Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 40

São presos o copeiro-mor e o padeiro-mor do rei do Egito: os seus sonhos explicados por José.

1Depois disto aconteceu que dois eunucos do rei do Egito, o seu copeiro-mor, e o seu padeiro-mor, ofenderam a seu senhor.[1]DOIS EUNUCOS, ETC.As inscrições egípcias mencionam entre os dignitários da côrte um chefe para as comidas, padeiro, e um para as bebidas, copeiro. Êstes dois oficiais eram subordinados ao chefe do palácio. Pelos sonhos, que vão ler-se, sabemos quais eram as suas atribuições.

2E Faraó irado contra êstes oficiais, dos quais um presidia aos copeiros, outro aos padeiros,

3os mandou meter no cárcere do general das suas tropas, onde José estava preso;

4e o governador do cárcere os entregou a José que os servia, e tinha cuidado dêles. Era passado algum tempo, e êles continuavam sempre a estar presos.

5Uma mesma noite tiveram ambos um sonho, que sendo explicado, denotava o que havia de suceder a cada um dos dois.[2]TIVERAM AMBOS UM SONHOOs egípcios ligaram sempre a máxima importância aos sonhos; pediam aos deuses, oferecendo-lhes sacrifícios, que fôssem protegidos com êsses dons.

6Pela manhã entrou José onde êles estavam; e como os visse tristes,

7Perguntou-lhes a causa, e lhes disse: Por que motivo estais vós hoje com os semblantes mais tristonhos do que costumais?

8Êles lhe responderam: Tivemos um sonho, e não temos ninguém, que no-lo explique. Disse-lhes José: Porventura não é a Deus que pertence o dar as interpretações? Dizei-me, que é o que vós vistes?

9O copeiro-mor foi o primeiro, que contou o seu sonho. Parecia-me que via adiante de mim uma cêpa de vinha,[3]UMA CÊPA DE VINHAMuitos escritores racionalistas sustentam que o Egito não tinha vinhas, e citam Heródoto e Plutarco. E' fato que o primeiro escritor o disse, porém, em cinco lugares diversos, corrigia o seu êrro (II, 37, 60, 122, 133, 168); quanto a Plutarco, foi refutado por Diodoro, Estrabão, Plínio o Velho e Horácio. De resto os monumentos do tempo pintam a vinha, que era muito conhecida e apreciada nos tempos de José. Não só se encontram uvas e parras gravadas em muitos monumentos, mas por êles conhecemos todos os trabalhos da vindima, daqueles tempos, e daquela região.

10onde havia três varas, que cresciam pouco a pouco, lançando primeiramente os gomos, depois flores, e por fim cachos maduros;

11e que eu tendo na mão o copo de Faraó, tomei os cachos, e expremi-os no copo, que sustinha, e dei a beber dêle a Faraó.

12José lhe disse: Eis-aqui a interpretação do teu sonho. Às três varas da cêpa denotam três dias:

13depois dos quais se lembrará Faraó, do serviço, que tu lhe fazias, restituir-te-á ao teu primeiro cargo; e tu lhe apresentarás para beber o copo, segundo era o teu costume pelo ofício, que antes ocupavas.[4]O FARAÓProvàvelmente êste faraó era o Apapi 2.°, o mais célebre dos reis pastôres, que desde há muito estavam no Egito e que eram de origem semita, como José.

14O que só te peço, é que depois que te suceder esta ventura, te lembres tu de mim, e me faças o favor de suplicar a Faraó, que se digne sua majestade de me tirar da prisão em que me acho:

15porque eu fui trazido a furto da terra dos hebreus, e aqui metido no cárcere, estando inocente.

16O padeiro-mor vendo que José tinha interpretado sàbiamente êste sonho, disse-lhe: Eu também tive um sonho. Parecia-me que levava à cabeça três cêstos de farinha,

17e que naquele, que ia por cima dos outros, havia de tudo o que se pode fazer de massa para se pôr numa mesa, e que as aves vinham comer dêle.

18Respondeu José: Eis-aqui a interpretação dêste sonho. Os três cêstos denotam três dias;

19depois dos quais te mandará Faraó tirar a cabeça, e suspender-te numa cruz; e as aves do céu despedaçarão as tuas carnes.

20O terceiro dia seguinte era o dia do nascimento de Faraó, que deu um grande banquete aos seus criados, durante o qual se lembrou êle do copeiro-mor, e do padeiro-mor.[5]O DIA DO NASCIMENTO DE FARAÓAs modernas descobertas têm mostrado a rigorosa veracidade do texto sagrado. Sabemos hoje pelos monumentos que o aniversário natalício do rei era um dia de festa solene; as inscrições mencionam as graças que então eram concedidas, e no número dessas ia ou o perdão aos prisioneiros, ou então pronunciava definitivamente a condenação dos culpados.

21Um restituiu êle ao seu cargo para continuar no ofício de lhe ministrar o copo;

22outro mandou êle pendurar num patíbulo: o que verificou a interpretação, que José tinha dado aos seus sonhos.

23Entretanto o copeiro-mor, tendo outra vez entrado a ser favorecido depois da sua desgraça, esqueceu-se do seu intérprete.

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