Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 3

Tentação de Eva pela serpente. Queda de Eva e de Adão. A serpente amaldiçoada. O primeiro homem condenado é lançado fora do paraíso.

1É de saber que a serpente era o mais astuto de todos os animais da terra, que Deus tinha feito: e ela disse à mulher: Por que vos proibiu Deus que não comêsseis do fruto de tôdas as árvores do paraíso?[1]SERPENTEA serpente foi o demónio sob aquela figura para assim tentar Eva. "Como os anjos conversavam com os homens, — escreve Bossuet nas Elevations, — Eva não se surpreendeu, nem estranhou tão singular aparição". Foi escolhida a forma da serpente, por causa da astúcia dêste réptil: "Ela sabe, diz Chateaubriand, à maneira do homem manchado com sinais de homicida, despir a pele maculada de sangue, com mêdo que a conheçam" (Genie du Christianisme). Os livros sagrados da Pérsia confirmam esta passagem do sagrado texto. Arimã, sob a forma de serpente, lança-se na terra para destruir os homens, como se lê no notável livro indu Zend Avesta.

2Respondeu-lhe a mulher: Nós comemos dos frutos das árvores, que há no paraíso.

3Mas do fruto da árvore, que está no meio do paraíso, Deus nos proibiu não comêssemos, nem a tocássemos, sob pena de morrermos.

4Mas a serpente disse à mulher: Bem podeis estar seguros que não haveis de morrer:

5porque Deus sabe que tanto que vós comerdes desse fruto, se abrirão vossos olhos; e vós sereis como uns deuses pelo conhecimento, que tereis do bem e do mal.

6A mulher, pois, vendo que o fruto daquela árvore era bom para se comer, e era formoso, e agradável à vista, tomou dele, e comeu, e deu a seu marido, que comeu do mesmo fruto como ela.

7No mesmo ponto se lhes abriram os olhos, e ambos conheceram que estavam nus; e tendo cosido umas com outras, umas folhas de figueira, fizeram delas umas cintas.

8E Adão, e sua mulher, como tivessem ouvido a voz do Senhor Deus, que andava pelo paraíso, ao tempo que se levantava a viração depois do meio-dia, se esconderam da face do Senhor Deus entre as árvores do paraíso.

9E o Senhor Deus chamou por Adão, e lhe disse: Onde estás?

10Respondeu-lhe Adão: Como ouvi a tua voz no paraíso, e estava nu, tive medo e escondi-me.

11Disse-lhe Deus: Donde soubeste tu que estavas nu, se não porque comeste do fruto da árvore, de que tinha ordenado que não comesses?

12Respondeu Adão: A mulher que tu me deste por companheira, deu-me desse fruto, e eu comi dêle.

13E o Senhor Deus disse para a mulher: Por que fizeste tu isto? Respondeu ela: A serpente me enganou, e eu comi.

14E o Senhor Deus disse à serpente: Pois que tu assim o fizeste, tu és maldita entre todos os animais e bestas da terra: tu andarás de rôjo sôbre o teu ventre, e comerás terra todos os dias da tua vida.

15Eu porei inimizades entre ti, e a mulher; entre a tua posteridade e a sua dela. Ela te pisará a cabeça e tu procurarás mordê-la no calcanhar.[2]POREI INIMIZADESContém êste versículo a primeira profecia messiânica, a que os Santos Padres chamam Proto Evangelho, e com sobeja razão, porque é êste o primeiro anúncio da boa nova da redenção dos homens. E' de advertir que a tradução da Vulgata não concorda com o original hebreu. A tradução diz Ela te pisará a cabeça, quando o original diz êle, conforme se vê em tôdas as paráfrases caldaicas, versões de Onkelos, as siríacas, a copta, a arménia, e o texto samaritano. Que êste texto se refere ao Messias, e que a mulher de quem Êste provirá é a Virgem, dizem-no os concludentes textos de todos os Doutores e Santos Padres das Igrejas Latina e Grega, verdadeiros representantes da fé nos primeiros séculos. Os esforços dos modernos racionalistas Eichorn, Less, Dath, Hufnazel Strauss, etc., longe de surtirem efeito põem mais em relêvo a realidade do Proto Evangelho, resplandecendo, com tôdas as luzes, por entre as brilhantes refutações dos apologetas insignes e de altíssimo valor, como Meignam, Reinke, etc.

16Disse também à mulher: Eu multiplicarei os trabalhos dos teus partos. Tu parirás teus filhos em dor, e estarás debaixo do poder de teu marido, e êle te dominará.

17A Adão porém disse: Pois que tu deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste do fruto da árvore, de que eu te tinha ordenado que não comesses; a terra será maldita por causa da tua obra: tu tirarás dela o teu sustento à fôrça de trabalho.

18Ela te produzirá espinhos e abrolhos: e tu terás por sustento as ervas da terra.

19Tu comerás o teu pão no suor do teu rosto, até que te tornes na terra, de que fôste formado. Porque tu és pó, e em pó te hás de tornar.

20E Adão pôs à sua mulher o nome de Eva, por causa de que ela havia de ser a mãe de todos os viventes.

21Fêz também o Senhor Deus a Adão, e a sua mulher, umas túnicas de peles, e os vestiu com elas.

22E disse: Eis-aqui está feito Adão como um de nós, conhecendo o bem, e o mal. Mas agora, para que não suceda que êle lance a mão, e tome do fruto da árvore da vida e coma dêle, e viva eternamente;

23o Senhor Deus o pôs fora do paraíso; para que cultivasse a terra, de que tinha sido formado.

24E depois que o deitou fora do paraíso, pôs diante dêste lugar de delícias a um querubim com uma espada cintilante e versátil, para guardar a entrada da árvore da vida.[3]QUERUBIMAlguns dos escritores alemães, querem ver neste Querubim apenas um símbolo, uma imagem sem realidade; porém, o texto não autoriza a tirar esta conclusão. Últimamente nas ruínas de Nínive e de Persépolis foi encontrado um alto relêvo com a imagem do Querubim bíblico, em figura humana, com quatro asas, o que demonstra vestígios duma primitiva tradição. Não sabemos o que tornava a espada cintilante. (Vigouroux).

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