Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 29

Chega Jacó a Haran, obriga-se a servir sete anos a Labão para alcançar a Raquel. Na noite das bodas põe-lhe a Lia em lugar de Raquel. Serve outros sete anos por merecer a Raquel. Nascimento de Rúben, de Simeão, de Levi, e de Judá tidos em Lia.

1Partido pois daquele lugar, chegou Jacó à terra do Oriente.

2E tendo entrado num campo, onde havia um poço viu descansando ao pé dêle, três rebanhos de ovelhas porque dêle é que se dava de beber aos rebanhos: e o bocal do poço estava tapado com uma grande pedra.

3E o costume era não tirar a pedra, senão depois de terem chegado todos os rebanhos: e depois que êles tinham bebido, torná-la a pôr sôbre o bocal do poço.

4Disse pois Jacó aos pastores: Irmãos, donde sois vós? Responderam êles: Somos de Haran.

5Perguntou-lhes Jacó: Conheceis vós porventura a Labão, filho de Nacor? Disseram êles: Conhecemos.

6Está êle bom? ajuntou Jacó. Está bom, responderam êles: e eis acolá vem vindo Raquel, sua filha, com o seu rebanho.

7Continuou Jacó: Êle é ainda muito dia, e ainda não é tempo de se recolherem os rebanhos aos currais. Fazei logo beber primeiro os rebanhos, e depois tornai-os a mandar ao pasto.

8Não o podemos fazer, responderam êles. E' necessário que todos os rebanhos se ajuntem, e que nós tiremos a pedra que tapa o poço, para lhes darmos de beber a todos juntos.

9Ainda êles estavam falando, quando chegou Raquel com as ovelhas de seu pai: Porque ela era a que pastoreava o seu rebanho.

10Jacó tanto que a viu, como quem sabia que ela era sua prima co-irmã, e que as ovelhas eram de Labão seu tio, tirou a pedra, que cobria o bocal do poço:

11Deu a beber ao seu rebanho, e beijou a Raquel, desfeito em altos choros,

12e lhe disse que êle era irmão de seu pai, e filho de Rebeca. O que tendo ouvido Raquel, foi correndo dizê-lo a seu pai:

13o qual como soube que Jacó, filho de sua irmã era vindo, correu a encontrar-se com êle; e abraçou-o, beijou-o muitas vêzes, e levou-o a sua casa; e depois que soube os motivos da sua jornada,

14e lhe disse: Tu és osso do meu osso, e carne da minha carne. E passado que foi um mês,

15disse Labão a Jacó: Acaso, porque tu és meu irmão, deves tu servir-me de graça? Dize-me pois que paga queres?

16Ora Labão tinha duas filhas, das quais a mais velha se chamava Lia, e a mais moça Raquel.

17Mas Lia tinha os olhos remelosos, e Raquel era bela de cara, e muito agradável.

18Jacó como lhe tinha amor, disse a Labão: Eu te servirei sete anos por ter a Raquel, tua filha mais moça.

19Respondeu-lhe Labão: Melhor é que eu te dê a ti, do que a outro: fica comigo.

20Serviu pois Jacó a Labão sete anos por ter a Raquel: e êste tempo lhe pareceu muito curto, de grande que era o amor, que lhe tinha.

21Depois disse Jacó a Labão: Dá-me minha mulher, para eu dormir com ela, pois que o meu tempo está cumprido.

22Então fêz Labão as bodas, tendo convidado para o banquete a seus amigos, que eram em grande número;

23e à tarde introduziu a Lia na câmara de Jacó,[1]À TARDE INTRODUZIU LIA NA CÂMARA DE JACÓEra fácil cometer o lôgro, porque, segundo o antigo uso, o noivo esperava na sua câmara a desposada, que lhe era trazida coberta com um véu. E' claro que a conduta de Labão, sendo o autor do embuste, e de Lia, por se prestar a êle, é condenável; porém, aqui se deve ver o castigo infligido a Jacó, por causa da astúcia por êle perpetrada para obter a bênção de seu pai. Enganou, foi enganado.

24e deu a sua filha uma escrava, por nome Zelfa. Tendo Jacó dormido com a que Labão lhe dera, pela manhã conheceu que era Lia.

25E disse Jacó a seu sogro: Que é isto que tu me quisestes fazer? Porventura não te servi eu por ter a Raquel? Por que me enganaste tu?

26Labão lhe respondeu: No nosso lugar não é costume casarmos as filhas mais moças antes das mais velhas.

27Acaba a semana dêste primeiro matrimónio, e depois dar-te-ei a Raquel pelo trabalho doutros sete anos, que me servirás.

28Acomodou-se Jacó ao que êle queria: e passada a semana, casou com Raquel,

29à qual tinha dado seu pai uma escrava, chamada Bala.

30E Jacó tendo enfim logrado aquela, que desejava, a preferiu à mais velha no amor, que lhe tinha, e continuou em servir Labão outros sete anos.

31Mas o Senhor vendo que Jacó desprezava a Lia, fêz fecunda a esta ao mesmo tempo que Raquel era estéril.

32Concebeu, pois Lia, e pariu um filho, a quem chamou Rúben, dizendo: O Senhor olhou para a minha humilhação: agora me amará meu marido.[2]RÚBENSignifica: vêde um filho.

33Tendo outra vez concebido, pariu um filho, e disse: Porque o Senhor viu que eu era tratada com desprêzo, êle me deu êste segundo filho: e ela lhe pôs o nome de Simeão.

34Concebeu, e pariu terceiro filho, e disse: Agora se unirá ainda mais meu marido a mim porque lhe dei três filhos; e por isso chamou ela a êste Levi.

35Concebeu Lia quarta vez, e pariu um filho, a quem pôs o nome de Judá, dizendo: Agora louvarei eu o Senhor. E cessou por então de ter filhos.

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