Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 14

Consola Jesus os Apóstolos da sua ausência. No céu há muitas mansões, Jesus é o caminho, a verdade, e a vida. Êle está no Pai, e o Pai nêle. Os discípulos farão ainda maiores milagres do que os seus. Êle lhes enviará o Espírito Santo. Promete-lhes a sua paz. Diz-lhes que devem folgar com a sua partida.

1Não se turbe o vosso coração. Crêdes em Deus, crêde também em mim.[1]Não se turbe o vosso coraçãoOs discursos contidos nos capítulos 14-17 são reputados os trechos mais emocionantes, de maior beleza dos Evangelhos. «Ha, diz La Harpe, e do qual cada palavra é um oráculo celeste; nunca o li sem que me comovesse profundamente».

2Na casa de meu Pai há muitas moradas; se assim não fôra, eu vo-lo tivera dito: Pois vou a aparelhar-vos o lugar.[2]Se assim não fôraO grego: Si autem ita non esset, e se assim não fôra, não vos houvera dito, etc. Ainda que vos tenho dito, que não podeis vir agora para onde eu vou, não vos aflijais, porque nem por isso vos privo da esperança de terdes lugar comigo no reino de meu Pai: lugar há também para vós, pôsto que naquela casa há muitas moradas que correspondem aos diversos graus de méritos de seus habitadores. E tão longe está de que a minha partida vos possa servir de impedimento para entrardes nela, que pelo contrário me adianto a preparar-vos o assento e lugar, que corresponde a cada um de vós outros. S. Paulo diz, que como o sol tem o seu resplendor, a lua o seu, e as estrelas o seu; e entre as estrelas há umas que brilham mais, e outras menos, o mesmo sucederá na ressurreição dos mortos, na qual uns terão maior glória, e outros menor. E tais são as diferentes moradas da casa do Padre Eterno. — S. Jerônimo.

3E depois que eu fôr, e vos aparelhar o lugar: Virei outra vez, e tomar-vos-ei para mim mesmo, para que onde eu estou estejais vós também.

4Assim que vós sabeis para onde eu vou, e sabeis o caminho.

5Disse-lhe Tomé: Senhor, nós não sabemos para onde tu vais: E como podemos nós saber o caminho?[3]Nós não sabemosSanto Agostinho explica. Êles sabiam, mas imperfeitamente. Êles sabiam, mas não sabiam o que sabiam.

6Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida: Ninguém vem ao Pai senão por mim.[4]Eu sou o caminho, e a verdade, e a vidaDeus e homem, Jesus Cristo é simultâneamente medianeiro e fim. Possui tudo o que nos falta a glória e a graça, mas o seu recurso é conceder-nos todos êsses bens, e assim é o caminho por que nos oferece os meios pelos quais chegaremos à felicidade eterna, quer pela sua doutrina e pelos seus exemplos, quer enriquecendo-nos com os auxílios de sua santíssima graça. É a verdade, porque como Verbo encarnado êle é a própria verdade, a verdade absoluta, a luz, a Fé. Só êle conhece o Pai, só êle nos revela a verdade que conduz a Deus. E é a vida, vida essencial e infinita como Deus, porque como homem-Deus possui em sua humanidade a plenitude da vida divina, e o fim por que se fez homem foi associar-nos a sua vida, tornando-nos participantes da glória do Céu, para a qual nos convida, não como servos, mas como amigos. Jam non dicam vos servos, sed amicos. Em Jesus há tudo, fora de Jesus nada ha. In ipso enim vivimus, et movemur et sumus. Quem possui essa vida escapa a todos os perigos, às trevas e à morte. Jesus é o caminho por onde devem seguir as almas sedentas de justiça, é a verdade que deve deslumbrar tôdas as inteligências, é a vida que devem viver tôdas as sociedades, para que a terra reine a paz e o amor.

7Se vós me conhecêsseis a mim, também certamente havieis de conhecer a meu Pai: Mas conhece-lo-eis bem cedo, e já o tendes visto.

8Disse-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta.

9Respondeu-lhe Jesus: Há tanto tempo que estou convosco, e ainda não me tendes conhecido? Filipe, quem me vê a mim, vê também o Pai. Como dizes tu logo: Mostra-nos o Pai?

10Não credes que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo de mim mesmo: Mas o Pai, que está em mim, êsse é o que faz as obras.[5]As obrasQue me vêdes praticar e que admirais. E' meu Pai que fala e que opera em mim, o que é corolário da identidade adiante estabelecida. Ego et pater unum sumus.

11Não credes que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim?

12Crede-o ao menos por causa das mesmas obras. Em verdade, em verdade vos digo, que aquele que crê em mim, êsse fará também as obras que eu faço, e fará outras ainda maiores: Porque eu vou para o Pai.

13E tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, eu vo-lo farei: Para que o Pai seja glorificado no Filho.

14Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, essa vos farei.

15Se me amais: Guardai os meus mandamentos.

16E eu rogarei ao Pai, e êle vos dará outro Paráclito, para que fique eternamente convosco.[6]ParáclitoQuer dizer advogado, como explica a 1.ª Epist. de S. João 2, 1. Outros traduzem consolador.

17O espírito de verdade, a quem o mundo não pode receber, porque o não vê, nem o conhece: Mas vós o conhecereis: Porque êle ficará convosco, e estará em vós.

18Não vos hei de deixar órfãos: E eu hei de vir a vós.

19Resta ainda um pouco: Depois já o mundo me não verá. Mas ver-me-eis vós: Porque eu vivo e vós vivereis.[7]Porque eu vivoIsto é, porque eu estarei vivo, e vós a todos os mistérios que tenho de obrar sobrevivereis.

20Naquele dia conhecereis vós que eu estou em meu Pai, e vós em mim, e eu em vós.

21Aquele que tem os meus mandamentos, e que os guarda: Êsse é o que me ama. E aquele que me ama, será amado de meu Pai, e eu o amarei também, e me manifestarei a êle.

22Disse-lhe Judas, não o Iscariotes: Senhor, donde procede que te hás de manifestar a nós e não ao mundo?

23Respondeu-lhe Jesus, e disse-lhe: Se algum me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e nós viremos a êle, e faremos nele morada.

24O que me não ama, não guarda as minhas palavras: E a palavra que vós tendes ouvido não é minha, mas sim do Padre que me enviou.

25Eu disse-vos estas coisas, permanecendo convosco.

26Mas o Consolador, que é o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, êle vos ensinará tôdas as coisas, e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito.[8]Vos tenho ditoAqui põem quase tôdas as versões o verbo no preterito dixi, o que a Vulgata põe no futuro dixero, isto é, disser. — Pereira.

27A paz vos deixo, a minha paz vos dou, e eu não vo-la dou, como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem fique sobressaltado.

28Já tendes ouvido que eu vos disse: Eu vou, e venho a vós. Se vós me amásseis, certamente havieis de folgar, de que eu vá para o Pai: Porque o Pai é maior do que eu.[9]É maior do que euA inteligência mais clara deste lugar e expedita, é a que dá Santo Agostinho no Tratado 88 sôbre João, entendendo esta superioridade do Pai a respeito do Filho, não enquanto Deus, mas sim enquanto homem. Jesus enquanto Deus é igual ao Pai: Glaire, La Sainte Bible, explica assim: Jesus Christ, en tant que homme, est inférieur á son pere, mais il lui est égal autant que Dieu.

29E eu vo-lo disse agora, antes que suceda, para que quando suceder o creiais.

30Já não falarei muito convosco: Porque vem o príncipe dêste mundo, e êle não tem em mim coisa alguma.

31Mas para que conheça que amo ao Pai, e que faço como êle me ordenou: Levantai-vos, vamo-nos daqui.[10]Levantai-vosÉ provável que levantando-se da mesa, e permanecendo em pé com os seus discípulos, continuou antes de sair de casa, para ir ao Horto de Getsêmane tudo o que aqui se lê até ao fim do Capítulo 17. Temos de considerar ao Senhor, como um terno amigo, que devendo separar-se de seus amigos, e vendo-os tristes, e cheios de amargura, não acaba de resolver-se a deixá-los, e vai insensìvelmente prolongando a conversação, até ao ponto mesmo de os abraçar, para separar-se deles, porque o ministério a que necessàriamente deve atender, o obriga a isso mesmo. Veja-se Mt 26, 36.

A tradição é unânime em atribuir o quarto Evangelho a S. João. Todos os Padres que falam dêste Evangelho proclamam como seu autor o apóstolo S. João, o discípulo a quem Jesus amava; apenas a seita dos Aloges, que negava a Divindade do Verbo, discordou desta afirmação. S. João, irmão de Tiago, era filho de Zebedeu e de Salomé, e natural de Betsaida. André, confiado na palavra do Mestre, foram com Pedro, Filipe e Natanael procurar Jesus, sendo os primeiros que ao Divino Mestre se juntaram (Jo 1, 35). Um ano mais tarde Jesus escolhe os doze Apóstolos e a lista insere S. João ao lado de Pedro (At 1, 13). S. João está porém bem averiguado que mais tarde partiu para Éfeso, onde continuou os seus trabalhos apostólicos, e onde esteve até ao fim do primeiro século. Êste Evangelho, destinado à Igreja Universal, foi dirigido duma maneira especial às Igrejas da Ásia menor e à sua metrópole, Éfeso, onde S. João tinha trabalhado, e cujas necessidades o determinaram a escrever.
📄 PDF
📄 Original