Capítulo 14
1Naquele tempo sucedeu que Anrafel, rei de Senaar, Arioc, rei de Ponto, Codorlaomor rei dos elamitas, e Tadal rei das gentes,[1]ANRAFEL — As inscrições caldéias confirmam os dados bíblicos sôbre esta confederação de Reis, que tinha por Chefe Codorlaomor. Num tijolo descoberto em Ur, pátria de Abrão, lê-se o nome de Kondourlagamar, ao mesmo tempo rei de Yamontal, que deve ser a Síria. O Rei das Gentes, Goim, (em hebreu) é Tadal, nome que tem muita analogia com Toudoula, que aparece mencionado numa inscrição cuneiforme, como coevo de Eriakon, da mesma maneira que Goim se assemelha a Gesti, que se encontra em muitas lápides cuneiformes, pelo que judiciosamente conclui Vigouroux que dora avante não podem os críticos racionalistas taxar de mito êste episódio do Génesis.
2fizeram guerra contra Bara, rei de Sodoma; contra Bersa, rei de Gomorra; contra Senab rei de Adama; contra Semeber, rei de Seboim; e contra o rei de Bala, chamada por outro nome Segor.
3Todos êstes reis se ajuntaram no Vale das Árvores, onde agora é o mar salgado.
4Êles tinham estado sujeitos doze anos ao rei Codorlaomor; e no ano décimo terceiro se subtraíram da sua obediência.
5Codorlaomor veio no ano décimo quarto com os reis, que se lhe tinham unido; e desbarataram aos Rafains em Astarot-Carnaim, e aos Zuzins com êles, e aos Emins em Save Gariatim;
6e aos Correus nos montes de Seir até os campos de Faran, que são no deserto.
7Voltando êstes reis da sua expedição, vieram à fonte de Misfat, que é a mesma que Cadés; e passaram ao fio da espada tudo o que encontraram na terra dos amalecitas, e dos amorreus que viviam em Asasontamar.
8Então os reis de Sodoma, de Gomorra, de Adama, de Seboim e de Bala, ou de Segor, se puseram em campanha, e ordenaram as suas tropas em batalha no Vale das Árvores contra os reis aliados;
9isto é, contra o Codorlaomor, rei dos elamitas; contra Tadal, rei das nações; contra Anrafel, rei de Senaar; contra Arioc rei de Ponto: quatro reis contra cinco.
10Ora, no Vale das Árvores havia muitos poços de betume. Os reis de Sodoma, e de Gomorra foram postos em fugida, e as suas gentes acabaram ali. E os que escaparam, acolheram-se aos montes.
11Os vencedores levaram tôdas as riquezas, que acharam em Sodoma, e Gomorra, e todos os víveres; e retiraram-se.
12Levaram também Ló filho do irmão de Abrão, que morava em Sodoma, e tudo o que tinha de bens.[2]LEVARAM TAMBÉM LÓ — Nas ruínas de Erec foi encontrado um cilindro caldeu representando êstes cativos conduzidos pelos seus vencedores.
13Então um, que se tinha salvado, veio dar parte disto a Abrão o hebreu que vivia no Vale de Mambre Amorreu irmão de Escol e de Azer: porque êstes tinham feito aliança com Abrão.
14Abrão tendo sabido que Ló seu irmão, ficara prisioneiro, escolheu os mais valentes dos seus servos, em número de trezentos e dezoito; e foi em alcance dos reis até Dan.[3]SEU IRMÃO — Hebraísmo, em vez de parente próximo. O Padre Antônio Pereira traduziu arbitràriamente pela palavra sobrinho que se emendou. Dan ao norte da Palestina. Cf. nota do V. 13, c. 12.
15Tendo repartido esta sua gente, deu sôbre os inimigos de noite, desfê-los, e enxotou-os até Hoba, que fica à esquerda de Damasco.
16E trouxe consigo tudo o que êles tinham levado, e a Ló seu irmão com tudo o que lhe pertencia, como também as mulheres e o povo.
17Quando Abrão voltava de derrotar a Codorlaomor, e aos reis seus aliados, saiu-lhe ao encontro o rei de Sodoma no Vale de Save, chamado também Vale do Rei.
18Mas Melquisedec Rei de Salem, oferecendo pão e vinho, porque era sacerdote do Deus Altíssimo,[4]MELQUISEDEC — A palavra composta de duas raízes significa rei de justiça. Todos os Santos Padres e comentadores viram nêle um tipo representativo de Messias, pelo seu duplo caráter de rei e de pontífice e no sacrifício do pão e do vinho que oferece ao Altíssimo, vêem a figura do sacrifício eucarístico; ignora-se a sua origem e a sua vida — sem pai, sem mãe, sem genealogia, diz S. Paulo, Hebr. 7, 8. O que se pode afirmar é que adorava o verdadeiro Deus, reunia em sua pessoa as dignidades real e sacerdotal, e era justamente venerado pelas raras virtudes. Natalis Alexander, História Ecclesiastica veteris, novique testamenti.
19abençoou a Abrão, e lhe disse: Bendito seja Abrão da parte do Altíssimo Deus, que criou o céu e a terra.
20E bendito seja o Deus Altíssimo, que te protegeu, e te entregou nas tuas mãos os teus inimigos. E Abrão lhe deu o dízimo de tudo o que tinha tirado.
21O rei de Sodoma porém disse a Abrão: Dá-me as pessoas, e toma para ti o mais que fica.
22Abrão lhe respondeu: Eu levanto a minha mão ao Senhor Deus Altíssimo, cujo é o céu e a terra;
23que eu não tomarei nada de tudo o que te pertence, desde o fio mais pequeno até à correia dos sapatos:
24exceto somente aquilo, que a minha gente consumiu de comer, e a parte que compete a Azer, Escol e Mambre, que vieram comigo, êstes hão de receber a parte, que lhes é devida.