Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 30

Nascimento de Dan e de Neftali, filhos de Bala, escrava de Raquel: e de Gad, e de Aser filhos de Zelfa, escrava de Lia. Rúben traz umas mandrágoras a Lia. Nascimento de Issacar, de Zabulon e de Dina, filhos de Lia. Raquel tem enfim a José. Jacó quer tornar para a Palestina. Compõe-se com Labão.

1Ora Raquel vendo que ela era infecunda, teve inveja a sua irmã, e disse a seu marido: Dá-me filhos senão morrerei.[1]SENÃO MORREREIS. João Crisóstomo entende que há aqui uma ameaça de suicídio. Não nos parece. Raquel tem mêdo de morrer de tristeza e de vergonha.

2Jacó enfadado dêste modo de falar, respondeu-lhe: Acaso tens-me tu por Deus, para cuidares que eu sou quem te privei do fruto do teu ventre?

3Mas Raquel prosseguiu: Eu tenho minha criada Bala: entra tu a ela, para que ela me dê filhos, e eu os apare sôbre os meus joelhos.

4Deu-lhe pois a Bala por mulher.

5E tendo Jacó entrado a ela concebeu Bala e pariu um filho.

6Então disse Raquel: O Senhor julgou a meu favor, e ouviu a minha voz, dando-me um filho: por isso o chamou ela Dan.

7Concebeu Bala segunda vez, e pariu um filho,

8em cujo nascimento disse Raquel estas palavras: O Senhor me fêz entrar em competência com minha irmã, e eu prevaleci: por isso ela o chamou Neftali.

9Lia vendo que ela tinha cessado de ter filhos, deu também a seu marido Zelfa sua escrava.[2]LIA DEU A SEU MARIDO ZELFAE' a quarta esposa de Jacó, que foi assim arrastado à poligamia; primeiro a astúcia de Labão, depois a inveja e as rivalidades de Lia e Raquel.

10a qual concebeu, e deu à luz um filho.

11E Lia disse: Que felicidade! por isso o chamou Gad.

12E teve Zelfa ainda outro filho,

13e Lia disse: Isto é para felicidade minha: Porque as mulheres me chamarão ditosa. Por isso lhe pôs o nome de Aser.

14Ora Rúben tendo saído ao campo em tempo da ceifa do trigo, achou umas mandrágoras, as quais trouxe a Lia sua mãe. E Raquel disse a Lia: Dá-me as mandrágoras de teu filho.

15Porém Lia lhe respondeu: Acaso parece-te pouco teres-me tu roubado meu marido, para ainda em cima quereres tirar-me as mandrágoras de meu filho? Raquel lhe disse: A mim não se me dá que êle durma esta noite contigo, contanto que tu me dês essas mandrágoras de teu filho.

16Foi Lia pois encontrar-se com Jacó, quando êle sôbre a tarde voltava do campo, e lhe disse: Tu serás comigo: Porque eu te comprei, dando a minha irmã as mandrágoras de meu filho. E Jacó dormiu aquela noite com ela.

17E Deus ouviu os seus rogos: E ela concebeu, e teve um quinto filho, e disse:

18Deus me recompensou, por eu ter dado a minha escrava a meu marido. E pôs a êste filho o nome de Issacar.

19Concebeu ainda Lia, e nasceu um sexto filho, e disse:

20Deus me deu um excelente dote. Meu marido será comigo ainda esta vez, porque eu lhe dei seis filhos: e ela o chamou Zabulon.

21Depois deste filho deu à luz uma filha chamada Dina.

22Ora o Senhor se lembrou também de Raquel: ouviu-a, e deu-lhe virtude de conceber.

23Concebeu ela pois, e pariu um filho, dizendo: Tirou Deus o meu opróbrio.

24E ela pôs a seu filho o nome de José, dizendo: O Senhor me dê outro filho.

25Depois do nascimento de José disse Jacó a seu sogro: Deixa-me tornar para a minha pátria, e para a terra onde nasci.

26Dá-me as minhas mulheres, e os meus filhos, pelos quais eu te tenho servido, para me ir daqui. Tu sabes a servidão, com que te servi.

27Labão lhe respondeu: Ache eu graça diante de teus olhos. Eu tenho experiência que Deus me abençoou por causa de ti.

28Aponta-me que paga é a que queres de mim.

29Disse-lhe Jacó: Tu sabes de que modo eu te servi, e quanto os teus bens se aumentaram nas minhas mãos.

30Tu tinhas pouco, antes que eu viesse para ti; agora, estás rico. Deus te abençoou tanto que eu entrei em tua casa. E' justo que enfim cuide eu também em estabelecer a minha.

31Disse-lhe Labão: Que queres tu que eu te dê? Jacó lhe respondeu: Eu não quero pedir nada. Mas eu obrigo-me a continuar a guardar os teus rebanhos, se tu quiseres fazer o que te direi.

32Faze revista de todos os teus rebanhos e põe à parte tôdas as tuas ovelhas de velo malhado, e de diversas côres. E tudo o que nascer escuro, malhado e vário, tanto nas ovelhas, como nas cabras, será a minha recompensa.

33E quando chegar o tempo de fazer esta separação, segundo o nosso ajuste, a minha inocência me dará testemunho diante de ti. E tudo o que não fôr malhado, de diversas côres, ou dum escuro misturado com o branco, assim nas ovelhas, como nas cabras, me convencerá de furto.

34Labão lhe respondeu: Eu venho no que tu me propões.

35E no mesmo dia separou Labão as cabras e as ovelhas, os bodes, e os carneiros, que eram malhados e de diversas côres: e deu a guardar a seus filhos todos os rebanhos, que eram duma só côr; isto é, que eram ou todos brancos, ou todos negros,

36E pôs o espaço de três jornadas de caminho entre si, e seu genro, o qual apascentava os outros rebanhos.

37Jacó pois tomando umas varas verdes de choupo, de amendoeira, e de plátano, tirou-lhes parte da casca: com o que os lugares, de que se tinha tirado a casca, apareceram brancos; e os que se tinham deixado com ela, ficaram verdes; o que causou nas varas uma variedade de côres.

38Depois pô-las nos canos, onde se lançava água: para que vindo ali beber os rebanhos, tivessem êles estas varas diante dos olhos, e concebessem olhando para elas.

39Com efeito sucedeu, que estando as ovelhas no fervor do coito, e olhando para estas varas, conceberam uns cordeiros malhados, vários, e de diversas côres.[3]CONCEBERAM UNS CORDEIROS MALHADOSTrata-se dum milagre ou dum fenômeno natural? Jacó atribui à proteção divina o sucesso do meio que empregou, mas o texto não diz formalmente que houve milagre; parece apresentar o uso de varas descortiçadas como um segredo natural que produziu o seu efeito sem prodígio especial. Os Santos Padres divergem. Uns consideram êste fato miraculoso, outros como pertencendo à ordem natural, conforme entendem S. Agostinho e S. Isidoro de Sevilha.

40Dividiu Jacó o seu rebanho, e pôs estas varas nos canos diante dos olhos dos carneiros. E feito isto, estando separados os rebanhos, o que era todo branco, ou todo negro, pertencia a Labão; o resto era de Jacó.

41Quando pois as ovelhas haviam de conceber na primavera, punha Jacó estas varas nos canos, onde se lançava água, diante dos olhos dos carneiros, e das ovelhas, para que elas concebessem olhando para as varas.

42Mas quando elas haviam de conceber no outono, não lhas punha diante. Assim o que fôra concebido no outono, foi para Labão: e o que concebido na primavera, para Jacó.

43Desta sorte veio Jacó a ser sobremaneira rico: Teve muitos rebanhos, um grande número de escravos, e de escravas, camelos, e jumentos.

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