Capítulo 5
1Depois disto era dia duma festa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém.[1]Era dia duma festa — Da Páscoa. Santo Irineu, S. João Crisóstomo, S. Cirilo, e outros, querem que fosse a festa de Pentecostes.
2Ora, em Jerusalém está a piscina probática, que em hebreu se chama Betsaida, a qual tem cinco alpendres.[2]Piscina probática — Chamava-se assim, porque neste tanque, ou nesta piscina, se costumavam purificar as ovelhas e cordeiros que haviam de servir nos sacrifícios. Porém o texto grego tem aqui com alguma variedade: Havia em Jerusalém, à porta das ovelhas, uma piscina chamada Betesda. E adverte Sacy, que Betesda significa casa de misericórdia. Ficava à porta da atual igreja de Santa Ana, ao pé da porta de S. Estêvão, na parte nordeste de Jerusalém; hoje chamam-lhe Birket Israil. Alimentava-a a água do aqueduto de Belém.
3Neste jazia uma grande multidão de enfermos, de cegos, de coxos, dos que tinham os membros ressecados, todos os quais esperavam que se movesse a água.
4Porque um anjo do Senhor descia em certo tempo ao tanque: E movia-se a água. E o primeiro que entrava no tanque depois de se mover a água, ficava curado de qualquer doença que tivesse.
5Estava também ali um homem, que havia trinta e oito anos que se achava enfermo.
6Jesus, que o viu deitado, e que soube que tinha já muito tempo de enfermo, disse-lhe: Queres ficar são?
7O enfermo lhe respondeu: Senhor, não tenho homem que me meta no tanque, quando a água for movida: Porque enquanto eu vou, outro entra primeiro do que eu.[3]Senhor, não tenho homem — Como se dissera: Senhor, depois de tantos anos de enfermidade, me perguntas se quero sarar? Ah! Senhor! não desejo outra coisa, mas não há um homem que se mova à piedade, vendo-me assim, que me ajude a procurar a minha saude, já que eu não posso mover-me: ajuda-me tu, se podes. Com razão, diz Santo Agostinho, se queixa este paralítico, de que não tem homem que o socorra, porque para isto lhe era absolutamente necessário um homem-Deus. — Pereira.
8Disse-lhe Jesus: Levanta-te, toma a tua cama, e anda.
9E no mesmo instante ficou são aquele homem: E tomou a sua cama, e começou a andar. E era aquele dia um dia de sábado.
10Pelo que diziam os judeus ao que havia sido curado: Hoje é sábado, não te é lícito levar a tua cama.
11Respondeu-lhes êle: Aquele que me curou, êsse mesmo me disse: Toma a tua cama, e anda.
12Perguntaram-lhe então: Quem é êsse homem que te disse: Toma a tua cama, e anda?
13Porém o que havia sido curado, não sabia quem êle era: Porque Jesus se havia retirado do muito povo que estava naquele lugar.
14Depois achou-o Jesus no Templo, e disse-lhe: Olha que já estás são: Não peques mais, para que te não suceda alguma coisa pior.[4]Para que te não suceda — Sem dúvida foi dar graças a Deus pela saúde recebida. O Senhor nestas palavras lhe ensinou três verdades: a primeira que havia padecido aquela larga enfermidade pelos seus pecados; a segunda que é verdadeiro o que se diz dos castigos da outra vida; a terceira, que as penas do inferno são infinitas na sua duração. — S. João Crisóstomo.
15Foi aquele homem declarar aos judeus que Jesus era o que o havia curado.
16Por esta causa perseguiam os judeus a Jesus, por êle fazer estas coisas em dia de sábado.
17Mas Jesus lhes respondeu: Meu Pai até agora não cessa de obrar, e eu obro também incessantemente.
18Por isso pois procuravam os judeus com maior ânsia matá-lo: Porque não sòmente quebrantava o sábado, mas também dizia que Deus era seu Pai, fazendo-se igual a Deus. E assim Jesus lhes respondeu, e lhes disse:[5]Fazendo-se igual a Deus — Entenderam logo os judeus, o que não querem entender os socinianos, isto é, que Jesus Cristo dizia de si, que era Deus verdadeiro, filho de Deus verdadeiro.
19Em verdade, em verdade vos digo: Que o Filho não pode de si mesmo fazer coisa alguma, senão o que vir fazer ao Pai: Porque tudo o que fizer o Pai, o faz também semelhantemente o Filho.
20Porque o Pai ama ao Filho, e mostra-lhe tudo o que êle faz: E maiores obras do que estas lhe mostrará, até o ponto de vós ficardes admirados.
21Porque assim como o Pai ressuscita os mortos, e lhes dá vida: Assim também dá o Filho vida àqueles que quer.
22Porque o Pai a ninguém julga: Mas todo o juízo deu ao Filho.
23A fim de que todos honrem ao Filho, bem como honram ao Pai: O que não honrar ao Filho, não honra ao Pai, que o enviou.
24Em verdade, em verdade vos digo, que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não incorre na condenação, mas passou da morte para a vida.
25Em verdade, em verdade vos digo, que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus: E os que a ouvirem, viverão.
26Porque assim como o Pai tem a vida em si mesmo, assim também deu êle ao Filho ter vida em si mesmo.
27E lhe deu o poder de exercitar o juízo, porque é Filho do homem.
28Não vos maravilheis disso, porque vem a hora em que todos os que se acham nos sepulcros, ouvirão a voz do Filho de Deus:
29E os que obraram bem, sairão para a ressurreição da vida: Mas os que obraram mal, sairão ressuscitados para a condenação.
30Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma. Assim como oiço, julgo: E o meu juízo é justo: Porque não busco a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou.
31Se eu dou testemunho de mim mesmo, não é verdadeiro o meu testemunho.
32Outro é o que dá testemunho de mim: E eu sei que é verdadeiro o testemunho que êle dá de mim.
33Vós enviastes mensageiros a João: E êle deu testemunho da verdade.
34Eu porém não é do homem que recebo o testemunho: Mas digo-vos estas coisas, a fim de que sejais salvos.
35Êle era uma lâmpada, que ardia e alumiava. E vós por algum tempo quisestes alegrar-vos com a sua luz.
36Mas eu tenho maior testemunho, que o de João. Porque as obras que meu Pai me deu que cumprisse: As mesmas obras que eu faço, dão por mim testemunho de que meu Pai é quem me enviou:
37E meu Pai, que me enviou, êsse é o que deu testemunho de mim: Vós nunca ouvistes a sua voz, nem vistes quem o representasse:
38E não tendes em vós permanente a sua palavra, porque não credes no que êle enviou.
39Examinai as Escrituras, pois julgais ter nelas a vida eterna: E elas mesmas são as que dão testemunho de mim:[6]Examinai as Escrituras — Ainda que tanto no grego, como no latim, se pode o verbo entender ou no indicativo ou no imperativo, eu pus o imperativo, seguindo a S. João Crisóstomo, Santo Agostinho, Teofilato, e outros muitos intérpretes, como também fizeram as versões de Sacy, Huré, Le Gros, e Mensangui. A de Mons aponta um e outro sentido. Jesus Cristo dirigia-se com estas palavras aos fariseus que não procuravam entender as Escrituras nas profecias Messiânicas, não querendo reconhecer Jesus Cristo como Messias, e que era o princípio de toda a vida, e como êle mesmo disse Ego sum vita.
40Mas vós não quereis vir a mim, para terdes vida.
41Eu não recebo dos homens a minha glória.
42Mas bem vos conheço, que não tendes em vós a dileção de Deus.
43Eu vim em nome de meu Pai, e vós não me recebeis: Se vier outro em seu próprio nome, haveis de recebê-lo.[7]Se vier outro — Isto é o Anticristo. — Pereira.
44Como podeis crer vós outros, que recebeis a glória uns dos outros: E que não buscais a glória, que vem só de Deus?
45Não julgueis que eu vos hei de acusar diante de meu Pai: O mesmo Moisés, em que vós tendes as esperanças, é o que vos acusa.[8]O mesmo Moisés — Os judeus punham tôda a sua glória em se chamarem discípulos de Moisés, e assim diziam: nós outros sabemos que Deus falou a Moisés, mas dêste não sabemos donde é; Jo 9, 28. 29. Pelo que lhes diz o Senhor que êste mesmo Moisés, que para êles era de tanta autoridade e veneração, seria o que os acusaria diante de seu Pai, porque não sômente falou de Jesus Cristo em muitos lugares dos seus Escritos, mas que não teve presente a outro em todos êles. — Santo Agostinho.
46Porque se vós crêsseis a Moisés, certamente acreditaríeis também em mim: Porque êle escreveu de mim.[9]Certamente acreditaríeis — Ainda que a Vulgata diz crederetis forsitan, já advertiram Titelman, Éstio e outros, que a partícula grega correspondente ao forsitan da Vulgata é afirmativa e não dubitativa.
47Porém se vós não dais crédito aos seus escritos; como dareis crédito às minhas palavras?