Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 49

Últimas palavras de Jacó. Prediz a cada um de seus filhos o que lhe há de acontecer. Morre enfim.

1Ora Jacó chamou seus filhos, e lhes disse: Ajuntai-vos todos, para que eu vos anuncie o que tem de vos acontecer nos últimos tempos.[1]NOS ÚLTIMOS TEMPOSTôda esta pericopa do Gênesis, contida neste capítulo compreende a profecia de Jacó, o pai das doze tribos de Israel. As palavras dêste Patriarca da Antiga Lei são a um tempo uma bênção e uma profecia, e por isso mesmo constituem um dos fragmentos mais importantes dos Livros Santos. Em todo êste capítulo revela-se todo o sentimento religioso de Jacó e a beleza da sua alma. PARA QUE EU VOS ANUNCIE — Jacó vai falar da divisão da terra prometida.

2Vinde todos juntos, e ouvi, ó filhos de Jacó, ouvi a Israel vosso pai.

3Rúben, meu primogénito, tu és tôda a minha força, e a principal causa da minha dor, o primeiro nos dons, e o maior no império.[2]MAIOR NO IMPÉRIOAlusão ao direito de progenitura.

4Tu te derramaste como água; não cresças: porque tu subiste ao leito de teu pai, e manchaste a sua cama.[3]TU TE DERRAMASTE COMO ÁGUARúben tinha perdido os direitos de primogenitura. O principado, a dignidade messiânica, o sacerdócio, a herança dupla tinham sido transferidos para Judá, Levi e José. Debalde quiseram posteriormente fazer vingar êsses direitos Datan e Abiron, descendentes de Rúben (Núm 16, 1). Os rubenitas formaram uma tribo pouco importante, nômada, sem estabilidade, nem prestígio (Dt. 34, 1-31).

5Simeão, e Levi, irmãos, instrumentos duma carniçaria cheia de injustiça.

6Não permita Deus, que a minha alma tenha alguma parte nos seus conselhos, e que a minha glória dependa de eu me coligar com êles: porque êles assinalaram o seu furor, matando homens; e assinalaram a sua vontade, destruindo muralhas.

7Maldito o seu furor, porque obstinado; e maldita a sua ira, porque inflexível: eu os dividirei em Jacó, e eu os espalharei em Israel.[4]EU OS DIVIDIREI EM JACÓLevi e Simeão foram efetivamente separados em Israel. Levi não teve parte na divisão da Terra Prometida. Simeão não prosperou, teve a árida Negele, ao sul da Palestina, e algumas cidades, disseminadas nas tribos de Judá.

8Judá, teus irmãos te louvarão: a tua mão subjugará as cervizes de teus inimigos; os filhos de teu pai te adorarão.

9Judá é como um leão ainda novo. Tu te levantaste, meu filho, para roubares a prêsa; e quando descansavas estiveste deitado como um leão, e uma leoa: Quem se atreverá a despertá-lo?[5]JUDÁ É COMO UM LEÃO AINDA NOVOA expressão hebraica original gur arie, correspondente a Catulus leonis, indica um leão que ainda não é capaz de agarrar a sua prêsa, e por isso os comentadores dizem que Jacó queria indicar a força que no futuro teria Judá. Serão precisos séculos para que Judá seja como o Leão terrível. Il faudra des siècles pour que Juda devienne un lion et une lionne. Meignan, Les propheties messianiques.

10Não se tirará o ceptro de Judá, nem o príncipe, que proceda dêle, até que venha aquêle que deve ser enviado. E êste será a expectação das gentes.[6]NÃO SE TIRARÁ O CEPTROÉ esta a estrofe mais importante de todo êste trecho poético, que estamos anotando. O que se deve entender por ceptro, shebek em hebreu? Tôdas as versões concordam na idéia fundamental ligada a esta palavra, e que é a de — poderio — Na versão dos Setenta encontra-se a palavra akros; na versão de Symmaco está elousia; na de Onkelos lê-se habens principatum e socorrendo-nos, para melhor interpretação do texto, dos comentários hebraicos, encontramos no Targum de Jonathan e no de Jerusalém, malkim, equivalente a reges, reis. Tôdas estas traduções são variantes da mesma idéia. Trata-se pois aqui dum poder supremo, duma autoridade real permanente em Judá e, em uma palavra, duma dinastia. Por conseguinte a primeira parte da profecia consiste em prenunciar a soberania de Judá, soberania que começou em Davi, quando Judá deixou de ser jovem leão, e foi até a uns anos antes de Cristo, Stolberg Hist. de la Réligion, 1.° vol., p. 243, advertindo-se, porém, que, já muito antes de Davi a tribo de Judá gozava privilégios de preeminência e uma espécie de principado. Meignan, ob. cit. O ceptro usado naqueles tempos era um bastão alto, que o Rei empunhava nas assembléias públicas. Nas ruínas de Persépolis está representado o Rei Davi, filho de Histarpe, com ceptro. NEM O PRÍNCIPE — A vulgata traduziu por dux, príncipe, a palavra hebraica Mehokek. Para bem compreendermos o texto é conveniente atender à origem da palavra empregada. Esta deriva do verbo linkak, que significa regular, dar leis; portanto mehokek deve significar o legislador, o que é inerente ao poder supremo, antes profetizado. QUE PROCEDE DÊLE — Assim traduziu o padre Pereira a vulgata De femore ejus. No hebreu está Miben raghelau, o que à letra "será dentre os pés de Judá"; locução poética que significa que o legislador não se retirará de Judá. Êste trecho está escrito em verso; a nota característica da poesia hebraica é o paralelismo, isto é, a correspondência de idéias, o que justifica a tradução: "O ceptro não sairá de Judá, o legislador não se retirará de Judá". Cfr. Meignan, ob. cit. ATÉ QUE VENHA — A vulgata traduziu por donec o hebreu had-ki. Várias e contraditórias são as interpretações dadas a esta conjunção. Entendem uns que exprime um têrmo final, e que Jacó por esta expressão indicava o fim da supremacia de Judá, e que perdida esta nasceria o Messias, vendo nesta passagem uma nota messiânica, isto é, um dado profético para o nascimento do Messias. O mundo seria redimido, o Salvador prometido e desejado viria ao mundo, numa data que coincidiria com a perda da soberania de Judá. Desta opinião é o sr. dr. Bernardo Madureira, ob. cit. Outros, e não menos ortodoxos, como o padre Meignan, entendem que esta expressão "até que" had-ki, não supõe um têrmo final, traduzem desta forma: "A tribo de Judá não cessará de possuir o ceptro, quando aparecer o que deve vir." e citam o texto Etnon (Josefo) cognoscebat cam (Mariam) donec peperit filium suum primogenitum. Meignan alega as seguintes razões: "1.ª Não era conforme a uma profecia de tanta grandeza a predição da perda do ceptro. 2.ª Jacó segue os passos de Abraão e Isaac; transmite, como êles, a seus filhos a bênção, mas não lhes determina a época, nem lhes anuncia quando termina o seu benéfico efeito. 3.ª A opinião contrária estabelece uma oposição entre Judá e o Messias; quando um cai, ergue-se o outro; ora Judá é a figura de Cristo, e Cristo a personificação mais perfeita de Judá, e conclui dizendo: não foi Judá que perdeu o ceptro, foram os judeus incrédulos, que perderam ao mesmo tempo a dominação religiosa e o poder político. Judá verdadeiro, manteve o seu poder, o seu reino não terá fim, e contra êle não prevalecerão as portas do inferno; é Jesus Cristo e a sua Igreja." Ob. cit. pg. 403 e 404. AQUÊLE QUE DEVE SER ENVIADO — O hebreu diz Schiloh. Com razão escreve o Padre Pereira, em nota: "Vocábulo sobremaneira embaraçado, e que dá muito que fazer aos comentadores. Calmet chama-lhe a cruz dos intérpretes. Disputaram muito sôbre a origem desta palavra, quiseram fazer derivá-la de shala, pacificar; outros de enviar, etc. Esta questão, porém, perdeu oportunidade e hoje está fora de discussão, pois está averiguado que Schiloh não é uma palavra, mas a primeira sílaba, o vestígio do relativo hebraico asher-que, simplificação usada freqüentemente na poesia hebraica, com a partícula ló, isto é, o sinal do dativo, e o pronome masculino da terceira pessoa do singular, o que corresponde ao latim quodei, que concorda com a versão siríaca Is cujus illudest, que S. Efrem explica e completa até que venha aquêle de quem é o ceptro. É a opinião do sr. dr. Madureira e de Vigouroux, embora não concordem com ela Meignan, Reinke, Heugstemberg e outros. No que, porém, todos os teólogos católicos, sem exceção, estão de acôrdo, é em que esta expressão se refere ao Messias. E ÊSTE SERÁ A EXPECTAÇÃO DAS GENTES — No hebreu está iqhat hamim. A palavra iqhat significa obediência, e com esta significação nos aparece no Salmo 30, 17. A versão de Onkelos diz: et ei obediunt populi "e a êle obedecem os povos". A causa do êrro da tradução está na confusão das duas raízes iakah e kahali, graficamente confundíveis, mormente em textos manuscritos. O que está no original dever-se-á traduzir — os povos lhe obedecerão. Cfr. Meignan, ob. cit.

11Êle atará o seu jumentinho à vinha; atará, filho meu, a sua jumenta à videira; lavará a sua túnica no vinho, e a sua capa no sangue da uva.

12Os seus olhos são mais formosos do que o vinho, e os seus dentes mais brancos do que o leite.

13Zabulon habitará nas ribeiras do mar, e perto do pôrto dos navios, estendendo-se até Sidônia.

14Issacar, como um asno forte, e duro para o trabalho, contém-se dentro dos limites da sua repartição.

15E vendo que o descanso é bom, e que a sua terra é excelente, submeteu os seus ombros ao pêso, e sujeitou-se a pagar tributos.

16Dan julgará o seu povo, bem como as outras tribos de Israel.

17Venha a ser Dan como uma cobra no caminho, como uma cerastes na vereda, que morde a unha do cavalo, para o que vai montado nêle cair para trás.[7]UMA CERASTESÉ uma serpente com uns apêndices na fronte; é côr de terra, oculta-se, como a víbora, debaixo de pedras, morde sem ser vista. Em muitos hieróglifos egípcios aparece. O sentido do texto é êste: Dan suprirá com a astúcia o que lhe falta em valor. Vigouroux, ob. cit.

18Senhor, eu esperarei a salvação, que tu hás de enviar.[8]SENHOR EU ESPERAREI A SALVAÇÃOÉ uma exclamação com que Jacó interrompe o seu discurso: a salvação é o Messias. E é também o estilo dum profeta que à beira do túmulo vê o futuro da sua descendência.

19Gad pelejará armado na frente de Israel, e depois tornará a vir coberto das suas armas.

20O pão de Aser será excelente e os reis acharão nêle as suas delícias.

21Neftali será como um veado, que se escapule; e derramar-se-á a graça sôbre as suas palavras.

22José vai sempre crescendo, e vai sempre aumentando-se: o seu rosto é formoso, e agradável: e as moças discorrerão por cima do muro.

23Mas os que estavam armados de dardos, o picaram, e tiveram rixas com êle, e lhe cobraram uma inveja mortal.

24O seu arco teve-se no forte; e as prisões dos seus braços, e das suas mãos foram rôtas pela mão do Todo Poderoso de Jacó: e dali saiu êle para ser o pastor, e a fôrça de Israel.

25O Deus de teu pai será a tua ajuda; e o Todo Poderoso te cumulará das bênçãos de lá de cima do céu; das bênçãos do abismo das águas de cá debaixo; das bênçãos dos peitos, e do seio.

26As bênçãos, que teu pai te dá, excedem as que êle recebeu de seus maiores: e elas durarão até que seja cumprido o desejo dos outeiros eternos. Derramem-se estas bênçãos sôbre a cabeça de José, e sôbre o alto da cabeça daquele, que é como um Nazareno entre seus irmãos.

27Benjamim será como um lôbo arrebatador; êle pela manhã devorará a prêsa, e à tarde repartirá os despojos.[9]BENJAMIM SERÁ COMO UM LÔBOFala em sentido metafórico, querendo significar a fôrça que deveriam ter os filhos de Benjamim. Benjamitas eram Saul, Jônatas, Ester, Mardoqueu, S. Paulo.

28Êstes são os cabeças das doze tribos. Assim é que lhes falou seu pai, e êle abençoou a cada um dêles, dando-lhes as bênçãos, que lhes eram próprias.

29Deu-lhes também esta ordem, e lhes disse: Eu vou unir-me ao meu povo: Sepultai-me com meus pais na cova dobrada, que está no campo de Efron heteu,

30que olha para Mambre no país de Canaã, e que Abraão comprou a Efron heteu com todo o campo, onde ela está, para ter nela o seu jazigo.

31Ali é que sepultaram a Abraão, e a Sara sua mulher: ali é também onde foi sepultado Isaac com a sua mulher Rebeca; e ali jaz também enterrada Lia.

32Acabadas estas ordens, e instruções, que deu a seus filhos, ajuntou Jacó os seus pés sôbre o leito, e morreu, e foi-se unir ao seu povo.

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