Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 4

Jesus fatigado do caminho descança junto de uma fonte. Vem ali buscar água uma mulher samaritana. Jesus lhe fala da água viva, e lhe descobre tudo o que ela tinha feito. Propõe-lhe a mulher a dificuldade sôbre a religião que havia entre os samaritanos e os judeus. Jesus lha solta, e diz que êle é o Messias. Qual seja a sua comida, qual a sua seara. Crêem nele muitos samaritanos. Cura o filho de um senhor da côrte.

1E quando Jesus entendeu que os fariseus tinham ouvido que êle Jesus fazia mais discípulos, e batizava mais pessoas do que João,

2(sendo assim que não era Jesus o que batizava, mas seus discípulos),

3deixou a Judéia, e foi outra vez para Galiléia:[1]Deixou a JudéiaPara não irritar com a sua presença o ódio que os judeus lhe tinham; e para com o seu exemplo ensinar a seus discípulos, haver certas ocasiões em que a caridade, a prudência, e o bem da Igreja pedem, que êles se subtraiam ao furor dos que a perseguem. — Sacy.

4E importava que êle passasse por Samaria.

5Veio pois a uma cidade de Samaria, que se chamava Sicar, junto da herdade que tinha dado Jacó a seu filho José.[2]SicarÉ, segundo uns, Siquem, hoje Naplúsia, a três quilômetros do poço de Jacó; segundo outros Sicar era uma aldeia situada entre o poço e Naplúsia, talvez o atual Askar.

6Ora, ali havia um poço, chamado a fonte de Jacó. Fatigado pois do caminho, estava Jesus assim sentado sôbre a borda do poço. Era isto quase à hora sexta.[3]Hora sextaCêrca do meio-dia.

7Veio uma mulher de Samaria a tirar água. Jesus lhe disse: Dá-me de beber.

8(Porque seus discípulos tinham ido à cidade a comprar mantimento).

9Mas aquela mulher samaritana lhe disse: Como sendo tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana? Porque os judeus não se comunicam com os samaritanos.

10Respondeu Jesus, e disse-lhe: Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber: Tu certamente lhe pediras, e êle te daria a ti da água viva.[4]Tu certamente lhe pedirasSendo que a Vulgata tem aqui, tu forsitan petisses; seguindo a versão de Mons e a de Huré, traduzi: tu certamente pediras. Porque, como neste lugar advertem Sacy e Calmet, a partícula grega a que corresponde o forsitan da Vulgata, é uma partícula das que chamam expletivas, que afirma e não duvida. Sôbre o mais veja-se o que dissemos em Mt 11, 23.

11Disse-lhe a mulher: Senhor, tu não tens com que a tires, e o poço é fundo; onde tens logo essa água viva?

12E's tu porventura maior do que nosso pai Jacó, que foi o que nos deu êste poço, do qual também êle mesmo bebeu, e seus filhos, e seus gados?

13Respondeu Jesus, e disse-lhe: Todo aquele que bebe desta água tornará a ter sêde; mas o que beber da água que eu lhe hei de dar, nunca jamais terá sêde.

14Mas a água que eu lhe der virá a ser nele uma fonte dágua, que salte para a vida eterna.

15Disse-lhe a mulher: Senhor, dá-me dessa água para eu não ter mais sêde, nem vir aqui tirá-la.

16Disse-lhe Jesus: Vai, chama a teu marido, e vem cá.

17Respondeu a mulher, e disse: Eu não tenho marido. Jesus lhe disse: Bem disseste, não tenho marido.

18Porque cinco maridos tiveste, e o que agora tens não é teu marido: Isto disseste com verdade.

19Disse-lhe a mulher: Senhor, pelo que vejo, tu és profeta.

20Nossos pais adoraram sôbre êste monte, e vós outros dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar.[5]Sôbre êste monteO monte de Garizim, onde os samaritanos tinham erguido um templo cismático, perto de Siquém, com autorização do rei persa Dario Noto, o qual foi destruído por João Hircano. No tempo de Cristo os samaritanos ainda tinham um altar sôbre a montanha.

21Disse-lhe Jesus: Mulher, crê-me, que é chegada a hora em que vós não adorareis o Pai, nem neste monte, nem em Jerusalém.[6]A horaIsto é, o tempo da promulgação da lei evangélica. Nem em Jerusalém — Não se limitará a lugares nem tão pouco a esta ou aquela nação, o culto do verdadeiro Deus; porque a fé da nova aliança se estenderá por tôda a redondeza da terra, e abolidas as cerimônias e sacrifícios dos judeus, será Deus adorado mais perfeitamente do que até aqui o tem sido em Jerusalém.

22Vós adorais o que não conheceis: Nós adoramos o que conhecemos, porque dos judeus é que vem a salvação.

23Mas a hora vem, e agora é, quando os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade. Porque tais quer também o Pai que sejam os que o adorem.[7]Em espírito e verdadeNão porque Deus reprove as cerimônias externas, senão porque quer que as cerimônias externas sejam acompanhadas do culto interno do coração. E que a adoração não se limite ao Templo de Jerusalém, mas que se estenda a tôdas as partes do mundo. — Sacy.

24Deus é espírito, e em espírito e verdade é que o devem adorar os que o adoram.

25Disse-lhe a mulher: Eu sei que está a chegar o Messias (o que se chama o Cristo); quando pois êle vier então nos anunciará tôdas as coisas.

26Disse-lhe Jesus: Eu sou, que falo contigo.

27E nisto vieram seus discípulos: Os quais se maravilharam de que êle estivesse falando com uma mulher. Nenhum contudo lhe disse: Que é o que perguntas, ou que falas com ela?[8]De que êle estivesse falandoSinal de que êle não costumava falar com mulheres, e de que lhes aconselhava que evitassem semelhantes colóquios. — Amelote. Nenhum contudo lhe disse — Porque os deteve a santidade e majestade, que nele divisavam, disse o antigo escritor do tratado De Singularitate Clericorum, entre as obras de S. Cipriano. — Amelote.

28A mulher pois deixou o seu cântaro, e foi-se à cidade, e disse àqueles homens:

29Vinde, e vêde um homem, que me disse tudo o que eu tenho feito; será êste porventura o Cristo?

30Saíram pois da cidade, e vieram ter com êle.

31Entretanto seus discípulos o rogavam, dizendo: Mestre, come.

32Mas êle lhes respondeu: Eu para comer tenho um manjar, que vós não sabeis.

33Pelo que diziam os discípulos uns para os outros: Será caso que alguém lhe trouxesse de comer?

34Disse-lhes Jesus: A minha comida é fazer eu a vontade daquele que me enviou, para cumprir a sua obra.

35Não dizeis vós, que ainda há quatro meses até à ceifa? Mas eu digo-vos: Levantai os vossos olhos, e olhai para essas terras, que já estão branquejando próximas à ceifa.[9]Quatro mesesComo na Palestina a ceifa começa em abril, segue-se que os fatos narrados neste capítulo viram lugar pelo mês de dezembro.

36E o que sega, recebe galardão, e ajunta fruto para a vida eterna: Para que assim o que semeia, como o que sega, juntamente se regozijem.

37Porque nisto é verdadeiro o ditado: Que um é o que semeia, e outro o que sega.

38Eu enviei-vos a segar o que vós não trabalhastes: Outros foram os que trabalharam, e vós entrastes nos seus trabalhos.

39Ora, daquela cidade foram muitos os samaritanos que creram em Jesus, por causa da palavra da mulher, que dava êste testemunho: Êle me disse tudo quanto eu tenho feito.

40Vindo pois ter com êle os samaritanos, pediram-lhe que se deixasse ficar ali com êles. E êle ficou ali dois dias.

41E foram então muitos mais os que creram nele, pelo ouvirem falar.

42De sorte que diziam à mulher: Não é já sôbre o teu dito que nós cremos nele: Mas é porque nós mesmos o ouvimos, e porque sabemos ser êste verdadeiramente o Salvador do mundo.

43E passados dois dias, saiu Jesus dali, e foi para Galiléia.

44Porque Jesus mesmo deu testemunho de que um profeta não tem honra na sua pátria.

45Tendo pois vindo a Galiléia, receberam-no bem os galileus, porque tinham visto tôdas as coisas que Jesus fizera no dia da festa em Jerusalém: Pois êles também tinham ido à festa.[10]No dia da festaA da Páscoa, que era a grande solenidade dos judeus.

46Veio pois segunda vez a Caná de Galiléia, onde fizera da água vinho. Havia porém ali um régulo, cujo filho estava doente em Cafarnaum.[11]Um régulo ou potentadoAssim à letra a Vulgata, que parece seguir alguns manuscritos gregos, que lêem Basiliscos. Todavia a lição que temos agora no grego que é Basiliscos, isto é, Reglos, mostra que pode significar, como expôs S. Jerônimo, Basilianus, um palaciano, um áulico, um cortesão, um personagem da côrte de Herodes.

47Êste tendo ouvido que Jesus tinha vindo de Judéia para Galiléia, foi ter com êle, e rogou-o que viesse a sua casa curar a seu filho: Porque estava a morrer.

48Disse-lhe pois Jesus: Vós se não vêdes milagres e prodígios, não credes.

49Disse-lhe o régulo: Senhor, vem antes que meu filho morra.

50Disse-lhe Jesus: Vai, que teu filho vive. Deu o homem crédito ao que lhe disse Jesus, e foi-se.

51E quando êle já ia andando, vieram os seus criados sair-lhe ao encontro, e deram-lhe novas de que seu filho vivia.

52E perguntou-lhes a hora em que o doente se achara melhor. E êles lhe disseram: Ontem pela sétima hora o deixou a febre.[12]Sétima horaUma hora depois do meio-dia. Erradamente o padre Pereira tinha traduzido sete horas.

53Conheceu logo o pai ser aquela mesma a hora em que Jesus lhe dissera: Teu filho vive: E creu êle e tôda a sua casa.

54Foi êste o segundo milagre que Jesus obrou, tendo vindo de Judéia para Galiléia.

A tradição é unânime em atribuir o quarto Evangelho a S. João. Todos os Padres que falam dêste Evangelho proclamam como seu autor o apóstolo S. João, o discípulo a quem Jesus amava; apenas a seita dos Aloges, que negava a Divindade do Verbo, discordou desta afirmação. S. João, irmão de Tiago, era filho de Zebedeu e de Salomé, e natural de Betsaida. André, confiado na palavra do Mestre, foram com Pedro, Filipe e Natanael procurar Jesus, sendo os primeiros que ao Divino Mestre se juntaram (Jo 1, 35). Um ano mais tarde Jesus escolhe os doze Apóstolos e a lista insere S. João ao lado de Pedro (At 1, 13). S. João está porém bem averiguado que mais tarde partiu para Éfeso, onde continuou os seus trabalhos apostólicos, e onde esteve até ao fim do primeiro século. Êste Evangelho, destinado à Igreja Universal, foi dirigido duma maneira especial às Igrejas da Ásia menor e à sua metrópole, Éfeso, onde S. João tinha trabalhado, e cujas necessidades o determinaram a escrever.
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