Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 1

Criação do céu e da terra, e de tudo o que nêles se contém. Depois cria Deus o homem e a mulher, e sujeita-lhes tôdas as outras criaturas.

1No principio criou Deus o céu e a terra.[1]NO PRINCÍPIOO valor do têrmo hebraico do original é — "antes de existir coisa alguma criada". — Segundo, a opinião de Fabre d'Envieu, Origines de la terre et de l'homme (1873), êste versículo inicial refere-se à criação primordial da matéria (período ante-hexamérico), enquanto que os seguintes contam a organização da matéria criada, em seis épocas. CRIOU — No original emprega-se o têrmo bara, que significa crear ex nihilo, enquanto que nos versículos seguintes a vulgata traduziu por criar o têrmo hebraico hasah, que significa organizar a matéria preexistente. Com esta interpretação concordam os modernos Owen, Herschell, Wallace, Naudin, Jousset e outros insignes naturalistas.

2A terra, porém, estava vazia e nua; e as trevas cobriam a face do abismo; e o espírito de Deus era levado por cima das águas.

3Disse Deus: Faça-se a luz; e fêz-se a luz.[2]FAÇA-SE A LUZOs modernos comentadores entendem que a expressão faça-se, em latim fiat, não indica necessàriamente a criação duma coisa que não existia, mas sim que se lhe deve ligar a significação de aparecer, e assim entendem que Moisés quis exprimir a aparição da luz onde ela ainda não penetrava, conforme ensina Lestrade no seu livro Accord de la science avec le premier chapitre de la Génèse (1883).

4E viu Deus que a luz era boa; e dividiu a luz, das trevas.

5E chamou à luz dia, e às trevas noite; e da tarde e da manhã se fêz o dia primeiro.[3]O DIA PRIMEIROA organização do mundo é dividida por Moisés em seis atos, que êle designa pela palavra yôm, e que a vulgata traduziu por dia, quando é certo que em hebreu esta palavra designa espaço de tempo, época ou período; mas ainda mesmo que significasse apenas o espaço de vinte e quatro horas, nunca se devia entender no sentido próprio, mas em sentido figurado, o que está perfeitamente na índole da linguagem oriental, tão fértil no emprêgo de metáforas, que a cada passo se encontram. Esta opinião não é nova; já a seguiu Santo Agostinho. Não se deve deixar de atender também à intenção litúrgica, que Moisés tinha em vista querendo consagrar a semana hebraica. Vejam-se os artigos da Dublin Review e Revue des questions scientifiques.

6Disse também Deus: Faça-se o firmamento no meio das águas, e separe umas águas das outras águas.[4]FIRMAMENTOPor esta palavra traduziu S. Jerônimo o têrmo hebraico râqîa, que significa extensão, expansão, e por isso os exegetas de hoje dão-lhe a significação de atmosfera, que não sòmente divide as águas das nuvens que os vapores aí formam, das da terra, mas que, exercendo pressão sôbre as águas dos mares, se conservam em seu estado líquido e dentro dos seus limites, como ensina Vigouroux, La sainte Bible polyglotte (1900). Êste é o segundo período da criação, cuja narração vai até ao versículo oitavo.

7E fêz Deus o Firmamento, e dividiu as águas, que estavam por baixo do firmamento, das que estavam por cima do firmamento.

8E chamou Deus ao firmamento céu; e da tarde, e da manhã se fêz o dia segundo.

9Disse também Deus: As águas que estão debaixo do céu, ajuntem-se num mesmo lugar, e o elemento árido apareça. E assim se fêz.

10E chamou Deus ao elemento árido terra, e ao agregado das águas mares. E viu Deus que isto era bom.

11Disse também Deus: Produza a terra erva verde, que dê a sua semente; e produza árvores frutíferas, que deem fruto, segundo a sua espécie, e que contenham a sua semente em si mesmas, para a reproduzirem sôbre a terra. E assim se fêz.[5]PRODUZA A TERRASanto Agostinho, no seu tratado sôbre o Génesis, espraia-se em largas considerações sôbre estas palavras para sustentar a teoria da criação secundária e derivada, doutrina perfilhada pelo Doutor Exímio, o Padre Suarez, na qual se firma o moderno e notável naturalista católico Saint Georges Mivart, que sustenta haver no Génesis, claramente evidenciadas as duas criações: (a) imediata, no ato pelo qual Deus do nada criou a matéria; ao que chama criação primordial e absoluta; e (b) criação mediata, quando Deus, depois de ter criado diretamente a matéria, imprimiu-lhe a fôrça para se desenvolver sob certas e determinadas leis, impostas pela sua Onipotência Infinita e Onisciência Indefectível. Assim ficaram criadas, não em ato, mas em potência, tôdas as formas que mais tarde surgiram da matéria, sob a ação das fôrças e propriedades que a esta são inerentes. Veja-se o livro do Padre Zahm, Science catholique et savants catholiques (1895).

12E produziu a terra erva verde, que dava semente segundo a sua espécie; e produziu árvores frutíferas que continham a sua semente em si mesmas. E viu Deus que isto era bom.[6]ERVANo primeiro e segundo período não se fala em manifestação alguma da vida, o que corresponde fielmente ao período azóico da geologia; mas neste terceiro período já se alude a uma, embora rudimentar, flora — a erva verde e as árvores. Que vegetais eram êstes? Fetos, musgos, o equisetum, os ginospermas. Mas, objeta-se, como se podiam desenvolver estas plantas sem a ação dos raios solares? Plaff responde a estas perguntas com tôda a precisão: "Não é de sol que as plantas necessitam, mas de luz e calor". Ora, a luz e o calor, é cientificamente certo, existiram antes do sol. Outra objeção, que se levanta, é, que pelos dados de geologia sabemos existirem neste mesmo período, que corresponde à idade paleozóica, alguns batráquios, anfíbios e peixes; a isto respondem os exegetas dizendo, e com razão, que Moisés não estava escrevendo um tratado científico, e por isso só menciona, em cada época os seres que a caracterizam. Vigouroux, ob. cit.; Lapparent, Traité de géologie; Pozzy, La terre et le recit biblique, L'oeuvre.

13E da tarde e da manhã se fêz o dia terceiro.

14Disse também Deus: Façam-se uns luzeiros no firmamento do céu, que dividam o dia e a noite, e sirvam de sinais nos tempos, as estações, os dias e os anos;

15que luzam no firmamento do céu, e alumiem a terra. E assim se fêz.

16Fêz Deus, pois, dois grandes luzeiros, um maior, que presidisse ao dia; outro mais pequeno, que presidisse à noite: e criou também as estrêlas.[7]DOIS GRANDES LUZEIROSNão esquecendo que Moisés não escrevia um tratado de astronomia (Pioger, L'oeuvre des six jours), devemos notar que neste quarto período se assinala a organização do nosso sistema solar. Basta que se note que entre a narração bíblica e os dados da astronomia, em que pese a Drapper e White, não existe contradição real, pois todos sabem que M. Faye sustenta que a terra foi criada antes do sol, do que fàcilmente nos convencemos estudando as várias hipóteses cósmicas, e lendo Kant, Herschell, Laplace, Faye e Wolf. Cf. Estienne, Comment c'est formé l'Univers.

17e pô-las no firmamento do céu para luzirem sôbre a terra,

18e presidirem ao dia e à noite, e dividirem a luz, das trevas. E viu Deus que isto era bom.

19E da tarde, e da manhã se fêz o dia quarto.

20Disse também Deus: Produzam as águas animais viventes, que nadem nas águas; e aves, que voem sôbre a terra, e debaixo do firmamento do céu.[8]ANIMAIS VIVENTESDêste versículo ao 23 vai o quinto período que corresponde à idade mesozóica ou secundária, que é caracterizada por uma abundância prodigiosa da vida animal. Destacam-se os enormes répteis armados de terríveis meios de destruição, e por isso os geólogos lhe chamaram a "a era dos répteis". Os dados geológicos estão em perfeito acordo com a narração mosaica. Nesta camada geológica encontram-se os fósseis dêsses gigantescos sáurios, e os ictiossauros de formas extraordinárias, anfíbios de enormes dimensões, cete grandia, belluinas marinas, como diz o texto sagrado. Depois vêm as aves, das quais se encontram os vestígios nos terrenos jurássico e cretáceo, e aí temos nós os pterodátilos, os répteis alados, e os grandes pássaros, do gênero do avestruz. Gosselet, Cours de géologie.

21Criou Deus pois, os grandes peixes e todos os animais que têm vida e movimento, os quais foram produzidos pelas águas, cada um segundo a sua espécie. Criou também tôdas as aves, segundo as suas espécies. E viu Deus que isto era bom.

22E êle os abençoou, e lhes disse: Crescei e multiplicai-vos, e enchei as águas do mar: e as aves se multipliquem sôbre a terra.

23E da tarde e da manhã se fêz o dia quinto.

24Disse também Deus: Produza a terra animais viventes, cada um segundo a sua espécie: animais domésticos, répteis e animais selvagens, segundo as suas espécies. E assim se fêz;[9]ANIMAIS SELVAGENSE' a tradução à letra do texto hebreu. Neste versículo começa a decorrer o sexto período. Até aqui Moisés não nos falou dos mamíferos, também na idade geológica anterior êles não apareceram; agora fala-nos dos animais domésticos e dos selvagens; mas a êste período pertencem a idade cenozóica ou terciária, e a idade quaternária, nas quais aparecem os vestígios dos mamíferos. "Por isso, diz Plaff, se nós compararmos os dados científicos com a História Bíblica, vemos que está em perfeita harmonia com aquêles... Assim a sequência cronológica de Moisés é rigorosa; o caos, a terra emergindo coberta pelas águas; a formação do reino inorgânico, depois o vegetal, a seguir o animal, tendo por primeiros representantes os aquáticos, após os terrestres, e por fim o homem, o último e o mais perfeito — tal é, na verdade, a sucessão dos sêres".

25E criou Deus os animais selvagens, segundo as suas espécies; os animais domésticos, e todos os répteis, da terra, cada um segundo a sua espécie. E viu Deus que isto era bom.

26Disse também Deus: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança, o qual presida aos peixes do mar, às aves do céu, às bestas, e a todos os répteis, que se movem sôbre a terra, e domine em tôda a terra.

27E criou Deus o homem à sua imagem: fê-lo à imagem de Deus, e criou-os macho e fêmea.

28Deus os abençoou, e lhes disse: Crescei e multiplicai-vos, e enchei a terra, e tende-a sujeita a vós, e dominai sôbre os peixes do mar, sôbre as aves do céu, e sôbre todos os animais que se movem sôbre a terra.

29Disse-lhes também Deus: Eis aí vos dei eu tôdas as ervas, que dão as suas sementes sôbre a terra; e tôdas as árvores, que têm as suas sementes em si mesmas, cada uma segundo a sua espécie, para vos servirem de sustento a vós,

30e a todos os animais da terra, a tôdas as aves do céu e a tudo o que tem vida e movimento sôbre a terra, para terem de que se sustentar. E assim se fêz.

31E viu Deus tôdas as coisas que tinha feito, e eram muito boas. E da tarde e da manhã se fêz o dia sexto.

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