Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 18

A prisão de Jesus. Êle nenhum perdeu dos que seu Pai lhe dera. Repreende a Pedro, por êste o defender com a espada. Levam-no à casa de Anás, e de Caifás. Pedro o nega. Faz-lhe o pontífice perguntas. Um quadrilheiro lhe dá uma bofetada. Entregam-no os judeus a Pilatos. Confessa Jesus que é Rei, mas não dêste mundo. Quer Pilatos livrá-lo. Preferem-lhe os judeus, Barrabás.

1Tendo Jesus dito estas palavras, saíu com os seus discípulos para a outra banda do ribeiro de Cedron, onde havia um horto, no qual entrou êle, e seus discípulos.[1]Do ribeiro de CedronComo no hebraico a palavra Cedron significa obscuridade, por isso lhe chamavam assim, ou porque as águas eram turvas, ou pela sombra que lhe faziam as muitas árvores que havia nas suas ribeiras. Era uma torrente que corria entre a cidade de Jerusalém e o Monte das Oliveiras. Davi, que passou esta mesma torrente, fugindo de seu filho Absalão, para se retirar ao deserto, 2 Rs. 15 23, foi uma excelente figura de Jesus Cristo, que o passou também, não para fugir de seus inimigos, mas para pôr-se nas suas mãos, e se entregar à morte. O vale de Cedron chama-se também de Josafá.

2Ora, Judas, que o entregava, sabia também dêste lugar, porque a êle tinha vindo Jesus muitas vezes com seus discípulos.

3Tendo pois Judas tomado uma companhia de soldados, e os quadrilheiros da parte dos pontífices e fariseus, veio ali com lanternas e archotes, e armas.[2]Companhia de soldadosA Vulgata tem coorte. A coorte romana compunha-se de cento e vinte homens. Os soldados romanos alojavam-se na fortaleza Antônia.

4Pelo que Jesus, que sabia tudo o que estava para lhe sobrevir, adiantou-se, e disse-lhes: A quem buscais?

5Responderam-lhe êles: A Jesus Nazareno. Disse-lhes Jesus: Eu sou. E Judas, que o entregava, estava também com êles.

6Tanto pois que Jesus lhes disse: Eu sou, recuaram para trás, e caíram por terra.[3]E caíram por terraQue tem feito, exclama Santo Agostinho, êste formidável poder de tantas gentes armadas, e cheias de furor contra Jesus Cristo. Êle mesmo se descobre, e declara que é aquele a quem buscam, e esta só palavra os abate, e os desarma, porque o que falava era um Deus Onipotente, que se ocultava debaixo da carne do homem.

7Perguntou-lhes pois Jesus segunda vez: A quem buscais? E responderam êles: A Jesus Nazareno.

8Disse-lhes Jesus: Já vos disse que eu sou: Se a mim pois é que buscais, deixai ir êstes.

9Para se cumprir a palavra que êle dissera: Dos que me destes não perdi nenhum dêles.[4]Não perdi nenhum dêlesEstas palavras tomadas do capítulo precedente vers. 2, se entendem ali da alma, e aqui da perda da vida corporal.

10Mas Simão Pedro, que tinha espada, puxou dela: E feriu um servo do pontífice. E lhe cortou a orelha direita. E o servo se chamava Malco.

11Porém Jesus disse a Pedro: Mete a tua espada na bainha. Não hei de beber o cálice que o Pai me deu?

12A coorte pois, e o tribuno, e os quadrilheiros dos judeus prenderam a Jesus, e o manietaram:

13E primeiramente o levaram à casa de Anás, por ser sogro de Caifás, que era o pontífice daquele ano.[5]E primeiramente o levaram à casa de AnásEm atenção à grande autoridade que tinha entre os judeus, e porque era sogro de Caifás, e morava no caminho. — Amelote.

14Caifás porém era aquele que tinha dado aos judeus o conselho: De que convinha que um homem morresse pelo povo.

15Ora seguia a Jesus Simão Pedro, e outro discípulo. Era pois o tal discípulo conhecido do pontífice, e entrou com Jesus no pátio do pontífice.[6]E outro discípuloQue não sabe quem fosse. Porque a conjetura de S. Jerônimo, que entendeu que fôra o mesmo Evangelista S. João; diz Calmet que não tem fundamento algum sólido.

16Mas Pedro estava de fora à porta. Saíu então o outro discípulo, que era conhecido do pontífice, e falou à porteira, E esta fez entrar a Pedro.

17Esta porteira pois, que era escrava, disse a Pedro: Não és tu também dos discípulos dêste homem? Respondeu êle: Não sou.

18Ora, os servos e quadrilheiros estavam em pé ao lume porque fazia frio, e ali se aquentavam: E com êles estava também Pedro em pé, do mesmo modo aquentando-se.

19Entretanto fez o pontífice perguntas a Jesus, sôbre que discípulos tinha, e qual era a sua doutrina.[7]O pontíficeNão concordam os expositores se foi Anás ou Caifás. É certo pelo Evangelho, que as primeiras perguntas foram em casa de Anás. Porém o que aqui se refere desde o verso 15 até o verso 23, assenta a maior parte deles com S. Cirilo, que tudo se passou em casa de Caifás, ainda que Calmet está pela opinião contrária.

20Respondeu-lhe Jesus: Eu falei publicamente ao mundo: Eu sempre ensinei na Sinagoga, e no Templo, aonde concorrem todos os judeus: E nada disse em secreto.

21Por que me fazes tu perguntas? Faze-as àqueles que ouviram o que eu lhes disse: Ei-los aí estão que sabem o que eu ensinei.

22E tendo dito isto, um dos quadrilheiros, que se achavam presentes, deu uma bofetada em Jesus, dizendo: Assim é que tu respondes ao pontífice?

23Disse-lhe Jesus: Se eu falei mal, dá tu testemunho do mal, mas se eu falei bem, por que me feres?

24E Anás o enviou manietado ao pontífice Caifás.[8]E Anás o enviouMisit é um hebraismo: o pretérito perfeito pelo mais que perfeito, porque os hebreus carecem dêste tempo: havia enviado. Outros intérpretes tomam o Misit no seu próprio tempo: enviou.

25Estava pois ali em pé Simão Pedro, aquentando-se ainda. E êles lhe disseram: Não és tu também dos seus discípulos? Negou êle, e disse: Não sou.

26Disse-lhe um dos servos do pontífice, que era parente daquele a quem Pedro cortara a orelha: Não é assim que eu te vi com êle no horto?

27E negou-o Pedro outra vez: E imediatamente cantou o galo.

28Levaram pois Jesus da casa de Caifás ao pretório. Era de manhã: E êles não entraram no pretório por se não contaminarem, mas comerem a Páscoa.[9]Por se não contaminaremEntendiam os judeus que entrando em casa dalgum gentio, ficavam manchados com uma impureza igual, que os estorvava de ter parte nas cerimônias da religião, pelo menos até à tarde do mesmo dia. Para isso tinham escrúpulo e de tirarem a vida ao mais santo e inocente de todos os homens, nenhum caso faziam.

29Pilatos pois saíu fora para lhes falar, e disse: Que acusação trazeis vós contra êste homem?

30Responderam êles e disseram-lhe: Se êste não fôra malfeitor, não to entregaríamos nós.

31Pilatos lhes disse então: Tomai-o lá vós outros, e julgai-o segundo a vossa lei. E os judeus lhe disseram: A nós não nos é permitido matar ninguém.

32Para se cumprir a palavra, que Jesus dissera, significando de que morte havia de morrer.

33Tornou pois a entrar Pilatos no pretório, e chamou a Jesus, e disse-lhe: Tu és o rei dos judeus?

34Respondeu Jesus: Tu dizes isso de ti mesmo, ou foram outros os que to disseram de mim?

35Disse Pilatos: Porventura sou eu judeu? A tua nação, e os pontífices são os que te entregaram nas minhas mãos: Que fizeste tu?

36Respondeu Jesus: O meu reino não é dêste mundo: Se meu reino fosse dêste mundo, certo que os meus ministros haviam de pelejar, para que eu não fosse entregue aos judeus: Mas agora não é daqui o meu reino.

37Disse-lhe então Pilatos: Logo tu és rei? Respondeu Jesus: Tu o dizes, que eu sou rei. Eu para isso nasci, e ao mundo vim para dar testemunho da verdade: Todo o que é da verdade, ouve a minha voz.

38Disse-lhe Pilatos: Que coisa é a verdade? E dito isto, tornou a sair a ver-se com os judeus, e disse-lhes: Eu não acho nele crime algum.

39Mas é costume entre vós, que eu pela Páscoa vos solte um: Quereis vós logo que vos solte o rei dos judeus?

40Então gritaram todos novamente, dizendo: Não queremos sôlto a êste, mas a Barrabás. Ora, este Barrabás era um ladrão.

A tradição é unânime em atribuir o quarto Evangelho a S. João. Todos os Padres que falam dêste Evangelho proclamam como seu autor o apóstolo S. João, o discípulo a quem Jesus amava; apenas a seita dos Aloges, que negava a Divindade do Verbo, discordou desta afirmação. S. João, irmão de Tiago, era filho de Zebedeu e de Salomé, e natural de Betsaida. André, confiado na palavra do Mestre, foram com Pedro, Filipe e Natanael procurar Jesus, sendo os primeiros que ao Divino Mestre se juntaram (Jo 1, 35). Um ano mais tarde Jesus escolhe os doze Apóstolos e a lista insere S. João ao lado de Pedro (At 1, 13). S. João está porém bem averiguado que mais tarde partiu para Éfeso, onde continuou os seus trabalhos apostólicos, e onde esteve até ao fim do primeiro século. Êste Evangelho, destinado à Igreja Universal, foi dirigido duma maneira especial às Igrejas da Ásia menor e à sua metrópole, Éfeso, onde S. João tinha trabalhado, e cujas necessidades o determinaram a escrever.
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