Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 23

Morte de Sara aos cento e vinte e sete anos. Abraão compra a caverna de Macpela aos filhos de Het para a enterrar.

1Ora Sara, tendo vivido cento e vinte e sete anos,[1]CENTO E VINTE E SETE ANOSSara é a única mulher da Bíblia de quem a Escritura menciona a idade.

2morreu na Cidade de Arbéia que é a mesma que Hebron na terra de Canaã. E Abraão veio pranteá-la, e tomar nojo por ela.

3Acabados que foram os dias do nojo, levantou-se Abraão, e falou aos filhos de Het, dizendo-lhes:

4Eu na vossa terra sou como um peregrino, e um forasteiro. Peço-vos, que me deis o direito de ter entre vós uma sepultura, para eu enterrar nela uma pessoa, que me morreu.[2]O DIREITO DE SEPULTURAÉ o primeiro exemplo de enterramento de que a escritura nos dá notícia, e agora ficamos sabendo que os hebreus possuíam lugares especialmente destinados à jazida dos mortos, e que os sepulcros eram propriedade particular, (v. 6 "os nossos mais formosos sepulcros") destinados a uma família, esmerando-se mesmo na sua conservação, sendo partidários do inumacionismo.

5Os filhos de Het lhe responderam:

6Senhor, ouve-nos. Tu és para nós um príncipe de Deus, poderás escolher de entre todos os nossos mais formosos sepulcros um, onde enterres essa pessoa, que te morreu. Ninguém te tolherá, que enterres no seu sepulcro essa pessoa, que te morreu.[3]PRÍNCIPE DE DEUSIsto é um príncipe que goza de enorme prestígio, um grande príncipe.

7Abraão, depois de se levantar, fêz uma profunda reverência diante do povo daquela terra, que eram os filhos de Het e disse-lhes:

8Se vós achais bom que eu enterre a minha defunta, ouvi-me, vos peço, e intercedei por mim com Efron, filho de Seor,

9a fim de que êle me dê uma caverna de dois repartimentos, que êle tem no fim do seu campo; que a ceda em mim diante de vós, pelo preço que ela vale; e que fique sendo minha, para eu fazer nela um sepulcro.

10É de saber, que Efron habitava no meio dos filhos de Het; e êle respondeu a Abraão, ouvindo-o todos os que entravam pela porta da cidade, e lhe disse:

11Não, meu Senhor, isso não há de ser assim; mas ouve o que te vou dizer: Eu te dou o campo, e a caverna, que nêle há, em presença dos filhos do meu povo: enterra nela a pessoa, que te morreu.

12Abraão se inclinou profundamente diante do povo daquela terra,

13e disse a Efron no meio do ajuntamento do povo: Ouve-me, te peço: Eu quero dar-te o dinheiro, que o campo vale, recebe-o, e depois enterrarei nêle a minha defunta.

14Efron lhe respondeu:

15Meu senhor, ouve-me. A terra que tu pedes, vale quatrocentos siclos de prata. Êste é o seu preço entre mim e ti. Mas isto que é? enterra a tua defunta.[4]QUATROCENTOS SICLOS DE PRATAA palavra siclo designa um pêso. A moeda batida é posterior: no tempo de Abraão os egípcios tinham uns anéis de ouro e de prata, com um pêso fixo e determinado, que desempenhavam o papel da moeda. Vêem-se representados em muitos monumentos da antiguidade. Não podemos hoje apreciar o valor da prata em época tão distante. Quando se fêz a versão dos Setenta, o meio siclo de prata valia um didracma grego, isto é, aproximadamente 330 réis. Segundo esta avaliação, a sepultura de Makpelah deveria ter custado a Abraão aproximadamente entre 260 e 280 mil réis; porém êste cálculo estará longe da verdade, porque a prata tinha então na Palestina um valor muito diferente do que hoje tem.

16Abraão tendo isto ouvido, pesou em presença dos filhos de Het o dinheiro, que Efron lhe tinha pedido, e pagou quatrocentos siclos de prata em boa moeda corrente.

17Assim foi entregue a Abraão o campo, que fôra de Efron, onde havia uma caverna de dois repartimentos, que olhava para Mambre; e entregue tanto o campo, como a caverna, com tôdas as árvores que estavam à roda por todo o seu circuito;[5]UMA CAVERNA DE DOIS REPARTIMENTOSFoi visitada no século XII por Benjamim de Tudela; estão lá seis túmulos, e ossos de muitos israelitas para ali transportados por devoção. Os seis túmulos, segundo as inscrições seriam de Abraão, Isaac, Jacó, Sara, Rebeca e Lia.

18e lhe foi segurado como uma fazenda, que lhe ficava sendo própria, na presença de todos os que se tinham ajuntado à porta daquela cidade.

19Enterrou pois Abraão a Sara sua mulher na caverna de dois repartimentos, que olhava para Mambre, no campo, onde é Hebron na terra de Canaã.

20E o campo com a caverna, que nêle havia, foi segurado a Abraão da parte dos filhos de Het, para Abraão gozar dêle, como dum jazigo seu próprio.

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