Capítulo 9
1E Deus abençoou a Noé e seus filhos, e disse-lhes: Crescei e multiplicai-vos e enchei a terra.
2Temam e tremam em vossa presença todos os animais da terra, tôdas as aves do céu, e tudo o que tem vida e movimento na terra. Em vossas mãos pus todos os peixes do mar.
3Sustentai-vos de tudo o que tem vida, e movimento: eu vos deixei tôdas estas coisas quase como os legumes e ervas.
4Excetuo-vos somente a carne misturada com sangue, da qual eu vos defendo que não comais.
5Porque eu tomarei vingança de todos os animais, que tiverem derramado o vosso sangue; e vingarei a vida do homem da mão do homem, que lha tiver tirado, ou êle seja seu irmão, ou seja qualquer estranho.
6Todo o que derrama o sangue humano será castigado com a efusão do seu próprio sangue. Porque o homem foi feito à imagem de Deus.
7Vós porém crescei e multiplicai-vos sôbre a terra, e enchei-a.
8Disse também Deus a Noé e a seus filhos com êle:
9Eis vou eu a fazer um concerto convosco, e com a vossa posteridade depois de vós.
10e com todos os animais, que estão convosco; tanto aves, como animais domésticos, e bêstas feras do campo; com todos os que saíram da arca e com tôdas as bêstas da terra.
11Vou a fazer um concerto convosco, e não tornarei mais a fazer morrer pelas águas do dilúvio todos os animais; nem daqui em diante haverá mais dilúvio que assole a terra.
12E disse Deus: Eis aqui o sinal do concerto, que eu vou fazer convosco, e com tôda a alma vivente que está convosco, em todo o decurso das gerações futuras para sempre.
13Eu porei o meu arco nas nuvens, e êle será o sinal do concerto, que persiste entre mim e a terra.[1]ARCO-ÍRIS — É sabido que êsse fenômeno é um efeito natural que se deveria produzir sempre que os raios solares atravessassem as nuvens das quais caísse a água. Como é pois que um fenômeno tão natural passava a ser o sinal do concêrto de Deus com os homens? Os exegetas modernos, como Vigouroux e outros, começam por dizer que no hebreu está o pretérito, e não o futuro da vulgata, e que os setenta verteram pelo presente, o que dá ao texto um sentido diverso. Além disso, do texto não se pode inferir que antes do dilúvio não tivesse aparecido o arco-íris, mas, adverte o Padre Granelh, citado por Vigouroux, que embora Noé o tivesse visto muitas vêzes, depois do dilúvio era a primeira vez que o via, e assim era um sinal bem escolhido para assegurar a paz de Deus com os homens, da mesma sorte que uma pedra e uma coluna, embora anteriormente existentes, vieram a ser um sinal de concêrto entre Jacó e Labão. Cfr. Calmet, e Pianciani.
14E quando eu tiver coberto o céu de nuvens, aparecerá o meu arco nas nuvens.
15E eu me lembrarei do concerto, que fiz convosco, e com tôda a alma, que vive e que anima a sua carne. E não tornará mais a haver dilúvio, que faça perecer nas águas tôda a carne.
16E o meu arco estará nas nuvens: e eu vendo-o, me lembrarei do concerto, que há entre Deus e todos os animais, que animam tôda a carne que há sôbre a terra.
17Disse também Deus a Noé: Eis aqui o sinal do concêrto que eu fiz com todos os animais, que há sôbre a terra.
18Os três filhos de Noé, que tinham saído da arca com êle, eram estes: Sem, Cam, e Jafé. Cam porém é o pai de Canaã.
19Dêstes três filhos de Noé saiu todo o gênero humano, que há sôbre tôda a terra.
20E como Noé era lavrador, começou a cultivar a terra, e plantou uma vinha.[2]VINHA — A Ásia é a pátria da vinha e a Arménia, onde provàvelmente Noé habitava, é muito favorável à sua cultura. Todos os comentadores acusam Noé de culpa, por ignorar os efeitos do vinho.
21E tendo bebido do vinho, embebedou-se e apareceu nu na sua tenda.
22Cam pai de Canaã, achando-o neste estado, e vendo que seu pai tinha à mostra as suas vergonhas, saiu fora, e veio dizê-lo a seus irmãos.
23Mas Sem, e Jafé, tendo pôsto uma capa sôbre seus ombros, e andando para trás, cobriram com ela as vergonhas de seu pai. Êles não lhe viram as vergonhas, porque tinham os seus rostos virados para outra parte.
24Noé tendo acordado do sono, que lhe causara o vinho, como soubesse o que lhe tinha feito seu filho menor, disse:
25Maldito seja Canaã: êle seja escravo dos escravos, a respeito de seus irmãos.
26E acrescentou: o Senhor Deus de Sem seja bendito, e Canaã seja escravo de Sem.[3]BENDITO O SENHOR DEUS DE SEM — Bendito o Senhor Deus de Sem; esta bênção era o conhecimento do verdadeiro Deus. Na verdade só esta raça conservou a fé monotéica na posteridade de Adão.
27Dilate Deus a Jafé, habite Jafé nas tendas de Sem; e Canaã seja seu escravo.
28Ora Noé viveu ainda depois do dilúvio trezentos e cinquenta anos.
29E tendo vivido ao todo novecentos e cinquenta anos, morreu.