Capítulo 12
1Ora, o Senhor disse a Abrão: Sai da tua terra, e da tua parentela, e da casa de teu pai, e vem para a terra que eu te mostrarei.[1]ABRÃO — Começa aqui a história da vocação dêste Santo Patriarca, tão insigne pela fé, pela sua piedade, como pela sua alma generosa. Modêlo de heróica obediência, não recuando ante nenhum sacrifício para cumprir as ordens de Deus. E' um dos tipos de Messias. Assinalam-se os traços de semelhança entre Abrão e Jesus Cristo. O Salvador deixou o seio do Eterno Pai, Abrão abandonou a casa de Taré. Cristo é tido como estrangeiro, Abrão é um desconhecido na Palestina. Jesus inicia a via pública por penitências, Abrão por contrariedades e pelo exílio. Os discípulos de Cristo multiplicaram-se pelo mundo inteiro, os filhos de Abrão cobrem o Oriente.
2E eu te farei pai dum grande povo, e te abençoarei: eu farei célebre o teu nome, e tu serás bendito.
3Eu abençoarei aos que te abençoarem, e amaldiçoarei aos que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas tôdas as cognações da terra.[2]EM TI SERÃO BENDITAS TÔDAS AS COGNAÇÕES DA TERRA — Esta é a parte mais significativa desta profecia. Têm os exegetas procurado determinar o valor da frase — Tôdas as cognações da terra, a fim de se saber se esta profecia se deve entender em sentido universal ou restrito. A tradição porém interpreta-o no primeiro sentido. O têrmo hebraico que corresponde a cognações é misliphat, que quer dizer — família. Estas bênçãos constituem a promessa, não de bens temporais, mas de redenção do mundo. Meignam, ob. cit.
4Saiu pois Abrão de Haran, como o Senhor lhe tinha ordenado, e Ló com êle. Tinha Abrão setenta e cinco anos, quando saiu de Haran.[3]HARAN — E' esta a mesma cidade que Caran, da qual nos fala Santo Estêvão nos At, c. 7, 2-4.
5E levou consigo a Sarai, sua mulher, a Ló filho de seu irmão, e de todos os bens, que possuíam, com as pessoas, de que êles tinham aumentado as suas famílias em Haran; e saíram daqui, para irem para a terra de Canaã.
6Tendo lá chegado, atravessou Abrão êste país, até chegar ao lugar, chamado Siquém, e até o Vale Ilustre. É de saber, que o Cananeu era então Senhor da terra.[4]SIQUÉM — E' o mais belo lugar da Palestina Central, onde corre abundantíssima água, cortado por 27 rios; uma paisagem soberba, e as oliveiras cobrindo o solo com a sua copada ramagem. O Vale Ilustre, em hebreu Moré, é o vale situado entre os montes Hebal e Garizim, no coração da Palestina.
7Apareceu o Senhor a Abrão, e lhe disse: Eu darei esta terra aos teus descendentes. No mesmo lugar edificou Abrão um altar ao Senhor, que lhe tinha aparecido.
8E passando dali ao monte, que estava ao oriente de Betei, levantou nêle a sua tenda, ficando-lhe Betei ao ocidente, e Hai ao oriente. E ali edificou também um altar ao Senhor, e invocou o seu nome.[5]BETEL — E' a grande estrada que vai de nordeste a sudoeste da Palestina. Abrão ascendeu a montanha donde pôde desfrutar o panorama da Terra Santa, desde as colinas de Jericó aos montes de Moab: o vale do Jordão, as colinas da Judéia, o Hebron, e as colinas que separam a Judéia das ricas planícies de Samaria.
9Continuando Abrão o seu caminho, passou ainda mais longe para Meio-Dia.
10Mas como sobreviesse à terra uma fome, desceu Abrão ao Egito, para ficar lá como estrangeiro: porque era grande a fome na terra.
11Ao ponto que êles estavam a entrar no Egito, disse Abrão para sua mulher: Eu sei que tu és em extremo formosa;
12e que tanto que os egiptanos te virem, hão de dizer: Esta é a mulher deste homem. E matar-me-ão a mim, conservando-te a ti.
13Dize pois, te peço, que és minha irmã, para que êles me tratem bem por teu respeito, e me não tirem a vida.[6]DIZE QUE ÉS MINHA IRMÃ — Sarai era filha do mesmo pai, e por isso sua irmã. Demais, em hebreu irmã, significa também sobrinha, prima e próxima parente. S. Agostinho e outros Santos Padres desculpam-no de mentira, que de fato não houve.
14Tendo pois Abrão entrado no Egito, viram os egiptanos que aquela mulher era em extremo formosa;
15e os fidalgos o deram a saber a Faraó, e lha gabaram muito. Pelo que foi ela tirada e levada a casa de Faraó.[7]FARAÓ — E' um título, ignorando-se quem era o Faraó que reinava no Egito no tempo de Abrão.
16E êles se houveram bem com Abrão, por causa de Sarai. E êle teve um grande número de ovelhas, de bois, de jumentos, de escravos de um e outro sexo, de jumentas, e de camelos.
17O Senhor porém afligiu a Faraó, e a tôda a sua casa com grandíssimas pragas, por causa de Sarai, mulher de Abrão.
18E Faraó chamou a Abrão, e lhe disse: Por que usaste tu comigo desta sorte? Por que me não advertiste, que ela era tua mulher?
19Por que me disseste que ela era tua irmã, para que eu a não tomasse por minha mulher? Agora pois eis aí tens tua mulher; toma-a e vai-te.
20E tendo Faraó dado ordem a seus oficiais, que tivessem cuidado de Abrão, êles o conduziram até à saída do Egito, a êle e a sua mulher com tudo que tinham.