Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 47

Chegada de Jacó, e da sua família ao Egito. Faraó lhe dá a terra de Gessen. Doença de Jacó.

1Tendo ido pois José à presença de Faraó, lhe disse: Meu pai, e meus irmãos são vindos da terra de Canaã com as suas ovelhas, seus rebanhos, e tudo o que possuem; e ei-los aí estão na terra de Gessen.

2Apresentou também ao rei cinco de seus irmãos.[1]APRESENTOU TAMBÉM AO REI CINCO DOS SEUS IRMÃOSHá uma pintura célebre do túmulo de Ben Nassan, que representa a chegada dos semitas à côrte dum governador egípcio, e que tem uma semelhança frizante com o acontecimento referido no texto sagrado.

3Os quais tendo-lhes o rei perguntado: Que é o em que vós ocupais? êles lhe responderam: Os teus servos são pastores de ovelhas, como o foram nossos pais.

4Nós viemos passar algum tempo nas tuas terras, por ser no país de Canaã tão grande a fome, que não há nêle erva para os gados de teus servos: e nós te suplicamos, que leves a bem que os teus servos habitem na terra de Gessen.

5Disse pois o rei a José: Teu pai, e teus irmãos vieram ter contigo.

6Tu tens à tua vista a terra do Egito; faze-os habitar no melhor lugar, e entrega-lhes a terra de Gessen. E se tu sabes que há entre êles homens capazes, dá-lhes a intendência dos meus rebanhos.

7Depois disto introduziu José seu pai ao rei e apresentou-lho. Jacó saudou a Faraó, e lhe significou quanto lhe desejava tôda a sorte de prosperidades.

8Tendo-lhe perguntado o rei, que anos tinha de idade,

9Jacó lhe respondeu: Há cento e trinta anos que ando feito peregrino: E êste pequeno número de anos, que não chega a igualar o dos anos de meus pais, tem sido acompanhado de muitos trabalhos.

10E depois de ter significado que desejava tôda a sorte de felicidades ao rei, saiu para fora.

11José, em consequência do mandado de Faraó, meteu a seu pai, e a seus irmãos de posse do país de Ramessés, o mais fértil do Egito.[2]RAMESSÉSMoisés chama à terra de Gessen pelo nome de Ramessés, que posteriormente teve, quando os hebreus construíram ali a cidade dêste nome, no tempo de Ramsés II, seu perseguidor. (Ex 1; 2). Estas concessões de território estavam muito nas tradições faraónicas. Vê-se por um papiro egípcio que no reinado de Meneftá, os semitas vieram da Iduméia, trazendo os seus rebanhos para as pastagens de Pa Tum, e que aí se estabeleceram com a devida permissão de Faraó. Êste Pa Tum é o Piton a que se refere o Ex 1; 2.

12E êle os sustentava com tôda a casa de seu pai, dando a cada um o que havia mister para viver.

13Porque em todo o mundo faltava pão, e a fome afligia tôda a terra; mas principalmente o Egito, e o país de Canaã.

14José ajuntando todo o dinheiro, que tinha recebido dos egípcios, e dos cananeus pelo trigo, que lhes vendera, todo o meteu no real erário.

15E como não restasse mais dinheiro a pessoa alguma para comprar trigo, todo o povo do Egito veio ter com José, dizendo-lhe: Dá-nos pão: por que nos deixas tu morrer, por falta de dinheiro?

16José lhes respondeu: Se vós não tendes dinheiro, trazei os vossos gados, e eu vos darei trigo por troca.

17Êles pois lhe trouxeram os seus gados; e José lhes deu trigo pelo preço dos seus cavalos, das suas ovelhas, dos seus bois, dos seus jumentos; e os sustentou aquêle ano pela troca dos gados.[3]PELO PREÇO DOS SEUS CAVALOSOs monumentos atestam-nos que os cavalos só foram conhecidos no Egito depois da invasão dos hicsos, pois foram êstes que os introduziram. Nos tempos de José serviam-se dêstes animais para o trabalho, carga, charruas, carros de transporte, etc., como nos asseveram os críticos de melhor nome.

18Tornaram êles a vir o outro ano, e lhe disseram: Nós não te ocultaremos, meu senhor, que por nos ter faltado o dinheiro, nos faltaram também os gados; e tu não ignoras que, exceto os nossos corpos, e as nossas terras, não temos mais nada.

19Por que havemos nós logo morrer à vista de teus olhos? Nós nos damos a ti com as nossas terras: compra-nos para escravos do rei, e dá-nos que semear; para que não suceda que a terra se torne em charneca por tu deixares perecer os que a podiam cultivar.

20Assim comprou José tôdas as terras do Egito, vendendo cada um tudo o que possuía, por causa da extremidade da fome. E desta sorte adquiriu êle para Faraó todo o Egito,

21com todos os povos, desde uma extremidade do reino até à outra;

22exceto somente as terras dos sacerdotes, que lhes tinham sido dadas pelo rei: porque a êstes se dava certa quantidade de trigo dos celeiros públicos; e por isso não foram obrigados a vender as suas terras.

23Depois disto disse José ao povo: Vós vedes que vós, e as vossas terras sois de Faraó: eu quero pois dar-vos de que semeardes, e vós semeai os vossos campos,

24para poderdes colhêr grão. Vós dareis dêle, a quinta parte ao rei, e eu vos deixarei as outras quatro para semeardes, e para sustentardes as vossas famílias, e os vossos filhos.[4]DAREIS DÊLE A QUINTA PARTE AO REITrata-se dum ato de administração pública de José. Parecerá à primeira vista, excessivo e injusto o tributo impôsto por José; não o é porém, desde que nos lembremos que o Egito estava sob a denominação do estrangeiro, e que esta medida era tomada para o interêsse de todos. Demais tornava-se necessário providenciar acêrca das inundações do Nilo, regularizando-as, para que elas pudessem contribuir para a máxima fertilidade do solo, e estas providências só as podia tomar o poder supremo. Por tudo isto se justifica o procedimento de José.

25Êles lhe responderam: A nossa salvação está nas tuas mãos: olhe somente nosso senhor para nós com olhos de comiseração, e nós serviremos alegres ao rei.

26Desde aquêle tempo até ao dia de hoje se paga em todo o Egito ao rei a quinta parte e isto como que passou em lei exceto a terra dos sacerdotes, que ficou isenta desta sujeição.

27Habitou pois Israel no Egito, isto é, na terra de Gessen, de que êle gozava como própria; e onde a sua família cresceu, e se multiplicou extraordinariamente.

28Viveu nêle dezessete anos, e todo tempo da sua vida foram cento e quarenta e sete anos.

29Como êle visse que se vinha chegando o dia da sua morte, chamou a seu filho José, e lhe disse: Se eu achei graça diante de ti, põe a tua mão por baixo da minha coxa; e faze-me o favor de me prometeres com verdade, que me não hás de sepultar no Egito;[5]PÕE A TUA MÃO DEBAIXO DA MINHA COXAÉ uma fórmula de juramento, e que parece significar que a promessa será cumprida não só por aquêle que a faz, como pela sua posteridade.

30mas que eu hei de descansar com meus pais, e que tu me hás de transportar desta terra, e me hás de repor no jazigo de meus antepassados. José lhe respondeu: Eu farei o que tu me mandaste.

31Pois jura-mo, disse Jacó. E ao tempo que José lhe jurava, adorou Israel a Deus, voltado para a cabeceira do leito.[6]VOLTADO PARA A CABECEIRA DO LEITONa versão dos Setenta, lê-se sôbre o alto do seu ceptro. S. Paulo (Ep. Hebr 11, 21) adota esta interpretação. Isto é uma expressão egípcia que se encontra nas inscrições. Da parte de Jacó êste seu procedimento é um ato de homenagem prestado à alta dignidade em que seu filho se achava constituído, na terra do Egito.

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