Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 50

Exéquias de Jacó. Morte de José.

1José, vendo que seu pai tinha expirado, lançou-se sôbre o seu rosto, e o beijou, chorando.

2Mandou aos médicos, que tinha em seu serviço, que embalsamassem o corpo de seu pai.[1]OS MÉDICOSHavia no Egito grande número de médicos. São conhecidas as práticas dos embalsamamentos.

3E êles executaram a ordem, que José lhes tinha dado, no que se passaram quarenta dias: porque êste é o costume, empregar-se todo êste tempo em embalsamar os corpos dos mortos. E o Egito chorou a Jacó setenta dias.[2]SETENTA DIASSó ao cabo dêste tempo se realizavam os funerais, porque tanto era preciso para a mumificação do cadáver. Os processos de embalsamamento variavam conforme os haveres da família do morto; para os menos abastados consistia apenas numa purificação interior com drogas de pouco preço; os felizes eram imersos em mirra, láudano, e outros custosos perfumes; todos porém ficavam numa solução durante os setenta dias, ao cabo dos quais só restava a pele e o osso. Só então tinham lugar as cerimónias fúnebres.

4Acabado que foi o tempo do nojo, disse José aos oficiais de Faraó: Se eu achei graça diante de vós, rogo-vos, que representeis ao rei,

5que meu pai me disse: Tu vês que eu morro: promete-me pois com juramento que me hás de sepultar no jazigo, que eu fiz abrir para mim na terra de Canaã. Eu pois irei sepultar meu pai, e tornarei logo.

6Faraó lhe disse: Vai, e sepulta teu pai, visto ter-te êle obrigado a isso com juramento.

7E quando José foi, acompanharam-no todos os primeiros oficiais da casa de Faraó, e todos os grandes do Egito,[3]TODOS OS PRIMEIROS OFICIAISEra um dever acompanhar o morto à casa da eternidade. Jacó teve tôdas as honras, exceto as práticas supersticiosas. Vigouroux, ob. cit.

8com a casa de José e com todos os seus irmãos, que o seguiram, deixando na terra de Gessen os seus meninos, e todos os seus rebanhos.

9Teve também José na sua comitiva carruagens, e cavaleiros; de sorte, que se viu nesta função um numeroso concurso de pessoas.

10Depois que chegaram à eira de Atad, a qual está situada da banda de além do Jordão, celebraram ali o funeral por sete dias com grandes prantos, e altos gritos.

11O que tendo visto os habitantes da terra de Canaã, disseram: Grande pranto é êste dos egípcios. Por isso se ficou chamando aquêle lugar o Pranto do Egito.

12Cumpriram pois os filhos de Jacó o que êle lhes tinha mandado:

13E tendo o levado à terra de Canaã, o sepultaram na caverna dobrada, que Abraão tinha comprado a Efron heteu, com êste campo, que olha para Mambre, para dela fazer o seu jazigo.

14Tanto que José sepultou seu pai, tornou êle a vir para o Egito com seus irmãos, e tôda a comitiva.

15Depois da morte de Jacó tiveram mêdo os irmãos de José, e disseram uns para os outros: Poderá José lembrar-se agora da injúria, que padeceu, e tornar-nos todo o mal, que nós lhe fizemos.

16Mandaram êles pois dizer-lhe: Teu pai antes de morrer ordenou-nos,

17que da sua parte te disséssemos: Eu te conjuro, que te esqueças do crime de teus irmãos, e daquela negra maldade, que êles usaram contra ti. Nós te suplicamos também, que perdoes esta iniquidade aos servos do Deus de teu pai. José, tendo ouvido estas palavras, chorou.

18E seus irmãos, tendo-o vindo buscar, se prostraram diante dêle, adorando-o, e lhe disseram: Nós somos teus servos.

19Aos quais êle respondeu: Não tenhais mêdo: Acaso podemos nós resistir à vontade de Deus?

20Vós intentastes fazer-me mal: Mas Deus trocou êsse mal em bem, para me exaltar a mim, como vós presentemente vêdes, e para salvar a muitos povos.

21Não temais logo: Eu vos sustentarei a vós, e aos vossos filhinhos. E êle os consolou, falando-lhes com muita brandura, e muito carinho.

22Assistiu José no Egito com tôda a casa de seu pai, e viveu cem anos. Êle viu os filhos de Efraim até à terceira geração. Maquir, filho de Manassés, também teve filhos, que ao nascerem foram recebidos sôbre os joelhos de José.

23Ao depois disse José a seus irmãos: Deus vos há de visitar depois da minha morte, e vos há de fazer passar desta terra para a que êle jurou que havia de dar a Abraão, a Isaac, e a Jacó.

24Êle pois os obrigou com juramento, dizendo: Deus vos há de visitar: Transportai então os meus ossos convosco dêste lugar.

25Depois morreu em idade de cento e dez anos completos, e o seu corpo, tendo sido embalsamado, foi pôsto num caixão no Egito.[4]FOI PÔSTO NUM CAIXÃO NO EGITOAssim termina propositadamente Moisés êste livro, para dar aos hebreus a impressão de que a vontade de Jacó não estava cumprida.

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