde sou; mas não conheceis a Deus que me enviou.

29Eu sou quem o conheço: Porque dêle sou, e êle me enviou.

30Procuravam pois os judeus prendê-lo: Mas ninguém lhe lançou as mãos, porque não era ainda chegada a sua hora.[6]Não era ainda chegada a sua horaA hora determinada pela Providência para a sua Paixão e Morte.

31E muitos do povo creram nêle, e diziam: Quando vier o Cristo, fará êle mais prodígios que os que êste faz?

32Ouviram os fariseus êste murmúrio que dêle havia no povo: E os príncipes dos sacerdotes e os fariseus enviaram quadrilheiros para o prenderem.

33Mas Jesus lhes disse: Ainda por um pouco de tempo estou convosco: E depois vou para aquêle que me enviou.

34Vós me buscareis, e não me achareis: E onde eu estou, vós não podeis vir.

35Disseram logo entre si os judeus: Para onde é que êste há de ir, e que o não possamos achar? Irá êle porventura ter com os que estão dispersos entre as nações, e para instruir os gentios?

36Que quer dizer esta palavra, que êle nos disse: Vós me buscareis, e não me achareis: E onde eu estou, vós não podeis vir?

37E no último dia da festa que era o mais solene, estava ali Jesus, pôsto em pé, e levantava a voz, dizendo: Se alguém tem sêde, venha a mim, e beba.[7]Se alguém tem sêdeNo último dia da festa dos Tabernáculos, os sacerdotes traziam água do tanque de Siloé e derramavam-na sôbre o altar. Jesus alude a esta cerimônia para prometer a água viva do Espírito Santo.

38O que crê em mim, como diz a Escritura, do seu ventre correrão rios de água viva.

39Isto porém dizia êle, falando do Espírito, que haviam de receber os que cressem nêle: Porque ainda o Espírito não fôra dado, por não ter sido ainda glorificado Jesus.[8]Ainda o Espírito não fôra dadoAinda o Espírito Santo não tinha sido dado com aquela abundância e plenitude com que o foi depois da glorificação de Jesus Cristo, no dia de Pentecostes.

40Entretanto alguns daquele povo, tendo ouvido estas suas palavras, diziam: Êste seguramente é profeta.

41Outros diziam: Êste é o Cristo. Porém diziam alguns: Pois que de Galiléia é que há de vir o Cristo?

42Não diz a Escritura: Que o Cristo há de vir da geração de Davi, e da vilota de Belém, onde assistia Davi?[9]Da geração de DaviCfr. Miq 5, 2. Os judeus não sabiam que Jesus tinha nascido em Belém.

43Assim que havia esta dissensão entre o povo acêrca dêle.

44E alguns dêles o queriam prender: Mas nenhum lançou as mãos sôbre êle.

45Voltaram pois os quadrilheiros para os príncipes dos sacerdotes e fariseus: E êstes lhes perguntaram: Por que o não trouxestes vós prêso?

46Responderam os quadrilheiros: Nunca homem algum falou como êste homem.

47Replicaram-lhes então os fariseus: Dar-se-á caso que sejais vós também dos enganados?[10]Também vós sejais dos enganadosOs fariseus, cheios de orgulho, desprezavam o povo simples e os próprios guardas do Templo que se tinham impressionado com a palavra de Jesus.

48Houve porventura algum dentre os senadores, ou dos fariseus, que crêsse nêle?

49Porque enquanto a esta plebe, que não sabe o que é lei, êles são uns homens amaldiçoados.

50Disse-lhes Nicodemos que era um dêles, e o mesmo que viera de noite buscar a Jesus:

51Condena porventura a nossa lei a algum homem antes de o ouvir, e antes de se informar das suas ações?

52Responderam êles, e disseram-lhe: És tu também galileu? Examina as Escrituras, e verás que da Galiléia não se levanta profeta.[11]Da Galiléia não se levanta profetaObjeção falsa, pois Jonas era de Gat-Héfer na Galiléia; Naum, de Elcesai; e talvez outros. Além disso, a Escritura não diz que da Galiléia não viria profeta algum.

53E tornaram-se cada um para sua casa.

A tradição é unânime em atribuir o quarto Evangelho a S. João. Todos os Padres que falam dêste Evangelho proclamam como seu autor o apóstolo S. João, o discípulo a quem Jesus amava; apenas a seita dos Aloges, que negava a Divindade do Verbo, discordou desta afirmação. S. João, irmão de Tiago, era filho de Zebedeu e de Salomé, e natural de Betsaida. André, confiado na palavra do Mestre, foram com Pedro, Filipe e Natanael procurar Jesus, sendo os primeiros que ao Divino Mestre se juntaram (Jo 1, 35). Um ano mais tarde Jesus escolhe os doze Apóstolos e a lista insere S. João ao lado de Pedro (At 1, 13). S. João está porém bem averiguado que mais tarde partiu para Éfeso, onde continuou os seus trabalhos apostólicos, e onde esteve até ao fim do primeiro século. Êste Evangelho, destinado à Igreja Universal, foi dirigido duma maneira especial às Igrejas da Ásia menor e à sua metrópole, Éfeso, onde S. João tinha trabalhado, e cujas necessidades o determinaram a escrever.
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