Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 16

Previne Jesus Cristo os Apóstolos para as perseguições futuras. Diz que lhes é conveniente a sua ausência, para que êles recebam o Espírito Santo. O Espírito Santo ensinará aos Apóstolos tôdas as verdades, e glorificará a Jesus Cristo. O Pai concede tudo o que se lhe pede em nome do Filho. Prediz este a fugida dos Apóstolos.

1Eu disse-vos estas coisas, para que vós vos não escandalizeis.

2Êles vos lançarão fora das Sinagogas: E está a chegar o tempo em que todo o que vos matar, julgará que nisso faz serviço a Deus:

3E êles vos tratarão assim, porque não conhecem ao Pai, nem a mim.

4Ora eu disse-vos estas coisas: Para que quando chegar êste tempo, vos lembreis vós de que eu vo-las disse.

5Não vo-las disse porém desde o princípio, porque estava convosco: E agora vou eu para aquele que me enviou, e nenhum de vós mo pergunta: para onde vais?

6Antes porque eu vos disse estas coisas, se apoderou do vosso coração a tristeza.

7Mas eu digo-vos a verdade, a vós convém-vos que eu vá: Porque se eu não fôr, não virá a vós o Consolador: Mas se fôr, enviar-vo-lo-ei.

8E êle quando vier, argüirá o mundo do pecado, e da justiça, e do juízo:

9Sim do pecado, porque não creram em mim:

10E da justiça, porque eu vou para o Pai, e vós não me vereis mais.

11Do juízo enfim, porque o príncipe dêste mundo já está julgado.

12Eu tenho ainda muitas coisas que vos dizer, mas vós não as podeis suportar agora.

13Quando vier porém aquele Espírito de verdade, êle vos ensinará tôdas as verdades: Porque êle não falará de si mesmo: Mas dirá tudo o que tiver ouvido, e anunciar-vos-á as coisas que estão para vir.[1]Êle vos ensinaráJesus Cristo anuncia que é do Espírito Santo que devemos aprender tôdas as verdades; em outro lado afirma que estará com a Igreja, até à consumação dos séculos; na Igreja, pois, há a assistência perene dum Espírito que nos ensina tôdas as verdades, ou o que vale o mesmo: a Igreja é a depositária infalível de todos êsses ensinamentos.

14Êle me glorificará: Porque há de receber do que é meu, e vo-lo-á de anunciar.

15Tôdas quantas coisas tem o Pai são minhas; por isso é que eu vos disse, que êle há de receber do que é meu, e vo-lo-á de anunciar.

16Um pouco, e já me não vereis: E outra vez um pouco, e ver-me-eis: Porque vou para o Pai.

17Disseram então alguns de seus discípulos uns para os outros: Que vem a ser isto, que êle nos diz: Um pouco, e já me não vereis: E outra vez um pouco, e ver-me-eis, e porque eu vou para o Pai?

18E diziam: Que vem a ser isto que êle nos diz: Um pouco? Nós não sabemos o que êle vem a dizer.

19E entendendo Jesus que lho queriam perguntar, disse-lhes: Vós perguntais uns aos outros que é o que vos quis eu significar, quando disse: Um pouco, e já me não vereis, e outra vez um pouco, e ver-me-eis.

20Em verdade, em verdade vos digo: Que vós haveis de chorar, e gemer, e que o mundo se há de alegrar: E que vós haveis de estar tristes, mas que a vossa tristeza se há de converter em gôzo.

21Quando uma mulher pare, está em tristeza, porque é chegada a sua hora: Mas depois que ela pariu um menino, já se não lembra do apêrto, pelo gôzo que tem: Por haver nascido ao mundo um homem.

22Assim também vós outros sem dúvida estais agora tristes, mas eu hei de ver-vos de novo, e o vosso coração ficará cheio de gôzo: E o vosso gôzo ninguém vo-lo tirará.

23E naquele dia nada mais me perguntareis. Em verdade, em verdade vos digo: Se vós pedirdes a meu Pai alguma coisa em meu nome, êle vo-la-á de dar.[2]Se vós pedirdesPedir em nome de Jesus Cristo é pedir os bens eternos, que nos mereceu com a sua morte; é pedir com uma inteira confiança só nos seus merecimentos, e persuadidos pela fé, de que Deus não recebe favoravelmente as nossas adorações, os nossos rogos, e as nossas ações de graças, senão quando lhe são apresentadas por Jesus Cristo, nosso único Mediador.

24Vós até agora não pedistes nada em meu nome. Pedi, e recebereis, para que o vosso gôzo seja completo.

25Eu tenho-vos dito estas coisas debaixo de parábolas. Está chegado o tempo em que eu vos não hei de falar já por parábolas, mas abertamente vos falarei do Pai.

26Naquele dia pedireis vós em meu nome: E eu não vos digo que hei de rogar ao Pai por vós outros:

27Porque o mesmo Pai vos ama, porque vós me amastes, e crestes que eu saí de Deus.

28Eu saí do Pai, e vim ao mundo: Outra vez deixo o mundo, e torno para o Pai.

29Disseram-lhe seus discípulos: Eis aí está que tu agora é que nos falas abertamente, e não usas de parábola nenhuma:

30Agora conhecemos nós que tu sabes tudo, e que a ti não é necessário fazer-te ninguém perguntas: Nisto cremos que saíste de Deus.

31Respondeu-lhes Jesus: Vós credes agora?

32Eis aí vem, e já é chegada a hora em que sejais espalhados, cada um para sua parte, e que me deixeis só: Mas eu não estou só, porque o Pai está comigo.

33Eu tenho-vos dito estas coisas, para que vós tenhais paz em mim. Vós haveis de ter aflições no mundo: Mas tende confiança, eu venci o mundo.

A tradição é unânime em atribuir o quarto Evangelho a S. João. Todos os Padres que falam dêste Evangelho proclamam como seu autor o apóstolo S. João, o discípulo a quem Jesus amava; apenas a seita dos Aloges, que negava a Divindade do Verbo, discordou desta afirmação. S. João, irmão de Tiago, era filho de Zebedeu e de Salomé, e natural de Betsaida. André, confiado na palavra do Mestre, foram com Pedro, Filipe e Natanael procurar Jesus, sendo os primeiros que ao Divino Mestre se juntaram (Jo 1, 35). Um ano mais tarde Jesus escolhe os doze Apóstolos e a lista insere S. João ao lado de Pedro (At 1, 13). S. João está porém bem averiguado que mais tarde partiu para Éfeso, onde continuou os seus trabalhos apostólicos, e onde esteve até ao fim do primeiro século. Êste Evangelho, destinado à Igreja Universal, foi dirigido duma maneira especial às Igrejas da Ásia menor e à sua metrópole, Éfeso, onde S. João tinha trabalhado, e cujas necessidades o determinaram a escrever.
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