Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 11

Construção da tôrre de Babel. Confusão das línguas. Genealogia de Sem por Arfaxad até Abraão.

1Ora, na terra não havia senão uma mesma língua e um mesmo modo de falar.

2E os homens tendo partido do Oriente, acharam um campo na terra de Senaar, e habitaram nele.[1]SENAARE' êrro supor-se que a Bíblia positivamente afirme que a humanidade tôda estava reunida no vale de Senaar. Nada há, no texto que autorize tal suposição. O que se afirma no versículo primeiro é que todos aquêles povos tinham uma só linguagem, que outra não é a fôrça do têrmo hebraico shaphah, que a vulgata traduziu por lábio, o que é muito diverso de dizer que todos os homens habitavam um só lugar, pois todos sabem que uma mesma língua pode ser falada por indivíduos que habitam lugares muito afastados, como sucede entre nós com o português que é falado no Brasil, na África e na Ásia, etc. Bem sabemos que no original hebraico encontra-se tôda a terra, mas já atrás se mostrou o valor restritivo desta frase, que não indica a universalidade, mas uma região, como se vê no Gen 21, 32 Rut 1, 7, o até um simples campo, como no Gen 23, 15, de sorte que devemos entender por esta expressão apenas o país habitado por aquela massa de gente, que o olhava como o seu berço e donde partia para o ocidente. Esta opinião não é nova; sustentaram-na o Cardeal Caetano e Bomfrere, e é modernamente seguida por Delattre (Leplan de la genese) Revue des questions historiques; Vigouroux (Manuel Biblique) e Harle, etc. Foi em Senaar que foi fundada a Babilónia.

3E disseram uns para os outros: Vinde, façamos ladrilhos e cozamo-los no fogo. Serviram-se pois de ladrilhos por pedras, e de betume por cal traçada.

4E disseram entre si: Vinde, façamos para nós uma cidade, e uma tôrre, cujo cume chegue até ao céu; e façamos célebre o nosso nome, antes que nos espalhemos por tôda a terra.

5O Senhor porém desceu, para ver a cidade, e a tôrre, que os filhos de Adão edificavam, e disse:

6Eis-aqui um povo, que não tem senão uma mesma linguagem; e uma vez que êles começaram esta obra, não hão de desistir do seu intento, a menos que o não tenham de todo executado.

7Vinde pois, desçamos, e ponhamos nas suas línguas tal confusão, que êles se não entendam uns aos outros.[2]DESÇAMOSEstas palavras do texto a que acabamos de nos referir, segundo o sr. Doutor Vasconcelos, devem ser interpretadas da seguinte maneira: "Deus vendo os projetos desta gente e não convindo aos seus planos sapientíssimos que êsses projetos se realizem, obsta depois de começada a obra, à que continue e faz que um povo se divida em grupos, que partem a colonizar várias terras". O fim desta dispersão é providencial, pois é para obstar à corrupção na linha patriarcal, que devia dar origem ao povo de Deus, e do qual, quando chegasse a plenitude dos tempos, devia nascer o Messias. Motais, Le deluge biblique, pág. 240.

8Desta maneira é que o Senhor os espalhou daquele lugar para todos os países da terra, e que êles cessaram de edificar esta cidade.

9E por esta razão é que lhe foi pôsto o nome de Babel, porque nela é que sucedeu a confusão de tôdas as línguas do mundo. E dali os espalhou o Senhor por tôdas as regiões.[3]E DALI OS ESPALHOU O SENHORE assim se cumpriu a vontade divina. Pouco tempo depois só restava em Senaar um pequeno grupo de pessoas que quiseram comemorar tão imprevisto fato, tomando o nome de Feleg (V. 18), que significa dispersão, que sem ser pròpriamente um castigo, foi uma medida sapientíssima da Onipotência divina na realização do plano redentor da humanidade. E assim a Bíblia e a linguística se harmonizam a respeito da unidade primitiva da linguagem, e da sua natural pluralização, porquanto a confusão a que alude o texto se refere ao seu modo de pensar e sentir, visto que a regularidade de emigração tira tôda a idéia da confusão repentina das línguas. Dispersas as famílias, é para crer, porque é perfeitamente natural, que para logo começasse a diferenciação dialetal a manifestar-se na linguagem, do que em breve resultaram as diversidades de línguas, o que satisfaz aqueles que pretendam interpretar o texto no sentido literal, e o que justifica o nome de Babel dado à tôrre, porque dessa dispersão resultou a confusão das idéias, e a pluralização das línguas. E assim — Bíblia e linguística, que Witte reputa irreconciliáveis, La lutte de la Science avec la theologie, 1900, em nada se hostilizam. E' mais um caso que comprova o que disse o Concílio do Vaticano — Nulla unquam inter fidem et rationem vera dissensio potest.

10Eis-aqui a genealogia dos filhos de Sem. Sem tinha cem anos, quando gerou a Arfaxad, dois anos depois do Dilúvio.

11E depois do nascimento de Arfaxad, viveu ainda Sem quinhentos anos, e gerou filhos e filhas.

12Arfaxad, tendo trinta e cinco anos gerou a Sala.

13E depois que gerou a Sala viveu ainda Arfaxad trezentos e três anos, e gerou filhos e filhas.

14Sala tendo trinta anos gerou a Heber.

15E depois que gerou a Heber viveu ainda quatrocentos e três anos, e gerou filhos e filhas.

16Heber tendo trinta e quatro anos gerou a Feleg.

17E depois do nascimento de Feleg viveu ainda quatrocentos e trinta anos, e gerou filhos e filhas.

18Feleg tendo trinta anos gerou a Reu.

19E depois do nascimento de Reu viveu ainda duzentos e nove anos, e gerou filhos e filhas.

20Reu tendo trinta e dois anos gerou a Sarug.

21E depois do nascimento de Sarug viveu ainda duzentos e sete anos, e gerou filhos e filhas.

22Sarug tendo trinta anos gerou a Nacor.

23E depois do nascimento de Nacor viveu ainda duzentos anos, e gerou filhos e filhas.

24Nacor tendo vinte e nove anos gerou a Tara.

25E depois do nascimento de Tara viveu ainda cento e dezenove anos, e gerou filhos e filhas.

26Tara tendo setenta anos gerou a Abrão, a Nacor, e a Arão.

27Eis-aqui a genealogia de Tara. Tara gerou a Abrão, a Nacor e a Arão. Arão gerou a Ló.

28Ora, Arão morreu antes de seu pai Tara, na terra do seu nascimento, em Ur dos caldeus.

29Abrão, e Nacor casaram. A mulher de Abrão chamava-se Sarai, a de Nacor chamava-se Melca. Ela era filha de Arão, que foi pai de Melca, e pai de Jesca.

30Sarai porém era estéril, e não tinha filhos.

31Tomou pois Tara a seu filho Abrão, e a Ló seu neto, filho de Arão, e a Sarai sua nora, mulher de Abrão, e fê-los sair de Ur dos caldeus, para os levar ao país de Canaã; e como tivessem chegado a Haran, ficaram morando aí.

32E Tara tendo vivido ao todo duzentos e cinco anos, morreu em Haran.

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