Capítulo 7
1Disse o Senhor a Noé: entra na arca tu, e tôda a tua família: porque eu conheci que eras justo diante de mim, entre todos os que hoje vivem sôbre a terra.
2Toma de todos os animais limpos sete machos e sete fêmeas; e dos animais imundos dois machos e duas fêmeas.
3Toma também das aves do céu sete machos e sete fêmeas, para se conservar a casta sôbre a terra.
4Porque daqui a sete dias hei de chover sôbre a terra quarenta dias e quarenta noites; e hei de destruir da superfície da terra tôdas as criaturas, que fiz.
5Fêz Noé tudo o que o Senhor lhe tinha ordenado.
6Tinha êle seiscentos anos de idade, quando as águas do dilúvio inundaram a terra.
7Entrou Noé na arca com seus filhos, sua mulher, e as mulheres de seus filhos, para se salvarem das águas do dilúvio.
8Os animais limpos, e os imundos, e as aves com tudo o que tem movimento sôbre a terra,
9entraram também na arca com Noé dois e dois, macho e fêmea, conforme o Senhor tinha mandado a Noé.
10Passados pois que foram os sete dias, se derramaram sôbre a terra as águas do dilúvio.[1]O DILÚVIO — Descreve agora Moisés o dilúvio bíblico, castigo enviado por Deus, por causa da malícia dos homens. E' certo, e é claro que nos convém notar, que a história do dilúvio encontra-se nas tradições de quase todos os povos. Berésio, padre caldeu, recolheu a tradição diluviana do seu país; nos índios, nos persas, nos egípcios, gregos e na América, encontram-se vestígios profundos desta tradição: mas, observa Gainet, La Bible sans la Bible, a narração bíblica é um contraste frizante com os destroços das antigas histórias, que hoje aparecem nos papiros das múmias contemporâneas do legislador dos hebreus, nas estelas dos templos, nas inscrições cuneiformes dos velhos muros de Nínive e Babilónia. A Bíblia fala com singeleza profunda, e humilhante simplicidade: a narração do dilúvio é calma, curta, precisa e clara, ao passo que a dos outros é palavrosa, cheia de ficções e contradições. O dilúvio foi universal ou parcial? Êste ponto foi muito controvertido, mas a doutrina, hoje aceite pelos exegetas de melhor nome, é a opinião média entre os que sustentam a universalidade e parcialidade, afirmando que o dilúvio foi universal neste sentido; — as águas cobriram tôda a região habitada, mas não tôda a terra habitável — Entre muitos argumentos que numa nota se não podem apresentar, há o seguinte, deduzido de usus loquendi bíblico, que nos ensina que devemos entender a linguagem de Moisés sempre no sentido restrito, como se vê, por exemplo, no Gen 41, 54. 56. 57 que se refere à fome do tempo de Jacó, e onde a expressão tôda a terra se deve entender por todos os povos conhecidos dos hebreus, e não por tôda a humanidade. As expressões empregadas na narração do dilúvio devem aplicar-se à terra conhecida de Noé e dos hebreus, sem que seja necessário admitir que os altos cumes do Himalaia, os vulcões da América e as montanhas da África, que os antigos não conheciam, tivessem sido cobertos de água. (Vigouroux, ob. cit.) Esta hipótese tem pelo seu lado teólogos abalisados, exegetas de reputação incontestável. No campo teológico travou-se a luta, escreveu-se muito, sendo notáveis os artigos de Estienne, na Revue des questions scientifiques, que rebateu Lamy, partidário da Universalidade, o conde Barthelemy — Le deluge, artigo de Controverse, 1885, Motais, Robert, Vigouroux e outros, não esquecendo um teólogo português de vasta erudição e brilhante talento, o dr. Porfírio da Silva, lente de teologia na Universidade de Coimbra, que publicou um Estudo bíblico científico sôbre o dilúvio, que é um belo monumento de investigação científica. Todos êstes trabalhos de autores de competência indiscutível, crentes sinceros, de ortodoxia indubitável, exímios exegetas, sábios eminentes, baseados nos novos progressos científicos, nas mais conscienciosas indagações a respeito dos dados etnográficos e linguísticos, removeram embaraçosas dificuldades, e lograram conciliar a Bíblia e a ciência.
11No ano seiscentos da vida de Noé, no dia dezéssete do sétimo mês do mesmo ano se romperam tôdas as origens do grande abismo, e se abriram as cataratas do céu.
12E caiu a chuva sôbre a terra quarenta dias, e quarenta noites.
13Tanto que amanheceu aquêle dia, entrou Noé na arca com seus filhos Sem, Cam e Jafé, sua mulher e as mulheres de seus filhos;
14todos os animais silvestres, segundo a sua espécie; e todos os animais domésticos, segundo a sua espécie; tudo o que se move sôbre a terra, segundo a sua espécie; tudo o que voa, segundo a sua espécie; tôdas as aves e tudo o que se eleva no ar.
15Tôdas estas espécies de animais entraram com Noé na arca, dois e dois, macho e fêmea, de tôda a carne vivente e animada.
16Os que entraram pois eram machos e fêmeas, e de tôdas as espécies, conforme Deus o tinha mandado a Noé; e o Senhor o fechou por fora.
17Durou o dilúvio quarenta dias, e quarenta noites; as águas cresceram até elevarem a arca muito alto por cima da terra.
18As águas inundaram tudo, e cobriram tôda a superfície da terra: a arca porém era levada sôbre as águas.
19As águas cresceram, e engrossaram prodigiosamente por cima da terra; e todos os mais elevados montes, que há debaixo do céu, ficaram cobertos.
20Tendo a água chegado ao cume dos montes, elevou-se ainda por cima dêles quinze côvados.
21Tôda a carne, que se move sôbre a terra foi consumida: tôdas as aves, todos os animais, tôdas as bestas, e tudo o que anda de rastos sôbre a terra.
22Todos os homens morreram; e geralmente tudo o que tem vida, e respira debaixo do céu.
23Tôdas as criaturas, que havia sôbre a terra, desde o homem até às bestas; tanto as que andam de rastos, como as que voam pelo ar, tudo pereceu. Ficaram somente Noé, e os que estavam com êle na arca.
24E as águas tiveram a terra coberta cento e cinquenta dias.